quarta-feira, 1 de abril de 2015

Cooperantes - O 25 de Abril de 1974

04 - O 25 de Abril de 1974
Mais um dia de labuta, na laboriosa colónia portuguesa da costa ocidental de África, ia começar. Estava muito calor no micro clima de Luanda, mas em breve vinha aí o cacimbo.
Um jovem casal de brancos, saía do prédio onde residiam na rua do Quicombo em São Paulo há cerca de quatro anos. Com eles vinha uma menina de três anos, bonita como um raio de sol. A elegante mas não sofisticada mulher dirigiu-se para a Paiva Couceiro, lá passaria a carrinha que a levaria ao seu local de trabalho para as bandas da Cuca. O homem entrou no carocha bege após sentar a menina em segurança no banco de trás. O carro com cerca de dez anos adquirido a prestações por trinta contos, dirigiu-se para a baixa da cidade mais concretamente para a rua Serpa Pinto.
Ainda não eram oito horas mas o sol já queimava nas costas dos transeuntes. A estação das chuvas ainda não terminara, embora em Luanda a água raramente caísse com regularidade, devido ao clima próprio da área urbana da capital. Por vezes uma forte bátega, que assim como chegava passava. Pouco depois da enxurrada tudo ficava seco, sem nenhum vestígio da chuva. Era assim na cidade, na estação das chuvas, mas com pouco água. A vinte quilómetros já chovia todos os dias.
 A cidade de Luanda, era e continua a ser uma zona sem água no seu subsolo. Segundo diz quem sabe, a ilha de Luanda tinha água mas salobra, por isso deve continuar a ter embora salobra seja na mesma. A norte, não muito longe a água já abundava e abunda. Na época desta saga, o precioso liquida vinha da barragem das Mabubas que era abastecida principalmente pelo rio Dande ou Dange. A barragem destruída em parte, por duas vezes, durante a guerra civil, foi reconstruída e posto a funcionar há pouco tempo. No Século XVII durante o seu domínio os holandeses mandaram construir um canal para levar a água do Kwanza até Luanda numa distância de aproximadamente 200 quilómetros. Penso que o canal nunca foi concluído e muito menos funcionou, porque os cabrões levaram para contar e zarparam. Contudo, através da selva e da savana, ainda se encontra vestígios do tal canal. 
Mas deixem-me voltar à minha narrativa.
O carro do povo, conhecido também por carocha, parou junto a um colégio creche, instalado numa vivenda colonial com amplo jardim. Nessa instituição ficaria a menina todo o dia até o pai voltar para a levar para casa. A Ana ficava contrariada e uma lágrima aparecia ao canto dos seus lindos olhos azuis. O pai amargurado partia após muitas recomendações às empregadas da creche.
O jovem técnico, director daquela empresa, cumprimentou os funcionários, para depois entrar no seu gabinete. Pediu um café à empregada da limpeza, por sinal uma branca das Beiras. Depois embrenhou-se nos projectos suspensos, que estavam espalhados pela secretária e estirador, esperando a sua apreciação. O homem deixara de fumar há cerca de seis meses, agora vingava-se no café para compensar os três maços de MC que deixara de consumir por dia.
Luanda, jóia da coroa do Império português. Eram agora oito horas e vinte minutos do dia 25 de Abril de mil novecentos e setenta e quatro. A telefonista bateu na porta do gabinete de trabalho de Alberto de Castro.
- Senhor Castro, sua mulher na linha dois, atenda por favor.
- Olá querida que se passa? Está tudo bem?
- Alberto, acabei de saber que rebentou esta madrugada uma revolução em Lisboa, não se sabe é se é de direita ou esquerda.
- Não me digas…como soubeste? Aqui para a baixa ou no escritório ainda não transpirou nada. Não será boato?
- Não querido, soube através do Daniel Freire, que por sua vez soube da mulher Lina que como sabes trabalha para o governador. É mesmo verdade! Seja de esquerda ou de direita, tudo vai mudar… A menina ficou bem?
- Mais ou menos, como sempre de lágrima no olho, aquela menina não se adapta ao colégio.
- Com o tempo vai lá, não fiques preocupado. Então um beijo e tem juízo, à noite falamos. Não venhas tarde.
Castro poisou o telefone e ficou uns minutos apático. A emoção encheu a sua alma, mas logo inúmeras dúvidas se levantaram na sua mente: mente demasiado racional. Acabou de beber na calma o café que a empregada de limpeza lhe levara, de seguida levantou-se e entrou de rompante no gabinete do administrador.
- Barradas, vem aí borrasca! Há uma revolução em Portugal…
O administrador, empalideceu primeiro, depois ficou vermelho. Mal conseguia articular palavra, coisa normal nele quando se enervava ou excitava. A gaguejar ainda balbuciou.
- E agora Castro, é bom ou é mau?
- Para a metrópole ou para a colónia?
- Para Angola, estou-me borrifando para a gajada de lá.
Os dois responsáveis daquela empresa multinacional ficaram um tempo calados. Sem nada dizerem. Depois Castro encolheu os ombros e saiu em direcção à sua sala de trabalho porque tinha muito que fazer, o patrão ficou sentado a olhar para a parede branca do gabinete com o seu habitual ar apatetado.
Nesse dia, Alberto de Castro não foi almoçar a casa. Devido ao excesso de trabalho foi tomar uma refeição ligeira na Mutamba, tasca popular com bons petiscos. Casa que muitos amigos frequentavam, entre eles este escriba. Mas no fundo, o Alberto queria era saber mais novidades.
Por diversas fontes já todos sabíamos alguns pormenores da tal revolução. Lembro-me de uma pergunta que o José d’ Barcellos fez ao Alberto de Castro.
- E agora que achas que vai acontecer
- O que vai acontecer? Não sei, ninguém sabe. Mas sei que estamos todos fodidos, brancos, pretos e mulatos.
Cavaqueamos um pouco e depois fomos todos, cada um para o seu trabalho, cada um com o seu pensamento, cada um com sua preocupação. Era uma quinta-feira.
1/1/2014

