segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Um dia no Oeste

Um dia no Oeste
(Ou, Conto incompleto)
Foi um acaso…
António Pedro d’ Barcellos, navegava na sua Rocinante pelas ondas do Oeste, através de estradas secundárias das secundárias, ou seja de terceira.
Na verdade, penso que ele flutuava mais do que navegava. Sentia-se leve com uma enorme felicidade por respirar aquele ar e por dar tanto pasto à vista.
Tudo, o nosso Barcellos, observava e admirava. Era o caso dos mais variados verdes que a paisagem transportava e as formas multifacetadas das árvores, tanto caducas como perenes.
Sentia-se em estado de graça. De tempos a tempos, ou seja de quilómetros em quilómetros, parava para apreciar a cor, o cheiro e a forma de uma flor, desconhecida ou não. Depois, antes de voltar a arrancar, escrevia um pequeno poema. Naquela manhã já fora pai de seis!
- Quem saberá que ando por aqui? – Pensou em voz alta.
Ninguém sabia, era óbvio. O nosso homem nunca dava satisfações, dizendo para onde ia vadiar. Também não tinha obrigações a quem…
Era um divorciado de longa distância, quase meio século. Tinha muitos amigos e amigas, familiares também. Entre estes dois filhos, netos, um irmão e uma irmã. Os filhos já bem adultos tinham uma vida como muitas outras existências e preocupações. Ambos tinham filhos.
Como morava longe da sua rapaziada, não dava satisfações a nenhum dos familiares.
De tempos a tempos, António tinha uma namorada. A estória tinha começo, meio e fim. Passado um tempo tudo terminava. As mulheres, umas transformavam-se em amigas, outras vezes ficavam inimigas.
Na madrugada daquele dia, sua mente recebeu um apelo para ir vadiar até ao Oeste. Ao seu Oeste!
Barcellos não se fez rogado e decidiu ir. Desta vez, pensou que seria interessante ir para interiores pouco visitados. Zonas que conhecia mas que raramente lá passava.
Se assim o pensou, mais depressa o realizou!
Por isso foi um acaso, ou talvez não.
Talvez o destino. Quem sabe?
Ao passar através daquela aldeia, bem grande por sinal, António apercebeu-se de um restaurante. Parou para observar o local.
O estabelecimento estava instalado num edifício com primeiro andar, isolado das restantes construções. Recuado trinta metros em função da estrada que naquele local fazia uma acentuada curva, uma via com dez por cento de inclinação.
Já ali passara, quando atalhava para a costa oceânica, mas nunca lá parara. Nem para um café.
Levantara-se bem cedo para aquela vadiagem. Tomou um pequeno-almoço frugal, soja com flocos. Em tasca café, ou café tasca, aparecidas no caminho, já bebera dois cafés e um moscatel. Nos dois casos metera conversa e tomara alguns apontamentos.
Reparou que já começara a falar como bom saloio, fenómeno que acontecia sempre que ia de alma e coração para o seu Oeste.
O tempo foi passando e agora começava a sentir vontade de meter alguma coisa no estômago. Moral da estória, estava com fome. Já era quase treze horas e aquele restaurante estava mesmo no sítio certo.
Parou a Rocinante junto da porta de entrada do café. Já no exterior da viatura executou alguns exercícios físicos para desentorpecer os membros em especial as pernas.
- Águia Azul, que nome paradoxal para restaurante. Águia é do Benfica, azul é Dragão. Mas esperem lá. Temos a Águia francesa a ser esmagada pelo leão inglês. Como aparece no monumento na praça Mouzinho de Albuquerque no Porto, junto à avenida da Boavista. Já entendi tudo! O café deve fazer parte do restaurante…
Tudo isto pensou António d’ Barcellos nos poucos segundos que o levaram da carrinha à Águia Azul.
Então entrou no restaurante, sentido que algo o empurrava para ali. Seria a fome? Ou seria alguma aragem espiritual?
A vida é composta de milhares de encruzilhadas, todas elas muito importantes, mas umas mais que outras. Todos os dias, todos nós as temos. Uma simples mudança e a estória de muitos, será alterada.
Todos sabemos que é uma verdade de La Palice, mas raramente pensamos nisso.
Por um acaso, António chegou a uma encruzilhada. Por um acaso António entrou naquele restaurante da beira da estrada numa aldeia do interior do seu Oeste.
Em sala com alguma escuridão, o movimento era quase nulo, talvez doze a quinze clientes para uma lotação de cinquenta.
O nosso homem, não gostava de restaurantes vazios. Era mau sinal! Seria má comida, preços elevados, ou fora do circuito. Qual seria o caso dali?
Sentou-se! Uma senhora de meia-idade, um pouco mais nova que ele, pediu para aguardar. Foi com delicadeza e açúcar na voz. António respondeu-lhe no mesmo tom.
- Tenho todo o tempo do mundo, esteja à vontade.
- Muito obrigado senhor, mas basta-me uns minutos.
António nunca ali estivera, mas o ambiente parecia-lhe familiar. Começou a observar tudo atentamente. Pouco depois concluiu que gostava e subitamente sentiu-se bem. Estava em estado de euforia.
O homem conhecia bem a região, que tinha para ele uma serie de motivos de interesse, contudo o restaurante não conhecia. Enquadrado numa aldeia fora de estrada principal. Sentiu que era um sítio ideal para escrever longe do mundo, longe dos conhecidos.
Correndo da sala para a cozinha e da cozinha para a sala, a senhora de meia-idade não parava um momento, tudo fazendo. Dava prazer vê-la trabalhar.
António reparou que a mulher não perdia viagem, conjugando o trazer comida e bebidas com o levar de loiça para lavar. Estava atenta ao mais ínfimo pormenor. Chegou por isso à conclusão que ela tudo fazia no restaurante. Tudo não, do lado do café vinha de tempos a tempos um homem novo trazer os cafés, um jarro de vinho ou uma garrafa de água.
- Mais uma vez, boa tarde minha senhora. Que temos para o almoço?
A mulher explanou a ementa, que o António ouviu atento. Por fim lá tomou uma decisão.
Após algumas larachas de parte a parte, a funcionária partiu para a cozinha para tratar das entradas e do prato escolhido.
Quem estivesse de lado chegava fácil à conclusão que se estabelecera uma empatia entre António e Maria Júlia. Era este a nome da mulher.
O almoço estava a correr bem. António ia sempre dando dois dedos de conversa com Maria Júlia. Esta, sem parar o trabalho, ia respondendo.
O nosso sessentão, era um escritor amador. Gostava da região, interior de um concelho já de si interior. O seu tempo era todo o tempo do mundo, até a megera o chamar para atravessar a Ponte.
Ainda o almoço, longo por sinal, não terminara, António já sabia que Júlia era viúva e ultrapassara há pouco os sessenta anos. O filho Carlos ajudava tomando conta do Café. Era uma vida de muito trabalho mas limpa.
- Por acaso vocês não alugam quartos?
- Por sistema não, mas temos dois para alugar por períodos mais ou menos longos. Porquê, estava interessado? Tenho um muito bom com casa de banho.
- Diga-me o preço dona Júlia.
- Por favor deixe, dona, de parte. Só Júlia, Maria ou Maria Júlia O aluguer custa aquilo que combinar com o cliente, depende do número de dias, da época. Mas nunca abuso. Quaisquer vinte euros, sem pequeno-almoço, dão para pagar. Se for muitos dias ainda faço um desconto. Quantos dias, pretende ficar, senhor?
- António, ou Pedro se desejar. Chamo-me António Pedro: Diga-me o custo para uma semana?
- Uma semana, sete noites, faço cento e vinte euros sem pequeno-almoço.
- Está bem! Posso ficar hoje?
- Claro Pedro. Gosto mais de Pedro. Já agora, vai jantar?
- Sim Júlia! Vou estudar a aldeia e os arredores. Depois janto e ao serão vou trabalhar. Agora dê-me a conta.
- São doze euros!
- Aqui está mais vinte para o quarto. Às sete e trinta cá estarei para o jantar.
Após isto, António saiu para o exterior. Respirou a ar puro que soprava do lado da serra. Apreciou a paisagem que via do parque do restaurante. Meteu-se na viatura e conduziu até ao alto da colina. De lá a abrangência paisagística era imensa e espiritualmente bela. Longe ao fundo, para as bandas do oeste via-se o oceano.
Mais tarde queria caminhar pela aldeia que tinha um nome patusco. De súbito passou pelo nosso homem um bando pintassilgos. Foi um momento mágico, António adorava pintassilgos.
No restaurante, Júlia despachava os últimos clientes. Após lavar a loiça e arrumar a cozinha, foi preparar a sala para a noite. Voltou à cozinha para organizar os ingredientes para o jantar. Como costume não seriam muitos clientes.
Ao almoço não passavam de quinze a vinte, à noite seriam metade mais um menos um.
Depois da ida à colina, António voltou à aldeia. O tempo estava agradável, céu limpo mas sem excesso de calor, o frio também não incomodava.
