A nobreza desceu à vila…
A modesta povoação estava excitada e vaidosa da sua
importância. A nobreza desceu à vila…
Em todos os cantos e recantos havia animação. Os restaurantes, cafés,
pastelarias e tabernas, estavam a abarrotar de clientes. O mesmo se passava nas
lojas de lembranças. O Colégio local estava engalanado porque seria aí o fulcro
de maior importância. A Igreja triplicara de crentes que rezavam e pediam aos
santos regalos irrealistas.
As senhoras vestiram os seus modelitos de outras eras e os homens fato e
gravata. Quase tudo a cheirar a naftalina.
Todos conversavam para ser ouvidos e as gargalhadas eram constantes.
O povo convencido da sua importância fazia salamaleques por tudo e por nada.
Na vila que nem cidade chegava a ser, ao fim de semana era uma pasmaceira. Por
isso tudo que estava a acontecer era um fenómeno raro.
Contudo eu concordo: não era caso para menos…
No passado sábado e domingo, aconteceu a invasão planeada pela mui nobre deusa
Caissa. A nobreza compareceu em força; reis e rainhas eram cerca de seis
centenas. Trezentos reis são muitos reis, todos com sua rainha.
A igreja também esteve bem representada; seiscentos bispos passearam a sua
opulência pela modesta vila.
Cada bispo tinha o seu castelo e o seu cavalo ou sejam; seiscentas torres e
seiscentos corcéis.
E o povo? Ou seja os criados, alma daquele imenso séquito. Eram quase dois mil
e quinhentos.
Depois ainda havia outros convidados especiais: desportistas, treinadores,
técnicos, árbitros, directores, familiares dos jogadores e também simples
mirones. Bem contados andavam pelos quatrocentos.
Nem vou referir as carruagens colectivas da nobreza nem aos bólides dos
convidados.
Ao todo entraram na vila mais de cinco mil visitantes. Ou seja: a povoação
duplicou no fim-de-semana em causa.
Foram dois dias marcantes e importantes. O convívio foi do melhor entre brancos
e negros que se encontravam (quase) em número igual. Sim, a realeza foi ela por
ela, os convidados eram mais pálidos.
Nada disto foi coincidência. Era assim o planeamento.
Depois, depois todos partiram e a vila voltou à habitual pasmaceira.
Ficaram as memórias para contar aos netos!
11/4/2016
Druida
Dedicado ao meu amigo José Cavadas
quarta-feira, 11 de abril de 2018
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
Susejo
Susejo
Em Março de 2013 pensei em escrever um texto mas não anotei o
objectivo final. Dei ao texto o título de Susejo. Escrevi a introdução e
coloquei de lado para mais tarde continuar. Ontem ao reler a tal introdução não
consegui recordar o que pretendia. Agora vou ter de encontrar uma solução
porque quero continuar… Maio de 2013. Mas na verdade não avancei.
&&&
Passados quatro anos, em Maio de 2017 voltei à carga. Na
verdade, avancei mesmo! Hoje 5 de Junho de 2017 o trabalho está completo. Faltam
as revisões finais.
&&&
Susejo
Um dia igual a tantos outros naquela paisagem agreste, um
velho e um miúdo estavam a descansar do nada fazer, sentados num tosco
pedregulho por debaixo de uma oliveira milenária.
Do nada fazer era mentira, porque um rebanho misto de ovelhas
e cabras estava a seu encargo; embora na verdade fosse um corpulento cão a
fazer a tarefa, quase na sua totalidade, direi eu.
--Avô, conta-me a
estória do sábio Susejo, mas completa. Ele era sábio, não era?
--Completa? Ainda há
dias ta contei…nesta lua já é a terceira vez. Susejo sabia muita coisa, por
isso podemos dizer que era um homem sábio, mas ele era muito mais que isso
--Quero! Eu gosto
muito. Porque razão o avô não escreve a estória para todos poderem ler?
--Não meu querido, esta
estória é para ser transmitida de avô para neto, tu serás o próximo guardião
para as narrares ao teu neto e ele ao neto dele, será assim até aos confins do
tempo, assim como já acontece há mais de mil anos. Penso que há mil trezentos e
cinquenta anos.
Os dois seres, um idoso com muita idade e um garoto com
pouca, vestidos com simplicidade calaram-se durante alguns breves momentos. A
tarde caminhava para o fim, era Maio, o tempo estava quente, sabia bem-estar à
sombra da vetusta oliveira. Segunda a lenda plantada por Susejo.
A paisagem que os rodeava era montanhosa, ao fundo via-se uma
povoação com idade indefinida que pouco crescera nas últimas centenas de anos.
A aldeia ficava num planalto daquela cadeia de montanhas.
O rapaz estava na expectativa do inicio da narração, o avô
nunca contava a estória da mesma maneira; na verdade o velho aumentava ou
omitia conforme a sua disposição e conforme a quantidade de licor de leite que
ingerira.
Por sua vez o rapaz fazia quase sempre as mesmas perguntas,
embora usasse variadas construções nas suas frases.
O idoso de barbas brancas e cabelo ralo, tossicou como a
clarear a sua já pastosa voz, depois começou mais uma vez a contar a lenda que
ele afirmava ser verdadeira.
“Um dia, já lá vão
muitos séculos, ao alvorecer entrou na nossa aldeia um homem de meia-idade,
vinha exausto e ferido. Parou para descansar e matar a sede junto ao poço
comunitário da povoação situado no centro do burgo.
O estranho deitou-se no
chão poeirento com a cabeça apoiada dum rebordo de uma pedra; de seguida
adormeceu de cansaço.
