terça-feira, 8 de maio de 2018

Ufa...que estória


Ufa…que estória!
Primeira parte
Abel Pires tomava o seu terceiro café do dia, na última Estação de Serviço, antes de entrar no Algarve. Sentado, aproveitava para tomar algumas notas, pequenas ideias que podiam ser úteis, para utilizar como argumento no julgamento, em que ia estar presente, como defensor de um trabalhador, marginalizado pela máquina capitalista.
Uma tarefa sempre difícil, a força do dinheiro era o diabo...
Estava descontraído, o tempo que precisava para tratar da sua vida profissional, sobrava e muito. Por isso Abel tinha de fazer alguma coisa para ocupar parte desse tempo. Não estava preocupado com isso, era fácil no Algarve conseguir programa. Por um lado havia as praias durante o dia, à noite locais de interesse não faltavam dentro das mais diversas actividades; inclusive no mercado da sedução.
Abel ainda tinha a eterna opção para os tempos livres, estudar as leis e seus meandros, mas isso no fundo era trabalho. Podia ler, escrever, visitar museus ou monumentos.
Mas havia uma outra hipótese: visitar amigos ou mesmo família, em ambos os casos, as alternativas eram variadas
Uma das opções, seria visitar uma prima direita, mulher com menos dez anos que Abel. Familiar com imensa prole entre filhos e netos. Na verdade Paula tinha uma vida com muita vivência o que lhe deu anti corpos e capacidade para lutar com o mundo. Muito traquejo tinha a prima Paula.
Esta prima gostava muito dele, talvez devido a um passado em que via o primo como um príncipe inatingível. Por sua vez, Abel sentia muita ternura por Paula, mas nunca nesse passado longínquo teve a intenção de a seduzir. Embora soubesse que a bonita rapariga estava desejosa que o interesse de Abel por ela se manifestasse.
Na actualidade, sempre que Abel Pires ia ao Algarve em serviço. A prima exigia que ele ficasse em casa dela. Paula estava viúva com a vida bem equilibrada. Com a idade, voltou a mostrar interesse e atracção pelo primo.
Escusado será dizer que Abel nunca lá ficou em casa, dormia sempre num hotel onde se fizera cliente há muito ano. Ele tinha receio que a mulher, ainda com muito folgo na guelra, entrasse durante a noite na sua cama. Paula talvez não o fizesse, contudo Abel não estava interessado em pagar para ver…
Não! A casa da prima Paula não iria e muito menos lá ficaria. Abel respeitava a prima e admirava a capacidade que ela tinha para gladiar com a puta da vida.
Pensou… Talvez visitar o Tapadas, seu camarada da guerra, que vivia numa aldeia para os lados de Lagos.
Se melhor o pensou melhor o decidiu. Iria visitar o amigo que já não via há cerca de dois anos.
Entretanto foi recordando, enquanto fazia o ultimo troço da Auto-estrada. O tempo antigo e o tempo mais actual da sua ligação de amizade com os Tapadas.
O Jacinto Tapadas era um camarada muito simples e muito tímido que tinha grande amizade por Abel. Este não sabia mas o homem tinha  mesmo uma cisma pelo amigo. Qualquer gajo com experiência em paneleiros topava logo isso. O Abel criado num culto machista, não podia imaginar nem conceber que isso podia acontecer entre dois homens ou duas mulheres.
Abel era um conservador!
Para o Abel quando jovem, paneleiros eram gajos acima dos quarenta anos, esquisitos e cheios de taras.
O Jacinto, contudo teve sempre uma postura sem nada demonstrar ou a querer. Mas andava sempre borboleteando à roda da luz que irmanava do Abel. Este adorava miniaturas de casa feitas em madeira. Então o Tapadas que era marceneiro, fazia-as só para agradar ao amigo.
A guerra para eles terminou um dia e cada seguiu o seu destino. Durante muitos e muitos anos não se viram e não souberam nada um do outro.
Em Lisboa, Abel Pires abriu um gabinete de advogados, foi crescendo com sucesso. No Algarve, o Jacinto Tapadas abriu uma empresa de construção civil e empurrado pelo boom do desenvolvimento imobiliário, enriqueceu. Casou entretanto com Matilde e foi pai de um rapaz.
Até que um dia, através dos almoços anuais da Companhia Militar, os amigos se voltaram a encontrar. Nesta altura estavam todos a entrar na casa dos sessenta. Mas no Jacinto, rápido se voltou a revelar a antiga fascinação pelo Abel.
A mulher do Tapadas, a Matilde, era uma mulher magra com aspecto fino, sempre muito simples no vestir mas com gosto. O cabelo comprido já com bastante grisalho que ela não se preocupava em esconder. Embora magra, mas não em excesso, tinha uma figura sedutora.  Via-se que era culta mas que não gostava de dar nas vistas. Não mostrando má cara, era muito simpática mas raramente dava um sorriso.
Como já disse o casal teve um filho, que como o pai também se dedicou à construção civil. O Luís Tapadas, devido à actual crise, emigrou para Angola, terra onde seu pai e Pires lutaram.
A residência do casal Tapadas ficava numa pequena aldeia a meia dúzia de quilómetros de Lagos. Era aí que o Abel queria ir no seu tempo livre. Visitar com calma os amigos.
Abel Pires chegou a Lagos por volta do meio-dia. Estacionou o seu Jaguar num parque pago. Depois foi à procura de um tasco, que um amigo lhe indicara e onde se comia peixe de primeira. O nosso homem lá conseguiu encontrar a taberna e sentado junto a uma janela numa pequena mesa, pediu o peixe, a salada, o queijo, o pão e claro o vinho.
Enquanto deglutia os salmonetes e bebia um verde de reserva, o Abel ligou ao Jacinto.
Uma voz feminina, melodiosa com sotaque alentejano, fez-se ouvir no outro lado da linha.
- Estou sim, faz favor de dizer…
- Minha senhora o Jacinto Tapadas está?
- Quem procura por ele?
- É o Abel Pires, velho camarada da guerra.
- Como estás Abel? É a Matilde a mulher do Jacinto. Um momento vou chamar o teu amigo…
- Obrigada amiga…estou bem, E tu Matilde?
- Vai-se indo…vai-se indo!
Após aguardar breve segundo, uma voz aflautada surgiu do outro lado.
- Abel, como está o meu velho amigo? Por onde andas que nunca apareces?!
- Vai tudo dentro do normal Tapadas. Estou em Lagos e pensava fazer-vos uma visita. Estás por aí?
- Já devias cá estar! Não era preciso perguntar. Porque não vieste para o almoço?
- Já era um bocado tarde e não queria incomodar.
- Que raio de disparate! Já sabes onde é a casa, esperamos por ti…vem rápido.
E assim aconteceu! Após pagar o almoço, Abel avançou no seu Jaguar na direcção da aldeia onde moravam há muitos anos os Tapadas. A residência era uma vivenda de bonita traça nada exagerada na dimensão, mas construída com todos os requintes de quem sabe o que quer, e sabe como se faz.
Quando Abel estacionou a sua bomba no jardim do Jacinto, este e Matilde já o esperavam na escadaria da vivenda. Seguiu-se uma demonstração de amizade de quem realmente sente felicidade. Tapadas estavam mesmo eufórico com a chegada do amigo e este também estava contente. Matilde olhava para os dois com a sua aparente calma mas com expressão de pessoa inteligente. Por fim a mulher abraçou Abel, este teve uma pequena reacção, como se tivesse recebido uma injecção de química.
Como o tempo estava agradável, os três sentaram-se em cadeirões de verga no jardim debaixo de um frondoso pinheiro manso. Durante algum tempo, cavaquearam sobre tudo e mais alguma coisa. Dos filhos, do trabalho, da politica, do desporto e como não podia deixar de ser, sobre o tempo de guerra no passado já longínquo.
- Abel…vou num instante à loja comprar conquilhas para o nosso lanche. Fica a cavaquear com a Matilde que eu não demoro.
- Não queres que vá contigo?
O amigo disse que não com a mão, depois foi à garagem tirar o Mercedes e na calma dirigiu-se para a loja do marisco que ficava já perto de Lagos.
Após algum silêncio…Jacinto perguntou à Matilde.
- Então amiga, como tem passado de saúde?
- Abel…a tua amiga Matilde não tem andado muito bem. Ando muito nervosa, mas não sei porquê. É como se sentisse a falta de qualquer coisa. Mas que coisa? Não sei, amigo!
- E o Jacinto… está bem? Há algum problema entre vós, ou com o vosso filho e netos?
- Não Abel, o Tapadas é uma jóia como tu sabes. Muito atencioso e tratando-me sempre com carinho e muitos cuidados. O filho e netos estão bem lá na vida deles.
- Ainda bem Matilde, ainda bem. Já pensaste ir ao médico, ver se tens algum problema de saúde desconhecido?
- Mas não me sinto mal do corpo, não tenho dores. Que vou dizer ao médico? Ainda me diz que sou maluca.
Enquanto iam conversando entraram em casa e foram para o vasto salão. O Tapadas entretanto apetrechou-se e voltou para casa. Ao entrar na sala, ainda foi a tempo de ouvir Matilde dizer.
- Sabes Abel, o meu marido está muito feliz por teres aparecido, ele tem uma grande admiração por ti. Tu és o herói dele. Penso que a ti ele dava tudo e mais alguma coisa.
Neste diálogo havia um óbvio segundo sentido. Tapadas ouviu e não se ofendeu.
Eram dezassete horas, até às dezanove os três petiscaram e deitaram abaixo algumas garrafas de branco do Algarve, de elevado teor alcoólico. Ficaram dessa forma mais que jantados e bem bebidos.
Matilde pediu autorização para ir ver a telenovela da moda. Por sua vez os amigos por sugestão do Jacinto foram fazer uma caminhada junto ao mar, que ficava a escassos quinhentos metros da casa dos Tapadas.
Jacinto olhava fascinado para o Abel, a mesma fascinação de há muitos e muitos anos, quando ambos tinham pouco mais que vinte anos.
Em dado momento, Jacinto disparou.
- Abel, por favor, não quero que te ofendas com a pergunta que vou fazer. Basta que me mandes calar e tudo fica como dantes.
O nosso Abel ficou em pânico e pensou preocupado. – Não me digas que este gajo vai fazer uma declaração de amor. Travo já a conversa se for esse o caso.
- Amigo diz lá, não deve ser morte de homem.
- Então lá vai. Abel, continuas a gostar de fornicar e ainda o fazes regularmente?
O nosso homem ficou abestalhado com a pergunta, mas não viu razão para não responder.
- Sim Jacinto, continuo a foder e cada vez com mais técnica. Mas porque essa pergunta?
- Porque queria pedir um favor mas tenho vergonha.
- Homem de Deus, já que começaste acaba.
O Abel estava mesmo a ver que o amigo queria ser enrabado. - Que raio de situação, onde me vi meter. - Pensou ele.
Entretanto um longo silêncio imperou entre os dois homens. Só se ouvia a sinfonia do oceano. Jacinto não sabia se devia avançar ou não.
- Oh homem…desembucha, podes confiar em mim. Após o que disseres, tudo continuará igual entre nós.
Então o Jacinto Tapadas tomou coragem e venceu a sua natural timidez.
- Abel gostava muito que fodesses a minha mulher!
Após dizer isto, baixou a vista e ficou sem coragem para encarar o amigo. Este por sua vez ficou mais aliviado e tentou animar o amigo.
- Jacinto, não fique envergonhado, não é nada do outro mundo. Já vi coisas muito piores. Vamos lá escalpisar o problema. Faço já várias perguntas para ficares mais à vontade. Primeira, a Matilde está de acordo? Segunda, fiques bem se isso acontecer? Terceira, que se passa contigo e com tua mulher? Jacinto Tapadas, velho amigo, fala sem rodeios nem complexos.
Então o Jacinto Tapadas falou.
- Com a Matilde entendo-me eu, mas para já digo-te o seguinte. Há bastante tempo, falámos um pouco a brincar e um pouco a sério, nessa hipótese. Ela a sorrir disse que não, pensando em sim. Abel, se ela fizer amor contigo fico feliz. Terceira questão, ao fim e ao cabo o fulcro da questão. Entre mim e Matilde está tudo bem, menos na cama. Abel, eu sou gay, mas nunca assumi nem vou assumir. Fiz um esforço e Matilde tentou ajudar. A provar isso foi termos o nosso filho. Mas depois com o tempo não consegui mais. Matilde é uma mulher boa e séria. Nunca teve coragem de me trair. Mesmo quando dei a entender que não me importava. Não nego que tive e tenho uma sisma por ti, que começa e acaba na admiração e fascinação.
Jacinto parou para descansar, olhou atentamente para Abel que o fixava com emoção e lhe deu coragem para continuar.
- Como já disse atrás. Há muito tempo tinha falado com a minha mulher. Há pouco tempo, voltei a abordar o assunto com a Matilde. Disse-lhe que devido há grande amizade que tinha e tenho por ti, não me importava que fizessem amor os dois. Ela compreendeu tudo e riu-se dizendo. – Mas se estás tão longe do teu amigo como resolves isso? – Agora aconteceu este acaso de apareceres em Lagos, se é que foi um acaso e não uma armadilha do destino. Então ganhei coragem e falei hoje contigo. Abel, todo o mal no sistema nervoso de Matilde é devido há falta de sexo. Eu sei isso e sofro.
- Ah Tapadas, Tapadas, Tapadas. E agora?
- Agora Abel? Está na tua mão. Desculpa esta situação.
- Jacinto vou pensar na situação. Amanhã tenho julgamento em Portimão. Depois regresso a Lisboa. Mais tarde falamos…
- Vou voltar a abordar o assunto, subtilmente, com a Matilde. Depois digo-te alguma coisa. Gostava que vocês se entendessem. Ela merece e eu fico feliz.
- Mas não digas nada à Matilde que falaste comigo. Deixa que haja sedução. Só assim entrarei no jogo, meu amigo.
- Com certeza, tens razão. Obrigado meu grande amigo.
Após esta complexa conversa, os dois amigos despediram-se. O Jacinto foi para junto de Matilde. O Abel, por sua vez com a cabeça zonza, foi para o seu hotel em Portimão.
Fim da primeira parte  