Muitos idosos sentavam-se na soleira das portas. O escritor amador ia metendo conversa com alguns. De imediato estórias de vida vinham à baila. Passou resto da tarde nisso, gravando conversas com autorização dos intervenientes. Um sofisticado gravador de pequena dimensão era a sua principal ferramenta.
Aqui e ali foi tirando fotos, aos velhos, às crianças, aos animais, às casas e à paisagem.
Numa pequena taberna com pretensões a café, instalou-se. Bebeu a sua bica e o seu moscatel. Num caderno A5 quadriculado, foi tomando notas de alguns pormenores que não queria esquecer. Esta dos blocos quadriculados era uma velha tara assim como escrever a tinta negra.
Quando chegou ao restaurante, levou da carrinha uma pequena mala de viagem, sempre preparada para as suas fugas repentinas. Dentro tinha: cuecas, camisolas, camisa, pólo, meias, lenços, pijama. Também as higienes: gel de banho, shampoo, escova de dentes, etc. Alem disso o computador. Era um homem baldas, mas metódico, um paradoxo.
Ao entrar na sala, foi recebido por um sorriso de Maria Júlia. Via-se que ela estava feliz por o ter ali. Era compreensivo, era algo de novo na vida da bonita senhora.
- Então como correu a tarde José?
- Muito bem. Trabalhei bastante, foi produtivo. Mas gostei mais do almoço.
Uma expressão de prazer irradiou do rosto de Júlia. Que lindo piropo. Pensou a mulher.
António sentou-se e continuou a escrever. Fazia-o em velocidade estonteante, quase frenética. Júlia fascinada ia sempre observando pelo canto do olho.
Escolhido o jantar, escolhido o vinho a refeição foi um prazer, um êxtase. António a um canto da sala, acompanhava todos os movimentos de Júlia. O seu andar, as pernas, os seios que por vezes oscilavam, o cabelo que rodeava a belo rosto. António com o vinho, sentia crescer em si exponencialmente a beleza feminina. As feias tornavam-se bonitas, as bonitas ficavam maravilhosas. Ainda por cima Júlia era mesmo uma linda mulher, mesmo muito em função da sua idade.
Mas António gostava de mulheres de sessenta ou mais, embora Júlia não aparentasse a idade que tinha.
O nosso homem ficou na sala até sair o último cliente. Depois pediu a conta e a chave do quarto.
Recebeu da Júlia as informações necessárias. Ante de ele subir ao primeiro andar, ela inquiriu.
- José, vou para cima, por volta da meia-noite. Quer que lhe leve algum chá ou outra bebida?
- Sim Júlia, gostava imenso. Até porque gostava de falar um pouco consigo. Não há inconveniente?
- Terei muito prazer, não há inconveniente, sou uma mulher livre. Além disso o meu filho não fica cá, vai para sua casa que fica na rua de cima.
- Então vou trabalhar e espero por si.
Olharam-se e um subtil sorriso apareceu nos dois rostos.
António subiu a escada interior que dava acesso um pequeno hall transformado em sala de estar, entrou no quarto e ficou satisfeito. Era amplo, tinha cerca de cinco metros por quatro e uma varanda com vista para o vale.
Tudo tinha ar de limpeza, a mobília revestida a fórmica bege dava um ar de leveza ao ambiente. Era moda nos anos cinquenta/sessenta, este tipo de mobiliário, com o advento dos termolaminados. A cama de casal era larga e estava coberta com uma bonita colcha de renda em que predominava o azul e branco. Uma cómoda, um guarda-vestidos, duas mesas-de-cabeceira, uma secretária e duas cadeiras completavam a mobília. Minto! Havia ainda um bonito baú, um cabide de pé e outros dois aplicados na parede.
O quarto de banho ainda com banheira, tinha as paredes forradas a azulejo branco com tiras em azul. Tudo tinha muito bom gosto, embora nada de luxos desnecessários.
Como já disse, a quarto dava para uma ampla varanda, assim como o segundo quarto dava para a mesma varanda. Esse quarto era onde Maria Júlia dormia. Quando havia hóspedes para estes quartos, a mulher mudava-se para um pequeno nas traseiras do edifício no piso debaixo. Neste andar ficava o restaurante, café, garagem, dispensa e o tal pequeno quarto.
António tirou da pequena mala, pijama e chinelos, assim como a saqueta das higienes. O pijama é uma forma de dizer, tirou as calças, para cima dormia de camisola interior e no calor sem nada.
Foi lavar os dentes, depois ligou o computador. Abriu o caderno A5, sentou-se e sobre a mesa começou a escrever em ritmo acelerado. Queria pôr o dia no papel. Escreveu, escreveu, escreveu!
Embora houvesse TV no quarto nem lhe passou pela cabeça ligar o aparelho. Um pouco de música clássica fazia-lhe falta, mas decidiu passar sem esse prazer.
Para ele, a música maior no momento, era a doce voz de Maria Júlia.
A estadia naquele quarto fora de impulso. Atitude que António fazia em muito lado. Por isso, levava no carro, sempre, a mala preparada com o imprescindível.
Na parte de baixo, Maria Júlia arrumava a cozinha para depois organizar os produtos para o almoço do dia seguiste. Ela numa decisão de boa gestora e bom senso, confeccionava os menos pratos em cada dia da semana. Um dia cozido à portuguesa, outro dia bacalhau com todos, outro dia feijoada, outro dia borrego e por aí fora.
Maria Júlia era muito eficiente. Conseguia fazer tudo porque o seu planeamento era bem pensado e rigoroso. Trabalhava das oito da manhã até às vinte e quatro, dezasseis horas de labuta era obra. Embora a pressão não fosse sempre igual, nunca fazia as tarefas a correr, ou à balda. Era uma grande fundista da vida.
Enquanto executava as tarefas do fim do dia, Maria Júlia pensava no senhor António Pedro d’ Barcellos que aparecera nesse dia ao almoço e que agora estava no quarto principal no primeiro andar do seu edifício.
No seu pensamento de pessoa inteligente mas simples, ela sentia que ele ficara por causa ela. E como tinha razão.
Na verdade, raramente a bonita mulher aceitava alugar os quatros por uma noite ou duas. Ela por vezes alugava por períodos longos a professoras, funcionários públicos, ou para receber família.
Naquele caso não resistira, desejava mesmo isso. Houve algo a tocar no seu subconsciente. Sentiu-se bem, sentiu-se feliz, sentia-se a flutuar.
Pensou em voz alta: Que bebida vou levar? Levo chá de cidreira, é bom para os nervos, estômago e para dormir.
Depois continuou, desta vez só para ela: Que fará este homem tão distinto? Deve ser professor, escritor ou coisa parecida.
Já com a sala das refeições e cozinha em ordem, a Júlia preparava as hortaliças para o dia seguinte, da cabeça não saía o homem que entrara nesse dia na sua vida: Vou levar o chá e bebo também. Será no quarto ou será melhor na saleta do primeiro andar? Ele que decida: estou por tudo!
Num tabuleiro meteu o bule, duas chávenas, açúcar, um prato de bolos secos e dois guardanapos. Antes de subir, foi ao quarto de banho e deu uns retoques no rosto e no cabelo. Sorriu, gostou do que viu. Ao bater das badaladas da meia-noite, Maria Júlia pegou no tabuleiro e subiu as escadas interiores de acesso à habitação. Ia feliz mas muito nervosa.
Maria Júlia tinha sessenta e dois anos, mas ninguém lhe dava sessenta. Era loura mas verdadeira. Era daquelas mulheres que apareciam de tempos a tempos nas grandes famílias das aldeias do centro e norte do país. Obvio que também apreciam machos. Os cabelos tinham a cor das barbas de milho. Os rapazes designavam-se por russos e as mulheres por louras. Maria Júlia era uma loura.
Nascera numa aldeia da serra Amarela lá para os lados do Gerês no Minho.
Ainda adolescente fora para o Porto para servir em casa de gente importante. Mas pessoas decentes que sempre a respeitaram. Passaram-se alguns anos até conhecer o magala Agostinho.
Depois de um namoro de um ano, após a passagem à disponibilidade do rapaz, juntaram os trapinhos e casaram. Continuaram no Porto uma temporada.
O rapaz era um bom homem, pedreiro de profissão.
Um tempo depois devido à falta de trabalho na cidade invicta, partiram para a região do Agostinho no Oeste do país. Aqui o marido de Júlia herdara dos pais uma fazenda e uma casa velha embora grande.
Um dia, através duns primos proporcionou-se uma hipótese de ida para o Canadá e eles foram.
Lá longe nasceu o filho Carlos. O único do casal.
Ela não desgostava do Canadá e do frio que lá havia, porque era natural de uma serra e tinha sido habituada à neve. O pior era o Agostinho, tinha saudades do clima do Oeste, único na Europa. Nunca se adaptou a emigrante do frio. Por outro lado Portugal com a entrada na UE parecia crescer a olhos vistos.