Acordou já o sol
queimava.
Uma pequena multidão
apreciava o espectáculo. Os putos faziam macaquices à volta do forasteiro. O
povo estava, todo ele, receoso e na expectativa.”
--Receoso porquê? Então
ele não tinha chegado doente?
--Naquele tempo o povo
era muito supersticioso. Agora continua, mas nada que se compare. Talvez
tivesse medo que o homem viesse doente da peste, coisa muito habitual naquela
época. Ou então que viesse perseguido por tropas ou bandidos. Eram tempos muito
difíceis para a raça humana.
Depois de esclarecer o neto, o velho voltou à narração:
“O estranho olhou para
os mais velhos com olhos suplicantes, mas ninguém reagia. Olhavam para ele com
desprezo e rancor. Foi então que uma jovem viúva se antecipou a todos, pegando
na mão do estrangeiro. Disse umas palavras que ninguém ouviu, amparou-o e
depois levou-o para o seu lar que ficava a cinquenta metros da fonte.
As velhas, maldosas,
começaram logo com pitafos e os homens com olhos gulosos de inveja. Desde a
morte do companheiro que ninguém via qualquer homem transpor a porta da casa da
mulher.
A viúva era jovem e
bonita. A boa senhora esteve-se borrifando para eles. Cambaleando devido ao
esforço, os dois desapareceram na abertura a que chamavam porta e entraram no
casebre.”
--Sabes meu neto,
naquele tempo a nossa aldeia era muito diferente de hoje, nos aspectos morais.
Era uma terra de ladrões, mentirosos e mesmo criminosos. Havia também muita doença.
Por vezes a seca prolongava-se, devido à falta de água quase tudo se extinguia.
Os viajantes evitavam
passar por cá. Também é verdade que ficava e fica fora das rotas principais.
Repara que por cá ainda hoje não passam as caravanas.
--E agora a nossa aldeia
é diferente?
--A nossa terra, como
povoação, continua na mesma. Continua fora das rotas. Aumentou contudo muito
pouca a população. Hoje é uma aldeia mais decente. Vivemos razoavelmente dentro
das limitações. As pessoas são melhores que há mil anos.
--Isso é bom, não é
avô? Quais foram as razões para essas melhorias?
--Claro que sim meu
neto, isso é bom! As razões são explicadas nesta narrativa desse tempo, há
muito passado.
--Conte mais coisas do
Susejo.
--Amanhã também é dia:
não tarda a escurecer e não há necessidade de irmos aos tropeções e não ver bem
as ovelhas e as cabras. Amanhã continuo, depois de vires da Escola.
Balada para Aras e
Susejo
Passo a passo
Num arrastado andar
Num lento caminhar
Susejo vai chegando.
Doente de feridas,
E de esperanças perdidas!
O dia vai nascendo
Na adormecida aldeia,
Passo a passo
Num lento crescendo.
Chilreiam aves e putos,
Em passos de dança.
E elas, receosas…
As mulheres cansadas,
As mulheres prenhas,
E as velhas trôpegas e feias.
Os homens enrugados
Cheirando a covil,
Por perto mal cheirosos
Sisudos os velhos barbudos.
Todos olham curiosos,
Todos olham espantados.
Todos maldosos
Com olhar cruel,
Para o estranho que vem,
Passo a passo
Num lento caminhar,
Doente de feridas,
E esperanças perdidas.
Entrou Susejo na aldeia.
Então a virtuosa viúva,
Bela e jovem Aras
Susejo recolheu.
A viúva Aras
De Susejo benfeitora,
Suas feridas, Aras tratou,
Seus trapos, Aras lavou!
De corpo limpo
E alma pura
Susejo, Aras amou!
A boa senhora
De corpo são,
De coração lindo,
De alma divina,
Aras, Susejo amou!
Antobar, 11/5/2013
No dia seguinte, logo que saiu da escola, o rapaz após comer
uma bucha com queijo dentro e beber uma caneca de leite partiu ao encontro do
avô. O velho subira mais cedo para o planalto para aproveitar as pastagens
ainda frescas.
O rapaz gostava de estudar, mas gostava mais de liberdade e
ouvir as estórias do avô, em especial a do Susejo.
O velho lá estava sentado debaixo da velha oliveira, olhando
para agreste paisagem um milhão de vezes vista. O seu pensamento contudo voava
através dos tempos e da memória.
--Olá avô! Está a
dormir?
--Não rapaz! Então como
decorreu a escola, aprendeste alguma coisa para me contar?
--Fizemos contas,
fizemos um ditado e lemos um pouco. O professor ainda falou da história do
nosso país. Mas para falar verdade fiquei com muitas dúvidas.
E assim foi, o rapaz pôs as suas questões ao seu velho avô,
questões por sinal muito bem observadas.
A história daquele país era muito complexa e tinha de ser
explicada com muito critério, coisa que o velho fazia com muito prazer tentando
transmitir saber ao seu neto. Este como futuro guardião da lenda, ou verdade,
sobre Susejo, precisava estar preparado.
Com calma foi ensinando as turbulências, o jogo político, as invasões,
as imigrações, as guerras, as seitas. Falou de personalidades com influência na
história daquela terra árida. Era uma história épica, de pobreza, rude, rica em
sofrimentos. Pouca água, pouca vegetação, muitas pedras.
--Mas a nossa aldeia
não é má de todo, pois não avô? Só é pena estarmos longe das principais rotas.
--Sim, há muito que a
nossa terra melhorou. Estar longe das rotas por vezes é bom. Assim não somos
mais vezes atacados. Tem coisas boas e coisas más.
--Avô, não fala hoje do
Susejo?