Segunda parte
O tempo passou. Cerca de um mês depois do Abel Pires ter estado no Algarve na casa do Jacinto, o nosso homem trabalhava no seu gabinete. Estudando um processo complexo de regulamentos dúbios. Estava concentrado tentando compreender toda a lógica daquelas tretas, em que uma vírgula alterava todo o sentido ao texto.
Parou para tomar mais um café, o seu vicio mais vicio…nesse entretanto entrou no gabinete a sua secretária.
- Senhor doutor…está n linha dois um senhor para falar consigo. Diz ser o Jacinto Tapadas. Passo a chamada?
- Passa sim Branca e obrigado.
- Olá Jacinto, então como vai isso?
- Estou bem meu amigo. A Matilde é que está cada vez mais destabilizada. Ando muito preocupado…
- Que posso fazer por ti e por ela, Jacinto?
- Abel, voltei a abordar a questão que tínhamos, tu e eu conversado, há um mês. Claro que não lhe disse nada sobre as nossas conversas.
- Que disse a Matilde? Como reagiu desta vez?
- Disse-me que para me fazer feliz não se importava de fazer sexo contigo.
- Repara que ela disse fazer sexo e não fazer amor. Não achas que essas conversas são uma afronta à tua mulher?
- Nada disso, Abel. Aquilo que ela diz é só da boca para fora. Que querias que ela dissesse? Ela quer, eu sei. Mas mais importante que ela querer, a minha mulher precisa mesmo…senão fico sem a minha Matilde. Vem Abel, por favor!
- Eu vou sim amigo. Mas temos de tratar tudo com punhos de renda, tem de ser tudo muito natural, para não parecer uma coisa promíscua.
- Abel é simples, vais cá passar uns dias, aproveitando a tua vida profissional. Vens ficar em nossa casa, como temos muitas vezes convidado. Depois quando for oportuno e ausento-me para tratar de assuntos. Coisa normal sair por duas ou três noites.
- E depois?
- Depois fazes a tua sedução, o que for soará. Se não for à primeira, será à segunda ou à terceira. Vais ver que tudo será natural. Eu fico feliz e ela poderá ficar bem da cabeça. Agora sou eu que peço, tem coragem Abel e não te atrapalhes.
Durante uns minutos ficaram em silêncio. Minutos que pareceram horas. Por fim Abel Pires falou.
- Está bem Jacinto, daqui a duas semanas posso estar uns dias em Lagos ou na tua casa. Tenho um julgamento que deve durar uns dias, pois é um assunto polémico. Quando for avisarei. Está bem assim Jacinto?
- Muito bem, cá te esperarei. Tem calma, tudo vai correr bem. Para ser mais natural, não direi nada à Matilde sobre a tua vinda.
Após desligar o telefone, Abel ficou muito tempo a matutar. Ufa…que estória! Vamos lá ver se ninguém sai magoado deste imbróglio.
Sem cabeça para continuar a analisar o chato regulamento, saiu para ir ao bar. Queria encontrar alguém para cavaquear e beber uns copos de preferência com um amigo ou amiga.
Afinal não foram quinze dias mas sim um mês, que passou rápido. Abel Pires partiu de manhã cedo para o Algarve. Levava duas missões na bagagem. Um julgamento polémico e conquistar Matilde. Mas não estava muito convencido que ia vencer nas duas frentes. Vencer não era a expressão correcta. Alcançar os objectivos, seria mais bem dito. No primeiro caso conseguir fazer justiça, no segundo, seduzir a mulher do Jacinto com a concordância dele.
Após pedir à sua empregada domestica que lhe preparasse a mala para oito dias, Abel Pires, numa segunda-feira, partiu bem cedo para o sul.
Um bom amigo pediu-lhe para dar boleia a um filho que ia para a Universidade do Algarve. O nosso homem ficou satisfeito, sempre tinha alguém para o distrair, assim falando com o David, ia-se abstrair e não pensar no trabalho ou no Tapadas.
David era um rapaz muito inteligente. Para além disso era bem formado como cidadão, não sendo colonizado pelo dinheiro do pai. Pires gostava muito do puto e estava satisfeito de o levar na viagem para o Algarve.
- Mas o doutor não quer mesmo ficar no meu apartamento, tenho um quarto livre?
- Não David, talvez numa próxima viagem, desta vez vou ficar na casa de uns amigos. Terei de resolver uma complexa missão.
- Doutor, o senhor tem fama de grande conquistador. Posso fazer uma pergunta?
- Força David, posso não responder!
- Qual a melhor técnica para conquistar uma mulher?
O advogado deu uma gargalhada, depois com cara séria falou:
- Não há uma receita única. Depende de vários factores. Depende do emissor e do receptor. Teríamos de escrever um tratado e muita coisa ficaria por dizer.
- Mas doutor, um só conselho!
- Sê tu mesmo!
- Só isso?
O carro seguia a uma velocidade moderada, a pressa não era muita. Abel Pires achou imensa piada à questão colocada por David. Como tinha tempo, decidiu contar uma estória da sua vida…
- David para não estar com filosofias que no fundo não levam a nada, vou contar uma estória passada tinha eu exactamente vinte anos. Cá vai…
“Um dia fui para a praia na linha do Estoril com um amigo que mais tarde foi meu cunhado.
Tinha na altura vinte anos e pensava ter o mundo nos meus braços.
Estávamos nós já perto da arrebentação quando reparei numa mulher jovem sentado na sua toalha a ler uma revista.
De volta dela meia dúzia de macacos faziam acrobacias tentando chamar a atenção.
A rapariga era uma visão sensual que virava a cabeça a qualquer um. Loura, com tudo no sítio conforme moda para a época. Era na verdade uma provocação.
Disse ao meu amigo: - Vou avançar, se der algo, segue o teu dia.
O meu amigo respondeu: -Força Abel, amigo não empata amigo.
Que fiz? Simples, sentei-me ao lado dela numa conversa delicada, ela respondeu e ao fim do dia regressámos a Lisboa.”
- E depois doutor?
- Depois rapaz? Será estória para outra lição um dia.
- Mas afinal que fez?
- Fui natural, fui eu sem vício na cabeça nem carro à frente dos bois.
David sorriu com expressão de entendido. Fiquei feliz, o rapaz era esperto.
E assim nesta maneira divertida chegámos ao Algarve. Fui levar o David ao seu apartamento e de seguida segui para a aldeia do meu amigo Jacinto Tapadas.
Cheguei já perto do meio-dia, hora que avisara de véspera.
Na escadaria da vivenda estavam Jacinto e Matilde com cara feliz, por receberem este amigo de há longos anos.
Jacinto estava como sempre, mas a Matilde, no seu estilo simples e com muita classe estava elegantemente produzida, incluindo o penteado trabalhado sobre o seu excelente cabelo.
Foi um abraço sentido emocionalmente por todos.
Depois entraram abraçados em casa, fechando-se a porta maciça logo que eles entraram.
Fim da segunda parte