Decidiram regressar! Com o dinheiro amealhado e a reforma que valia muito no país natal, Agostinho decidiu fazer obras no velho casarão. No projecto incluiu um restaurante e um café.
Assim nasceu o restaurante onde Maria Júlia trabalhava dezasseis horas por dia, todos os dias da semana.
O filho já crescido não quis estudar. Casou com uma moça da terra e ficou a tomar conta do café. Agostinho, entretinha o seu tempo fazendo uns biscates na construção civil e na lavoura da sua fazenda.
Estava tudo certinho naquela normalíssima família!
Um dia, já lá vão doze anos apareceu uma coisa má ao patriarca da família. Após uma luta inglória, Agostinho partiu para se juntar aos seus antepassados.
Maria Júlia ficara viúva aos cinquenta. Após sentido desgosto, reagiu e agarrou-se com afinco ao negócio. Ela e o filho lá se foram desenrascando.
Embora muitos homens a contra piscassem, porque era bonita, jeitosa e com haveres, nunca mais quisera homem. Até porque nenhum a encantara.
Nas noites de desejo e desespero que a abafavam, Maria Júlia tocava-se sem qualquer complexo. Fora uma jovem professora que a ensinara.
E assim chegámos ao dia de hoje!
António Pedro d’ Barcellos quem era?
Simplesmente um homem do mundo!
Um ser com muitas paixões. Não me refiro só a mulheres. Falo de muitos outros interesses, incluindo a paixão pela vida. Gostava de muita coisa, mas de mulher também. Mas escrever, escrever, escrever, era a sua maior paixão.
Homem de muitas vidas de que não falaremos, exceptuando o necessário.
No seu agradável e confortável quarto o nosso António Pedro d’ Barcellos. Escrevia sobre o dia, dia muito gostoso. Desde o momento que partira de casa na sua Rocinante a caminho do seu Oeste.
Ainda pensara desafiar o seu irmão José ou a sua irmã Maria Rita. Algo lhe disse para ir só. E assim, partiu sem companhia.
António visitou pequenas coisas nesse dia, escreveu, conversou, tirou fotos. Pequenos monumentos, nascentes, colinas, paisagens. Apreciou, árvores, flores e muitos pássaros. Alguns repteis, um coelho aqui uma lebre ali. Com autorização fotografou pessoas, conversando um pouco com cada.
Nada disso era invulgar, António fazia isso com regularidade. Tanto nas aldeias como na cidade grande.
O tempo foi passando. António voltou à actualidade quando ouviu a primeira badalada da meia-noite no sino da igreja da aldeia.
Voltou o seu pensamento para a Maria Júlia e a sua alma sorriu.
Pouco depois ouviu umas suaves pancadas na porta. Elas diziam que a dona do restaurante estava do lado de fora com o combinado. António levantou-se e foi abrir a porta.
Um dentro outro fora, ficaram uns minutos a olharem-se como se as duas almas estivessem a falar entre si, através dos sentidos em especial dos olhos negros do António e dos verdes de Maria Júlia.
O homem quebrou o silêncio.
- Que bebida trás Júlia? Onde bebemos?
- Cidreira. Por mim onde quiser, seja no quarto seja na saleta.
- Não se compromete se for no quarto?
- De maneira nenhuma. Não está ninguém na casa, além de nós. O meu filho foi para sua casa. Além do mais sou mulher livre não tenho satisfações a dar.
- Vamos para a saleta e aproveitamos para conversar um pouco.
António sentiu na expressão de Maria Júlia uma ligeira frustração. Os olhos denunciaram a bonita mulher. Mas isso durou poucos segundos.
Em breve estavam conversando sobre os mais variados temas. Maria Júlia não era uma pessoa culta, mas disfarçava mostrando muito interesse por tudo que o homem falava. Por sua vez, o Barcellos, tinha cuidado de não exagerar nos temas nem na complexidade que podiam deixar a Júlia pouco à vontade.
Passou-se assim meia hora. O chá foi bebido e repetido e os bolos deglutidos. Em certa altura Júlia disparou.
- António Pedro fica cá só esta noite. Fica cá mais alguma? Voltará cá mais vezes?
O homem sabia que o caminho para o Éden estava aberto, contudo sentiu que Maria Júlia estava bem cansada devido ao dia de labuta. Por isso achou por bem não forçar. Para quê matar já a magia.
- Júlia, penso ficar cá mais duas ou três noites. Penso voltar mais vezes. Sinto-me bem na região, a sua comida é muito boa, o quarto é excelente. Além de tudo o mais sinto uma grande empatia com a Júlia.
Para uma pessoa atenta, esta conversa do António era uma declaração de intenções…
- Fico contente, muito feliz mesmo! Agora vou descansar que amanhã às oito tenho de entrar ao serviço. O restaurante não pára.
- Tem razão, já é quase uma hora e tem um ar cansado. Mas está bonita e com ar feliz.
Júlia sorriu e um ligeiro rubor surgiu nas suas faces claras. Depois António disparou a seta final.
- A Júlia quer que venha cá com regularidade?
- António. Eu quero que venha muitas vezes e se cá ficar para sempre, ainda fico mais feliz!
Sorriram ambos, emocionados despediram-se sem se tocarem…
Amanhã seria outro dia… Eles sabiam isso!
Fim da primeira parte
3/2/2016
Nota explicativa
Agora levanta-se uma questão:
Continuar ou não a estória?
Ou será melhor deixar neste pé, escrevendo no fim. Um dia terá uma continuação?!
Penso que a estória ficará assim mais elegante, deixando ao leitor o desejo de saber mais. Deixando ao leitor interessado o desafio para ele escrever a segunda parte. Cada um pode imaginar a sua própria continuação.
Que titulo colocar? Veio-me um à mente, “Um dia no Oeste”. Mas podia ser um outro qualquer. Por exemplo, “ Conto incompleto”.
Como todas, as minhas estórias, esta também tem elementos concretos e personagens copiadas de algum lado, o caso da Maria Júlia e do meu heterónimo António d’ Barcellos. O local existe assim como o restaurante, as paisagens também com sua beleza.
O resto é ficção!
Obviamente é tudo no interior do meu Oeste!
Francisco Pereira de Castro








sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Rosas brancas

Conto de Natal 2015
Rosas brancas
Estávamos no Natal de um certo ano do século vinte e um, era já a década de vinte, talvez vinte e oito ou vinte e nove. Para a nossa estória tanto faz.
Um rapaz bonito, de muito bom aspecto, foi visitar uma senhora, de idade, ao Lar para idosos situado na base do Montejunto.
Ali estavam internadas, umas largas de dezenas, de mulheres de todas as idades. Algumas, um pouco, doentes da mente. As patologias eram as mais diversas.
O rapaz levava com ele um ramo de rosas brancas, rosas de grande pureza que nem espinhos tinham.
No jardim florido, mas agora pouco, o sol aquecia o corpo engelhado daquela bonita idosa. Para as arcadas, dona Sara fora levada, a seu pedido, após a refeição do almoço.
Sentada num confortável cadeirão com rodas, Sara não desviava a vista do portão de entrada do Lar Clínica, que distanciava cinquenta metros do edifício principal.
O seu maior desejo e esperança era, que o seu namorado aparecesse ao fundo, na esquina da rua, com o seu passo gingão e ar irónico de menino presunçoso. Mas era tão bonito, tão bonito…
Tinha muitas saudades do seu grande amor João Simão.
Estávamos na época natalícia, o tempo estava frio, mas o céu límpido num azul fascinante, dava à paisagem um toque de grande beleza. A montanha no seu jogo de verdes e pedregulhos, dava um toque de grandeza ao cenário.
Entre as onze da manhã e as quatro da tarde, o sol aquecia o espaço junto às arcadas do edifício, daquele Lar Clínica, de luxo, para senhoras com problemas da mente e não só.
Sara, era uma dessas doentes. Uma idosa sedutora, no seu sorriso bonito. Não era agressiva, mas sim doente das doenças que a velhice trás com ela. Nada de grave havia na sua postura ou comportamento. Sempre doce no seu falar e simpatia para todos.
Sonhava a dormir e sonhava acordada. As viagens ao passado eram constantes e cada vez ia mais longe. A memória recente estava sempre a apagar-se.
Era um pouco louca, mas uma loucura boa. Era essa a opinião do pessoal da clínica.
Estava ali internada, porque a família não tinha condições humanas para tomarem conta dela em casa.
Toda a vida fora super dinâmica, não parava, mas os oitenta e cinco anos deitaram-na abaixo. Ainda queria andar de rabo alçado (como dizia o seu Simão), mas não podia. Os ossos não aguentavam!
Temos de concordar que a velhota estava bem, naquela excelente instituição.
- Dona Sara, não quer recolher ao salão? Em breve vai arrefecer…
- Não minha querida. Quero ver entrar o meu João Simão.