O avô, já esperava essa interrogação. Alisou o farfalhudo
bigode branco, clareou a voz e recomeçou mais uma vez:
“Depois de chegar à
nossa terra muito doente, como disse ontem, Susejo foi recolhido por uma jovem
viúva de seu nome Aras.
Aras, tinha enviuvado
há cerca de um ano. O seu marido fora à capital e no regresso caíra numa
emboscada tendo sido assassinado. Nunca se soube que bandido ou bandidos tinham
feito a emboscada. Havia algumas desconfianças, mas nada de certezas. Talvez um
inimigo secreto.
A senhora era muito
bela e havia pretendentes que a cobiçavam e um deles deve ter pensado que a
única forma de a conquistar era tirando o marido do caminho. É daí que vem a
desconfiança.”
Nesta parte da narrativa, o rapaz perguntava sempre, embora
já soubesse a estória de cor, de seguida e salteada:
--Avô, alguma vez
apanharam o canalha ou os canalhas?
A resposta também saiu sempre igual:
--Sim meu neto! Quando
chegar altura explico os pormenores.
Depois voltou à rotina da narração:
“Sob os epitáfios do
mulherio, Aras entrou na sua humilde casa. Susejo gemia,
apoiado nela, via-se bem que sofria.
O casebre da viúva era
dividido em duas divisões. Uma maior fazia de sala comum, era sala de estar,
era local de trabalho artesanal da viúva, tinha a cozinha que incluía um
pequeno forno para cozer pão. A outra divisão era o quarto de dormir. Na
traseira da casa havia um quintal divido em dois sectores, um para as cabras e
galinhas, o outro para cultivar algumas hortaliças. Uma laranjeira e uma
nespereira completavam esse quintal.
Na divisão menor, Aras
deitou o ainda estranho na sua esteira de dormir. O homem mal reagia, via-se
que atingira o limite da resistência. Precisava de descansar, precisava de
alimento, mas era importante tratar de imediato as feridas que inundavam o
corpo quase esquelético.
Começou por lhe dar a
beber um pouco de água, lavando em seguida o rosto, onde sobressaiam dois
expressivos olhos azuis, de admiração e agradecimento. Um pouco mais tarde Aras
obrigou Susejo a beber leite de cabra para lhe dar alguma resistência.
Susejo adormeceu
finalmente, despreocupado, como uma criança ao colo de sua mãe.
Aras sabia que era
importante tratar das chagas do corpo, por que da alma já começara quando pegou
no viajante e o levou para sua casa.
Começou por fazer um
atento levantamento das feridas, inspeccionando todo o corpo excepto a zona das
vergonhas.
Que fizeram a este
pobre homem?! Não sei como ainda está vivo?! – Assim pensou Aras com expressão
comovida.
Na verdade Susejo
estava uma lástima. A cabeça estava ferida, como espetada por espinhos, as
costas tinham marcas de chicote. Também as mãos e os pés estavam mal tratados,
com estranhas marcas.
Deixando o desconhecido
a dormir, Aras partiu para o matagal à procura de plantas medicinais que ela
conhecia. Demorou cerca de duas horas a regressar.
Em casa começou logo a
trabalhar em receitas que aprendera com sua avó quando era criança. Fez uma
efusão para limpar as feridas e um unguento para as sarar, também um chá para
baixar a febre.
E assim iniciou, o
homem que veio de longe, uma longa recuperação.
Quando Susejo começou a
dar acordo de si, a viúva quis saber coisas. Estava curiosa! Tinha esse
direito.
O homem pouco se abriu.
Disse que se chamava Susejo, vinha de longe e pensava ir para longe se não
morresse antes.
Afirmou estar muito
agradecido, mas preocupado com ela. O povo não ia admitir que ela mantivesse em
casa um homem mais velho e ainda por cima desconhecido.
A mulher demonstrando
forte personalidade, sempre foi dizendo, embora no fundo soubesse que ele
falava verdade e tivesse medo.
--Não estou a fazer
nada de mal, antes pelo contrário. Sou viúva, não tenho filhos, nem pais, por
isso não tenho de dar satisfações a ninguém. Não se preocupe Susejo, trate de
se curar isso é o mais importante.
E assim Susejo lá foi
recuperando!
Mas na aldeia e não só,
a coisa estava feia, ou seja: a vida estava difícil. A seca prolongava-se por
tempo indeterminado, tudo ia secando. Por fim até o poço comunitário deixou de
ter água. Tudo estava em risco de morrer.
Foi então que começou a
correr na aldeia que a culpa era da viúva que recebera em sua casa, um
estranho. Diziam que era uma maldição. De certeza eram amantes, diziam. Era
preciso castigar a adúltera por apedrejamento.
Foi assim que explodiu
a histeria num certo dia.
O povo juntou-se para
apedrejar a jovem viúva. Consideravam que ela é uma adúltera em memória do
falecido marido.
Era assim naquele
tempo. Mulher viúva não podia ter mais homem. Tinha de ser uma espécie de
enterrada viva. Devia vestir eternamente de preto e nem sorrir podia.
Na aldeia havia
entretanto o drama da longa seca. Isso tinha agravada a disposição daquele povo
atrasado. Os homens estavam quase loucos e ainda mais intolerantes do que era
já o seu costume.
As mulheres não estavam
melhores, antes pelo contrário. Sentiam a responsabilidade de ajudar os maridos
e de ter alguma coisa para os filhos e para o gado.
Foram elas que um dia
começaram a gritar que era tudo culpa de Aras que metera um homem em casa.
