quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O xadrez e a vida - 10

10 – O xadrez e a vida
Hoje vou falar do “sucesso inesperado”.
Este texto tem em parte, ligação com a escrita feita no número 09 de “O xadrez e a vida”, onde escrevi sobre o “faz de conta”. A ligação está na forma de evitar o mais possível que haja flop, na execução dos projectos que por vezes estão bem pensados.
O insucesso acontece na vida como no xadrez!
Na vida pode ser comprovado em quase todas as áreas, como por exemplo: no dia-a-dia, no emprego, nas vendas, na saúde, no ensino, nas relações, etc.
No xadrez, pode ser: na organização de torneios, nos cursos, em festivais, campanhas de promoção, num campeonato ou mesmo numa partida.
Organizamos um evento e normalmente corre bem. Porém, em um qualquer ano pode acontecer o fracasso.
Que se faz normalmente nesses casos?
Simplesmente: reunimos todos os responsáveis e interessados e vamos analisar tudo em pormenor, para se encontrar o handicap, ou seja a razão ou razões do insucesso.
Depois ou sabemos mudar a tendência e voltar ao rumo certo, ou não sabemos. Aí tomamos medidas. Por vezes até mesmo desistir. Por que tudo que nasce, cresce e morre.
Mas não é por essa razão que estou a escrever. Isso é óbvio e qualquer gestor medíocre o faz.
A questão é outra: e, a essa dou a minha atenção. Trata-se do sucesso inesperado.
Por vezes, numa dada organização, que não tem fracassos, mas também sem um sucesso por aí além, acontece subitamente um êxito inesperado. Um sucesso de rebentar a escala.
Os organizadores ficam felizes e pensam que são os maiores. Estão no sei direito!
No ano seguinte a quebra volta e eles ficam frustrados. E não entendem o porquê.
O Druida dá um conselho. Olhem para o sucesso inesperado da mesma forma que olham para o fracasso.
Após um sucesso inesperado, não pensem que são os maiores. Procurem a razão desse sucesso e utilizem as razões no ano seguinte para atingir outra vez o sucesso.
Vão ver que vão conseguir mais sucessos!

Bray

domingo, 16 de abril de 2017

A primeira vez...

A primeira vez...
A minha primeira vez… aconteceu quando já vivia na minha amada avenida. Não estava por lá há muito tempo. Talvez já tivesse passado três ou quatro meses após a minha vinda de Alverca.
Sei que ainda não era um verdadeiro capitão da relva. Ainda estava na recruta fazendo um estágio com os miúdos da rua. Rapazes que aos poucos ia conhecendo e que veriam a ser meus grandes amigos num futuro breve, amizade com uma vivência que duraria os próximos quatro anos.
Finalmente vivia com a minha mãe. Vim para o pé dela após a morte da minha irmãzinha de dois anos e meio.
Na verdade só vim viver com a minha mãe definitivamente com quase dez anos.
A minha vida até chegar à avenida foi muito triste. Infeliz mas nunca derrotado.
Este meu texto de menino não é para me lamentar, nem para cantar o fado choradinho. Quero contar sim, algo que me marcou e foi na altura um exorcismo à minha alma.
Durante a minha vida anterior, que recordo bem, andei sempre a lutar para não ser mal tratado. Sempre atento para não fazer nada que pudesse ter represálias. Coisa que, eu nem sempre consegui.
Tinha sempre um sorriso no rosto, nunca chorando para desabafar.
Vivia na aldeia em casa de familiares muito pobres, analfabetos e boçais.
É preciso dizer que era filho de pai incógnito e a minha mãe era muita jovem quando nasci. Foi obrigada a ir servir para ganhar para o meu sustento. Por isso não podia ter-me com ela.
Minha mãe, um dia arranjou um companheiro e foi-me buscar à terra. Mas ela não voltou a ter sorte…
O homem nunca me tratou mal, tenho vaga recordação dele. Uma viagem porque ele motorista de camião. Foi ele que me ofereceu o brinquedo da minha vida.
Minha mãe engravidou e o homem desapareceu. Segundo um dia me disseram, ele desonrou uma miúda e foi obrigado a casar.
Lá voltei para a terra, onde fiquei mais dois anos. Um dia uma tia levou-me para sua casa onde vivi até partir para a avenida, num dia quente de Junho.
Ela tratou-me sempre bem, mas o homem não.
A ida mais rápida para perto da minha mãe foi para a compensar no desgosto de perder a sua menina.
Contei tudo isto para perceberem o meu estado de espírito.
Voltemos à avenida!
Um dia andava a brincar com outro rapaz da minha idade, num dos nossos campos relvados.
Perto de nós, um homenzinho pequeno e magro, estava sentado num dos bancos do jardim. Tinha entre quarenta a cinquenta anos. Sou mau a calcular idades. Mas andava por aí.
Uma coisa, eu reparei. Tinha a expressão mais triste do mundo.
Lá continuou sentado bastante tempo, por vezes olhava para nós ou para as pessoas que passavam e nós para ele.
Cada vez o seu ar de tristeza aumentava. Senti que ele estava sofrendo muito, quase chorando.
Até que de súbito o homem deslizou e caiu para a relva.
Gritámos por socorro!
Rápido apareceu duas ou três donas de casa. Uma delas com um copo de água. Banhando-lhe as têmporas davam-lhe leves bofetadas…
O homem reagindo só disse:
--Estou morrendo de fome!
Depois começou a chorar…
As mulheres, entre elas, as da família, rápido foram buscar sopa e pão com doce.
O homem devagar foi comendo sempre chorando. Contou que estava desempregado e não tinha dinheiro para comida. Disse ter vergonha de pedir e roubar não queria.
Fui-me emocionando!
Foi então que o meu dique de dez anos de sofrimento rebentou. Chorei convulsivamente, chorei por todos os anos que não tinha chorado.
Depois acalmei! Senti que naquela tarde tinha chegado a adulto.
Foi assim a minha primeira vez…a primeira vez que chorei todas as mágoas do mundo.
Nota.
Esta cena já tinha sido descrita nos “Capitães da relva”. Agora foi descrita como conto independente.
A estória é a mesma, nada foi diferente, embora possivelmente com outras palavras. Nem sequer fui comparar a escrita anterior com esta.
FIM
29/3/2017
José Bray



