terça-feira, 4 de novembro de 2014

A Escola e o Pobre!


A Escola e o Pobre
Parte I - O princípio
O mês de Setembro estava a chegar ao fim. Naquele ano da década de cinquenta, na  escola recem inaugurada, os professores sobre a orientação do director,  o doutor Aníbal Bajouco, estavam reunidos para tratar de diversos assuntos.
A certa altura o director abordou um tema que criou alguma celeuma. 
- Meus senhores, caros colegas: vou começar a quarta classe com quase quarenta alunos. Trinta de bom nível social, dez de famílias muito pobres e disfuncionais. Uma coisa vos garanto, os rapazes de fracos recursos vão ter muita dificuldade em ter aproveitamento para poderem fazer o exame da quarta. No que respeita à admissão ao liceu, nem pensar: não vão conseguir! O que vale é que nenhum se vai inscrever nesse exame, porque o seu destino será uma oficina, marçano ou para as obras…um ou outro vai desistir e cair na vadiagem.
Assim falava o professor director daquela escola primária (situada no extremo do bairro de Alvalade), perante uma plateia de professores. Uma jovem docente com ideias progressistas, chegada há um ano ao ensino, tentou fazer um contraditório.
- Mas senhor director: não quero, contrariar a sua tese, mas não será que um, ou outro rapaz, venha a distinguir-se se for bem apoiado? A inteligência é exclusiva das classes dominantes? Penso que não!
Logo um professor de cabelo untuoso, barriga de calão e carácter subserviente, achou-se na obrigação, desnecessária, de apoiar as ideias do professor sénior, chefe daqueles professores que compunham a pequena plateia.
- Lá vem a menina com as suas ideias “pra-frentex”, para não lhe chamar outra coisa. O senhor director sabe bem do que fala. Também lhe digo…
O Director, que até não simpatizava com aquele professor, interrompeu o paleio do mesmo, antes que o outro dissesse alguma inconveniência.
- Calma Raposo, onde foi descobrir esse calão do pra-frentex? Digo-lhe já que não gostei nada, ainda mais vindo de um professor da minha Escola.
O homem corou e mais parecendo um tomate maduro, pensou. – Era melhor ter ficado calado.
- Professora Celeste, a menina ainda é muito inexperiente por isso o seu idealismo. Não sou só eu que tenho esta opinião sobre os alunos das classes desfavorecidas da nossa sociedade. Claro que me baseio na minha longa vivência. Através dos meus quase cinquenta anos de ensino, passaram por mim muitas turmas e milhares de alunos. Os catedráticos na matéria são todos da minha opinião, incluindo o nosso grande guia: na parede está a sua imagem.
O Mateus, professor de meia-idade, há muito queimado pelo sistema, para o qual se estava nas tintas, achou por bem fazer uma graça, própria do seu cinismo e espírito anárquico.
- Desculpa lá Bajouco, estás a referir-te à imagem da foto ou à imagem do crucifixo? Estão ambos na parede...o guia espiritual e o outro.
A plateia a custo susteve o riso. O director fingiu não ouvir, estava habituado aos dislates do Mateus. Com aquele não havia nada fazer, era um bom professor, simpatizava com ele: achando até graça ao seu humor negro.
- Podem pensar que faço discriminação: não meus senhores. A verdade é: a pobreza não é boa conselheira, os pais são incultos, alguns mesmo analfabetos, o alcoolismo nas famílias também motiva atraso nos miúdos. Mais coisas haveria para focar, mas para terminar; é fundamental criar um mecanismo de auto estima nos rapazes. Podem pensar que não é importante mas é.
Mais uma vez o Mateus se manifestou.
- Concordo com quase tudo que disseste Bajouco, em especial na questão da auto-estima. Experimentem vir para a Escola, esfomeados, rotos e descalços e depois venham-me dizer o que sentem. Não é Celeste, não é Raposo? Mas Bajouco, não aceito que um pobre não possa ser um aluno superior, mesmo não tendo dinheiro para as explicações, que é um dos vossos problemas.