Juntaram-se umas
dezenas de histéricas defronte da casa Aras gritando por ela. Ela estava cheia
de medo, mas com consciência limpa, não se fez rogada e enfrentou a turba
enfurecida.
Os homens ao longe, carrancudos,
aguardavam para o que fosse necessário, se alguém fosse defender a viúva, eles
entrariam em acção. Os gaiatos ao longe choravam de pena, porque gostavam de
Aras que até lhes dava doces.
Ia começar o
apedrejamento, ou seja a lapidação, o castigo nessa época para as mulheres
adúlteras.
Susejo ainda combalido
saiu do casebre e colocou-se à frente da sua benfeitora para a proteger das
pedras. Ao mesmo tempo erguia as mãos na direcção do céu gritando que nada de
vergonhoso tinha acontecido entre ele e Aras.
Ninguém acreditou
nisso. As pedras começaram a ser lançadas na direcção da entrada do casebre,
atingido algumas Susejo que não saía da frente da viúva.
Foi então que um garoto
gritou.
--Está a começar a
chover! Está a começar a chover!
--Milagre, milagre!
Gritaram as mulheres,
deixando cair as pedras no solo poeirento, mas agora a ficar enlameado.
--Sim milagre!
Berraram os homens.
Os cachopos começaram
logo a chafurdar nas águas que caiam com mais intensidade.
Um velho, muito velho,
o mais bêbedo da aldeia e também o mais louco. Ergueu-se e falou bem alto o seu
pensamento.
--Foi milagre do
Susejo! Foi milagre do Susejo!
Num ápice as mulheres
ajoelharam chorando e pedindo perdão a Aras e a Susejo.
Assim começou a lenda!”
--Avô! Houve mesmo
milagre nesse dia? Foi o Susejo que fez o milagre?
--O avô não sabe meu
rapaz. Milagre do Susejo não sabemos, mas o povo achou que sim. Mas não houve
um milagre, houve vários nesse dia.
--Como assim, avô?
--Primeiro: ter naquela
hora dramática começado a chover, foi um milagre! A seca estava a matar tudo e
todos. Segundo: depois não assassinarem Aras e por tabela Susejo, foi outro
milagre. O terceiro milagre foi o momento: a partir desse dia nada voltou a ser
igual na povoação, a nossa terra.
“Após o milagre da
chuva nada mais foi igual no povoado. Sim, porque os habitantes assumiram que
era um milagre e dessa obsessão não saíram. Também não fazia mal ao mundo antes
pelo contrário.
Logo que a saúde
permitiu Susejo começou a labutar ao lado da viúva, para pagar todo o bem que
ela lhe tinha feito. Levava o gado a pastar, tratava da horta e num pequeno
monte pertença de Aras plantou meia dúzia de oliveiras. Uma pequena horta na
traseira do casebre, dava um pouco de tudo, se não faltasse a água.
Por sua vez Aras era
uma excelente artesã, manufacturava roupas que fazia em troca de alguns
produtos de sua necessidade.
Com a ajuda do Susejo,
a vida da viúva melhorou muito. Por sua vez Aras ajudava muito as crianças.
Susejo, vendo o
interesse da viúva na sua pessoa, disse-lhe que um dia partiria e era para
breve. Aras pediu-lhe que ficasse o mais tempo possível e se partisse que
regressasse sempre.”
--Ele ficou muito tempo
avô? O avô contou que houve mais milagres…
--Ninguém sabe se foram
milagres, mas o povo diz que sim. As pessoas são sábias na sua ignorância. Eu
conto, mas sá amanhã. Vamos para casa!
No dia seguinte à tarde, avõ e neto voltaram a sentar-se sob
a sombra da milenária oliveira plantada por Susejo. Enquanto o possante cão
tomava conta do pequeno rebanho, o idoso guardião retomou a narrativa:
“Na verdade, Susejo
manteve-se na aldeia alguns anos. Como queria ser útil, começou a dar aulas aos
mais novos e aos mais velhos, homens e mulheres. Durante esses anos o povo da
aldeia aprendeu imenso com o desconhecido que uma manhã entrou na povoação a
arrastar-se e foi socorrido pela viúva Aras contra a vontade da população.
Acontecia com
regularidade surtos de doenças estranhas, que atacava em especial as crianças e
os idosos. Os povos chamavam-lhe a peste.
Mais uma vez a peste
voltou! As mulheres dirigiram-se a casa da viúva para pedir ajuda a Susejo.
Queriam mais um milagre.
Com ajuda de Aras o
homem foi até à montanha regressando horas depois com uma sacada de plantas que
só ele conhecia, nem a viúva; ela que tanto sabia.
Enquanto fazia uma
efusão de sua autoria, Susejo mandou ferver a água e o leite. Depois foi dando
a beber aos doentes a dita efusão. Uma semana depois a epidemia tinha sido
vencida. Mais uma vez o povo aclamou Susejo dizendo ser mais um milagre.
Durante mais um tempo,
Susejo foi educando o povo. Acabando por escrever num bloco de pedra alguns
conselhos.
Eram conselhos que
tinham a ver com valores morais e de higiene!
Ainda hoje a pedra está
no centro da povoação e é venerada por todos.
Embora ninguém
soubesse, porque nunca foi divulgado a viúva começou a frequentar a esteira de
Susejo.”
--Avô, sempre
descobriram quem assassinou o marido de Aras?
--Descobriu o Susejo
por um acaso. E por acaso fez-se justiça.
--Conta avô.
E o velho avô contou:
“Numa das idas de
Susejo à montanha, para ter sossego no seu meditar, ele foi atacado por um
meliante.
Era um canalha da
aldeia, embora não mostrasse a cara, Susejo reconheceu o bandalho pelo cheiro e
pela voz.