Terceira parte
Nota: como noutros contos, cada um fará o seu próprio final.

4/3/2015
Antobar








sexta-feira, 4 de maio de 2018

Paradoxo segundo



Amigos,
Foi um sucesso o meu conto Paradoxo, um conto em que não apresentei o epílogo. Deixei isso para o leitor. Por sinal uma leitora anónima fez um final exemplar, que coincidiu com o meu pensamento. Não teria feito melhor!
Agora decidi escrever uma nova estória em que o tema é semelhante e deixar (novamente) ao leitor o desafio para o seu final.
Como no primeiro conto este também é uma homenagem às mulheres que tiveram ou têm cancro da mama, e aos homens que foram solidários e estiveram sempre presente.
Paradoxo segundo
Era uma vez uma senhora muito bonita, em especial sobressaía o seu sorriso fascinante, diria mesmo, com magia. De baixa estatura mantivera na entrada da terceira idade um corpo harmonioso, bem torneado, nem gordo nem magro.
Sua vida foi bem vivida, sempre em luta por algo melhor, tanto no trabalho, na cultura, no amor e no lúdico.
Era sem dúvida uma lutadora merecedora do respeito da sociedade.
Mulher de escrita e poetisa de valor. Eternamente apaixonada, sendo ciumenta e possessiva.
Todos gostavam dela, amigos, amigas, familiares ou simples conhecidos. Tinha bom coração, ajudando todos em especial gente mais idosa que ela.
O tempo passou…
Como acontece com quem não morre em novo, Sara foi envelhecendo.
Ah! A nossa personagem era muito liberal nas coisas do amor. Talvez fugisse aos padrões normais, mas quem somos nós para julgar.
A senhora era há muito divorciada, tinha agora um namorado há doze anos, homem bem mais velho. Este dava-lhe estatuto e alguma ajuda financeira e pouco mais. O fogo da relação há muito passara.
Sara, tinha um amante, da sua idade, que amava muito, o David, saído de uma longínqua estória de amor…
David dava-lhe amor com sexo, carinho e apoio psicológico.
Peço aos leitores: por favor não se zanguem com ela!
Vamos ao que interessa:
Já depois dos sessenta numa apalpadela de rotina Sara apercebeu-se de um caroço na mama esquerda. Foi um grande choque e o pânico inundou o seu pequeno corpo.
No quarto do hotel ela chorou e foi confortada por David seu amante.
Seguiu-se a biopsia que confirmou o já se calculava, cancro!
David animava diariamente Sara e insistia para que a operação fosse o mais urgente possível.
O namorado a nada ligava, estava noutra; queria copos e futebol! Além disso estava muita vez ausente, por vezes por três meses.
Um mês após a biopsia aconteceu a operação e dois meses depois começou o tratamento do raio X.
David viveu intensamente toda a fase e o drama de Sara, dando a assistência possível. Dentro das dificuldades do seu estatuto de amante, esteve sempre em contacto por carta, telefone e mensagens, quando não  podia deslocar-se até ela.
Ligava para ela antes de dormir, ao sair da cama também. Sempre que podia estava com ela, dando ânimo e falando positivo.
Em breve voltaram a fazer sexo e em momento algum David demonstrou discriminação em relação ao corpo de Sara, antes pelo contrário.
Ela era feliz com este comportamento e voltou em ter prazer em estar viva.
Os cinco anos que garantem em parte a cura, passaram! Sara, sentiu um imenso alívio e fé em não voltar a ter cancro.
David continuou a ser o amante adorado e a relação com o namorado mais velho também se manteve.
Depois aconteceu o que já se esperava!
4/5/2018
José Bray
Nota: agora meus amigos; espero o vosso final! As opções são muitas é só escolher. Obviamente tenho o meu final!