Esta era a principal cisma de Sara, esperar pelo seu amor. Infelizmente ele nunca chegava e o pessoal até duvidava que ele fosse vivo, ou tivesse existido.
- Faz-se tarde dona Sara, hoje o seu amigo não deve vir. Talvez amanhã.
A empregada sabia que ele não viria, pois nunca aparecera. Se calhar até nunca existira, excepto na cabeça dela.
- Não! Ele vem! Olha, lá vem ele. Como vê estava certa. Vem amor…
Na verdade, um jovem entrara no espaço da clínica, encaminhando-se para o edifício. Trazia com ele um braçado de rosas brancas.
Era um rapaz bonito e simpático, visita habitual da idosa, Era o seu neto Francisco. Adorava a avó e regularmente estava no Lar para visitar Sara.
O jovem, sabia bem das confusões da avó. Tão depressa, pensava que era o seu amado Simão, como mais tarde reconhecia o neto. Por isso ele era muito cuidadoso no trato com a velhota. Pensou: “onde estará hoje o pensamento da minha avó?”
Ao ver o rapaz perto de si, um largo sorriso apareceu no enrugado rosto, ainda com laivos de beleza que o sorrir fazia realçar.
- Olá Simão! Vieste ver a tua velhota?
O rapaz não se desmanchou, de nada valia se o fizesse, era mehor deixá-la na ilusão. Era feliz assim… contudo, sempre que podia atalhava a conversa.
Sara, continuou.
- Meu querido, tens de ter cuidado ao visitar a tua menina. Os meus pais não estão longe. Se aparecerem, dizes que és meu colega no conservatório.
- Mas avó, eu não ando na música e os pais da senhora já morreram há muito.
- Disparate João, não brinques comigo. Talvez isso seja daqui a setenta anos. Vem dar-me um beijo às escondidas.
O rapaz deu dois beijos à avó, mas foi dizendo.
- Avó, avó, que se passa? Sou seu neto.
A velhota não desarmava, estava na sua ilusão. Ela tinha catorze anos e o neto era o seu amor dessa época o João Simão.
Uma enfermeira fez sinal para ele não ligar, nem desmentir.
Francisco beijou mais uma vez a avó e entregou-lhe as rosas brancas.
- Gosto muito de rosas brancas. Tu nunca esqueces isso João. Senta-te aqui ao pé de mim. Daqui pouco vamos até à borda de água, ver os patos e andarmos de barco. Agora vou descansar um pouco. Não te vás embora.
O rapaz não sabia que dizer mas anuiu com a cabeça, ao mesmo tempo que acariciava o rosto da sua querida avó.
Minutos depois, a velhota dormia e o seu bonito rosto parecia estar em paz.
A enfermeira, ajudada por Francisco, levou o cadeirão com Sara para o salão da instituição. Pelo caminho esclarecia o rapaz que aqueles lapsos eram efeitos da doença. Cada vez, dona Sara estava mais no passado e menos no presente.
Francisco no salão, sentado junto à avó, recordava que há muitos anos conhecera Simão. Era já velhote e sua avó também, mas bem mais nova que agora. Almoçara com eles, teria na altura uns oito anos e mais tarde jantaram também, mas já com onze ou doze. Era um homem simpático, ele e a avó faziam um bonito par. Mas pouco mais sabia dessa estória.
Passados quarenta e cinco minutos, Sara acordou e ficou muito contente por ver o neto. Voltara ao presente.
- Estás aí Francisco? Dá cá um grande beijo, muitos! Como estão lá por casa?
- Sim avó. Está tudo bem, temos saudades suas. Venho dizer que na noite de Natal vimos cá todos. Quer pedir alguma coisa de especial?
- Não querido, a vossa presença é o suficiente. Gostaria de ter cá um velho amigo, mas nada sei dele, se calhar nem é vivo. Vou dar-te dinheiro e tu ficas encarregue de comprar prendas para todos. Inclusive para ti.
- Sim avó, eu trato disso. Tenho pena de não saber do seu amigo, eu compreendo.
- Tenho sim Francisco, muitas saudades, mas deixa lá, um dia destes parto e pode ser que o encontre. Agora vai para casa que se faz tarde e começa a estar muito frio. Cuidado com a viagem!
O rapaz partiu e a senhora foi tomar os medicamentos e beber um pouco de chá de cidreira.
Dias depois…
Na noite de Natal desse ano nevou no Oeste. A família apareceu toda no Lar. Não eram muitos mas era o que ela tinha.
Comeram, beberam, trocaram prendas, riram-se muito. Falaram de familiares e amigos, uns vivos outros que já tinham partido. Foram recordações, umas tristes outras felizes.
Em dado momento, Sara ainda desabafou.
- O João Simão não apareceu…
Todos fingiram não ouvir. Após o bater da meia-noite, foram as despedidas com muitos beijos. Todos estavam felizes com os presentes!
- Tenham cuidado no regresso a Lisboa. Obrigada por tudo!
Após a saída dos familiares, Sara foi lavar os dentes. Olhou-se ao espelho e sorriu para si, dizendo em voz alta.
– Ai João, João, meu safadinho!
Depois deitou-se na confortável cama daquele Lar do Montejunto. Queria recordar, recordar, recordar. Podia ser a sonhar ou acordada.
As horas passaram, a neve continuava a cair, toda a serra estava coberta com intenso manto branco.
Ainda não clareara, quando Sara ouviu bater na vidraça das portas que davam para a varanda. Assustada foi ver o que se passava. Do lado de fora estava um velho vestido de pai Natal, mas não era vermelho mas sim verde como o São Nicolau.
Ele insistiu no bater e ela abriu…
Era o seu João Simão!
- Que fazes aqui mascarado de pai Natal. Estarei a sonhar, meu Deus.
- Não estás a sonhar minha querida, sou eu, sim! Trabalho na Lapónia como pai Natal. Acabei agora as entregas, vou regressar.
Sara, não sabia como reagir, sentia-se leve com se fosse a menina de catorze anos. Estava tão feliz, mas não entendia nada. Abraçaram-se…
- E agora meu querido?
- Agora? Agora vais comigo, tenho ali o trenó e agasalho para ti. Vamos!
E foram! Pouco depois o trenó sobrevoava a montanha mágica na direcção do pólo norte…
No lar, na manhã seguinte, devido à demora a empregada entrou no quarto da dona Sara. Estava lá o corpo, com uma expressão de felicidade. A alma partira para a Lapónia com a alma do João Simão.
FIM
7/1/2016
Este conto de Natal é dedicado a uma pessoa especial, com a maior gratidão, respeito, ternura e amizade!
ZM




segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Joaninha Lua

O drama da joaninha Lua
Era uma vez uma jovem joaninha que tinha muita vaidade nas suas seis pintas negras que forravam o exterior do seu vestido vermelho.
Aquela joaninha bonita, mas algo supérflua, chamava-se Lua e era a perdição dos insectos macho, daquele florido pomar. Grilos, besouros, gafanhotos e outros mais invulgares, perdiam a cabeça ou seja o tacto, devido à paixão que ela inspirava neles, nos machos conquistadores daquele paraíso.
Naquele dia de primavera a nossa adolescente foi passear através de uma romãzeira que floria em pleno. Após saborear o pequeno-almoço composto por ofídios, pequenos piolhos malignos, a nossa joaninha decidiu bater uma sorna debaixo das frescas folhas da romãzeira.
Lua não dormiu muito tempo. Entretanto, sonhou que namorava com um belo zangão que andava a inquietar o seu volátil coração. Acordou ao som de uma monótona melodia executada por uma cantora muito irresponsável, a cigarra dona Escura. Em voz alta Lua exclamou. – Esta senhora também não sabe outra música, até incomoda o mais paciente.
Nesse meio tempo perscrutou a paisagem para tentar descobrir a cantora, mas só viu uma formiga que atarefada fazia pela vida, o inverno chegaria um dia e devia ser rigoroso. Era preciso encher a dispensa e depressa, para a família não passar fome nesse período de invernia.
- Já andas na labuta formiga Obreira? Tu exageras, tens também de viver a vida, diverte-te rapariga.
- Pensas que tenho as tuas bonomias? Comer, passear e namorar. Alimentas-te de vermes e insectos viventes, terás sempre comida nos teus cento e oitenta dias de vida, mas eu sou vegetariana, por isso tenho que fazer reservas para o inverno.
Apressada a formiga afastou-se com o seu pesado fardo de comida, mas antes ainda exclamou.
- Que se passa contigo Lua? Estás hoje diferente mas não sei dizer o quê.
Após fazer esta afirmação continuou na sua azáfama à qual se juntou uma sua irmã.
- Que se passará comigo? Assim pensou a nossa joaninha, não sentia dores nem estava mal disposta.
Entretanto uma abelha, a Maia, esvoaçava de flor em flor para encher a seu depósito de pólen.
- Bom dia Lua. Que se passa contigo? Hoje estás diferente, não estás tão bonita como de costume.