Disse o agressor:
--Vais morrer intrometido,
como aconteceu com o marido de Aras. Ela não quer ser de mim, não será de ninguém.
Morre intrometido!
Dizendo isto puxou de
um afiado cutelo e avançou em força para Susejo. Este com agilidade desviou-se
e o canalha precipitou-se montanha abaixo. Mais de duzentos metros foi a
viagem, ficando esborrachado.
Nessa noite os lobos
tiveram um inesperado festim!”
--Avô, porque razão
Susejo não ficou a viver o resta da vida na nossa aldeia?
--Não sabemos meu
querido, penso que ele tinha uma missão superior na vida, por isso tinha de
partir.
E assim foi:
“Um dia Susejo disse a
Aras que chegara o momento de partir, mas que voltaria um dia. Ela chorando
compreendeu que Susejo tinha uma longa missão na vida, a estadia na aldeia
tinha sido somente mais uma etapa nessa caminhada.
Um dia ao alvorecer,
vestido com a velha túnica, Susejo partiu na direcção oposta ao da sua chegada.
Aras foi a única pessoa
que o viu partir e no pequeno monte junto das oliveiras por ele plantadas ficou
acenando um adeus até Susejo desaparecer no horizonte! Nascia o sol!
A povoação tinha mudado
radicalmente, esse tinha sido o principal milagre. Por isso, um guardião foi
nomeado, para transmitir para sempre a estória de Susejo às gerações futuras.”
Fim
29/5/2017
Notas:
Às onze horas terminei a construção Susejo. Agora é preciso
organizar, corrigir e aprofundar! 29/5/2017
Às vinte e três horas terminei a organização e uma primeira
revisão! 5/6/2017
Sinopse do conto Susejo:
Um homem entra em certa madrugada, numa aldeia da montanha de
país árido. Vem estropiado, cansado e muito ferido. A população reage mal à sua
chegada, excepto uma viúva que o recolhe e trata as suas feridas.
Uma seca prolongada para lá do habitual, transtorna e
enlouquece parte da população. O povo reage e quer destruir a viúva por pensar
ser ela a causadora da seca.
O homem já quase recuperado, faz de escudo protegendo a
viúva, disposto a sacrificar-se por ela.
Por coincidência, ou não, nesse preciso momento começa a cair
a chuva. Primeiro devagar mas logo a seguir torrencial.
O povo considera isso milagre! Milagre feito por aquele
estrangeiro.
Tudo muda na opinião dos habitantes. Aceitam o homem e
desculpam a viúva.
O homem desconhecido começa então a ajudar a aldeia, fazendo
coisas que todos consideram milagres.
Com o tempo a aldeia tornou-se lugar de esperança!
Anos depois, numa madrugada o homem parte para destino que só
ele sabe, mas no sentido contrário ao da chegada.
A estória é contada e recontada por um velho ancião ao seu
jovem neto, numa passagem de guardião para novo guardião. O guardião da
memória.
30/5/2017
Dedico esta minha metáfora, espiritual, ao meu grande amigo
Alberto Henriques da Silva, o homem mais cristão que conheço, na sua pureza de
valores!
José Bray
5/6/2017
domingo, 24 de dezembro de 2017
Susejo e o Natal
Susejo e o Natal
Lá longe, muito longe, num mundo há muito desaparecido, um
idoso de longa barba caminhava cantando uma canção que só ele entendia. Mas a
melodia soava bem ao ouvido de um qualquer ser, pessoa ou animal. Era um
espiritual composto pelo idoso, muito idoso mesmo. Impossível fazer um palpite
da sua quantidade de anos. Cem, duzentos, trezentos? Não sabemos!
“O inverno chegou
Com o seu solstício
O Natal avançou
Matando a frio
A festa da natureza
Pagãs mas belas
Saindo da pureza
Ficou-se nas balelas
Susejo assistiu
Com tolerância
Druida omitiu
Fingido ignorância”
Na minha opinião, Susejo não tinha idade, era o tempo do
tempo.
Na mão direita levava um bordão feito de tronco de carvalho
com mil anos, a árvore dos sábios. Na mão esquerda um saco de fabrico caseiro
feito em pele de cabra, dentro algumas ferramentas de marceneiro, uma das suas
muitas artes e saberes.
O velho senhor de idade indefinida apressou o passo. Queria
chegar à próxima aldeia a tempo da refeição do almoço. Um amigo de longa data
esperava por ele.
Sentado num banco corrido Druida apanhava o bom sol do
meio-dia. Sabia que o amigo Susejo não ia tardar. Já sentia satisfação ao
pensar nas muitas conversas que iam ter: seria sobre tudo e mais alguma coisa.
Depois iriam falar com os jovens adolescentes da aldeia. Queriam falar de bons
costumes e valores morais, higiene e explicar a importância do saber.
Batia as doze horas no badalo gigante, quando Susejo entrou
no rossio da aldeia, o seu principal largo. O amigo, um velho parecendo seu
sósia, esperava por ele de braços abertos e largo sorriso.
Um longo e comovido abraço juntou os corpos e as almas dos
seculares amigos. Homens do saber, da magia, das artes e do espírito.
Logo que entrou na povoação, Susejo reparou que havia
ambiente de festa. Não ficou admirado porque estavam sobre o solstício de
inverno e as festas pagãs eram habituais nessa época.
Com alguma ironia comentou com o seu amigo Druida:
- Então velhote, tudo preparado para os festejos da vossa fé?
Estamos na época!