Djapam

terça-feira, 31 de março de 2015

Cooperantes - Djapam

02 – Djapam
Quem é Djapam? Sou eu, o escriba desta estória intitulada de “Cooperantes”. Filho de um preto e de uma branca. É verdade, sou um mulato, mas com muito orgulho em o ser.
Meu pai, que era um velho sábio, repetia muitas vezes uma frase que me viu crescer: dizia ele.
“Os pretos nunca serão livres enquanto não gostarem de ser pretos, os mulatos têm de entender que há mais do que branco e preto na natureza e os brancos só serão gente quando forem enegrecidos pela vida”.
Era o raciocínio de um filósofo empírico, grande senhor da floresta, dos rios e do capim.
Tenho honra em ser mulato. Realmente no mundo há as cores do arco-íris e também todas as misturas possíveis. Meu pai tinha razão…que descanse em paz. As suas cinzas há muito foram lançadas nas águas do rio Cuanza.
Esta narrativa fala de um tempo que vai de Abril de 74 até fins de 77, durante todo esse espaço de mil e trezentos dias, mais dia, menos dia, vivi com a minha preta numa vivenda da Vila Clotilde, espaço que meus pais compraram com o sacrifício de uma vida. Hoje passados cerca de quarenta anos, já velho, ainda lá vivemos. Nesta casa, nosso paraíso, nasceu toda a minha filharada.
A minha residência a que chamo casa encantada, tem uma estória no passado que merece ser contada se para tanto me der o engenho e a arte. Foi uma transcrição oral do meu amigo José Brandão, que conheceu os residentes e ao saber da coincidência da minha morada, fez o favor de relatar o passado do residente anterior que ele conhecia bem. Isto aconteceu no dia em que partiu para Portugal numa viagem sem retorno. Inclusive, deixou-me um manuscrito com o texto.
Sinto que nasci para a escrita, saí à minha mãe que era professora muita virada para as letras. O meu pai era sábio mas a minha mãe sábia era, além disso tinha sido muito enegrecida pela vida. Hoje dedico-me a pregar a palavra de Cristo, opção tomada exactamente no fim da saga que descrevo.
Há muito que desejava escrever este livro, mas ainda não tinha tido coragem. Foram tempos épicos da história do meu país. Foram tempos de muito amor, amizade e solidariedade, devido às óbvias e excessivas dificuldades. Finalmente este ano, já no décimo quarto do século XXI, senti um apelo a essa escrita. Não por nós que a vivemos, mas como herança aos nossos filhos, netos e por aí afora.
O relato, que faço nos “Cooperantes”, tem a intenção de dar a conhecer algo daquela época, Que coisas que se faziam, que tipo de gente era aquela que por cá andava. Como actuavam aqueles que, primeiro eram terroristas, depois libertadores, mais tarde políticos e por fim poder, ou seja governo. Talvez no fundo não fossem nada disso, mas sim aprendizes de tudo um pouco.
Heróis foram aquelas gentes anónimas, pretos, mulatos, brancos e de mais cores, que ajudaram a ser o que hoje somos, tanto portugueses como angolanos ou de outras nacionalidades. Gostaria que se fizesse alguma luz e justiça também.
As pequenas estórias relatadas nos “Cooperantes”, interligam-se e têm sempre uma moral e uma informação, não estão só por estar. Tudo é verdadeiro, excepto algumas magias. Alguns personagens estão debaixo de pseudónimos, outras são mesmo de ficção. Assim acontece com as empresas e os produtos fabricados.
Os anos passaram e muitos já partiram, um dia nenhum de nós estará por cá, mas andarão os descendentes, e os “Cooperantes”, será uma obra de homenagem aos seus antepassados, intérpretes de uma saga muito especial, o nascer de Angola como nação, considerada por muitos a terra prometida.