Dito isto Maia afastou-se. Lua começou a ficar preocupada. – Que se passa meu Deus dos insectos? Pensou ela em silêncio.
Entretanto, mais alguns amigos e amigas passaram por ela e todos disseram o mesmo.
- Estás diferente, mas não sabemos em quê, nem o porquê.
Claro que nem a joaninha sabia, mas não estava a gostar nada da situação. Lua então decidiu ir ver-se no primeiro espelho que encontrasse, coisa que não foi difícil. Na parte inferior da romãzeira gotas de orvalho eram às dezenas. Chegou perto de uma por sinal bem grande e límpida. Olhou para a sua imagem com muita atenção, logo viu o que se passava. Não tinha no vestido vermelho as seis pintas negras, alguém durante o seu dormir as roubara.
- Meu Deus dos insectos, estou perdida, sem as minhas pintas negras pareço um tomate maduro.
A jovem joaninha chorou a bom chorar, lágrimas das verdadeiras. Foi para casa, queria desabafar com a sua mãe. No caminho encontrou a lagarta Verde, a quem contou o seu drama. Esta deu-lhe então uma útil informação.
- Sabes Lua, quem eu vi junto a ti enquanto dormias? Foi o grilo Cantante.
-Então foi esse malandro, anda sempre a fazer marotices, vou já à procura dele. Obrigada lagarta Verde.
Se assim o disse mais depressa o fez. Após procurar durante três horas, horas em que todos continuaram a dizer que Lua estava diferente, mas não sabiam porquê. Mas agora ela replicava. – Foi culpa do malandro do grilo Cantante, roubou-me as minhas seis pintas negras. Entretanto acabou por encontrar o reguila do grilo Cantante, o terror das mães com meninas adolescentes.
- Olá linda joaninha, hoje não está tão bonita como de costume. Que te aconteceu?
- Não gozes, tu bem sabes, meu malandro. Porque roubaste as minhas seis pintas negras?
- Eu? Eu não roubei nada, não levantes falsos testemunhos. Só estive a admirar-te enquanto dormias.
- Mentiroso! És sempre o mesmo, não posso confiar em ti, nem eu nem ninguém.
Realmente Lua tinha uma paixão assolapada pelo belo grilo, este correspondia mas não gostava do excesso de vaidade da joaninha.
- Nunca acreditas em mim, paciência.
- Claro que não acredito, não quero mais nada contigo. Enquanto não me devolveres as minhas seis pintas negras, não mais te falarei.
- Mas eu gosto de ti mesmo sem pintas!
- Não me interessa. Sem pintas não haverá mais nada entre nós, deixa-me.
- És uma joaninha vaidosa, para ti só a beleza conta, passa bem quando quiseres procura-me.
Lua partiu para casa a voar e a chorar. O seu conflito era imenso, um drama entre o amor e a vaidade. Ao chegar foi para o regaço da mãe joaninha.
- Mãe, o grilo Cantante é um malandro, roubou as minhas seis pintas negras, não o quero ver mais.
- Tens a certeza que foi ele? Por vezes há equívocos.
- Ele bem negou, mas eu não acredito na palavra dele, viram-no perto de mim enquanto dormia.
- Filha, espero que não te venhas a arrepender,
O tempo passou e o grilo sempre a negar. Mas também não abria o jogo, queria ver até que ponto a Lua preferia a beleza ao amor.
Passaram-se uns dias, Lua não perdoou mesmo.
Numa certa tarde começou a cair uma chuva miudinha, mais tipo cacimbo forte. A nossa joaninha voava, acabando por se molhar completamente. Abrigou-se debaixo de uma enorme folha de figueira, ao lado noutra folha formara-se um lago que reflectia as imagens. Lua foi mirar-se no espelho do lago e qual não é o seu espanto as pintas estavam novamente no seu vestido.
Afinal, o grilo Cantante não roubara as seis pintas negras, só as pintara de vermelho com o sangue do seu corpo. Fizera isso para dar uma lição à joaninha vaidosa.
Esta exclamou chorando.
- Que raio de porcaria eu fiz? Estraguei tudo, valha-me Deus dos insectos.
Nessa altura já o grilo Cantante namorava a formiga Obreira e não mais quis saber da joaninha Lua.
Lisboa, 21 de Julho de 2013

José Bray
Nota: Este conto infantil, foi escrito parte às oito horas da manhã na Flor do Império e a outra parte no Jardim Constantino ao meio-dia. Nesse dia, mergulhado na minha solidão senti que alguém tinha roubado a minha cidade. Sensação estranha!




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O Viajante

Introdução.
No século XX, em especial na primeira metade, mas que ultrapassou o próprio 25 de Abril, muitas empresas tinham uma forma sugéneris de vender os seus produtos através da província. Enviavam vendedores que passavam a semana fora, por vezes duas e alguns andavam por lá um mês. Eram os chamados caixeiros-viajantes, mais vulgarmente só designados por viajantes. Eram muito importantes para o bom funcionamento comercial e industrial desses mundos desfasados dos grandes centros. Era vulgar ouvir-se nas pequenas cidades e vilas. - O viajante vem aí. - Quando o viajante chegar. - O viajante está ai. - O viajante trás esse produto. - O viajante resolve. Com a modernidade a necessidade de haver caixeiros-viajantes foi-se evaporando. Hoje só em situações especiais eles se justificam. Muitas empresas conservadoras levaram tempo a entender esta mudança de paradigma.
Esta é a estória dessa mudança e do drama dos homens que viveram na pele a situação.
José Bray

O Viajante
Etelvina lavava a loiça do jantar que por sinal era pouca, dois pratos, dois copos, uma pequena panela, alguns talheres, entre os quais uma concha. A janta como era hábito, tinha sido uma sopa, neste caso de legumes. Um pouco de queijo, maçã e no fim um chá para ajudar a dormir. Quase todas as hortaliças e fruta vieram da horta/pomar que ficava na traseira da pequena casa situada na periferia daquela cidade industrial. Tudo, Etelvina cultivava com carinho e por necessidade. Diga-se de passagem que também era um entretém para a monotonia e solidão da sua existência.
Etelvina continuava a arrumar a cozinha, tinha o corpo presente mas a alma estava ausente. O seu pensamento voava através dos tempos do passado. Recordava a sua meninice, menina pobre e triste, que sonhava em viajar e ser tratada com carinho. Viajando à velocidade da luz na sua mente trespassou toda a sua vida já vivida. Lá estava o seu grande amor, bonito, charmoso, cheio de lábia, capaz de vender areia no deserto e gelo nos pólos. Depois os filhos, dois, nascidos quase de seguida. Um bem instalado na vida, o outro não tanto. Ambos com companheiras, raparigas decentes e senhoras do seu nariz. Ainda bem que assim era, chega de tanta descriminação. Depois os três netos, duas raparigas e um rapaz. Com a viagem através memória a chegar ao presente, pensava no seu envelhecido companheiro, que tão ausente andava. O grande amor da sua vida e único. Namorado, marido, companheiro, amante: fora quem a tratara pela primeira com verdadeira meiguice numa entrega total a que ela sempre correspondera.
Adalberto Costa, diga-se de passagem, estava duplamente ausente. Ausente sim, desde segunda-feira de madrugada até ao almoço de sábado. Ausente em casa de tudo e todos. Só animava um pouco após a vitória do seu clube, misturada com alguns copos de vinho tinto.
Naquele preciso momento, em que a sua companheira arrumava a cozinha e desbobinava memórias, Adalberto com a cabeça entre as mãos e cotovelos apoiados na mesa redonda, pensava na frustração que era a sua actual vida profissional. No dia seguinte ao amanhecer sairia de casa para pôr o pé na estrada. O destino era uma pequena cidade, distanciada uma centena de quilómetros. Depois, durante toda a semana iria saltar de povoação em povoação. O seu transporte era uma velha carripana tão cansada como ele. Uma carrinha de caixa fechada, para levar as amostras dos produtos que ele comercializava há mais de trinta anos.
O Adalberto, Berto para a família e amigos, era um caixeiro-viajante, como era designado nos velhos tempos, os vendedores que andavam pela província e lá dormiam mais ou menos noites, dependendo do seu mercado.
Etelvina de Jesus olhou para o marido, sentiu pena do seu homem, embora ninguém tivesse pena dela, nem da sua vida monótona e trabalhosa. A mulher alta e escanzelada, há muito perdera a frescura dos anos. Nunca engordara, ou era dela ou dos problemas da vida. Criara praticamente sozinha, os três filhos e ajudara também as noras na criação dos netos. A comida também nunca fora muita, além disso ainda tirava à boca para dar aos seus. Em nova fora uma mulher bonita, que ainda criança se apaixonara e muito pelo seu Berto, que também era um belo homem, alegre e falador.
Meu Deus que lábia tinha… pensou Etelvina. No princípio do casamento tudo era um sonho, tudo era paraíso. Seu homem era um triunfador. Vendedor, ganhava bem a vida. Não era muito instruído, mas a sua simpatia e magnetismo compensava tudo.