O Druida sorrindo mas a sério, explicou ao seu amigo vindo de
longe:
- Estás enganado Susejo. A aldeia contra a minha vontade vai
festejar o nascimento de Jesus. À comemoração deram o nome de Natal. A noite de
vinte e quatro para vinte e cinco é por isso a noite de Natal.
Passou a ser por uma imposição do bispo romano que tutela a
região.
Não concordo, mas também não sou contra, desde que o povo
esteja feliz.
Apropriaram-se das minhas tradições pagãs e das tradições
romanizadas deles, mas também pagãs.
Calaram-se durante uns minutos, depois o visitante perguntou:
- Nessa nova filosofia oferecem prendas às crianças?
- Alguns pais fazem-no a maioria não!
Susejo franziu o sobrolho numa demonstração de tristeza.
Entretanto foram conversando enquanto faziam a sua frugal
refeição, à base de frutas, leguminosas e pão.
Seguiu-se a palestra com os adolescentes da aldeia, que
atentos tudo ouviram com interesse.
No dia seguinte ia ser véspera da tal festa chamada Natal.
Festa que o bispo romano impusera para comemorar o nascimento de Jesus.
Susejo perante estas novidades, decidiu ficar. Queria fazer
parte da comemorações…
Pediu ao amigo Druida ajuda e foi trabalhar para a pequena
oficina do carpinteiro da aldeia, um velho tão velho como eles e amigo de
ambos.
Como sabemos de outras narrativas, Susejo era um marceneiro
artista e trabalhador despachado.
Susejo tinha a sua fisgada!
Trabalhou arduamente, durante toda a noite e todo o dia
seguinte. Por vezes com ajuda do Druida e do velho carpinteiro.
O resultado de tão intensiva aplicação foi a produção de
dezenas de brinquedos em madeira: barcos, carros de bois, bonecas, moinhos,
flautas, casas, pontes, e muitas mais peças que nem sei classificar.
Susejo estava feliz, queria que todas as crianças tivessem a
sua prenda na noite do tal Natal que festejava o nascimento do tal Jesus.
Susejo sabia que o Natal era uma mentira. Ele sabia melhor
que todos: ninguém sabia a data de nascimento de Jesus.
Era tudo uma maquinação do poder romano recém convertido ao
cristianismo. O solstício de inverno era tempo de grandes festas pagãs, tanto
para celtas como para romanos.
Era preciso capar essas festas, sobrepondo outras com ritual
diferente.
As crianças não tinham culpa! Pagãs ou cristãs tinham direito
a ter prendas.
O seu amigo Druida sabia isso, mas fingia não saber. Queria o
bem de todos.
Susejo, por razões óbvias, sabia ser uma mentira pegada, mas
entrara com prazer na farsa.
Depois de entregar os brinquedos às crianças, Susejo partiu
feliz para a sua eterna peregrinação.
22/12/2017
José Bray
Natal diferente
Natal diferente
Aquele foi um Natal muito especial, direi mais, muito
diferente do trivial.
Primeiro: não havia frio, antes pelo contrário havia muito
calor, tanto de dia como de noite.
Segundo: era muito longe, duvido que as renas voassem tantas
léguas no céu. Ainda mais sem asas. Talvez o fizessem se fossem da família do
Pégaso.
Terceiro: por ali não havia meninos ricos e gente pobre não
interessava ao Deus dos ricos.
Mas na verdade ia ser Natal e muitos queriam festejar, mesmo aqueles
que não acreditando, o toleravam.
Havia contudo um problema: não havia brinquedos, não havia
comida, não havia segurança. Mas havia muita guerra!
O casal Castro foi apanhado naquele imbróglio num dado ano,
em que eram cooperantes. Apanhados naquele Natal que era único e especial, no
mau sentido. Ou seja: foram apanhados na voragem da história.
Eles queriam para
aquele dia vinte e quatro de Dezembro, algo para comer, algo para beber, como
desejavam para todos os outros dias.
Água para beber ia havendo, mas depois de fervida.
O meu amigo Alberto combinou com Inês sua mulher a estratégia
para aquele dia. Ele iria para a fila da padaria e depois para a fila do arroz
e enlatados. Ela iria para a fila dos frangos vindos da Holanda.
E assim foi!
Alberto, com mais ou menos desenrascanso lá alcançou o
objectivo. Embora o arroz vindo do Brasil cheirasse a bafio e o pão era daquele
que no dia seguinte era intragável. Os enlatados estranhos para os negros
também escapavam. Muitos com os prazos de validade ultrapassados. Mas em tempo
de guerra não se limpam armas.
Para a Inês, a situação foi mais complicada. Este pequeno
texto de Natal especial deve-se ao seu episódio na estória.
Inês de Castro, esbelta mas já uma barriga de três meses que
mais parecia seis aproximou-se da cooerativa na qual os frangos eram vendidos. Ia
esperançosa, mas muito duvidosa. Mas havia que tentar, porque em casa tudo
faltava.
Uma fila horrorosa saía dentro da superfície muitos metros.
Tudo negras, nem uma branca. Ainda mais com pedras no chão a marcar posição, não
sabemos de quem.
Inês entristeceu cada vez mais, nunca iria para uma fila
daquelas. Nem acreditava que houvesse frangos para tanta mulher.
Sentia-se revoltada, ficara no novo país, solidária com o
companheiro. Este ficara para ajudar aquele povo carenciado de tudo. No fundo
nem comida tinham para compensar todo o esforço.
A jovem não aguentou o choro e começou a afastar-se.
Foi então que ouviu chamar. À primeira não entendeu mas
depois viu que era para si.
- Camarada venha para aqui para o pé de nós!