sexta-feira, 3 de março de 2017

Conto de Natal - O regresso da mãe Natal

Conto de Natal
O regresso da mãe Natal
O menino Jesus estava muito satisfeito com a atitude tomada pela mãe Natal no ano anterior. Por isso foi ter com ela no princípio de Dezembro e falou assim:
--Querida mãe Natal, tiveste uma actuação brilhante no Natal passado. Quero que nos natais futuros, até ao fim dos tempos, que tu e tuas descendentes continuem nessa tarefa. Que dizes?
--Mãe Natal demonstrando mais uma vez bastante astúcia, tentou logo ganhar mais vantagens para as suas iniciativas. Ou seja, atirou o barro à parede.
--Fico muito feliz pela tua decisão. Gostava de incluir na nossa equipa de acção também as minhas amigas, além das minhas familiares.
Jesus, disfarçando um sorriso irónico, bem sentiu que a bonacheirona velhota lhe estava a dar a volta, mas não se importou.
--Está bem! Aceito a tua sugestão, contudo temos de repensar a tua estratégia.
--A que te referes menino Jesus? Não estou a entender. Não gostaste da minha solução do ano transacto?
--Gostei sim mãe Natal! Foste sim muito ardilosa e eu alinhei nisso. Depois levei um ralhete do Deus, devido a denúncia do São Nicolau.
Nota: para saberem do que falo, ler o conto “A mãe Natal”, publicado no livro “Contos de Natal”.
--Não me digas menino Jesus. Fizemos uma bonita acção!
--É verdade! Fomos cúmplices…
--Mas então qual é o problema?
--Fizemos uma boa acção, mas por outro lado fomos injustos para com as crianças ricas.
--Então que podemos fazer? É impossível fabricar na Lapónia brinquedos para todos os meninos.
--Pensa, pensa, pensa! Querida mãe Natal, sei que vais encontrar boa solução.
O tempo passou, mãe Natal formou o seu grupo de acção. Uma equipa de bonacheironas, formada por diversos familiares e meia dúzia de amigas.
São Nicolau embora contrariado não quis conflitos com o menino Jesus, que de menino só tinha o espírito. Por instruções deste entregou à gestão das mães Natal uma província interior de um pequeno país. Uma zona de bastante contraste entre ricos e pobres: muitos pobres, poucos ricos.
Foi então que uma luz se acendeu na mente da mãe Natal. Foi logo ter com o menino Jesus, para lhe comunicar a sua solução.
--Então diz lá mãe Natal.
--Menino Jesus, quero que apareças em sonho aos meninos ricos e lhes digas o seguinte: “meninos ricos, vós que tendes centenas de brinquedos a que já não ligam, para receberem as prendas deste ano, entreguem para os pobres, vários dos vossos brinquedos antigos, mas em bom estado. Quando colocarem a vossa meia na chaminé ponham ao lado a vossa oferta. O menino Jesus agradece!”
--Mãe Natal, és o diabo, isto sem ofensa. Lá vou ter mais problemas com o Deus e com o São Nicolau.
--Pois é menino Jesus, mas só assim vamos conseguir fazer justiça.
--Está bem! Que seja assim, o plano é bom.
E assim foi! Naquele Natal e nos seguintes, nunca mais os meninos pobres ficaram sem brinquedo e os meninos ricos felizes por fazerem o bem.
Viva a mãe Natal!
23/1/2017
José Bray




