terça-feira, 31 de março de 2015

Cooperantes - Introdução

A pedido de vários amigos e amigas, vou colocar no meu Blogue, alguns capítulos dos Cooperantes da autoria do Djapam. Os textos baseiam-se quase todos na verdade, por essa razão Djapam pediu-me que não colocasse aqueles, que podem interferir com a vida de certas pessoas.
As datas no fim de alguns períodos, referem-se ao dia em que foi escrito esse texto.

01 - Introdução
Vou escrever sobre um período muito especial, tanto para os angolanos como para os portugueses radicados na antiga colónia.
Embora a texto trate dos variados aspectos da realidade angolana desse período, no antes e no após independência, o casal Castro estará sempre no cerne de tudo. Os Castros eram e são meus amigos de sempre. Este humilde trabalho é uma homenagem ao seu percurso de vida, nessa fase, historicamente importante. 4/1/2014
Quero contar a saga do meu amigo Alberto Pereira de Castro, conhecido neste mundo por muitos heterónimos, pseudónimos e até alcunhas. Para mim será sempre o Castro e nada mais que o Castro.
Mas outros amigos irão aparecer regularmente, será o caso de José Brandão, de José d’ Barcellos, assim como pontualmente muitos outros serão focados.
Conheci o casal Castro na Luanda dos anos setenta, numa vida despreocupada mas prenhe de utopia, na laboriosa capital de Angola.
Vou escrever sobre um espaço de tempo que vai, desde os vinte de cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro até fins do ano de setenta e sete, um período de aproximadamente três anos e meio. Sem dúvida recheado de factos importantes para todos os envolvidos, desde a queda da ditadura podre e simultaneamente também da queda do império colonial português, e ao nascer de Angola como nação independente.
Afinal quem eram os Castros? Um casal, como muitos outros casais, apanhados na voragem da história com a sua própria estória. Um branco e uma branca que na altura passavam a barreira dos trinta anos. 7/1/2014
Sou o Djapam, amigo do Alberto Pereira de Castro, conhecedor do seu universo, tanto familiar, profissional e também do seu grupo de amigos e interesses. Alguns dos amigos de Castro são também meus amigos. Sou Djapam, um mulato com alma de branco e de preto. Sou o fiel da balança entre dois mundos e duas culturas. Sou o substrato do quinto império. 8/1/2014



sábado, 28 de março de 2015

Cooperantes - Coincidência

Do livro "Cooperantes" do Djapam, retirei este texto curioso. É uma estória verídica...