Todos embatucaram, só Celeste sorriu pensando. - Este colega é um porreirão, vou gostar dele…
- Vai agora começar o ano, vamos observar e depois no fim comentamos. Vai uma aposta Mateus? Um almoço para todos os professores? …
- Aceito Bajouco! Mas muito antes vamos tirar conclusões…
- Está combinado: agora meus senhores: vamos à vida.
Com isto o professor doutor Aníbal Bajouco director daquela escola de Alvalade, deu como encerrada a reunião. Dentro de dias, oito de Outubro, iniciava-se o ano lectivo.
Parte II - Primeiros dias
Sou o Manuel Luís Teodoro, filho de pai incógnito e mãe solteira com quem vivo. Hoje comecei as aulas na Escola 112 que fica no extremo do Bairro de Alvalade. As instalações foram inauguradas no ano lectivo anterior, são modernas e muito diferentes das escolas, tipo Estado Novo. Anteriormente frequentava a 33 que ficava mais perto do Campo Grande, mas como mudámos para um quarto na avenida Dom Rodrigo da Cunha, fui transferido para a 112 neste ano lectivo que agora começa.
Todos os dias vou muito constrangido para as aulas. Somos muito pobres, por isso ando muito mal vestido e nos pés os ténis de baixo custo estão rotos. A roupa muito usada e com remendos, está acatitada e não tenho agasalho para o frio. Para completar o ramalhete, ando com a trunfa crescida, que é sinal de pobreza. Todos os dias faço das tripas coração para não desistir de ir para a Escola. Esta cena aconteceu quando andava na segunda classe, quando saia de casa no lugar de ir para a 33, ia para uns terrenos jogar à bola com outros miúdos pobres como eu.
Na minha nova turma da quarta classe, estão trinta e nove alunos, quase todos ricos. Se calhar muitos são só remediados, mas para mim são abastados. Meia dúzia é como eu, pobres, sujos, mal vestidos, mal calçados, e mal-educados. Devo ser o que menos tem, mas não sou sujo nem tenho falta de educação: minha mãe não admitia.
Em relação aos outros pobres, tenho algumas vantagens: sou simpático, não conflituoso e bom aluno. Ser bom na escola é a minha arma para ter coragem para batalhar com a pobreza.
O meu mestre é velhote, chama-se Bajouco e é simultaneamente director da Escola. Nesta há oito turmas, duas por cada um dos quatro anos. Para lá do alto muro, fica a área das raparigas. Não as vemos, só nos exteriores, mas elas saem a horas diferentes para evitar os encontros de sexo oposto. Há mais sete professores, sendo três homens e quatro mulheres. Ainda não os conheço…
Gostei já de alguns colegas e não embirrei com nenhum. Eu, mais os outros pobres fomos colocados nas últimas carteiras e o professor mal olhou para nós. O senhor Bajouco, disse ser provisório, porque a distribuição dos lugares em breve seria por mérito. Só não percebi o critério inicial: ou percebi?
Não quero falar mais da pobreza, mas sou obrigado a isso. Como não tinha dinheiro para os livros, cadernos, lápis, borracha, etc., os mesmos foram fornecidos pela assistência social. Os livros estavam podres de velho, mas a antipática funcionária da secretaria, ainda recomendou com maus modos: - não quero os livros estragados!
Ao almoço e como não podia deixar de ser,  os carenciados iam à sopa dos pobres.