domingo, 12 de fevereiro de 2017

Oliveira centenária

Oliveira centenária
Era véspera de Natal de um certo ano dum passado longínquo.
Joaquim do Vale decidiu ir após o almoço até ao velho olival que ficava do outro lado da várzea.
A sua intenção era ir ao rabisco das azeitonas. Aproveitar para colher uns míscaro, umas cagarrinhas e talvez até uns espargos. Tudo produtos muito úteis para sobrevivência da família.
Aquele centenário olival era sagrado segundo dizia o velho Druida da Montanha Mágica. Foi Susejo que me contou esta estória que agora vos relato.
Joaquim atravessou o rio na ponte romana, a caudal da corrente já saía do leito e estava quase a transbordar para a vasta várzea. A água cristalina provinha de uma nascente situada na parte oeste da Montanha.
Atravessou as vinhas, agora descarnadas de suas folhas. Do rio ao olival eram meia légua bem medida. Por fim o homem chegou ao seu destino.
Saíra da aldeia ainda o dia estava límpido, o sol brilhava, mas aos poucos tudo foi enegrecendo. Não tardou a acontecer uma tremenda tempestade com trovões após raios luminosos.
Joaquim, já no olival, sentiu-se no mato sem cachorro. Era impensável retornar à sua aldeia: só havia que esperar.
Rapidamente o rio transbordou naquela véspera de Natal, começando aos poucos a alagar a várzea, esta não tardou a ser um imenso lago.
Joaquim estava no olival e desejava regressar a casa antes de cair a noite. Contornar a várzea era uns cinco quilómetros, levaria algumas horas e debaixo da tempestade era impossível.
O homem estava duplamente preocupado, preocupado com a preocupação que ia de certeza na sua casa com o seu atraso.
A mulher e o filho, de quatro anos, esperavam ansiosos por ele.
A tempestade não abrandava e o Joaquim do Vale sentia-se sitiado. Tinha de aguardar, não tinha forças nem coragem para arriscar atravessar o lago, nem para andar os quilómetros e contornar toda a várzea.
Ainda por demais a noite chegara, às dezassete horas já estava escuro. Ia ser uma noite de breu e dramática.
Lá longe via luz na sua casa, assim como nas casas dos seus conterrâneos.
Um desânimo enorme apoderou-se do Joaquim que o levou a exclamar em voz alta:
-Senhora das Neves ajuda-me nesta aflição. Se me deres essa graça, juro não mais faltar à missa de domingo.
Para azar do Joaquim a santa devia estar noutra e não ouviu o seu pedido, ou fingiu não ouvir.
Com o avançar da noite o homem estava a ficar em pânico. Todas as oliveiras pareciam monstros ou espectros.
Quem já andou pela floresta nestas condições conhece a sensação.
No olival havia uma oliveira enorme com centenas de anos. Essa árvore tão grande e frondosa tinha uma gruta na sua base. Foi lá que o Joaquim se refugiou.
A muito custou e após várias tentativas acendeu uma pequena fogueira e preparou-se para passar a noite de Natal. Por sorte havia na gruta uns troncos de oliveira que como sabem é uma madeira que leva muito tempo em combustão.
Estava Joaquim nesta azáfama quando de repente sentiu perto de si um vulto que o observava atentamente. Surpreendido questionou a sombra:
-Quem é você? Como aqui chegou com a cheia?
-Não vim de lado algum, sou daqui. Sou o espírito da oliveira.
-Vá gozar com os da sua laia!
-E você Joaquim, que faz aqui na noite de Natal, longe da aldeia, longe de sua família? Que faz para cá da várzea nas terras que não são suas?
-Vim dar uma volta, o dia estava bonito embora frio. Fui apanhado pela tempestade e pela rápida cheia.
-Ah, ah, ah! Passear em véspera de Natal para fora da sua área de conforto. Uma tolice!
-Então e vossemecê que deseja?
-Já lhe disse que sou daqui.
-Está a gozar comigo ou é louco. Pode por acaso ajudar-me a sair desta situação?
-Posso sim! Mas preciso de uma paga.
-Uma paga! Mas o quê?
-Não posso dizer, mas se aceitar a minha ajuda, quando lhe pedir a paga você tem de obedecer, senão algo de mal lhe vai acontecer e à sua família também.
-Mas que paga é essa? Não posso saber?
-Não Joaquim do Vale! Concorda ou não? Aceita ou não a minha ajuda e as condições?
Joaquim sentiu-se entalado, estava num dilema. Que fazer?
Acabou por ceder, cada vez era mais tarde e a cheia não diminuía. Com a cabeça fez sinal à sombra que sim.
-Então feche os olhos, conte até cem, depois de os abrir vá embora.