JB















quarta-feira, 11 de abril de 2018

A nobreza desceu à vila..

A nobreza desceu à vila…
A modesta povoação estava excitada e vaidosa da sua importância. A nobreza desceu à vila…
Em todos os cantos e recantos havia animação. Os restaurantes, cafés, pastelarias e tabernas, estavam a abarrotar de clientes. O mesmo se passava nas lojas de lembranças. O Colégio local estava engalanado porque seria aí o fulcro de maior importância. A Igreja triplicara de crentes que rezavam e pediam aos santos regalos irrealistas.
As senhoras vestiram os seus modelitos de outras eras e os homens fato e gravata. Quase tudo a cheirar a naftalina.
Todos conversavam para ser ouvidos e as gargalhadas eram constantes.
O povo convencido da sua importância fazia salamaleques por tudo e por nada.
Na vila que nem cidade chegava a ser, ao fim de semana era uma pasmaceira. Por isso tudo que estava a acontecer era um fenómeno raro.
Contudo eu concordo: não era caso para menos…
No passado sábado e domingo, aconteceu a invasão planeada pela mui nobre deusa Caissa. A nobreza compareceu em força; reis e rainhas eram cerca de seis centenas. Trezentos reis são muitos reis, todos com sua rainha.
A igreja também esteve bem representada; seiscentos bispos passearam a sua opulência pela modesta vila.
Cada bispo tinha o seu castelo e o seu cavalo ou sejam; seiscentas torres e seiscentos corcéis.
E o povo? Ou seja os criados, alma daquele imenso séquito. Eram quase dois mil e quinhentos.
Depois ainda havia outros convidados especiais: desportistas, treinadores, técnicos, árbitros, directores, familiares dos jogadores e também simples mirones. Bem contados andavam pelos quatrocentos.
Nem vou referir as carruagens colectivas da nobreza nem aos bólides dos convidados.
Ao todo entraram na vila mais de cinco mil visitantes. Ou seja: a povoação duplicou no fim-de-semana em causa.
Foram dois dias marcantes e importantes. O convívio foi do melhor entre brancos e negros que se encontravam (quase) em número igual. Sim, a realeza foi ela por ela, os convidados eram mais pálidos.
Nada disto foi coincidência. Era assim o planeamento.
Depois, depois todos partiram e a vila voltou à habitual pasmaceira.
Ficaram as memórias para contar aos netos!
11/4/2016
Druida
Dedicado ao meu amigo José Cavadas