Vamos ao trabalho… 9/1/2014
Djapam

Cooperantes - Introdução

A pedido de vários amigos e amigas, vou colocar no meu Blogue, alguns capítulos dos Cooperantes da autoria do Djapam. Os textos baseiam-se quase todos na verdade, por essa razão Djapam pediu-me que não colocasse aqueles, que podem interferir com a vida de certas pessoas.
As datas no fim de alguns períodos, referem-se ao dia em que foi escrito esse texto.

01 - Introdução
Vou escrever sobre um período muito especial, tanto para os angolanos como para os portugueses radicados na antiga colónia.
Embora a texto trate dos variados aspectos da realidade angolana desse período, no antes e no após independência, o casal Castro estará sempre no cerne de tudo. Os Castros eram e são meus amigos de sempre. Este humilde trabalho é uma homenagem ao seu percurso de vida, nessa fase, historicamente importante. 4/1/2014
Quero contar a saga do meu amigo Alberto Pereira de Castro, conhecido neste mundo por muitos heterónimos, pseudónimos e até alcunhas. Para mim será sempre o Castro e nada mais que o Castro.
Mas outros amigos irão aparecer regularmente, será o caso de José Brandão, de José d’ Barcellos, assim como pontualmente muitos outros serão focados.
Conheci o casal Castro na Luanda dos anos setenta, numa vida despreocupada mas prenhe de utopia, na laboriosa capital de Angola.
Vou escrever sobre um espaço de tempo que vai, desde os vinte de cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro até fins do ano de setenta e sete, um período de aproximadamente três anos e meio. Sem dúvida recheado de factos importantes para todos os envolvidos, desde a queda da ditadura podre e simultaneamente também da queda do império colonial português, e ao nascer de Angola como nação independente.
Afinal quem eram os Castros? Um casal, como muitos outros casais, apanhados na voragem da história com a sua própria estória. Um branco e uma branca que na altura passavam a barreira dos trinta anos. 7/1/2014
Sou o Djapam, amigo do Alberto Pereira de Castro, conhecedor do seu universo, tanto familiar, profissional e também do seu grupo de amigos e interesses. Alguns dos amigos de Castro são também meus amigos. Sou Djapam, um mulato com alma de branco e de preto. Sou o fiel da balança entre dois mundos e duas culturas. Sou o substrato do quinto império. 8/1/2014



sábado, 28 de março de 2015

Cooperantes - Coincidência

Do livro "Cooperantes" do Djapam, retirei este texto curioso. É uma estória verídica...