Joaquim assim fez. Ao chegar a cem abriu os olhos. Para seu espanto estava tudo na mesma. Continuava junto da centenária oliveira, era noite e a cheia mantinha-se.
-Ora aldrabão! – Exclamou.
Mas olhando ao seu redor reparou numa canoa com uma vara dentro. Era isso! Agora era preciso conduzir e orientar a canoa na direcção da sua aldeia, atravessando a várzea e passando o rio.
Do lado de lá do rio a cem metros começava o burgo.
Joaquim assim fez, com esforço porque não tinha experiência com canoas ou qualquer outra embarcação.
Com muito cansaço lá conseguiu!
Eram onze e cinquenta e cinco, da noite de Natal, quando Joaquim do Vale entrou em casa. Manuela com o filho adormecido no colo chorava em silêncio.
Com um abraço longo e emotivo, a mulher, selou a chegada do seu homem.
Com o passar dos dias Joaquim foi esquecendo o insólito episódio passado no olival no Natal passado. Não tardou a ficar convencido que tudo não tinha passado de um delírio devido ao pânico: ou simplesmente um pesadelo.
O tempo foi passando e não tardou a chegar o novo Natal.
Um dia, já perto da época natalícia, apareceram na zona uns lenhadores contratados pelo senhor feudal, dono do olival e de quase toda a região.
A missão dos homens era cortar as velhas oliveiras e parte de um eucaliptal, para mais tarde plantarem vinha.
Com tudo isto a centenária oliveira sagrada estava condenada.
Na ante véspera do Natal, dia vinte e três, Joaquim saiu de casa para ir pegar no batente na fábrica da telha onde há muito ganhava a vida.
Ia a pé e concentrado nos seus pensamentos quando deu por uma presença ao seu lado. Uma sombra que via ou não via, só imaginava.
Disse em som brando a tal coisa que não sabia bem quem era mas já calculava. Ou seja o espírito da oliveira:
-Joaquim chegou a altura de pagar a sua divida.
-Que quer então espírito?
-Quero que impeça a morte da oliveira sagrada que lhe deu protecção na noite de tempestade do Natal passado.
-Mas que vão fazer à oliveira?
-Homem, então não sabe? Vão cortá-la depois do Natal! Toda a gente sabe isso.
-Mas que posso fazer para o impedir?
-Não faço a mínima ideia! Joaquim, o problema é seu. Tem essa dívida para pagar. Se a oliveira morrer, vossemecê também morre, assim como a sua família.
Após dizer isto a sombra num ápice foi-se. Joaquim não sabia que fazer. Decidiu ir falar com o Druida da Montanha Mágica e pedir conselho.
O velho sábio deu-lhe uma ideia que Joaquim aceitou e pôs em prática.
Na noite de Natal pegou na mulher e filho e foi ao palácio do senhor feudal. Descalços, mal vestidos e com uma corda ao pescoço. Ao chegar foram levados à presença do dono da região. Este ficou pasmado com a visão que lhe apareceu no salão:
- Que querem vilões? Digam depressa que tenho pouco tempo.
Joaquim adiantou-se e falou, enquanto Manuela abraçava o filho:
-Meu senhor vão cortar o velho olival que fica junto da minha aldeia. Há lá uma oliveira sagrada. Se ela for cortada e morrer, nós os três vamos morrer também, segundo nos disse o espírito da oliveira.
Nesse momento, mãe e filho vieram abraçar Joaquim do Vale que humildemente olhava para o senhor feudal.
-Que desejas de mim homem?
- Senhor, por favor, poupe aquela centenária oliveira!
Tudo aquilo tocou fundo na alma e coração daquele senhor que só disse:
-Vão para casa e tenham um bom Natal. Vou pensar!
O senhor feudal que não era má pessoa, pensou e decidiu não só poupar a oliveira mas também todo o olival.
Desta forma Joaquim pagou a sua divida e viveu feliz com a família durante muitos anos.
O tempo passou, muito tempo mesmo. O filho de Joaquim partiu para longe e não voltou. Manuela partira também mas não para longe, descansava no cemitério da aldeia.
Era noite de Natal, Joaquim já muito idoso caminhava pelo centenário olival. Recordava a noite mágica de há muito tempo.
Distraído deixou-se ficar e nem reparou que uma violenta tempestade se tinha formado. Ao cair da noite a trovoada era intensa e a quantidade de relâmpagos iluminavam tudo, da montanha à aldeia, ao rio, à várzea e ao olival.
Joaquim como há quarenta anos abrigou-se na centenária oliveira, árvore sagrada.
Caiam faíscas por todo o olival!
No dia seguinte, dia de Natal, um pastor foi encontrar a Oliveira Sagrada e o Joaquim do Vale, carbonizados numa amálgama de corpos e almas.
Comeira, 17 de Dezembro de 2016
José Bray