Duas negras chamavam por ela para ir para o princípio da
fila. Ela receosa aproximou-se, ainda incrédula.
Outras negras começaram a reclamar e com lógica. Mas as duas
negras que tinham poder da fala, argumentaram na lógica delas.
- A camarada branca está prenha por isso tem direito a estar na
frente.
E assim foi! Inês agradeceu comovida e feliz correu para
casa.
Foi da parte das minhas compatriotas um belo gesto de amor.
Daqueles que marcam para toda a vida.
Em casa, Alberto já tinha o pão, lata de espargos, outra de
cogumelos e o arroz. Inês colocou de imediato o frango ao lume.
Enquanto o bicho cozinhava, telefonaram para a Europa para
falar com a filha ausente, através de um telefone que por sorte ainda estava
ligado.
Resta dizer que o frango holandês era duro que nem cornos.
Uns amigos da onça que enviavam para o carente país o lixo de sua casa.
A consoada chegou e os Castros estavam felizes, não pelo
Natal, eles até era descrentes, mas por estarem juntos.
Lá fora, na noite de recolher obrigatório, brilhando como
estrelas cadentes as balas tracejantes das metralhadoras ribombavam por todos
os musseques.
Meteoros que partiam em sentido inverso, da terra humilhada
para céu infinito!
16/11/2017
Djapam
Nota - Esta
estória aconteceu no Natal de 1975.
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
O xadrez e a vida - 10
10 – O xadrez e a vida
Hoje vou falar do “sucesso inesperado”.
Este texto tem em parte, ligação com a escrita feita no
número 09 de “O xadrez e a vida”, onde escrevi sobre o “faz de conta”. A ligação
está na forma de evitar o mais possível que haja flop, na execução dos
projectos que por vezes estão bem pensados.
O insucesso acontece na vida como no xadrez!
Na vida pode ser comprovado em quase todas as áreas, como por
exemplo: no dia-a-dia, no emprego, nas vendas, na saúde, no ensino, nas
relações, etc.
No xadrez, pode ser: na organização de torneios, nos cursos, em
festivais, campanhas de promoção, num campeonato ou mesmo numa partida.
Organizamos um evento e normalmente corre bem. Porém, em um
qualquer ano pode acontecer o fracasso.
Que se faz normalmente nesses casos?
Simplesmente: reunimos todos os responsáveis e interessados e
vamos analisar tudo em pormenor, para se encontrar o handicap, ou seja a razão
ou razões do insucesso.
Depois ou sabemos mudar a tendência e voltar ao rumo certo,
ou não sabemos. Aí tomamos medidas. Por vezes até mesmo desistir. Por que tudo
que nasce, cresce e morre.
Mas não é por essa razão que estou a escrever. Isso é óbvio e
qualquer gestor medíocre o faz.
A questão é outra: e, a essa dou a minha atenção. Trata-se do
sucesso inesperado.
Por vezes, numa dada organização, que não tem fracassos, mas também
sem um sucesso por aí além, acontece subitamente um êxito inesperado. Um
sucesso de rebentar a escala.
Os organizadores ficam felizes e pensam que são os maiores.
Estão no sei direito!
No ano seguinte a quebra volta e eles ficam frustrados. E não
entendem o porquê.
O Druida dá um conselho. Olhem para o sucesso inesperado da
mesma forma que olham para o fracasso.
Após um sucesso inesperado, não pensem que são os maiores.
Procurem a razão desse sucesso e utilizem as razões no ano seguinte para
atingir outra vez o sucesso.
Vão ver que vão conseguir mais sucessos!
Bray
domingo, 16 de abril de 2017
A primeira vez...
A primeira
vez...
A minha primeira vez… aconteceu quando já vivia na minha
amada avenida. Não estava por lá há muito tempo. Talvez já tivesse passado três
ou quatro meses após a minha vinda de Alverca.
Sei que ainda não era um verdadeiro capitão da relva. Ainda
estava na recruta fazendo um estágio com os miúdos da rua. Rapazes que aos
poucos ia conhecendo e que veriam a ser meus grandes amigos num futuro breve,
amizade com uma vivência que duraria os próximos quatro anos.
Finalmente vivia com a minha mãe. Vim para o pé dela após a
morte da minha irmãzinha de dois anos e meio.
Na verdade só vim viver com a minha mãe definitivamente com
quase dez anos.
A minha vida até chegar à avenida foi muito triste. Infeliz
mas nunca derrotado.
Este meu texto de menino não é para me lamentar, nem para
cantar o fado choradinho. Quero contar sim, algo que me marcou e foi na altura
um exorcismo à minha alma.
Durante a minha vida anterior, que recordo bem, andei sempre
a lutar para não ser mal tratado. Sempre atento para não fazer nada que pudesse
ter represálias. Coisa que, eu nem sempre consegui.
Tinha sempre um sorriso no rosto, nunca chorando para
desabafar.
Vivia na aldeia em casa de familiares muito pobres,
analfabetos e boçais.
É preciso dizer que era filho de pai incógnito e a minha mãe
era muita jovem quando nasci. Foi obrigada a ir servir para ganhar para o meu
sustento. Por isso não podia ter-me com ela.
Minha mãe, um dia arranjou um companheiro e foi-me buscar à
terra. Mas ela não voltou a ter sorte…
O homem nunca me tratou mal, tenho vaga recordação dele. Uma
viagem porque ele motorista de camião. Foi ele que me ofereceu o brinquedo da
minha vida.
Minha mãe engravidou e o homem desapareceu. Segundo um dia me
disseram, ele desonrou uma miúda e foi obrigado a casar.