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Susejo

Susejo

Em Março de 2013 pensei em escrever um texto mas não anotei o objectivo final. Dei ao texto o título de Susejo. Escrevi a introdução e coloquei de lado para mais tarde continuar. Ontem ao reler a tal introdução não consegui recordar o que pretendia. Agora vou ter de encontrar uma solução porque quero continuar… Maio de 2013. Mas na verdade não avancei.
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Passados quatro anos, em Maio de 2017 voltei à carga. Na verdade, avancei mesmo! Hoje 5 de Junho de 2017 o trabalho está completo. Faltam as revisões finais.
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Susejo
Um dia igual a tantos outros naquela paisagem agreste, um velho e um miúdo estavam a descansar do nada fazer, sentados num tosco pedregulho por debaixo de uma oliveira milenária.
Do nada fazer era mentira, porque um rebanho misto de ovelhas e cabras estava a seu encargo; embora na verdade fosse um corpulento cão a fazer a tarefa, quase na sua totalidade, direi eu.
--Avô, conta-me a estória do sábio Susejo, mas completa. Ele era sábio, não era?
--Completa? Ainda há dias ta contei…nesta lua já é a terceira vez. Susejo sabia muita coisa, por isso podemos dizer que era um homem sábio, mas ele era muito mais que isso
--Quero! Eu gosto muito. Porque razão o avô não escreve a estória para todos poderem ler?
--Não meu querido, esta estória é para ser transmitida de avô para neto, tu serás o próximo guardião para as narrares ao teu neto e ele ao neto dele, será assim até aos confins do tempo, assim como já acontece há mais de mil anos. Penso que há mil trezentos e cinquenta anos.
Os dois seres, um idoso com muita idade e um garoto com pouca, vestidos com simplicidade calaram-se durante alguns breves momentos. A tarde caminhava para o fim, era Maio, o tempo estava quente, sabia bem-estar à sombra da vetusta oliveira. Segunda a lenda plantada por Susejo.
A paisagem que os rodeava era montanhosa, ao fundo via-se uma povoação com idade indefinida que pouco crescera nas últimas centenas de anos. A aldeia ficava num planalto daquela cadeia de montanhas.
O rapaz estava na expectativa do inicio da narração, o avô nunca contava a estória da mesma maneira; na verdade o velho aumentava ou omitia conforme a sua disposição e conforme a quantidade de licor de leite que ingerira.
Por sua vez o rapaz fazia quase sempre as mesmas perguntas, embora usasse variadas construções nas suas frases.
O idoso de barbas brancas e cabelo ralo, tossicou como a clarear a sua já pastosa voz, depois começou mais uma vez a contar a lenda que ele afirmava ser verdadeira.
“Um dia, já lá vão muitos séculos, ao alvorecer entrou na nossa aldeia um homem de meia-idade, vinha exausto e ferido. Parou para descansar e matar a sede junto ao poço comunitário da povoação situado no centro do burgo.
O estranho deitou-se no chão poeirento com a cabeça apoiada dum rebordo de uma pedra; de seguida adormeceu de cansaço.
Acordou já o sol queimava.
Uma pequena multidão apreciava o espectáculo. Os putos faziam macaquices à volta do forasteiro. O povo estava, todo ele, receoso e na expectativa.”
--Receoso porquê? Então ele não tinha chegado doente?
--Naquele tempo o povo era muito supersticioso. Agora continua, mas nada que se compare. Talvez tivesse medo que o homem viesse doente da peste, coisa muito habitual naquela época. Ou então que viesse perseguido por tropas ou bandidos. Eram tempos muito difíceis para a raça humana.
Depois de esclarecer o neto, o velho voltou à narração:
“O estranho olhou para os mais velhos com olhos suplicantes, mas ninguém reagia. Olhavam para ele com desprezo e rancor. Foi então que uma jovem viúva se antecipou a todos, pegando na mão do estrangeiro. Disse umas palavras que ninguém ouviu, amparou-o e depois levou-o para o seu lar que ficava a cinquenta metros da fonte.
As velhas, maldosas, começaram logo com pitafos e os homens com olhos gulosos de inveja. Desde a morte do companheiro que ninguém via qualquer homem transpor a porta da casa da mulher.  
A viúva era jovem e bonita. A boa senhora esteve-se borrifando para eles. Cambaleando devido ao esforço, os dois desapareceram na abertura a que chamavam porta e entraram no casebre.”
--Sabes meu neto, naquele tempo a nossa aldeia era muito diferente de hoje, nos aspectos morais. Era uma terra de ladrões, mentirosos e mesmo criminosos. Havia também muita doença. Por vezes a seca prolongava-se, devido à falta de água quase tudo se extinguia.
Os viajantes evitavam passar por cá. Também é verdade que ficava e fica fora das rotas principais. Repara que por cá ainda hoje não passam as caravanas.
--E agora a nossa aldeia é diferente?
--A nossa terra, como povoação, continua na mesma. Continua fora das rotas. Aumentou contudo muito pouca a população. Hoje é uma aldeia mais decente. Vivemos razoavelmente dentro das limitações. As pessoas são melhores que há mil anos.
--Isso é bom, não é avô? Quais foram as razões para essas melhorias?
--Claro que sim meu neto, isso é bom! As razões são explicadas nesta narrativa desse tempo, há muito passado.
--Conte mais coisas do Susejo.
--Amanhã também é dia: não tarda a escurecer e não há necessidade de irmos aos tropeções e não ver bem as ovelhas e as cabras. Amanhã continuo, depois de vires da Escola.
Balada para Aras e Susejo
Passo a passo
Num arrastado andar
Num lento caminhar
Susejo vai chegando.
Doente de feridas,
E de esperanças perdidas!
O dia vai nascendo
Na adormecida aldeia,
Passo a passo
Num lento crescendo.
Chilreiam aves e putos,
Em passos de dança.
E elas, receosas…
As mulheres cansadas,
As mulheres prenhas,
E as velhas trôpegas e feias.
Os homens enrugados
Cheirando a covil,
Por perto mal cheirosos
Sisudos os velhos barbudos.
Todos olham curiosos,
Todos olham espantados.
Todos maldosos
Com olhar cruel,
Para o estranho que vem,
Passo a passo
Num lento caminhar,
Doente de feridas,
E esperanças perdidas.
Entrou Susejo na aldeia.
Então a virtuosa viúva,
Bela e jovem Aras
Susejo recolheu.
A viúva Aras
De Susejo benfeitora,
Suas feridas, Aras tratou,
Seus trapos, Aras lavou!
De corpo limpo
E alma pura
Susejo, Aras amou!
A boa senhora
De corpo são,
De coração lindo,
De alma divina,
Aras, Susejo amou!
Antobar, 11/5/2013
No dia seguinte, logo que saiu da escola, o rapaz após comer uma bucha com queijo dentro e beber uma caneca de leite partiu ao encontro do avô. O velho subira mais cedo para o planalto para aproveitar as pastagens ainda frescas.