26 – Coincidência
Vou contar esta estória por diversas razões, embora o tema de fundo seja as coincidências que acontecem na vida das pessoas.
Quero falar do João Sardinha que viveu na zona da Corimba: no antes, no durante e no depois. Refiro-me obviamente ao tempo do colono, ao tempo da transição e ao tempo do após independência de Angola.
O nosso Sardinha era um gajo simpático, sempre pronto a desenrascar o enrascado condutor de carro velho, que eram muitos: inclusive, eu, e os meus amigos, Castro, Brandão e Barcellos. Na realidade ele era um doutor em mecânica de automóveis, saber aprendido por vocação, mas também por muito puxão de orelha quando aprendiz.
O João Sardinha com pouco mais de trinta anos, era proprietário de uma oficina de mecânica, pequena, simples e mal apetrechada. Com ele trabalhavam seis naturais de Angola, quatro pretos e dois mulatos.
Eram uma família feliz que adorava Luanda. Uma vida simples e de muito trabalho. Não eram ricos embora tivessem uma vida desafogada. Praia, desporto, petiscos e muitos amigos.
Fique já assente! Pela cabeça do João Sardinha, nunca passou a ideia de abandonar Angola.
O nosso conhecimento com este homem, devia-se a ele nos ter desenrascado, em alguns problemas, que tivemos com as nossas usadas viaturas. Algumas já em terceira e quarta mão.
Vamos então à tal coincidência, que aconteceu entre a família Sardinha e a família Castro.
Como alguns sabem, mas muitos nem tanto, em Angola não havia assistência social oficial: não havia para os trabalhadores muito menos para o povo. Mais uma descriminação em relação ao Portugal da Europa.
Havia os hospitais para o povo em geral e as clínicas privadas para os mais abastados. Quanto aos partos, havia a maternidade, as clínicas ou as parteiras particulares, entre elas as curiosas. Sim as parteiras tradicionais, porque as mulheres do povo mais humilde pariam normalmente em casa. Estou a falar do tempo dos colonos. Depois foi tudo mais difícil!
A minha amiga Inês de Castro, foi parir a primeira filha a Ana, numa parteira particular que tinha a sala de parto junto à Sagrada Família, isto em Janeiro de 1971. Dias depois a mulher do Sardinha deu à luz a sua primeira filha na mesma parteira.
Como sabemos os dois casais continuaram em Luanda após onze de Novembro de 1975. Porem, o contacto com a família Sardinha era muito raro, e acontecia só por motivos de avaria nas viaturas. De modo geral, vivíamos todos nos nossos guetos, preocupados com a saúde, segurança, alimentação e outras coisas mais.
Em fins de 1975, a Inês voltou a ficar grávida, nascendo a Isa em Junho de 1976. Então não é que a mulher do Sardinha pariu a segunda filha também nesse Junho…
Ambas as meninas, concebidas na Angola portuguesa e nascidas na Angola independente, vieram à luz em suas casas, assistidas pela mesma parteira branca, que por sorte ainda estava na cidade para proteger os seus bens, situados no bairro de Alvalade. Ambos os casais correram as mesmas insuficiências, os mesmos riscos…
Estas eram as coincidências de que falava, mas quero falar mais do Sardinha, porque há outra matéria que considero de interesse.
Igual a muitos outros casos, a vida tornou-se um inferno para o casal Sardinha. Contra sua vontade foi obrigado a abandonar Luanda e regressar a Portugal. Curiosamente como o Castro nos fins de 1977.
Antes de partir, o Sardinha fez o que muitos outros fizeram, preparou o pessoal e ofereceu-lhes a oficina numa sociedade colectiva. Pessoalmente conheço muitos casos iguais. Como igual conheço o fim dessas sociedades, ou seja.
Os trabalhadores deixaram ir tudo por água abaixo: má gestão, falta de saber, indisciplina, pouca vontade de trabalhar, falta de tudo, excepto ousadia de ignorância, tão própria por parte dos portugueses e dos angolanos.
Muitos anos depois, recebi uma carta do Alberto de Castro, que vou transcrever.

Meu caro Djapam,
Sei que estás bem, com saúde e realizado, assim como a querida Amip e a vossa filharada.
Hoje escrevo para te dar uma boa notícia.
Por motivos profissionais, encontrei o João Sardinha. Sim aquele branco simpático que nos desenrascava os nossos carros. Aquele cujo as duas filhas nasceram quando as minhas num jogo de coincidências.
O Sardinha ao regressar a Portugal, triste e amargurado, mas com forças para lutar, abriu a cem quilómetros de Lisboa uma pequena oficina igual à que tinha em Luanda.
Tudo bem! Mas ao contrário do que aconteceu aí, esta cresceu, cresceu, cresceu. Foi uma evolução de tal ordem que hoje emprega cerca de duzentos profissionais e evoluiu para diversas áreas, todas ligadas à mecânica.
Em resumo, o Sardinha é um gajo importante e muito rico. Mas continua o mesmo homem, que tu e eu conhecemos em Luanda.
Tudo isto parece uma anedota mas não o é… Em Luanda terra de colono, trabalhou de sol a sol e pouco teve nas questões materiais. Aqui enriqueceu!
Como vês querido Djapam, os explorados éramos nós…
O João, disse-me que tem ido a Luanda e quer investir em Angola, para ajudar a reconstruir o país que tanto ama. Mas não quer trazer qualquer lucro.
Foi esta a novidade que te queria dar.
Até sempre meu amigo.
Alberto de Castro