26 – Coincidência
Vou contar esta estória por diversas razões, embora o tema de fundo seja as coincidências que acontecem na vida das pessoas.
Quero falar do João Sardinha que viveu na zona da Corimba: no antes, no durante e no depois. Refiro-me obviamente ao tempo do colono, ao tempo da transição e ao tempo do após independência de Angola.
O nosso Sardinha era um gajo simpático, sempre pronto a desenrascar o enrascado condutor de carro velho, que eram muitos: inclusive, eu, e os meus amigos, Castro, Brandão e Barcellos. Na realidade ele era um doutor em mecânica de automóveis, saber aprendido por vocação, mas também por muito puxão de orelha quando aprendiz.
O João Sardinha com pouco mais de trinta anos, era proprietário de uma oficina de mecânica, pequena, simples e mal apetrechada. Com ele trabalhavam seis naturais de Angola, quatro pretos e dois mulatos.
Eram uma família feliz que adorava Luanda. Uma vida simples e de muito trabalho. Não eram ricos embora tivessem uma vida desafogada. Praia, desporto, petiscos e muitos amigos.
Fique já assente! Pela cabeça do João Sardinha, nunca passou a ideia de abandonar Angola.
O nosso conhecimento com este homem, devia-se a ele nos ter desenrascado, em alguns problemas, que tivemos com as nossas usadas viaturas. Algumas já em terceira e quarta mão.
Vamos então à tal coincidência, que aconteceu entre a família Sardinha e a família Castro.
Como alguns sabem, mas muitos nem tanto, em Angola não havia assistência social oficial: não havia para os trabalhadores muito menos para o povo. Mais uma descriminação em relação ao Portugal da Europa.
Havia os hospitais para o povo em geral e as clínicas privadas para os mais abastados. Quanto aos partos, havia a maternidade, as clínicas ou as parteiras particulares, entre elas as curiosas. Sim as parteiras tradicionais, porque as mulheres do povo mais humilde pariam normalmente em casa. Estou a falar do tempo dos colonos. Depois foi tudo mais difícil!
A minha amiga Inês de Castro, foi parir a primeira filha a Ana, numa parteira particular que tinha a sala de parto junto à Sagrada Família, isto em Janeiro de 1971. Dias depois a mulher do Sardinha deu à luz a sua primeira filha na mesma parteira.
Como sabemos os dois casais continuaram em Luanda após onze de Novembro de 1975. Porem, o contacto com a família Sardinha era muito raro, e acontecia só por motivos de avaria nas viaturas. De modo geral, vivíamos todos nos nossos guetos, preocupados com a saúde, segurança, alimentação e outras coisas mais.
Em fins de 1975, a Inês voltou a ficar grávida, nascendo a Isa em Junho de 1976. Então não é que a mulher do Sardinha pariu a segunda filha também nesse Junho…
Ambas as meninas, concebidas na Angola portuguesa e nascidas na Angola independente, vieram à luz em suas casas, assistidas pela mesma parteira branca, que por sorte ainda estava na cidade para proteger os seus bens, situados no bairro de Alvalade. Ambos os casais correram as mesmas insuficiências, os mesmos riscos…
Estas eram as coincidências de que falava, mas quero falar mais do Sardinha, porque há outra matéria que considero de interesse.
Igual a muitos outros casos, a vida tornou-se um inferno para o casal Sardinha. Contra sua vontade foi obrigado a abandonar Luanda e regressar a Portugal. Curiosamente como o Castro nos fins de 1977.
Antes de partir, o Sardinha fez o que muitos outros fizeram, preparou o pessoal e ofereceu-lhes a oficina numa sociedade colectiva. Pessoalmente conheço muitos casos iguais. Como igual conheço o fim dessas sociedades, ou seja.
Os trabalhadores deixaram ir tudo por água abaixo: má gestão, falta de saber, indisciplina, pouca vontade de trabalhar, falta de tudo, excepto ousadia de ignorância, tão própria por parte dos portugueses e dos angolanos.
Muitos anos depois, recebi uma carta do Alberto de Castro, que vou transcrever.

Meu caro Djapam,
Sei que estás bem, com saúde e realizado, assim como a querida Amip e a vossa filharada.
Hoje escrevo para te dar uma boa notícia.
Por motivos profissionais, encontrei o João Sardinha. Sim aquele branco simpático que nos desenrascava os nossos carros. Aquele cujo as duas filhas nasceram quando as minhas num jogo de coincidências.
O Sardinha ao regressar a Portugal, triste e amargurado, mas com forças para lutar, abriu a cem quilómetros de Lisboa uma pequena oficina igual à que tinha em Luanda.
Tudo bem! Mas ao contrário do que aconteceu aí, esta cresceu, cresceu, cresceu. Foi uma evolução de tal ordem que hoje emprega cerca de duzentos profissionais e evoluiu para diversas áreas, todas ligadas à mecânica.
Em resumo, o Sardinha é um gajo importante e muito rico. Mas continua o mesmo homem, que tu e eu conhecemos em Luanda.
Tudo isto parece uma anedota mas não o é… Em Luanda terra de colono, trabalhou de sol a sol e pouco teve nas questões materiais. Aqui enriqueceu!
Como vês querido Djapam, os explorados éramos nós…
O João, disse-me que tem ido a Luanda e quer investir em Angola, para ajudar a reconstruir o país que tanto ama. Mas não quer trazer qualquer lucro.
Foi esta a novidade que te queria dar.
Até sempre meu amigo.
Alberto de Castro

Fiquei feliz com esta carta do meu amigo Alberto de Castro e fiquei interessado em saber mais coisas do Sardinha.
Muito mais tarde, descobri que o nosso antigo mecânico, abriu várias oficinas em Angola e passava cá a maior parte do tempo.
Em Portugal, a sua empresa era um sucesso, mas era aqui em Luanda que se sentia bem e era feliz.
Ao contrário de outras estórias esta teve um final feliz.