Dedicado ao meu tio Aberto, ao meu padrinho Silvério e à minha aldeia!

A senhora do Montejunto

A senhora do Montejunto
Era a noite da consoada, num Natal de há muito. Trezentos anos e doze, ou treze gerações, separam esse momento do momento em que agora escrevo.
Lá fora estava um frio de congelar a água nos ribeiros. Dentro do lar do Domingos Francisco e sua mulher Josefa Maria o ambiente estava confortável, aquecido pelo fogo da lareira.
Que bem se estava naquela ampla divisão, que servia para tudo, inclusive, por vezes, para dormir.
Na verdade o fogo crepitava na larga chaminé da cozinha, a partir das dezassete horas, após a ida do sol para o outro lado da Terra. Mas na verdade era a Terra a dar a outra face ao astro rei.
Foi-se o calor do sol chegou o calor da lareira!
As casas das aldeias da minha zona, tinham sempre uma divisão comunitária, onde tudo se passava, inclusive fazer filhos e pari-los. Não era diferente na Aldeia Galega da Merceana.
Lá eram guardadas as produções agrícolas que vinham da propriedade distribuída. Lá se cozia o pão caseiro, além da trivial refeição. Lá se guardavam as roupas. Lá ficavam os animais domésticos e não só quando o frio apertava. A lareira rasteira era sem dúvida o coração de qualquer lar. Era assim nas casas com algumas condições para viver.
As necessidades, tanto as sólidas como as liquidas, eram expelidas no exterior, ajudando a fazer estrume e a matar crianças com os vírus das mais variadas doenças. Vírus que despoletavam algumas epidemias de tempos a tempos.
Uma comprida mesa de pinho, dois bancos corridos, mais dois individuais, um louceiro, várias tulhas, muitos cestos de verga, mais um ou dois tarecos completavam o mobiliário da cozinha. Não faltando a talha para o azeite, as bilhas para água e o barril de cem litros para o vinho. Com ligação à lareira também havia o forno para cozer pão.
Cinco seres marcavam presença naquela sala comunitária: o casal Domingos Francisco e Josefa Maria, a filha Maria Josefa e o cão Tejo mais o gato Miau.
Dona Josefa fritava as filhoses, numa enorme frigideira, tradição trazida do longínquo passado mas que ela queria manter viva.
Domingos beberricava uma aguardente caseira, olhando embevecido para a mulher e para a filha, orgulhoso do seu pequeno núcleo familiar.
Maria Josefa, uma rapariga letrada, perto de atingir os vinte anos, num topo da mesa escrevia no seu diário mais um conto, neste caso alusivo ao Natal.
O cão Tejo e o gato Miau, também davam sinais de satisfação.
Era na verdade uma família feliz, embora nos últimos tempos andassem com algumas dificuldades financeiras.
A seu tempo lá iremos…
Escrevo esta estória passada na época natalícia, nela não há São Nicolau e suas Renas, nem sequer o menino Jesus. Para mim é uma bonita estória de Natal, passada há trezentos anos. Ou seja: uma estória do tempo em que reinava Dom João V e do tempo da construção do grandioso Convento de Mafra.
Por volta das vinte e duas horas alguém bateu na porta maciça da casa do Domingos.
-Oh da casa!
-Quem está aí? – Perguntou em voz grossa o homem da casa.
-Abram por favor. Venho por bem. Trago uma encomenda da parte da Senhora Baronesa do Montejunto.
-Não pode ser! - Disseram os três em uníssono.
-Pode sim! Sou o Manuel Francisco. Despachem-se que quero ir para casa, está um frio de rachar.
Ainda com algum receio, Domingos com o cão atrás, pau na mão direita, abriu a porta com a mão esquerda. Não fosse o diabo tecê-las. Entretanto ficou confiante quando ouviu a filha afirmar:
-É o Manuel, sim. Reconheci a sua voz.
Do lado de fora, estava um homem novo que ainda nem barba tinha. Ou se tinha era muito rala. Estava arrepiado porque no exterior fazia mesmo frio:
-Entra rapaz senão o calor foge lá para fora e tu aí congelas.
-Sim senhora Josefa.
-Entra Manuel e bebe um pouco de aguardente para reagires e aproveita prova as filhoses. Estás mesmo com mau aspecto.
-Então pai, que queria? Com este frio não se pode andar lá fora.
-Agradeço a todos, mas não posso demorar. Mas aceito sim! As filhoses da senhora Josefa são uma maravilha.
O Manuel Francisco disse isto olhando para a Maria Josefa com brilho especial nos olhos. Admiração por tanta beleza e inteligência. Era amor o que sentia. Por isso tinha aceitado, contente, a chata incumbência.
-Então que te trás por cá Manuel?
-Como devem saber, faço alguns serviços ao senhor doutor juiz Alberto de Castro. Ele deu-me ordem para entregar algo nesta noite de Natal, da parte da Senhora Dona Maria Alice, Baronesa do Montejunto.
-Não pode ser! - Exclamou a senhora Josefa. – Não pode ser! – Repetiu.
Vendo tanta admiração o rapaz confirmou:
-Mas porquê? Foi o meu patrão que me enviou. Foi uma incumbência de Dona Maria Alice, Baronesa do Montejunto. Para entregar nesta noite de consoada. A primeira após a partida da Senhora Baronesa para o outro mundo.
Passando uns segundos voltou a falar:
-Pode sim senhora Josefa Maria! Aqui está. Boa noite e bom Natal.
Ao mesmo tempo que dizia isso, o rapaz abriu a mala tirando de dentro um envelope dos grandes que entregou nas mãos de Maria Josefa, a única que sabia ler lá em casa.
Depois, sempre fixando a rapariga, foi recuando até à porta partindo para a noite gelada. Ainda ia para a Corujeira.
Em casa do Domingos e família estavam todos em estado de choque. Até o cão e o gato ficaram em suspense.
A razão era simples: a Senhora Dona Maria Alice, Baronesa do Montejunto, tinha falecido há seis meses.
Antes de saberem (os leitores) o que contem o envelope, vamos a uma estória do passado. Vamos recuar cerca de vinte anos, até ao inicio do século dezoito ainda no reinado de Dom Pedro II.
Era uma vez uma senhora que vivia com o filho num palacete lá para as bandas do oeste, muito perto da Merceana.
A senhora era viúva há cerca de quinze anos, teria na altura trinta e nove anos e o seu filho quinze, acabados de fazer.
Aos cinquenta e cinco anos, Maria Alice partiu após alguns meses de sofrimento devido a uma doença rara. Até ao dia de atravessar a ponte a Baronesa esteve sempre bastante lúcida.
Maria Josefa sua afilhada, passava os dias com ela, fazendo o papel de enfermeira e dama de companhia, lendo romances de escritores franceses muito em voga.