Na primeira dezena de anos, o companheiro ainda não andava em viagem, mas com o tempo o patrão assim exigiu. A sua falta de instrução obrigou-o a aceitar essa imposição. Na altura não houve problemas, o homem ganhava bem. Adalberto tudo fazia para chegar a casa na sexta ao cair do dia, depois em três noites recuperavam as carícias ausentes. Por vezes, nesse tempo, ela ia com o companheiro na viagem. Eram semanas maravilhosas que ela recorda com saudade.
Depois…depois com o passar dos anos, chegaram os filhos e tudo foi mudando, menos a paixão pelo seu homem.
- Então Berto, que se passa? Vem deitar querido… não te esqueças que amanhã tens de levantar às seis.
Assim falou a mulher após terminar a arrumação da cozinha. Nesse dia, a família directa não viera almoçar conforme era costume ao domingo. Tinham ido para uma festa de anos. Embora convidados, o casal já a entrar no outono da vida, não quisera ir. Adalberto não estava para festas e ela como sempre esteve solidária com o seu homem. A nossa Etelvina estava muito preocupada com o seu marido. Sentia nele, um imenso desânimo e receava que ele desistisse.
Na verdade um drama estava a acontecer com o velho vendedor…ele muito orgulhoso não contava à companheira. Pensava: ela também nada pode resolver só iria ficar muito preocupada e a sofrer. Já chegava ele estar amargurado.
Há duas semanas, através da secretária da administração, o Adalberto Costa, tinha sido convocado para ir ao escritório central. Na segunda-feira antes de partir para a viagem tinha de estar presente para falar com o director de vendas. O chefe directo do nosso viajante, era um jovem recem formado, cheio de tecnologias modernas e muitas manias no seu cérebro imaturo. Faltava ao rapaz, a experiencia e a patine do tempo.
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Adalberto Costa à hora marcada lá estava à porta do vistoso e imponente gabinete. O homem maduro, com quarenta anos de luta no mercado das vendas, estava em alta tensão e com as tripas a darem voltas e mais voltas. Estava dominado pelo medo, cheio de ansiedade. Sabia que coisa boa não vinha aí.
Depois de esperar meia hora, atraso normal, até porque o doutor tinha isenção de horário, coisa que ensopava todas as faltas ao serviço. Por fim o nosso homem recebeu ordem para entrar no gabinete.
- Bom dia senhor doutor, cá estou… conforme sua convocatória.
Após o aperto de mão da praxe, forte do Adalberto, pastoso e mole do seu superior. Este com um falso sorriso. Falou… com falinhas mansas.
- Olá senhor Costa, bom dia, sente-se por favor. Esteja à vontade. Quer um café?
Ali estava: de um lado um homem maduro, experiente na vida, com mil batalhas travadas, com filhos e netos. Com expressão de derrotado e sem armas para se defender. Do outro lado, do alto do seu pedestal, estava um miúdo sem nenhuma estrada percorrida, nada sabendo da vida, com o curso tirado a custo e com muitos custos. Tinha um ar de vitorioso, sem nunca ter feito nada, a não ser ter ocupado aquele cargo por ser filho de um dos maiores accionistas daquela poderosa empresa.
Tanta simpatia não era presságio de nada de bom…assim pensou o nosso viajante, tentando manter dignidade na pose. Ele que no passado era um profissional confiante e sempre na crista da onda, sentia-se agora um derrotado. Fora um senhor nos tempos do velho patrão. Na verdade o fundador da empresa era muito seu amigo. Costa, tinha sido um dos obreiros do negócio, no seu inicio. O patrão sempre reconheceu isso e ficou agradecido. Essa amizade permitiu que todos respeitassem durante muitos anos o Costa. Mas esses tempos e esse estado de graça tinham passado há muito.
- Obrigado doutor mas parei com o café, agora só chá.
O crescimento da empresa, a falta de ambição do Costa, o não querer benesses e postos de comando, juntando o handicap de não ter estudado mais e mais. Tudo isso deu origem a uma ultrapassagem que se foi acentuando, dia após dia, ano após ano.
Um dia, o Costa acordou para a vida e chegou à conclusão que perdera o jogo. Era agora um insignificante dentro da imensa empresa. Nascera vendedor e queria morrer vendedor, estava no seu ADN, nada mais quis da vida. Só vender e amar a sua Etelvina.
- Faz bem, faz bem! Então senhor Costa como vai a vida? Vai mal, não é?
O jovem parou uns segundos e depois fazendo uma expressão séria no seu rosto imberbe e sem barba continuou.
- Costa, as suas vendas continuam a baixar. O seu volume está cada vez mais na zona vermelha. O senhor já não rende o suficiente para aquilo que custa à empresa. Não podemos continuar assim. Ou recupera ou teremos de resolver o problema.
O Costa apresentou os seus argumentos, mas o director nem o ouvia. O viajante era uma unidade a abater, o resto não contava. O Costa estava a mais!
- Em conclusão senhor Adalberto Costa, vou dar-lhe mais três ou quatro semanas. Se o volume de vendas não aumentar, apresentarei o caso à administração e eles que resolvam. Isto será assim porque a senhor tem um velho estatuto e merece alguma consideração. Bom dia e boa semana com muitas vendas.
O Costa ia novamente argumentar, mas o jovem director já estendera a mão direita para o cumprimentar e despedir e a esquerda para pegar no telefone e atender uma chamada, ou falsa chamada.
O condenado saiu do gabinete vergado ao peso do seu drama. A secretária olhou para ele e sentiu um aperto no coração. Ou na alma tanto faz. Conhecera o Costa ainda ele estava na flor da vida cheio de charme e dinâmica. Tinha sido quando entrara miúda na empresa e ele tinha sido um bom amigo.
Agora caros leitores, já conhecem o drama deste velho viajante, ao fim e ao cabo igual a milhares de outros nas gerações do passado.
Nessa madrugada Etelvina sentiu que algo andava no ar, nessa noite o casal amou como já não era muito habitual. Tinham sessenta anos e tudo se tornou um hábito, e depois até o hábito se foi. Amor havia sempre, mas nessa noite foi paixão, como quando eram novos. Adalberto empregou-se a fundo e Etelvina foi sempre igual a si, com em todos os momentos que o seu homem a procurava. Nessa noite, ambos pareciam ter voltado à juventude, a felicidade reflectia-se no rosto de ambos: na sua mente e no coração, a sua Etelvina estava bonita e feliz como fora no inicio…
Enquanto Adalberto tomava banho, a companheira preparou o mata-bicho, após dar uma vista de olhos à pequena mala, para conferir a roupa para a semana. Depois em silêncio comeram, mas sorriam um para o outro.
A despedida aconteceu à porta da pequena vivenda, o dia já clareava. Etelvina manteve-se no exterior até a carripana desaparecer lá longe no fundo da estrada visível: foi sempre dizendo adeus com as lágrimas a correrem pelas faces marcadas pela idade.
Há muitos anos, talvez vinte e cinco ou mais, o Adalberto Costa partia para aquelas viagens. Umas vezes para o sul, outras vezes para o interior a leste. Era preciso cobrir muitos clientes, visitar e convencer o mais possível. Leva-los a comprar os seus produtos. Depois no fim do dia, no hotel ou similar, enviar as encomendas para o escritório central, através do telex.
Com o passar dos tempos, cada ano era mais difícil atingir os objectivos. O nosso viajante bem sabia as razões, pelo menos grande partes dela. Na actualidade já não justificava andar um desgraçado pela província. Havia outras técnicas. Mas a sua administração era muito conservadora e insistia na metodologia do passado. Por sua vez os directores e chefes de venda não tinham força nem vontade para insistir na mudança. Depois ao acontecer quebras no volume de vendas a culpa era sempre dos vendedores.
Mas também havia pormenores que o Costa, não abrangia ou fingia não ver, enterrando a cabeça na areia.
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A tarde estava agradável, estávamos perto do Natal, contudo a temperatura continuava amena. Etelvina após o frugal almoço foi para a horta tratar de arrancar as ervas que competiam com os legumes que cresciam mais lentamente. Depois as ervas serviam para alimentar o pequeno bácoro e alguns coelhos que enchiam a coelheira. Estava a mulher concentrada na tarefa quando ouviu o portão do quintal ranger, de seguida soou uma voz conhecida.
- Posso entrar Etelvina?
- Entra mulher, não era preciso pedir licença. Bons olhos te vejam. Então que te trás por estas bandas?
- Como tu nunca apareces, decidi vir até cá. Nem na igreja te vejo…
- Tens razão, mas sabes que sou pouco de igreja. Também não me convém sair, não gosto de deixar a casa sozinha e normalmente tenho cá netos. Por sinal hoje não.
Enquanto Etelvina ensacava a erva, a amiga foi observando a horta. Ela bem não se importava de também de ter uma, mas não podia ser, vivia num andar, além disso era mais dada à costura.