Parte III - Meses depois
Continuava pobre, mas ia sobrevivendo, o meu orgulho dava-me forças para suportar o meio ambiente, agora já tinha aliados na pessoa de meia dúzia de colegas e de dois professores. Estes eram: a professora Celeste e o professor Mateus: ela, simpática e linda, ele, mau feitio mas irónico, muitas vezes a dar para o cómico. 
Após as aulas começarem, o mestre pôs a rapaziada a fazer testes sobre a matéria da terceira classe. Para seu espanto o melhor conjunto de testes foram os meus. Talvez contrariado, lá colocou a malta pela classificação dos testes, por isso fiquei na primeira carteira, sendo o meu camarada o Carvalhosa, rapaz obeso, sem beleza mas simpático. Fiquei Satisfeito! Os restantes pobres continuaram no fundo da sala, inclusive dois abandonaram entretanto a escola.
Nas semanas que se seguiram à abertura das aulas, o mestre deu bastante matéria, apertando com todos. Com todos não, com os pobres o professor, não forçava muito. Depois seguiam-se testes e mais testes. Ficava sempre em primeiro, o segundo é que variava.
Dos camaradas pobres como eu, recordo bem dois: um com quase catorze anos, revoltado com a vida, vingava-se nos mais pequenos: o outro, rapaz pequeno, tinha a alcunha do ciganito, era um bom futebolista, por isso era sempre convidado para as partidas dos meninos de bem, tinha bom feitio e era muito sociável. Gostava muito dele, sempre que podia ia comigo para a minha Avenida brincar com a minha seita.
Por várias vezes fui obrigado a intervir em defesa dos meus amigos quando atacados pelo camarada do bairro da lata, que ficava a trezentos metros da escola. Devido a isso fiz muitos amigos entre os meninos ricos.
No Natal desse ano em que não tive prendas nem roupa nova, tive uma prenda na Escola. Fui recitar um poema de Camões, ensaiado pela bonita professora Celeste. Foi um êxito! Todos bateram muitas palmas.
Durante o beberete, fui muito elogiado, até a antipática da secretaria me veio dar um beijo. Em certa altura ouvi por acaso uma boca do Professor Mateus, dirigida ao meu mestre. – Meu caro Bajouco, vai preparando a massa para o almoço, porque a aposta está perdida. – Que seria, pensei?
Parte IV - Quase no fim do ano
Com a minha continuada pobreza, o ano foi chegando ao fim. O corpo crescia, mas a roupa não, o que valia é que o calor apertava e qualquer trapo servia para fazer uns calções ou uma camiseta.
O professor foi dando e bem a matéria, era realmente competente. Os testes continuaram e eu sempre na frente: o segundo, terceiro e quatro lugares, iam alternando. Em todo o ano só houve uma semana que não fui o primeiro. Vou contar…
O professor era um homem calmo, nunca se excitava nem ralhava alto, nem com os mais reguilas. Dava reguadas em algumas situações, mas não exagerava. Nunca me tratou mal, mas olhava para mim com um certo desprezo. Um dia num teste tive dois erros numa palavra, não sei como fiz aquilo, normalmente nunca dava erros. O Bajouco, chamou-me e deu-me quatro reguadas. Senti que ele ficou feliz, porque falhei! Saí nesse dia muito por baixo. Foram os amigos que me vieram consolar, em especial o ciganito e o Carvalhosa. O ciganito, então fez-me chorar e rir com o seu comentário. – Manel, então eu que passo a vida a levar reguadas ainda aqui estou, para a semana voltas ao primeiro lugar.
Na verdade, assim foi, mas nunca mais pude ver com bons olhos o meu professor.
A amizade, com os meus camaradas, foi o mais gratificante da minha quarta classe. Tinha já lido e relido vezes sem conta “O Coração”, um clássico da literatura juvenil. Obra que todas as crianças e adultos deviam ler. Todas as personagens do livro, as encontrava na minha turma: pela vida fora nunca mais me saíram do pensamento. Os amigos eram muitos, mas a amizade com o Carvalhosa, ultrapassou tudo e todos. Curiosamente no decorrer do ano lectivo a amizade alastrou ao seu irmão, pai e mãe.
E assim cheguei ao fim do ano. Fácil foi passar com distinção, eu o mais pobre era o melhor aluno!
Parte V - O fim.
Tudo o que começa chega ao fim. Mas quero ainda contar alguns pormenores desta estória que aqui conto. Entreguei à personagem principal a fala directa das partes II, III e IV, para ele com palavras suas contar o seu ponto de vista. Manuel, por respeito a sim próprio não quis expor-se muito. Mas eu vou fazê-lo, porque o leitor tem o direito de saber tudo.
É fácil de confirmar que o director Bajouco estava enganado, perdeu a aposta, por isso pagou mesmo o almoço aos outros professores: o Mateus não perdoou.
No fim do ano lectivo, na festa final, o Manuel Luís Teodoro foi a estrela, ao recitar diversos poemas de Camões, Antero e Florbela, tudo ensaiado pela professora Celeste. O rapaz, humildemente vestido, ofuscou tudo e todos. Ele era efectivamente o mais pobre de todos os miúdos que andaram naquele ano na Escola 112.
As quatro reguadas que Manuel apanhou e tanto o feriram na sua dignidade, foi um acto cruel do professor Bajouco, por sentir que ia perder a aposta e ver que a sua teoria caía por terra ao não poder impedir que o mais pobre fosse de longe o melhor aluno da turma.
Mas ainda quero narrar mais um episódio que o próprio Manuel não quis contar.
Naquela época, em especial nos centros com mais poder económico, os professores, quando davam a quarta classe, aproveitavam para dar explicações aos seus alunos para os preparar para o exame de admissão ao liceu. Com isso facturavam uma boa nota.
O professor e director da 112 não fugia a essa regra, ainda por demais numa zona em que ninguém deixava de mandar os miúdos à explicação, só não iam os pobres, mas esses também não iam ao exame de admissão.
Essas explicações eram um conto do vigário aceite por quase todos. Uma criança preparada para o exame da quarta estava preparada para a admissão ao liceu. As explicações eram uma falácia.
Mas o Manuel quis ir a exame, sabendo que não precisava das explicações para nada. Contudo sua mãe, como sabia que os outros iam às explicações, sentiu-se na obrigação de dar uma satisfação ao professor do filho: dizendo que o Manuel não podia ir às explicações porque ela não podia pagar.
Que fez o Bajouco? Disse à pobre mãe.
– Vocês não se querem sacrificar pelos vossos filhos, depois não se admirem se tiverem uma surpresa.
Grande sacana: deixou a pobre senhora ir com a coração a sangrar, quando sabia que o Manuel não precisava e até era uma estupidez ele ir às explicações. Ele tinha a obrigação de fazer exactamente o contrário, deixar a senhora descansada.
Sabem o que aconteceu? O Manuel foi fazer a admissão ao liceu no Luís de Camões. Entre muitos milhares, foi um dos melhores aluno, senão o melhor.
Por educação o Manuel não conta isto no seu relato, mas nunca perdoou ao seu professor da quarta, que por curiosidade até era parecido com o guia da nação.
Para terminar, quero só escrever mais umas linhas. Estávamos em pleno Estado Novo, anos cinquenta.
Sabem que aconteceu a seguir a este estudante brilhante? Uma ironia! Não pode estudar devido à mãe solteira não ter meios económicos.
Meus senhores, isto sim: era a merda do Salazarismo!
José Bray, 19/7/2014