Até morrer, mãe e filho eram servidos por um casal da idade da baronesa. Tratava-se dos caseiros Domingos e Josefa, já nossos conhecidos.
O casal tinha uma filha mais nova nove anos que o António filho da patroa, como já entenderem era a nossa conhecida Maria Josefa.
A senhora Baronesa adorava a menina de quem era madrinha e os pais que a serviam na sua casa desde sempre. Maria Alice conhecia Josefa Maria desde que eram meninas.
Mas nem tudo era um mar de rosas, há sempre um senão.
O filho António odiava os caseiros, devido à atenção e amizade que sua mãe dedicava aos mesmos. À filha não tinha aversão, antes pelo contrário, tinha paixão. Muitas vezes tentou avanços a partir da altura que Maria Josefa atingiu idade e corpo de mulher.
A rapariga sempre se desviou dos assédios do António, protegida pela madrinha e controlada pelos pais.
Na verdade, o futuro Barão do Montejunto, era um bandalho, um mau carácter. Em parte saía ao seu falecido pai, desaparecido tinha ele quinze anos. O Barão velho era um vadio, passando a vida na capital em estórias amorosas. Mas tinha alguma classe coisa que o filho não herdara.
Após o falecimento de sua mãe, António, agora dono e senhor, fez um ataque cerrado à Maria Josefa. Esta com dignidade correu com o sedutor.
Não conseguido nada com a rapariga, António tentou chantagear os caseiros. Mas eles não cederam e o Domingos quase dava uma paulada ao javardo.
Então que fez o novo barão? Por vingança, despediu os seus serviçais. Maldoso, com festa e gala, expulsou-os do palacete e da quinta.
Foi uma crueldade do canalha António do Montejunto. Dona Maria Alice devia nessa altura estar a dar voltas no túmulo revoltada com o filho.
Os caseiros foram viver para uma casa modesta que herdaram na Aldeia Galega. Passaram a ter mais dificuldades para sobreviver. Domingos foi trabalhar como cavador e a filha Maria Josefa rapariga muito culta foi dar aulas a meninos ricos da região, enquanto a mãe fazia bolos para casamentos e baptizados.
Com estes acontecimentos os meses passaram e agora vamos voltar à noite de Natal de mil setecentos e vinte e cinco.
Como dissemos lá para trás. Por mando do advogado da Baronesa, o Manuel Francisco foi entregar um grosso envelope, deixado por dona Maria Alice para esse efeito.
Os ex caseiros ficaram muito admirados. Mas o Manuel respondeu como já descrevi lá atrás:
-Mas porquê? Foi o meu patrão que me enviou. Foi uma incumbência de dona Maria Alice Baronesa do Montejunto. Para entregar nesta noite de consoada. A primeira após o falecimento da Senhora Baronesa.
Domingos Francisco e Josefa Maria já calculavam ou talvez não, o teor do que vinha dentro dos envelopes. Sim porque eram vários envelopes.
Mas só em parte sabiam qual o seu conteúdo!
O envelope grande trazia dentro diversos envelopes mais pequenos. Um era para os caseiros, outro para Maria Josefa, os restantes tinham documentos oficiais.
Como era óbvio foi a rapariga a ter de ler as cartas e os documentos. Só ela sabia o suficiente para isso.
A carta, para o casal Domingos, dizia em resumo:
“Meus queridos amigos, agradeço do fundo do coração e da alma toda a vossa dedicação, lealmente e amizade. A Josefa é para mim como uma irmã e o Domingos, um querido amigo.”
A Josefa Maria sabe do que falo. Quero que ela explica à Maria Josefa coisas que só ela poderá fazer. Só Josefa poderá esclarecer, porque não estarei já junto de vós. Daqui só poderei dar a minha bênção”.
Na outra carta, Maria Alice pedia perdão à Maria Josefa e que escutasse o que a sua mãe Josefa Maria tinha para lhe dizer.
A carta ainda dizia que os documentos oficiais que iam nos outros envelopes lacrados eram duplicados legais, pois os originais estavam em cartório.
A carta dirigida a Maria Josefa, ainda dizia mais:
“Josefa minha querida afilhada, amo-te muito! Peço-te que me perdoes. Tu és minha filha e muito adorada!
Há muitos anos, o senhor meu marido viajava para Lisboa meses sem conto. Tinha lá as suas amantes e por isso não respeitava os meus sentimentos.
Ficava sozinha e carente de ternura meses e meses, anos mesmo. Um dia tive um romance de amor com um homem muito mais novo, quase uma criança. Dessa relação fiquei grávida de ti.
Não sabendo que fazer pedi ajuda à minha amiga Josefa Maria que de pronto me ajudou. Tudo com a colaboração do Domingos que foi um grande amigo.
Josefa Maria disse que estava grávida e aos poucos foi pondo volume na barriga. Da minha parte disfarçava o que não era difícil devido ao meu isolamento.
Quando a gravidez estava quase no fim, inventei uma viagem em que levava a serviçal prenha.
É fácil de entender o enredo. Tu nasceste e ficaste baptizada como filha dos caseiros. No fundo eles são mesmo teus pais, ama-os muito. Eu fui tua madrinha e não só. Na verdade tiveste duas mães.
És por isso irmã do António, que infelizmente não presta. Tenho medo do que ele venha a fazer.
Tens direito ao que é meu! Mandei preparar todos os documentos legais ao doutor Alberto Rosa. Fiz também um testamento em juízo. Cinquenta por cento de tudo que tenho quero que seja teu, minha filha.
Sei que vais perguntar pelo teu pai genético. Filha, ele foi para a guerra e morreu em combate. Sim amei-o muito!
Queria que me perdoasses Maria Josefa, nunca te abandonei minha filha!
Quero pedir-te um favor muito grande. Um dia quando casares e tiveres um filho põem-lhe o apelido do avô dele, que é Bray.
Dá um grande abraço a teus pais, diz-lhe que os amo muito.
Para ti milhões de beijos porque sempre te adorei e amei.”
No lar do Domingos e da Josefa Maria chegava entretanto a meia-noite. Todos se abraçavam emocionados.
Era muita a alegria, era muita a tristeza, era muita a saudade por Maria Alice a Baronesa do Montejunto.
A rapariga exclamou emocionada:
-Sim mãe. Fique descansada, porei Bray ao meu filho!
E assim foi! Maria Josefa casou, em mil setecentos e trinta, com Manuel Francisco e meteu o apelido do seu pai ao seu filho António, nascido em mil setecentos e quarenta e dois.
Comeira, 15/12/2016
Homenagem em memória da minha mãe, Maria Alice Bray, 24/7/1923 a 15/12/2013, noventa anos.
Nota: Maria Josefa é minha antepassada directa, um seu filho foi o primeiro Bray conhecido. Depois dela já passaram onze gerações até aos meus netos. Maria Josefa viveu durante a construção do Convento de Mafra no reinado de Dom João V.
José Manuel Bray