Rosa dos Santos era uma mulher pequena e roliça, da mesma idade da Etelvina, eram amigas de infância. Casara com João Emanuel companheiro de vendas do Adalberto. Foi através da amiga que ela conhecera o marido. Tudo normal para uma pequena cidade.
- Rosa, vamos entrar, vou fazer chá e umas torradas. Preferes cidreira ou camomila, ou queres antes chá preto.
- Não te incomodes mulher. Faz o te der mais jeito, até pode ser café e o pão pode ser normal.
- Então vou fazer cidreira que é melhor para o sistema nervoso.
Depois das torradas feitas e da água a ferver deitada no bule onde estavam duas saquetas de cidreira, as mulheres sentaram-se à volta da mesa redonda da cozinha. As tardes eram curtas por isso rápido uma penumbra invadiu a divisão, mas ninguém acedeu a luz.
- Agora Rosa diz-me o que cá te trouxe? Não dás ponto sem nó, já te conheço há mais de cinquenta anos.
A Etelvina, achou estranha aquela súbita visita da amiga, que até costumava telefonar, ou convidá-la para ir até ao centro da cidade. A Rosa era vivida e manhosa, mas a mulher do Adalberto era mais inteligente.
- Tens razão, precisava de falar contigo, o assunto é melindroso, mas tinhas de ser informada.
- Credo! Já estou em pânico. É alguma coisa com os meus filhos ou netos?
- Não mulher, não é com eles mas é com o teu homem e com o meu…
O coração da Etelvina começou aos pulos. Sentiu desmoronar-se o seu frágil mundo….ficou muda na expectativa.
- Calma amiga, não é morte de homem, nem nada que se pareça. Mas com calma vou pôr-te ao corrente. Mas por amor de Deus, acalma Etelvina, minha amiga.
Rosa acalmando a amiga bebeu mais uma chávena de cidreira e forçou a outra a beber também.
- Então é assim… de um tempo a esta parte, notei que o João não andava bem, macambúzio e rezinga, coisa pouco habitual nele: que é um deixa andar. Apertei com o meu homem, só consegui que dissesse que eram coisas do trabalho e que não me preocupasse. Ao dizer-me isto ainda me deixou mais com a pulga atrás da orelha. Como sabes, o João gosta de andar na viagem, não é por gostar de vender, ao contrário do teu. O meu quer é rédea solta…
- Então e depois, descobriste alguma coisa? O que tem o meu homem a ver com isso?
Já era noite fechada, as mulheres continuavam a conversar às escuras na mesa redonda da cozinha.
- Espera, já lá vamos. Pensei com os meus botões. Não me vais comer por parva. Montei-me nas minhas tamanquinhas e fui espiolhar lá na empresa. Cheguei à pessoa certa e fui informada.
- És uma mulher do diabo! Conta lá então a desgraça.
- Parece que as vendas na província andam más. Devido a isso os dois viajantes, o meu homem e o teu marido, foram chamados ao director e levaram um apertão. Melhor: uma ameaça…
- Que ameaça?
- Ou vendem mais ou vão para a rua. Como não têm idade para a reforma têm de ir para o fundo de desemprego, ganhando uma ninharia durante um tempo e depois esperar pela idade da reforma.
- Mas eles têm tantos anos de empresa, então o meu nem se fala. Não é justo, depois de uma vida a dar carne, a pele e os ossos, sacrificando mulher e filhos, para não falar nos netos. Merda, é mesmo uma vergonha, uma sacanagem. Isso vai dar cabo do Adalberto. Pobre marido, para o fim vem tudo de mau.
- Não desanimes amiga, vamos lutar ao lado deles. Afinal o prejuízo não é muito grande, eles ficarão mais tempo em casa. O problema do meu João, não é igual ao do teu homem. O meu fica com a corda curta, coisa que ele não quer.
- Também não será tanto assim, o João gostará de estar mais tempo contigo. Agora para o Adalberto é uma questão de orgulho, ele que se considerava um dos pilares da firma.
- Amiga, não ponhas as mãos no lume pelo meu homem, tenho a certeza que há muito tem uma amásia, lá longe. Em qualquer dos casos, vamos esperar o próximo fim-de-semana, para pôr isto a limpo e lutar com eles para encontrar uma solução.
- Sim Rosa, és uma mulher valente. Vamos aguardar sim. Obrigado por teres vindo ter comigo!
As duas amigas que se conheciam desde a época da escola primária, ficaram mais um tempo sentadas no escuro, o que impedia cada uma de ver as lágrimas da outra.
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A carripana seguia pela estrada estreita a caminho do sul. Adalberto Costa não reparava na bonita paisagem que circundava o seu caminho. Aquela estrada já tinha sido percorrida por ele centenas de vezes, ora para lá ora para cá. Ia concentrado nos seus problemas, por isso nem dava por nada, conduzia por automatismo. Pensava chegar à pequena cidade pouco depois das nove. Não iria sequer ao minúsculo hotel onde costumava ficar, deixaria para o fim da tarde. Sentia uma solidão muito doentia, gostava de ter junto a si a Etelvina mulher da sua vida e única, embora ela não acreditasse nisso. Ainda a estava ver menina à esquina da rua onde moravam esperando por ele. Já tinham passado quase cinquenta anos, mas as imagens estão firmes na sua biblioteca da memória. Contudo neste momento, a razão do desejado apoio era a sua situação actual, o drama que estava vivendo. O seu amigo João, viajante como ele, também estava na mesma situação. Mas esse estava-se borrifando, era um bom vivant, queria putas e vinho verde. A Rosa tinha muita paciência para o marido, mas não sabia da missa a metade.
Finalmente chegou ao seu destino, lá ficaria um dia, dormiria no hotel e no dia seguinte partia para outra cidade. Na verdade uma vila, embora um pouco maior que a povoação onde chegara. Nunca entendera bem a diferença que caracterizava a cidade da vila. Agora iam começar as visitas da praxe.
Na primeira visita, o cliente não comprou porque argumentou que o produto era muito caro, embora reconhecesse a qualidade. Para o que a sua fábrica produzia não justificava tanta qualidade.
Na segunda visita, o cliente comprou só um pouquinho, porque teve uma urgência de matéria-prima e um concorrente foi-lhe entregar no mesmo dia. O senhor Artur, cliente de muitos anos ainda declarou. – Senhor Costa. A sua empresa é muito demorada nas entregas.
Na terceira visita, o cliente desabafou. – Amigo Costa, um concorrente fez um saldo e eu aproveitei.
Na quarta visita, o cliente afirmou. – Gosto muito de trabalhar consigo Costa, mas precisei de um maior prazo no pagamento e a sua direcção não aprovou o meu pedido. Vou encomendar-lhe alguma coisa mas é por amizade.
Na quinta visita, o cliente quis encomendar tudo mais alguma coisa. O Costa desconfiou, foi saber informações e descobriu que o homem estava falido. Era por isso uma golpada.
As visitas continuaram, muitos casos poderiam aqui ser relatados, mas para quê torturar mais o viajante (leitor) que me acompanha nesta leitura.
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 A semana estava a chegar ao fim, era quinta-feira, hora de jantar. Costa desta vez pensava regressar mais cedo, queria estar em casa à hora da refeição da noite na sexta-feira. A Etelvina todos dias telefonava a dar-lhe carinho, havia algo no ar: como se ela soubesse o que se estava a passar.
Estava a ser uma semana muita má para as vendas. Os clientes, alguns com dezenas de anos arranjavam todas as desculpas para não comprar. Algumas encomendavam alguma coisa só por amizade. O velho viajante, cada vez estava mais deprimido. Não queria reconhecer de maneira nenhuma a sua derrota. Não podia ser…que se passava?
Se não fosse a sua companheira, os filhos e os netos, dava cabo dele. Jantara num pequeno restaurante, bom e muito barato. Nesse dia e contra o costume bebeu muito, o que só aumentou o seu estado emocional. Depois da janta decidiu fazer uma longa caminhada, dando uma volta até fora da povoação. Quando regressasse à pensão telefonaria à sua companheira.
Adalberto Costa cambaleando, andou, andou, andou. A noite foi avançando e com ela a chuva também veio. Primeiro de mansinho, depois mais brava. O nosso homem não ligou, não estava frio e os vapores do álcool tudo aqueciam, ele parecia nem reparar. Estava apático!
Ao regressar à vila parou sobre a ponte. Sob a dita a água era mais que muita, fortes enxurradas faziam chegar a água ao nível da estrada.
O nosso viajante num transe que não controlava encostou-se à guarda da ponte e começou a ser atraído para a forte corrente. Parecia tudo incontrolável e sem recuo possível. Foi então que ouviu uma voz forte que mais parecia um trovão.
- Então Adalberto Costa, que vais fazer? És louco ou estás muito bêbedo. Se calhar é tudo misturado. Reage homem!