O rapaz gostava de estudar, mas gostava mais de liberdade e ouvir as estórias do avô, em especial a do Susejo.
O velho lá estava sentado debaixo da velha oliveira, olhando para agreste paisagem um milhão de vezes vista. O seu pensamento contudo voava através dos tempos e da memória.
--Olá avô! Está a dormir?
--Não rapaz! Então como decorreu a escola, aprendeste alguma coisa para me contar?
--Fizemos contas, fizemos um ditado e lemos um pouco. O professor ainda falou da história do nosso país. Mas para falar verdade fiquei com muitas dúvidas.
E assim foi, o rapaz pôs as suas questões ao seu velho avô, questões por sinal muito bem observadas.
A história daquele país era muito complexa e tinha de ser explicada com muito critério, coisa que o velho fazia com muito prazer tentando transmitir saber ao seu neto. Este como futuro guardião da lenda, ou verdade, sobre Susejo, precisava estar preparado.
Com calma foi ensinando as turbulências, o jogo político, as invasões, as imigrações, as guerras, as seitas. Falou de personalidades com influência na história daquela terra árida. Era uma história épica, de pobreza, rude, rica em sofrimentos. Pouca água, pouca vegetação, muitas pedras.
--Mas a nossa aldeia não é má de todo, pois não avô? Só é pena estarmos longe das principais rotas.
--Sim, há muito que a nossa terra melhorou. Estar longe das rotas por vezes é bom. Assim não somos mais vezes atacados. Tem coisas boas e coisas más.
--Avô, não fala hoje do Susejo?
O avô, já esperava essa interrogação. Alisou o farfalhudo bigode branco, clareou a voz e recomeçou mais uma vez:
“Depois de chegar à nossa terra muito doente, como disse ontem, Susejo foi recolhido por uma jovem viúva de seu nome Aras.
Aras, tinha enviuvado há cerca de um ano. O seu marido fora à capital e no regresso caíra numa emboscada tendo sido assassinado. Nunca se soube que bandido ou bandidos tinham feito a emboscada. Havia algumas desconfianças, mas nada de certezas. Talvez um inimigo secreto.
A senhora era muito bela e havia pretendentes que a cobiçavam e um deles deve ter pensado que a única forma de a conquistar era tirando o marido do caminho. É daí que vem a desconfiança.”
Nesta parte da narrativa, o rapaz perguntava sempre, embora já soubesse a estória de cor, de seguida e salteada:
--Avô, alguma vez apanharam o canalha ou os canalhas?
A resposta também saiu sempre igual:
--Sim meu neto! Quando chegar altura explico os pormenores.
Depois voltou à rotina da narração:
“Sob os epitáfios do mulherio, Aras entrou na sua humilde casa. Susejo gemia, apoiado nela, via-se bem que sofria.
O casebre da viúva era dividido em duas divisões. Uma maior fazia de sala comum, era sala de estar, era local de trabalho artesanal da viúva, tinha a cozinha que incluía um pequeno forno para cozer pão. A outra divisão era o quarto de dormir. Na traseira da casa havia um quintal divido em dois sectores, um para as cabras e galinhas, o outro para cultivar algumas hortaliças. Uma laranjeira e uma nespereira completavam esse quintal.
Na divisão menor, Aras deitou o ainda estranho na sua esteira de dormir. O homem mal reagia, via-se que atingira o limite da resistência. Precisava de descansar, precisava de alimento, mas era importante tratar de imediato as feridas que inundavam o corpo quase esquelético.
Começou por lhe dar a beber um pouco de água, lavando em seguida o rosto, onde sobressaiam dois expressivos olhos azuis, de admiração e agradecimento. Um pouco mais tarde Aras obrigou Susejo a beber leite de cabra para lhe dar alguma resistência.
Susejo adormeceu finalmente, despreocupado, como uma criança ao colo de sua mãe.
Aras sabia que era importante tratar das chagas do corpo, por que da alma já começara quando pegou no viajante e o levou para sua casa.
Começou por fazer um atento levantamento das feridas, inspeccionando todo o corpo excepto a zona das vergonhas.
Que fizeram a este pobre homem?! Não sei como ainda está vivo?! – Assim pensou Aras com expressão comovida.
Na verdade Susejo estava uma lástima. A cabeça estava ferida, como espetada por espinhos, as costas tinham marcas de chicote. Também as mãos e os pés estavam mal tratados, com estranhas marcas.
Deixando o desconhecido a dormir, Aras partiu para o matagal à procura de plantas medicinais que ela conhecia. Demorou cerca de duas horas a regressar.
Em casa começou logo a trabalhar em receitas que aprendera com sua avó quando era criança. Fez uma efusão para limpar as feridas e um unguento para as sarar, também um chá para baixar a febre.
E assim iniciou, o homem que veio de longe, uma longa recuperação.
Quando Susejo começou a dar acordo de si, a viúva quis saber coisas. Estava curiosa! Tinha esse direito.
O homem pouco se abriu. Disse que se chamava Susejo, vinha de longe e pensava ir para longe se não morresse antes.
Afirmou estar muito agradecido, mas preocupado com ela. O povo não ia admitir que ela mantivesse em casa um homem mais velho e ainda por cima desconhecido.
A mulher demonstrando forte personalidade, sempre foi dizendo, embora no fundo soubesse que ele falava verdade e tivesse medo.
--Não estou a fazer nada de mal, antes pelo contrário. Sou viúva, não tenho filhos, nem pais, por isso não tenho de dar satisfações a ninguém. Não se preocupe Susejo, trate de se curar isso é o mais importante.
E assim Susejo lá foi recuperando!
Mas na aldeia e não só, a coisa estava feia, ou seja: a vida estava difícil. A seca prolongava-se por tempo indeterminado, tudo ia secando. Por fim até o poço comunitário deixou de ter água. Tudo estava em risco de morrer.
Foi então que começou a correr na aldeia que a culpa era da viúva que recebera em sua casa, um estranho. Diziam que era uma maldição. De certeza eram amantes, diziam. Era preciso castigar a adúltera por apedrejamento.
Foi assim que explodiu a histeria num certo dia.
O povo juntou-se para apedrejar a jovem viúva. Consideravam que ela é uma adúltera em memória do falecido marido.
Era assim naquele tempo. Mulher viúva não podia ter mais homem. Tinha de ser uma espécie de enterrada viva. Devia vestir eternamente de preto e nem sorrir podia.
Na aldeia havia entretanto o drama da longa seca. Isso tinha agravada a disposição daquele povo atrasado. Os homens estavam quase loucos e ainda mais intolerantes do que era já o seu costume.
As mulheres não estavam melhores, antes pelo contrário. Sentiam a responsabilidade de ajudar os maridos e de ter alguma coisa para os filhos e para o gado.