Djapam

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O foguetório


Na aldeia a festa prometia ser rija. Comida e vinho não iam faltar, nem doces, cafés e aguardentes. Musica com muito folclore também não.
Por todo o lado viam-se emigrantes vindos de todas as partes do mundo e gente de Lisboa. O Mordomo (1) andava feliz, tudo estava a correr bem… a certa altura gritou.
- Felisberto, Felisberto! Chegou a hora de começar o foguetório. Vai homem e dá fogo à peça.
O tal homem, meio coxo, meio marreco, meio pateta, apareceu ao chamamento.
- Sim Mordomo, vou já tratar disso. Não posso ir a correr, estou cansado devido a ter andado toda a tarde a apanhar as canas.
- Apanhar canas num dia de festa? A propósito de quê? É coxo, marreco tonto e deve estar mais que bêbedo. Apanhar as canas hoje? O homem é mesmo anormal.
Assim pensou o gordo Mordomo, mas não ligou porque o homem era mesmo tontinho e ainda por cima andava sempre em vinha-d’alhos. Como o infeliz tudo fazia de borla e era burro para toda a carga e todas as tarefas, o Mordomo aguentava todas as suas asneiras. Enfim, o Felisberto era um explorado!
O tempo passou e foguetório? Nada, nem um estalinho. O Mordomo admirado foi até ao local de lançamento dos foguetes.
Lá, o Felisberto chorava, entre os vapores da bebida e a sua loucura. O Mordomo, vermelho pela fúria inquiriu.
- Que se passa homem de Deus?
- Mordomo, meu Mordomo, os foguetes não sobem porque não acendem. Não sei o que aconteceu. Ainda esta manhã experimentei-os todos e estavam todos bons. À tarde tive tanto trabalho para encontrar e apanhar as canas e agora não querem funcionar.
O Mordomo se tivesse uma caçadeira naquele momento haveria na aldeia um Felisberto transformado em peneira. Mas assim que remédio, teve de aguentar.
Uma coisa foi certa. Nesse ano na festa da aldeia não houve foguetório. Quem manda dar essa tarefa a um tolo… só para poupar uns escudos?
Bem feito!
Comeira, noite de ano novo 2014/15
ZM
1 - Mordomo dono da Festa. Todos os anos é eleito um para organizar os próximos festejos.



Respirar


Por vezes não me apetece respirar, mas sou forçado a fazê-lo, senão posso sufocar. A natureza obriga-me a isso.
Por vezes nada tenho para escrever, nem sequer me apetece. Mesmo sendo o vício forte, a vontade não tem força ou seja não há força de vontade.
Mas sem querer, compulsivamente sou levado a escrever, exactamente como sou levado a respirar.
Não quero que me exijam nada de brilhante na minha escrita, ela é feita para eu poder respirar.
Depois, talvez por sorte saia algo de bom, com algum cerne, ou seja algum tutano.
Eu sei: quando parar de respirar vou deixar de escrever. Mas também sei: se parar de escrever vou ficar sem ar, porque vou deixar de respirar.
A minha escrita é a minha respiração, sem ela não sobrevivo, como aconteceu num passado recente com o Xadrez e num passado distante com as Damas.
Lisboa, 27/12/2014