Fiquei feliz com esta carta do meu amigo Alberto de Castro e fiquei interessado em saber mais coisas do Sardinha.
Muito mais tarde, descobri que o nosso antigo mecânico, abriu várias oficinas em Angola e passava cá a maior parte do tempo.
Em Portugal, a sua empresa era um sucesso, mas era aqui em Luanda que se sentia bem e era feliz.
Ao contrário de outras estórias esta teve um final feliz.

Djapam

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O foguetório


Na aldeia a festa prometia ser rija. Comida e vinho não iam faltar, nem doces, cafés e aguardentes. Musica com muito folclore também não.
Por todo o lado viam-se emigrantes vindos de todas as partes do mundo e gente de Lisboa. O Mordomo (1) andava feliz, tudo estava a correr bem… a certa altura gritou.
- Felisberto, Felisberto! Chegou a hora de começar o foguetório. Vai homem e dá fogo à peça.
O tal homem, meio coxo, meio marreco, meio pateta, apareceu ao chamamento.
- Sim Mordomo, vou já tratar disso. Não posso ir a correr, estou cansado devido a ter andado toda a tarde a apanhar as canas.
- Apanhar canas num dia de festa? A propósito de quê? É coxo, marreco tonto e deve estar mais que bêbedo. Apanhar as canas hoje? O homem é mesmo anormal.
Assim pensou o gordo Mordomo, mas não ligou porque o homem era mesmo tontinho e ainda por cima andava sempre em vinha-d’alhos. Como o infeliz tudo fazia de borla e era burro para toda a carga e todas as tarefas, o Mordomo aguentava todas as suas asneiras. Enfim, o Felisberto era um explorado!
O tempo passou e foguetório? Nada, nem um estalinho. O Mordomo admirado foi até ao local de lançamento dos foguetes.
Lá, o Felisberto chorava, entre os vapores da bebida e a sua loucura. O Mordomo, vermelho pela fúria inquiriu.
- Que se passa homem de Deus?
- Mordomo, meu Mordomo, os foguetes não sobem porque não acendem. Não sei o que aconteceu. Ainda esta manhã experimentei-os todos e estavam todos bons. À tarde tive tanto trabalho para encontrar e apanhar as canas e agora não querem funcionar.
O Mordomo se tivesse uma caçadeira naquele momento haveria na aldeia um Felisberto transformado em peneira. Mas assim que remédio, teve de aguentar.
Uma coisa foi certa. Nesse ano na festa da aldeia não houve foguetório. Quem manda dar essa tarefa a um tolo… só para poupar uns escudos?
Bem feito!
Comeira, noite de ano novo 2014/15
ZM
1 - Mordomo dono da Festa. Todos os anos é eleito um para organizar os próximos festejos.



Respirar


Por vezes não me apetece respirar, mas sou forçado a fazê-lo, senão posso sufocar. A natureza obriga-me a isso.
Por vezes nada tenho para escrever, nem sequer me apetece. Mesmo sendo o vício forte, a vontade não tem força ou seja não há força de vontade.
Mas sem querer, compulsivamente sou levado a escrever, exactamente como sou levado a respirar.
Não quero que me exijam nada de brilhante na minha escrita, ela é feita para eu poder respirar.
Depois, talvez por sorte saia algo de bom, com algum cerne, ou seja algum tutano.
Eu sei: quando parar de respirar vou deixar de escrever. Mas também sei: se parar de escrever vou ficar sem ar, porque vou deixar de respirar.
A minha escrita é a minha respiração, sem ela não sobrevivo, como aconteceu num passado recente com o Xadrez e num passado distante com as Damas.
Lisboa, 27/12/2014