Foram elas que um dia começaram a gritar que era tudo culpa de Aras que metera um homem em casa.
Juntaram-se umas dezenas de histéricas defronte da casa Aras gritando por ela. Ela estava cheia de medo, mas com consciência limpa, não se fez rogada e enfrentou a turba enfurecida.
Os homens ao longe, carrancudos, aguardavam para o que fosse necessário, se alguém fosse defender a viúva, eles entrariam em acção. Os gaiatos ao longe choravam de pena, porque gostavam de Aras que até lhes dava doces.
Ia começar o apedrejamento, ou seja a lapidação, o castigo nessa época para as mulheres adúlteras.
Susejo ainda combalido saiu do casebre e colocou-se à frente da sua benfeitora para a proteger das pedras. Ao mesmo tempo erguia as mãos na direcção do céu gritando que nada de vergonhoso tinha acontecido entre ele e Aras.
Ninguém acreditou nisso. As pedras começaram a ser lançadas na direcção da entrada do casebre, atingido algumas Susejo que não saía da frente da viúva.
Foi então que um garoto gritou.
--Está a começar a chover! Está a começar a chover!
--Milagre, milagre!
Gritaram as mulheres, deixando cair as pedras no solo poeirento, mas agora a ficar enlameado.
--Sim milagre!
Berraram os homens.
Os cachopos começaram logo a chafurdar nas águas que caiam com mais intensidade.
Um velho, muito velho, o mais bêbedo da aldeia e também o mais louco. Ergueu-se e falou bem alto o seu pensamento.
--Foi milagre do Susejo! Foi milagre do Susejo!
Num ápice as mulheres ajoelharam chorando e pedindo perdão a Aras e a Susejo.
Assim começou a lenda!”
--Avô! Houve mesmo milagre nesse dia? Foi o Susejo que fez o milagre?
--O avô não sabe meu rapaz. Milagre do Susejo não sabemos, mas o povo achou que sim. Mas não houve um milagre, houve vários nesse dia.
--Como assim, avô?
--Primeiro: ter naquela hora dramática começado a chover, foi um milagre! A seca estava a matar tudo e todos. Segundo: depois não assassinarem Aras e por tabela Susejo, foi outro milagre. O terceiro milagre foi o momento: a partir desse dia nada voltou a ser igual na povoação, a nossa terra.
“Após o milagre da chuva nada mais foi igual no povoado. Sim, porque os habitantes assumiram que era um milagre e dessa obsessão não saíram. Também não fazia mal ao mundo antes pelo contrário.
Logo que a saúde permitiu Susejo começou a labutar ao lado da viúva, para pagar todo o bem que ela lhe tinha feito. Levava o gado a pastar, tratava da horta e num pequeno monte pertença de Aras plantou meia dúzia de oliveiras. Uma pequena horta na traseira do casebre, dava um pouco de tudo, se não faltasse a água.
Por sua vez Aras era uma excelente artesã, manufacturava roupas que fazia em troca de alguns produtos de sua necessidade.
Com a ajuda do Susejo, a vida da viúva melhorou muito. Por sua vez Aras ajudava muito as crianças.
Susejo, vendo o interesse da viúva na sua pessoa, disse-lhe que um dia partiria e era para breve. Aras pediu-lhe que ficasse o mais tempo possível e se partisse que regressasse sempre.”
--Ele ficou muito tempo avô? O avô contou que houve mais milagres…
--Ninguém sabe se foram milagres, mas o povo diz que sim. As pessoas são sábias na sua ignorância. Eu conto, mas sá amanhã. Vamos para casa!
No dia seguinte à tarde, avõ e neto voltaram a sentar-se sob a sombra da milenária oliveira plantada por Susejo. Enquanto o possante cão tomava conta do pequeno rebanho, o idoso guardião retomou a narrativa:
“Na verdade, Susejo manteve-se na aldeia alguns anos. Como queria ser útil, começou a dar aulas aos mais novos e aos mais velhos, homens e mulheres. Durante esses anos o povo da aldeia aprendeu imenso com o desconhecido que uma manhã entrou na povoação a arrastar-se e foi socorrido pela viúva Aras contra a vontade da população.
Acontecia com regularidade surtos de doenças estranhas, que atacava em especial as crianças e os idosos. Os povos chamavam-lhe a peste.
Mais uma vez a peste voltou! As mulheres dirigiram-se a casa da viúva para pedir ajuda a Susejo. Queriam mais um milagre.
Com ajuda de Aras o homem foi até à montanha regressando horas depois com uma sacada de plantas que só ele conhecia, nem a viúva; ela que tanto sabia.
Enquanto fazia uma efusão de sua autoria, Susejo mandou ferver a água e o leite. Depois foi dando a beber aos doentes a dita efusão. Uma semana depois a epidemia tinha sido vencida. Mais uma vez o povo aclamou Susejo dizendo ser mais um milagre.
Durante mais um tempo, Susejo foi educando o povo. Acabando por escrever num bloco de pedra alguns conselhos.
Eram conselhos que tinham a ver com valores morais e de higiene!
Ainda hoje a pedra está no centro da povoação e é venerada por todos.
Embora ninguém soubesse, porque nunca foi divulgado a viúva começou a frequentar a esteira de Susejo.”
--Avô, sempre descobriram quem assassinou o marido de Aras?
--Descobriu o Susejo por um acaso. E por acaso fez-se justiça.
--Conta avô.
E o velho avô contou:
“Numa das idas de Susejo à montanha, para ter sossego no seu meditar, ele foi atacado por um meliante.
Era um canalha da aldeia, embora não mostrasse a cara, Susejo reconheceu o bandalho pelo cheiro e pela voz.
Disse o agressor:
--Vais morrer intrometido, como aconteceu com o marido de Aras. Ela não quer ser de mim, não será de ninguém. Morre intrometido!
Dizendo isto puxou de um afiado cutelo e avançou em força para Susejo. Este com agilidade desviou-se e o canalha precipitou-se montanha abaixo. Mais de duzentos metros foi a viagem, ficando esborrachado.
Nessa noite os lobos tiveram um inesperado festim!”
--Avô, porque razão Susejo não ficou a viver o resta da vida na nossa aldeia?
--Não sabemos meu querido, penso que ele tinha uma missão superior na vida, por isso tinha de partir.
E assim foi:
“Um dia Susejo disse a Aras que chegara o momento de partir, mas que voltaria um dia. Ela chorando compreendeu que Susejo tinha uma longa missão na vida, a estadia na aldeia tinha sido somente mais uma etapa nessa caminhada.
Um dia ao alvorecer, vestido com a velha túnica, Susejo partiu na direcção oposta ao da sua chegada.
Aras foi a única pessoa que o viu partir e no pequeno monte junto das oliveiras por ele plantadas ficou acenando um adeus até Susejo desaparecer no horizonte! Nascia o sol!
A povoação tinha mudado radicalmente, esse tinha sido o principal milagre. Por isso, um guardião foi nomeado, para transmitir para sempre a estória de Susejo às gerações futuras.”
Fim