ZM

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O projecto


Um homem idoso na idade mas jovem no espírito, o senhor X, passou horas e horas fazendo aquele importante projecto. A sua empresa precisava de vender os materiais referentes a essa obra, para salvar os números do ano.
Tratava-se de um armazém de grandes dimensões para uma cadeia de Super Mercados. Obra de envergadura e muita complexidade. O senhor X desenhou durante o dia e continuou pela noite fora, após idealizar a solução arquitectónica. Depois passou à parte de engenharia, calculando todos esforços da estrutura. Calculou a resistência à tracção e à compressão, dos pilares, vigas e diagonais. Previu travamentos. Tudo foi pensado, calculado e revisto.
Ficou a tarefa feita? Não, nem pensar! Depois vinha outra de responsabilidade, contar todos os materiais necessários à obra, para poder ser feita a orçamentação. Ao fim e ao cabo, a única coisa que interessava ao cliente.
O projectista, contou milhares de barras, de dimensões variadas e de perfil diferente. Umas cantoneiras eram em 140, outras em 160, outras em 225, bastantes em 300 e algumas em 345.
Esta escolha dependia dos esforços a que cada barra era solicitada na exigência máxima.
Depois era a difícil contagem dos parafusos, eram dezenas de milhar dos normais, milhares dos de alta resistência e muitos de mola.
Havia quatro escadas com sua complexidade. Dezenas de corredores e varandins com centenas de pranchas perfuradas. Havia prateleiras de várias dimensões aos milhares. Havia os esquadros de travamento, assim como as sapatas especiais chumbadas ao chão.
Depois desta exaustiva contagem com muita responsabilidade, estava tudo?
Não! Era preciso recontar por outro método, só assim havia garantias de não haver erro na contagem com consequências no preço final da obra. Prejuízos que iriam reverter para a empresa fornecedora.
A seguir era preciso fazer a orçamentação propriamente dita assim com o relatório. Finalmente organizar as pastas com o processo completo.
Com as diversas etapas, passara-se quatro dias e três noites, num árduo trabalho quase sem paragem.
Qualquer outro técnico da empresa, levaria quase duas semanas a fazer aquele projecto orçamento. Isto se o soubessem fazer...
Como já disse, este projecto era fundamental para a sobrevivência daquela empresa de estruturas metálicas.
Enquanto no gabinete o idoso projectista fazia aceleradamente a árdua tarefa, o vendedor responsável por vender a obra, passava os dias no café ou passeando pela cidade, fingindo que visitava clientes. Uma grande balda!
Perante um projecto tão complexo e importante, o vendedor devia passar parte do dia perto do velho projectista para se inteirar de tudo e poder apresentar as mais-valias ao cliente. Mas nada disso o vendedor fez…
Após o projecto feito, orçamentado e o processo montado, o vendedor foi chamada para o levar ao cliente, empresa importante na área dos Super Mercados.
O técnico de vendas era medíocre, não entendia nada do projecto. Era como um boi a olhar para um palácio. Muito atrapalhado pediu ao velho projectista para ir com ele ao cliente.
O velho sentiu-se usado, lixado, recusou!
Então o coirão ia receber uma alta comissão e ele, o cérebro do projecto ainda tinha de ir vender o mesmo…
- Vai falar com o teu chefe e pede ajuda. Ele é pago para isso.
O vendedor contrariado assim fez.
Passando um pouco o director de vendas chegou ao gabinete do idoso projectista. Todo pipi, todo cagão, todo incompetente. Para o dito cujo, os seus negócios privados eram mais importantes do que os da empresa onde recebia chorudo vencimento. Ao chegar perto do nosso projectista, assim falou.
- Senhor X, o projecto e a venda é muito importante para a nossa empresa, venha lá ajudar a meu vendedor. O patrão ficará satisfeito, de contrário terás problemas.
O velho projectista aí ficou pior que um urso zangado. A tampa saltou e ele desabafou em voz alta.
- Coirões, incompetentes, vós sois quem tem a obrigação de vender. Andam nas putas e no fim têm os lucros. Vão-se fornicar!
Depois pensou mais aliviado.
- Porque estou a chatear-me? Estou já reformado, estou aqui de borla, dando uma ajuda. Vou-me já embora e os gajos que se fodam.
Após pensar isto, o velho idoso acordou, com o coração acelerado, mas aliviado.
Fim
José Bray, 16/12/2014
Nota - Foi mais um sonho recorrente do meu tempo de projectista. Foi um sonho mas com muito de verdade. Sonhei este tormento, na noite de 14 para 15 de Dezembro.