O nosso homem voltou a endireitar-se e tentou ver quem falava. Não era fácil, estava escuro e a chuva fazia uma barreira à vista. Nos extremos da ponte, uma luz mortiça marcava a presença da dita. Com esforço Adalberto começou a visionar um vulto, era um velho conhecido que já não via há muito. Um bom amigo do tempo da guerra.
- Que fazes aqui Carlos? Há tanto tempo que não te via, estás na mesma. Porra que coincidência. Dá cá um abraço que bem preciso.
- Também estou feliz por te encontrar. Que se passa contigo? Porque ias cair ao rio? És parvo ou quê…
- Já me sinto melhor só com tua presença. Vamos até ao bar que fica na curva da estrada, está aberto até de madrugada. Vou contar-te a meu actual drama.
Os homens lá foram até ao bar, que estava vazio devido à chuva que não parava de cair. Os dois pareciam não ligar nenhuma às roupas molhadas.
Adalberto Costa, foi contando a sua estória e mostrando os seus sentimentos em relação ao problema. Não escondeu nada de nada. Também nada tinha para esconder.
O Carlos tudo ouviu na calma, nada bebendo a não ser água. Ao contrário do viajante que continuou a encharcar a vela. A visita surpresa, foi fazendo uma ou outra pergunta, parecia alguém muito entendido naquilo que conversavam.
- Agora diz-me Carlos que hei-de fazer? Ajuda-me!
- Nada de especial velho amigo. Vive a vida com os teus. Brinca muito com teus netos, ajuda teus filhos e faz amor com a tua mulher sempre que tiverem desejo e força para isso.
- Mas então e o meu problema como vendedor derrotado?
- Adalberto Costa, não há nenhum problema. Tudo isso é uma tempestade num copo de água. Tu não vendes, não é por culpa tua. Os produtos são demasiado bons para as necessidades do mercado. Tua empresa está errada, é demasiado conservadora. Não faz concessões no prazo de pagamento. Não faz saldos como mandam as regras. Entrega tarde os produtos. Usa pouca dinâmica. Além disso, os viajantes deixaram de ter razão de ser. Na sede através de uma dinâmica comercial o mercado pode ser acompanhado. Há muito que vocês viajantes deviam ter regressado à base. Eu digo-te mais, se eles complicarem, exige pagamento do tempo que estiveste fora de casa. Garanto que em tribunal levam um estoiro.
Um raio de luz e de felicidade iluminou a expressão do nosso viajante.
- Garantes que isso é mesmo assim?!
- Garanto sim e cá estarei para te ajudar. Amanhã logo de manhã partes para casa. Já irás almoçar com a tua fantástica companheira que um dia vou querer conhecer. Depois marcas uma reunião, mas com a administração, não aceites intermediários, vai logo a Deus, deixa os santos de fora. Com calma expões tudo o que acabei de dizer e mais aquilo que tu aches vantajoso e não tenhas lembrado ao falares comigo. Durante o fim-de-semana toma apontamentos e chama o teu amigo João para a luta.
- Obrigado meu amigo, vou ficar eternamente grato. Agora fala-me de ti.
- Costa, eternamente é muito tempo, não penses mais nisso. Trata da tua vida. Agora vou levar-te à tua Pensão, estás nas últimas.
Saíram para a estrada, a chuva parara, os dois amigos abraçados desapareceram na negrura da noite.
Na manhã dessa sexta-feira, o dia nascera limpo e tudo parecia mais brilhante e bonito. Adalberto acordou bem-disposto, tudo indiciava que o vinho da véspera não tinha molestado o seu organismo. Aos poucos foi-se lembrando de tudo. Cada vez estava mais feliz. Ia fazer tudo conforme o amigo Carlos lhe tinha transmitido e ensinado. Claro que aquilo tinha sido um sonho, um bom sonho, nunca podia ser real. Desceu para tomar o pequeno-almoço e pagar a noite lá dormida. Ao passar na recepção o rapaz de serviço, chamou.
- Senhor Costa, um senhor deixou este dossier para si, para lhe entregar quando descesse.
- Obrigado Manuel, dê cá.
Admirado, o nosso Costa abriu a encomenda. Era uma pasta azul, com tudo o que fora conversado no bar da curva da estrada. À margem estava escrito o plano de acção que o viajante devia encetar com a sua empresa. Um cartão acompanhava o dossier. Força meu amigo. Um abraço do teu camarada Carlos.
Nesse momento Adalberto Costa caiu na real. Tudo aquilo era um milagre. O seu amigo Carlos, seu camarada na tropa, tinha morrido na campanha do Rovuma durante a Grande Guerra.
Cantando canções nostálgicas, regressou a casa para a batalha final. Como ia ficar feliz a sua Etelvina. Agora a paisagem era sublime e ele sentia-se um homem novo. De vez em vez uma lágrima espreitava nos seus olhos já cansados.
FIM
Comeira, 12 de Novembro de 2014

José Bray

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Cooperantes - Coluna, um trabalhador campeão!

09 - Coluna, um trabalhador campeão!
Um dia numa tertúlia de amigos, discutia-se a capacidade de trabalho do branco e do negro. Cada um tinha a sua opinião. Algumas bem reaccionárias. Mas outras não. Enquanto íamos bebendo uns finos e deglutindo uns carapaus fritos, cada um esgrimia os seus argumentos. Foi então que o Brandão com a sua verbosidade de quem sabe o de diz, quis contar uma parábola real. Com isso ele desmistificou toda a conversa da treta da rapaziada. Dizia ele...melhor…com sua autorização vou reproduzir um texto da lavra de José d’ Barcellos feito a seu pedido.
Hoje recordei um homem com H grande, um campeão, um famoso capitão de seu nome Coluna. Comandava os companheiros com seu exemplo, respeitando e sendo respeitado. Vós sabeis de quem falo? Vós conhecestes essa personagem? Quase todos dirão que sim: o Mário Coluna capitão do Benfica europeu. Dirão, dirão! Lamento, mas foram tiros na água. Não é esse, é outro de quem ninguém se lembrará, sou talvez a excepção.
Coluna não era o seu nome, mas sim a alcunha. Nunca soube qual a analogia com o seu chará? Eram os dois negros, um de Angola outro de Moçambique, mas só por isso não justificava o plágio do nome. O meu colaborador, era alto, ossudo, carrancudo, podia-se dizer que era um ser sem beleza física, mas grande beleza de carácter, cumpridor, responsável, sem conflitos: embora sempre com uma expressão carregada. Não era instruído, nem rico, nem bonito, mas era um ser fabuloso. Como o outro Coluna, um grande campeão e um grande capitão.
O meu amigo Coluna, homem na casa dos quarenta, era montador de prateleiras, chefe de equipa. Como todos os operários era mal pago, fosse na metrópole, fosse na colónia: mas para preto era pior. Sem prémios de rendimento, sem subsídios de alimentação ou deslocação. Tudo ao contrário do que acontecia na empresa na metrópole. Coluna sem ser bajulador, era sóbrio e confiável. Todos eram explorados mas o meu amigo era mais, porque distinguia-se como trabalhador e recebia o mesmo.
Uma das minhas utopias era mudar o cenário dessa situação. Após conflitos com a administração consegui levar a água ao meu moinho. Por várias vezes a minha cabeça esteve no cepo, mas consegui que a utopia passasse a ser realidade. Os salários melhoraram, e o subsídio de alimentação e deslocação começou a ser uma prática na empresa em Luanda. Só não consegui o prémio de rendimento. Mais tarde consegui dar a volta ao patronato, leiam o resto da narrativa. Voltemos ao Coluna.
O Coluna tinha uma característica de marca, começava a trabalhar à hora certa, não mais parava até à hora de fechar o expediente e por vezes continuava. Era impressionante vê-lo montar as estantes. Um chefe de equipa no Puto montava 40 prateleiras por dia, ele de sua alcunha Coluna, montava 120 prateleiras por dia. Era fantástico! Pergunto, era justo ganhar o mesmo que os outros? Claro que não! Passou a ser recompensado, ele foi a prova viva que os vencimentos não podem ser em tabela horizontal, idiotice que apareceu com o 25 de Abril.
O Coluna era dos poucos negros que não metia vales durante o mês, nunca se embriagava. Tiro-lhe o meu chapéu, era um grande senhor!
Após o 25 de Abril e antes da independência, o meu amigo Coluna esteve envolvido no acidente em que o Freitas perdeu a vida. Ficou muito mal tratado mas sobreviveu. Quando abandonei Angola deixei-lhe parte do meu dinheiro e roupas!
Ao recordar este negro que honra o seu país, acabo com um desabafo tanta vez por mim repetido em relação a outros. Não ter tido a humildade de ter conhecido melhor este homem!
José d’ Barcellos, 14 de Novembro de 2011
Perante este texto do nosso amigo, que mais poderemos dizer. Havia grandes trabalhadores em Angola, brancos ou negros, como os há em Portugal. Assim como se passa o mesmo com os calões duma cor ou de outra, de um país ou de outro. Djapam, 20/1/2014.