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Mataram o pai natal!



Mataram o pai natal!
Mataram o pai natal! Mataram o pai natal!
Um grito histérico soou naquela tarde fria e chuvosa pondo todas as pessoas, da praça, de ouvidos despertos.
O som vinha dos lados do enorme estabelecimento comercial situado no principal largo daquela vila do interior do país.
Uma mulher estava à porta da loja com as mãos na cabeça. Largara o saco das compras ficando algumas mércolas espalhadas a seus pés. Fora ela, a autora do primeiro grito.
Em breve acorriam pessoas de todos os lados. Uns correndo e gritando. Outros mais lentos mas gritando também.
- Mataram o pai natal! Mataram o pai natal!
Um corpo volumoso estava realmente caído no passeio, defronte da porta de entrada do estabelecimento comercial.
O corpanzil gordo e muito grande esvaía-se em sangue que disfarçava no corpo devido à cor vermelha da vestimenta.
Um pequeno rio de água e sangue deslizava para a valeta e daí para a sarjeta. Uma pequena e interessante embarcação de pelos brancos navegava para o mesmo destino. Era a barba do pai natal.
Perto uma menina segurando a mão de sua mãe exclamou:
Mamã! Afinal o pai natal não existe. Aquele velho é o tio José Bonifácio.
Rápido a jovem senhora afastou-se com a filha entrando no amplo estabelecimento.
Na verdade, o José Bonifácio fazia há muitos anos de pai natal, durante a quadra natalícia. Todos os adultos sabiam isso, só as crianças acreditavam que ele era o pai natal.
Um homem pequeno e magro com farta bigodaça ruiva apareceu e tomou conta da ocorrência. Resoluto por ser uma autoridade, pois na verdade era o regedor da Vila.
Com expressão de repulsa baixou-se e colocou a mão direita no pescoço do pai natal. Esteve assim trinta segundos, levantou-se e declarou:
-O pai natal está morto! Mandem vir a carroça mortuária e levem o cadáver do Bonifácio para a sala de velório da Capela.
Duas horas depois, já todo o mundo na Vila comentava a morte do José Bonifácio, pai natal há mais de vinte anos na povoação, ao serviço do importante estabelecimento, que tudo vendia.
Todos sabiam que o pai natal fora assassinado. Mas por quem? Ou porque razão? Ninguém ainda sabia. A não ser o assassino e alguém que o viu atacar de rompante o pai natal.
Um velho filósofo da região, homem muito sábio e louco. Ao saber do drama, fez um sorriso irónico e cínico e disse:
-Mataram duas vezes o Bonifácio. Como homem e como pai natal. Não se perdeu grande coisa, pois eram dois canalhas.
Entretanto, ao longe por detrás de um centenário plátano um homem ainda rapazola, espreitava as cenas que iam acontecendo lá longe, junto ao estabelecimento, mostrando um ar de desdém.
Era um jovem com aspecto famélico. Sua barba negra era rala, mas por desbastar, cabelos compridos e sujos. Todo ele estava mal tratado pela vida. Andrajoso no vestir de pobre, descalço e também cara de atrasado.
Após ter visto levarem o corpo do pai natal, o rapazola dirigiu-se para os lados do rio que corria caudaloso e fundo a cerca de cinquenta metros.
Na margem do rio, olhou para todos os lados várias vezes, depois já confiante, retirou do bolso uma velha e enferrujada navalha. Rápido atirou a mesma ao rio que rápido a engoliu.
Antes de se retirar para a sua miserável cabana da floresta, exclamou em voz alta:
-Canalha! Vai para o raio que te parta. Filho de uma bruxa e de um boi. Javardo!
Depois a cambalear devido à fome e ao frio embrenhou-se na noite a caminho da sua cabana.
Não demorou dois dias a acontecer a prisão do João. Alguém o viu anavalhar bruscamente o pai natal.
E também não demorou a ser feito o julgamento do assassino do José Bonifácio.
Na sala de audiências que funcionava na sede da casa da música, uma multidão aguardava ansiosa pelo julgamento e condenação do pobre atrasado mental.
As opiniões divergiam. Uns diziam que seria enforcado, outros diziam que teria prisão para toda a vida, outros diziam que iria para as galés. Mas uma voz sábia sobrepôs-se a todos com sua opinião. Mas não a disse, somente exclamou:
-Nada disso acontecerá! Mas será condenado sim. Fechem as vossas matracas pois só dizem asneiras.
O nosso filósofo louco, concluiu baixinho. Agora só para ele próprio ouvir.
-Vai sim para o manicómio, coitado. Mas ao menos lá terá agasalho e comida.
Todos na povoação sabiam que o João não fora sempre anormal. Nascera bem e bem andara até lá para os onze ou doze anos.
Na opinião de muitos, tudo acontecera quando o rapaz fez os doze anos. Um dia viu o pai matar a mãe. O homem esfaqueou a pobre mulher vezes sem conta. Aterrorizado, o João ainda viu o corpo da mãe com vida ser lançado ao rio.
O pai foi preso e depois de rápido julgamento foi enforcado.
Sem pai, sem mãe, sem mais família o miúdo ficou ao Deus dará. Já doente da cabeça começou a fazer recados e pequenas tarefas, além de andar a pedir. Mais tarde, já quase homem, vieram dar-lhe os trabalhos mais degradantes da Vila para ele poder sobreviver, como limpar esgotos, latrinas e estrumeiras.
O povo adulto não o tratava mal. Mas os miúdos, com a maldade não reprimida, andavam atrás dele e chamava-lhe João maluco.
Na sala das audiências, os três idosos, juízes da justiça local, estavam sentados atrás de uma mesa rectangular. Na sua frente num banco corrido estava sentado o João com a cabeça inclinada para a frente e os olhos fixos no chão.
O julgamento ia começar, no salão o povo estava ansioso para tudo ver e tudo saber.
Após as introduções da praxe, o juiz mais idoso e mais conceituado fez a pergunta há muito esperada pela multidão:
-João. És culpado ou inocente?
-Sou culpado senhor juiz!
-Confessas que mataste?
-Matei sim senhor juiz!
-Porque motivo, mataste o Bonifácio?
-O senhor José Bonifácio não foi morto por mim. Matei sim o pai natal!
-Esta bem! Está bem!
Os juízes não insistiram para não complicar e atrasar o processo.
-Estás arrependido do teu acto?
-Não senhor juiz! Voltava a matar o pai natal.
-Então homem de Deus, que nem arrependido, tu estás.
-Deus não é para aqui chamado. Não estou mesmo arrependido.
- Então explica-nos. Porque razão, tu mataste o pai natal?
-Sim senhor juiz. Vou contar por palavras minhas.
O João contou então a sua estória que vou transcrever com pequenas alterações devido à sua dificuldade de expressão.
Quando tinha seis anos vim à Vila na época do Natal. Queria ver na loja coisas boas que nunca teria e também queria ver o pai natal.
Nós éramos muitos pobres e o dinheiro do meu pai bêbedo ficava na taberna ou no jogo. Nunca chegava à nossa cabana. Tinha fome, pouca roupa e andava descalço.
Gostava muito de ter um brinquedo. Eu via os meninos ricos a irem entregar os pedidos ao pai natal. Por isso fui ao pé dele, mas fui corrido. Dizendo não dar brinquedos a filhos de bêbedos.
No ano seguinte voltei ao pai natal e ele voltou a correr comigo e riu-se muito!
Voltei lá a terceira vez e aconteceu o mesmo. Só que desta vez ele disse que os pedidos eram feitos por escrito.
Na quarta vez já com algum corpo e dez anos acabados de fazer, levei o meu pedido escrito, porque entretanto aprendera a escrever.”
Nesta parte da narração, João calou-se, parecia não querer continuar. O juiz mais idoso insistiu:
-Vá lá! E depois João?
Um pouco contrariado o pobre réu continuou:
“Nesta quarta vez o pai natal olhou muito para mim e disse que sim. Deu-me instruções para ir na noite de Natal a um local na floresta que também conhecia. Seria por volta da meia-noite, hora em que ele andaria a distribuir brinquedos pela pequenada.
Fiquei muito feliz e à hora marcada lá estava. Mas não houve prenda alguma.”
João voltou a calar-se e desta vez não mais falou!
O juiz insistiu! Voltou a insistir, mas nada!
Os três juízes saíram para deliberar. Quinze minutos depois regressaram com a sentença.
O João foi dado oficialmente como doido. Seria enviado para um manicómio onde tentariam que se curasse.
O nosso filósofo, sábio e louco, estava satisfeito. Assim o rapaz pelo menos teria uma cama, agasalho e comida. Podia ser que até recuperasse.
O condenado partiu para o manicómio numa carruagem com grades. No seu percurso a carroça celular passava junto do local, onde na noite de Natal o falso pai natal marcou encontro com o miúdo João, ainda na altura um rapaz saudável da mente.
Ao passar no local, as lágrimas, parecendo um rio, começaram a deslizar pelas faces do rapaz.
Tinha sido ali o local onde o pai natal o tinha violado na noite de Natal.
José Bray
Comeira, 7/12/2016
Dedicado a todas as crianças que sofreram sevícias!