Carta ao Pai Natal


João andava na terceira classe daquela Escola que ficava longe do bairro onde morava. A Escola era no asfalto, mas o João vivia no bairro dos pobres.
O governo obrigava todas crianças a frequentar o ensino primário. Por isso o nosso pequeno, contra a vontade do pai, teve essa possibilidade: aprender a ler e a escrever. Já os irmãos mais velhos foram arredados dessa hipótese porque a lei, na idade deles, não impunha essa obrigatoriedade.
O nosso rapaz morava,  num bairro da lata, com os pais, dois irmãos mais velhos e uma irmã com pouco mais de dois anos.
Todos os dias o João fazia uma hora de caminho para alcançar a Escola e outra hora para chegar a casa. No regresso parava numa cantina para pobres, lá comia um prato de sopa e uma fatia de pão escuro.
Depois de chegar à sua barraca, João deixava a saca dos livros e ia ajudar o pai a apanhar ferro velho pelas ruas da cidade. Já noite e à luz do candeeiro a petróleo o miúdo fazia então os trabalhos de casa, neste caso os escolares.
João não era um super aluno, mas era razoável. Muito introvertido, pouco falava, mas escutava tudo com muita atenção,  inclusive as conversas dos seus camaradas, quase todos de famílias com grande poder económico.
Os tais colegas não lhe passavam cartão. As roupas, o calçado e o cabelo comprido denunciavam o estatuto de menino pobre. Naquela época não havia a moda do cabelo comprido e quando um rapaz tinha o cabelo um pouco maior era sinal da sua humilde condição.
Estávamos a chegar ao Natal, as férias iam começar já daí a dois dias. Na hora do recreio, o João e na sua inocência de criança, aproximou-se disfarçadamente do Eduardo, do Pedro e do David, eles eram os meninos ricos. O João sentia alguma inveja, porque tudo possuíam e ele nada tinha, e assim começou a ouvir as conversas.
Diziam eles:
- Sabes Pedro, já escrevi ao Pai Natal a pedir os brinquedos que quero. E tu?
- Eu, também Eduardo, só não sei se o Pai Natal traz todos, porque pedi muitos. E tu David?
- Já escrevi sim amigos, pedi uma bicicleta maior e uns patins. Tenho a certeza que os vou receber. A mim o Pai Natal nunca falhou.
- E tu João? Que estás a ouvir a conversa, já escreveste ao Pai Natal?
Assim falou o Eduardo com sorriso de gozo… a que os outros fizeram parelha.
O João apanhado desprevenido não quis dar parte de fraco e disse que sim.
No regresso a casa, foi matutando. Se aqueles colegas escrevem e recebem, porque razão não escrevo também?
Se assim pensou melhor o fez. Com os cinco tostões que tinha, para comprar uma carcaça e um rebuçado, passou nos CTT e comprou um postal para escrever e pedir o que gostava de ter nesse Natal.
Depois sentou-se num banco do Jardim e com uma letra cuidada começou a escrever o seu, tão desejado, pedido.

Querido Pai Natal,
Nunca tinha escrito a pedir um presente para mim no Natal, porque ainda não sabia escrever e tinha vergonha de pedir a alguém que soubesse, pois lá em casa todos são analfabetos.
Hoje na Escola ao ouvir os meus colegas, dizendo que já tinham escrito ao pai Natal, tomei coragem e aqui estou.
Pai Natal, eu quero pouca coisa, gostava de ter uma bola a sério, daquelas com que o Benfica joga. Também queria pedir uma boneca para a minha irmã que tem dois anos.
Se o Pai Natal achar que é muita coisa, então traga só a boneca para a minha irmã: eu não me importo de não receber a bola.
Muito obrigado Pai Natal
Beijos do João
Nota: a minha irmã chama-se Ana Maria.

O Natal passou e o João não recebeu a bola nem a irmã a boneca.
Na Escola perguntou ao Eduardo, ao David e ao Pedro, se tinham recebido os presentes. Eles com um largo sorriso de meninos com superioridade, disseram que sim e que até tinham recebido outros que o Pai Natal levara sem eles terem pedido.
Nesse dia,  João regressou a casa muito triste. Porque razão é que o Pai Natal levava os presentes aos meninos ricos e aos pobres não? Se ele não trouxesse a bola ainda perdoava ao Pai Natal, mas não ter trazido a boneca para a irmã não lhe perdoaria nunca.
Um dia, muito mais tarde compreendeu e então não mais acreditou no Pai Natal nem no menino Jesus. Agora também não tinha mais importância, sua irmã morrera, infelizmente já não precisava da boneca.
Comeira, Noite de Natal de 2014
Dedicado à minha irmã Ana Maria que partiu com dois anos e meio.
José Manuel Bray




Milagre de Natal (2)