29/5/2017
Notas:
Às onze horas terminei a construção Susejo. Agora é preciso organizar, corrigir e aprofundar! 29/5/2017
Às vinte e três horas terminei a organização e uma primeira revisão! 5/6/2017

Sinopse do conto Susejo:
Um homem entra em certa madrugada, numa aldeia da montanha de país árido. Vem estropiado, cansado e muito ferido. A população reage mal à sua chegada, excepto uma viúva que o recolhe e trata as suas feridas.
Uma seca prolongada para lá do habitual, transtorna e enlouquece parte da população. O povo reage e quer destruir a viúva por pensar ser ela a causadora da seca.
O homem já quase recuperado, faz de escudo protegendo a viúva, disposto a sacrificar-se por ela.
Por coincidência, ou não, nesse preciso momento começa a cair a chuva. Primeiro devagar mas logo a seguir torrencial.
O povo considera isso milagre! Milagre feito por aquele estrangeiro.
Tudo muda na opinião dos habitantes. Aceitam o homem e desculpam a viúva.
O homem desconhecido começa então a ajudar a aldeia, fazendo coisas que todos consideram milagres.
Com o tempo a aldeia tornou-se lugar de esperança!
Anos depois, numa madrugada o homem parte para destino que só ele sabe, mas no sentido contrário ao da chegada.
A estória é contada e recontada por um velho ancião ao seu jovem neto, numa passagem de guardião para novo guardião. O guardião da memória.
30/5/2017
Dedico esta minha metáfora, espiritual, ao meu grande amigo Alberto Henriques da Silva, o homem mais cristão que conheço, na sua pureza de valores!
José Bray
5/6/2017