sábado, 30 de julho de 2016

O xadrez e a vida - 09

09 – O xadrez e a vida
Hoje vou falar de algo que sempre me incomodou, seja no xadrez seja na vida. Trata-se do “faz de conta”.
Na vida, que é um teatro das comédias, o “faz de conta” é constante. Todos já devem ter tido acesso a exemplos, porque eles são diários.
Não vou fazer analogias com a vida. Quero sim, fazer a denúncia daquilo que me preocupa no xadrez. Trata-se de um constante “faz de conta”: de certos planos de desenvolvimento do xadrez.
Quem ouvir os seus mentores, quem ler a propaganda e até relatórios finais, é levado a acreditar que estão a fazer um trabalho sério e com resultados positivos.
Uma mentira!
É mais que óbvios que não são todos “faz de conta”. Há como em tudo, sempre excepções, valha-nos isso. Mas a maior parte são uma treta.
Porque são projectos, “faz de conta”? Muitas vezes tendo condições para serem um êxito.
Há planos com pernas para andar, mas não andam. As árvores não desenvolvem e por isso nunca haverá frutos.
Na minha opinião e não querendo ofender neste caso ninguém, acontece que no sitio certo está o homem errado.
Falta de competência, maus gestores e maus líderes! Andar no xadrez não dá estatuto a ninguém.
Ao analisar os projectos referenciados em documentação oficial, fiquei feliz. Depois fui comprovar a realidade. Fiquei frustrado, uma parte deles, três em cada quatro eram, “faz de conta”.
Na verdade, no meu distrito essa matemática bate certo. Em quatro um projecto tem validade.
Há uma excepção! Os Corvos dos Lis não são um projecto “faz de conta”!
E muito menos o serão no futuro, porque na próxima época alguém, único nesta panorâmica irá ajudar, num empenhamento total.
Se alguém duvidar da minha análise, venha ao Druida que ele explica.
José Bray