João caminhava lentamente para casa, era de véspera de Natal, o dia estava húmido e frio. A tarde chegava ao fim e em breve a noite desceria sobre a cidade. Em casa duas crianças esperavam desesperadamente por ele.
O rapaz ainda novo, mal ultrapassava os trinta, apressou o passo, queria estar com os seus meninos o mais rápido possível. Tinha contudo ainda de resolver uma questão melindrosa, comprar os presentes para a Ana e a para o Luís, os seus gémeos. A menina queria uma boneca que há muito vira numa montra da Morais Soares e ele um revolver de plástico, que passara os dias a namorar defronte da montra da mesma loja de brinquedos.
Tudo seria muito simples, o problema é que ele não tinha o dinheiro para comprar os presentes tão desejados pelos filhos. Estava há muito desempregado e a divida ao merceeiro era muita e a renda do quarto estava atrasada já três meses. O Santos da loja e o senhorio Lopes, já tinham ditado a sentença. Ou aparecia o dinheiro, ou acabava a comida e a casa.
Que fazer?
Não visualizava qualquer solução… talvez roubar alguém com ar de abastado. Mas faltava-lhe a coragem e também o expediente.
Desde que morrera a sua amada sentia-se totalmente perdido. Mas os filhos tinham de comer e queriam que o pai Natal lhes trouxesse os brinquedos desejados.
Sem forças para tomar uma iniciativa ou para caminhar a centena de metros que o separavam do quarto em que sobrevivia com os filhos, sentou-se no banco da paragem dos autocarros. Uma amargura e um desespero imenso apoderaram-se do jovem homem. Não tardou que a emoção envolvesse o seu magro corpo, ao pensar nos filhos e na companheira desaparecida, mãe dos meninos.
Com a cabeça entre as mãos, por sua vez estas apoiadas nos cotovelos que faziam suporte nos joelhos cobertos pelas coçadas calças, o homem começou a chorar de mansinho, mas as lágrimas eram um rio deslizando pela cara cheia das marcas da fome.
Que fazer? Meus queridos filhos…
Não sentiu logo, mas aos poucos apercebeu-se de uma leve pressão no ombro esquerdo. Uma mão pequena batia ao de leve, aos poucos João foi-se apercebendo disso. Olhou!
Um sorriso maravilhoso olhava para ele, era a mulher mais linda que vira na vida. Seria um anjo?
- Porque choras meu rapaz? Diz-me o que se passa?
Sem conter as lágrimas o jovem homem abriu o coração. Devido à emoção atrapalhadamente deu algumas informações à senhora que entendeu logo o drama. Também ela há muito vivera situações semelhantes.
Então sem hesitar não só deu dinheiro ao João para as prendas como o convidou e aos filhos a passar a noite de Natal com ela e com sua filha uma menina da idade da Ana e do Luís.
João de imediato foi comprar as prendas para os filhos e à hora marcada lá estava à porta da casa da sua benfeitora.
Foi uma noite mágica para aquelas três crianças, para o João e para a maravilhosa senhora, tão bonita por fora como por dentro. João levou um ramo de violetas e recebeu uma foto de mãe com a filha. Há meia-noite uma luz multicolor brilhou forte na sala onde as crianças felizes abriam os presentes.
Os dias passaram e novo ano chegou, com ele a esperança na vida. Tudo começou a correr bem ao João, conseguiu um trabalho seguro e uma nova namorada entrou na sua vida.
Um dia João decidiu ir visitar a sua benfeitora. Vestiu os gémeos com roupa de domingo, comprou um ramo de rosas brancas, dirigindo-se depois para a morada em que estivera na noite de Natal.
A rua parecia-lhe mais velha e suja. Ao chegar ao prédio, este estava quase em ruínas com nítida falta de conservação. O homem entrou no edifício e bateu à porta. Apareceu-lhe uma velha muito velha.
- Que deseja?
- Venho visitar a senhora da casa. Ela está?
- Claro que está, a senhora da casa sou eu.
O homem com as crianças ao lado ficou confuso, tirou uma foto do coçado casaco e mostrou à velha.
- Falo desta senhora e da sua menina.
A mulher olhou atentamente para a fotografia abriu muito os olhos e exclamou espantada.
- O senhor ou está a brincar comigo ou está doido. Essa senhora morou aqui com a filha há mais de cinquenta anos. Há muito que morreram.
 O homem ficou aparvalhado, mas ainda perguntou.
- Mas como morreram, mãe e a filha?
- Sim homem de Deus, morreram num acidente quando regressavam de avião do estrangeiro.
Como era de esperar, João compreendeu que naquela noite de Natal, foi um milagre o que aconteceu. Os filhos não entenderam nada mas ele não mais esqueceria na vida, aquela mãe e sua filha.
Comeira, 13 de Dezembro de 2014
Dedicado à Francisca, sua mãe e sua avó!

José Bray