Lá voltei para a terra, onde fiquei mais dois anos. Um dia
uma tia levou-me para sua casa onde vivi até partir para a avenida, num dia
quente de Junho.
Ela tratou-me sempre bem, mas o homem não.
A ida mais rápida para perto da minha mãe foi para a compensar
no desgosto de perder a sua menina.
Contei tudo isto para perceberem o meu estado de espírito.
Voltemos à avenida!
Um dia andava a brincar com outro rapaz da minha idade, num
dos nossos campos relvados.
Perto de nós, um homenzinho pequeno e magro, estava sentado
num dos bancos do jardim. Tinha entre quarenta a cinquenta anos. Sou mau a
calcular idades. Mas andava por aí.
Uma coisa, eu reparei. Tinha a expressão mais triste do
mundo.
Lá continuou sentado bastante tempo, por vezes olhava para
nós ou para as pessoas que passavam e nós para ele.
Cada vez o seu ar de tristeza aumentava. Senti que ele estava
sofrendo muito, quase chorando.
Até que de súbito o homem deslizou e caiu para a relva.
Gritámos por socorro!
Rápido apareceu duas ou três donas de casa. Uma delas com um
copo de água. Banhando-lhe as têmporas davam-lhe leves bofetadas…
O homem reagindo só disse:
--Estou morrendo de fome!
Depois começou a chorar…
As mulheres, entre elas, as da família, rápido foram buscar
sopa e pão com doce.
O homem devagar foi comendo sempre chorando. Contou que
estava desempregado e não tinha dinheiro para comida. Disse ter vergonha de
pedir e roubar não queria.
Fui-me emocionando!
Foi então que o meu dique de dez anos de sofrimento rebentou.
Chorei convulsivamente, chorei por todos os anos que não tinha chorado.
Depois acalmei! Senti que naquela tarde tinha chegado a
adulto.
Foi assim a minha primeira vez…a primeira vez que chorei
todas as mágoas do mundo.
Nota.
Esta cena já tinha sido descrita nos “Capitães da relva”. Agora
foi descrita como conto independente.
A estória é a mesma, nada foi diferente, embora possivelmente
com outras palavras. Nem sequer fui comparar a escrita anterior com esta.
FIM
29/3/2017
José Bray
sexta-feira, 3 de março de 2017
Conto de Natal - O regresso da mãe Natal
Conto de Natal
O regresso da mãe Natal
O menino Jesus estava muito satisfeito com a atitude tomada
pela mãe Natal no ano anterior. Por isso foi ter com ela no princípio de
Dezembro e falou assim:
--Querida mãe Natal, tiveste uma actuação brilhante no Natal
passado. Quero que nos natais futuros, até ao fim dos tempos, que tu e tuas
descendentes continuem nessa tarefa. Que dizes?
--Mãe Natal demonstrando mais uma vez bastante astúcia,
tentou logo ganhar mais vantagens para as suas iniciativas. Ou seja, atirou o
barro à parede.
--Fico muito feliz pela tua decisão. Gostava de incluir na
nossa equipa de acção também as minhas amigas, além das minhas familiares.
Jesus, disfarçando um sorriso irónico, bem sentiu que a
bonacheirona velhota lhe estava a dar a volta, mas não se importou.
--Está bem! Aceito a tua sugestão, contudo temos de repensar
a tua estratégia.
--A que te referes menino Jesus? Não estou a entender. Não
gostaste da minha solução do ano transacto?
--Gostei sim mãe Natal! Foste sim muito ardilosa e eu alinhei
nisso. Depois levei um ralhete do Deus, devido a denúncia do São Nicolau.
Nota: para saberem do
que falo, ler o conto “A mãe Natal”, publicado no livro “Contos de Natal”.
--Não me digas menino Jesus. Fizemos uma bonita acção!
--É verdade! Fomos cúmplices…
--Mas então qual é o problema?
--Fizemos uma boa acção, mas por outro lado fomos injustos
para com as crianças ricas.
--Então que podemos fazer? É impossível fabricar na Lapónia
brinquedos para todos os meninos.
--Pensa, pensa, pensa! Querida mãe Natal, sei que vais
encontrar boa solução.
O tempo passou, mãe Natal formou o seu grupo de acção. Uma
equipa de bonacheironas, formada por diversos familiares e meia dúzia de
amigas.
São Nicolau embora contrariado não quis conflitos com o
menino Jesus, que de menino só tinha o espírito. Por instruções deste entregou
à gestão das mães Natal uma província interior de um pequeno país. Uma zona de
bastante contraste entre ricos e pobres: muitos pobres, poucos ricos.
Foi então que uma luz se acendeu na mente da mãe Natal. Foi
logo ter com o menino Jesus, para lhe comunicar a sua solução.
--Então diz lá mãe Natal.
--Menino Jesus, quero que apareças em sonho aos meninos ricos
e lhes digas o seguinte: “meninos ricos,
vós que tendes centenas de brinquedos a que já não ligam, para receberem as
prendas deste ano, entreguem para os pobres, vários dos vossos brinquedos
antigos, mas em bom estado. Quando colocarem a vossa meia na chaminé ponham ao
lado a vossa oferta. O menino Jesus agradece!”
--Mãe Natal, és o diabo, isto sem ofensa. Lá vou ter mais
problemas com o Deus e com o São Nicolau.
--Pois é menino Jesus, mas só assim vamos conseguir fazer
justiça.
--Está bem! Que seja assim, o plano é bom.
E assim foi! Naquele Natal e nos seguintes, nunca mais os
meninos pobres ficaram sem brinquedo e os meninos ricos felizes por fazerem o
bem.
Viva a mãe Natal!
23/1/2017
José Bray
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