ZM

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O projecto


Um homem idoso na idade mas jovem no espírito, o senhor X, passou horas e horas fazendo aquele importante projecto. A sua empresa precisava de vender os materiais referentes a essa obra, para salvar os números do ano.
Tratava-se de um armazém de grandes dimensões para uma cadeia de Super Mercados. Obra de envergadura e muita complexidade. O senhor X desenhou durante o dia e continuou pela noite fora, após idealizar a solução arquitectónica. Depois passou à parte de engenharia, calculando todos esforços da estrutura. Calculou a resistência à tracção e à compressão, dos pilares, vigas e diagonais. Previu travamentos. Tudo foi pensado, calculado e revisto.
Ficou a tarefa feita? Não, nem pensar! Depois vinha outra de responsabilidade, contar todos os materiais necessários à obra, para poder ser feita a orçamentação. Ao fim e ao cabo, a única coisa que interessava ao cliente.
O projectista, contou milhares de barras, de dimensões variadas e de perfil diferente. Umas cantoneiras eram em 140, outras em 160, outras em 225, bastantes em 300 e algumas em 345.
Esta escolha dependia dos esforços a que cada barra era solicitada na exigência máxima.
Depois era a difícil contagem dos parafusos, eram dezenas de milhar dos normais, milhares dos de alta resistência e muitos de mola.
Havia quatro escadas com sua complexidade. Dezenas de corredores e varandins com centenas de pranchas perfuradas. Havia prateleiras de várias dimensões aos milhares. Havia os esquadros de travamento, assim como as sapatas especiais chumbadas ao chão.
Depois desta exaustiva contagem com muita responsabilidade, estava tudo?
Não! Era preciso recontar por outro método, só assim havia garantias de não haver erro na contagem com consequências no preço final da obra. Prejuízos que iriam reverter para a empresa fornecedora.
A seguir era preciso fazer a orçamentação propriamente dita assim com o relatório. Finalmente organizar as pastas com o processo completo.
Com as diversas etapas, passara-se quatro dias e três noites, num árduo trabalho quase sem paragem.
Qualquer outro técnico da empresa, levaria quase duas semanas a fazer aquele projecto orçamento. Isto se o soubessem fazer...
Como já disse, este projecto era fundamental para a sobrevivência daquela empresa de estruturas metálicas.
Enquanto no gabinete o idoso projectista fazia aceleradamente a árdua tarefa, o vendedor responsável por vender a obra, passava os dias no café ou passeando pela cidade, fingindo que visitava clientes. Uma grande balda!
Perante um projecto tão complexo e importante, o vendedor devia passar parte do dia perto do velho projectista para se inteirar de tudo e poder apresentar as mais-valias ao cliente. Mas nada disso o vendedor fez…
Após o projecto feito, orçamentado e o processo montado, o vendedor foi chamada para o levar ao cliente, empresa importante na área dos Super Mercados.
O técnico de vendas era medíocre, não entendia nada do projecto. Era como um boi a olhar para um palácio. Muito atrapalhado pediu ao velho projectista para ir com ele ao cliente.
O velho sentiu-se usado, lixado, recusou!
Então o coirão ia receber uma alta comissão e ele, o cérebro do projecto ainda tinha de ir vender o mesmo…
- Vai falar com o teu chefe e pede ajuda. Ele é pago para isso.
O vendedor contrariado assim fez.
Passando um pouco o director de vendas chegou ao gabinete do idoso projectista. Todo pipi, todo cagão, todo incompetente. Para o dito cujo, os seus negócios privados eram mais importantes do que os da empresa onde recebia chorudo vencimento. Ao chegar perto do nosso projectista, assim falou.
- Senhor X, o projecto e a venda é muito importante para a nossa empresa, venha lá ajudar a meu vendedor. O patrão ficará satisfeito, de contrário terás problemas.
O velho projectista aí ficou pior que um urso zangado. A tampa saltou e ele desabafou em voz alta.
- Coirões, incompetentes, vós sois quem tem a obrigação de vender. Andam nas putas e no fim têm os lucros. Vão-se fornicar!
Depois pensou mais aliviado.
- Porque estou a chatear-me? Estou já reformado, estou aqui de borla, dando uma ajuda. Vou-me já embora e os gajos que se fodam.
Após pensar isto, o velho idoso acordou, com o coração acelerado, mas aliviado.
Fim
José Bray, 16/12/2014
Nota - Foi mais um sonho recorrente do meu tempo de projectista. Foi um sonho mas com muito de verdade. Sonhei este tormento, na noite de 14 para 15 de Dezembro.