Nota: esta narrativa (verdadeira) é uma homenagem aos meninos pobres do Estado Novo, que não podiam estudar por não terem meios e porque tinham de ir trabalhar para ajudar no agregado familiar. Depois havia os meninos pobres e muito inteligentes. Para estes então, era uma dupla injustiça.



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Jantar dos Notáveis 1996

Jantar dos Notáveis
Ao consultar o meu baú dos manuscritos encontrei esta jóia do passado. Em honra dos meus amigos e camaradas do passado, não posso deixar de divulgar o manuscrito aos meus amigos do presente: muitos são os mesmos, direi todos! Só um partiu e é para ele também esta homenagem. 27/10/2014
Acta nº 1
“ Jantar dos Notáveis”
A vinte e nove de Novembro de 1996, na Marinha Grande no restaurante ”A Palhota”, reuniram-se pela primeira vez, oficialmente, os Notáveis do Xadrez Marinhense. Estiveram presentes os seguintes “Notáveis”:
José Bray, o mais velho, “Druida”, fundador da Academia de Xadrez de Luanda, Núcleo de Xadrez Marinha Grande, APOS, etc. Duzentos e quarenta e um anos de vida e milhões de quilómetros percorridos.
Vitor Cordeiro, “Astérix”, professor, engenheiro, lavrador, grande campeão. Já venceu um Torneio 25 de Abril. Também fundador do Núcleo de Xadrez. Companheiro de muito caminho.
Carlos Quaresma, mestre internacional de xadrez postal. Já deu muito ao xadrez da Marinha Grande. É o grande dinamizador do Memorial Dr. José Vareda em Xadrez por Correspondência. Fundador também do Núcleo de Xadrez. Foi durante muito tempo a nosso primeiro tabuleiro.
Carlos Marques, o nosso Xana. Completou durante muitos anos a famosa equipa dos Mosqueteiros, com os três notáveis já citados. Era o nosso d’Artagnan. Grande camarada e companheiro de muitas viagens e muitas vitórias. Também fez parte dos sócios fundadores do Núcleo de Xadrez.
Carlos Dias, “Obelix”, árbitro internacional e grande dinamizador do xadrez, trabalhador incansável. Companheiro de muitas andanças. Actualmente representa o Inatel. Esperamos que venha a ser o primeiro profissional do Xadrez no Distrito de Leiria.
José Ribeiro, o nosso Miguel. Revelação do xadrez marinhense, campeão nacional sub 12. Descendente dos Ruivos e dos Saraivas de Picassinos. Bom companheiro e colaborador assíduo. Poderá a vir a dar muito no xadrez.
Pedro do Mar, o mais jovem do grupo de Notáveis. Exemplo para todos, sejam adultos ou jovens. Actualmente é responsável do Clube Juvenil.
Carlos Nobre, o estratega, responsável do Núcleo de Xadrez Marinha Grande. Tem a ingrata missão de ter de fazer evoluir o seu Clube. Também excelente companheiro. O seu trabalho poderá contribuir para uma melhoria a todos os níveis.
Germano do Mar, director do SOM, ligado ao xadrez por via familiar. Excelente companheiro e grande amigo. Está a ter este ano uma forte prova de fogo, como responsável do 8º Memorial Dr. José Vareda.
Além destes notáveis, alguns não tiveram hipótese de estar presente. Mas esperamos que isso aconteça em futuros encontros.
Enquanto se comia bem e alguns bebiam e não menos bem, vários assuntos foram sendo discutidos. Vamos fazer uma breve resenha das actividades xadrezísticas, já que as outras estão patentes na conta a pagar.
Ponto principal: entrega ao Carlos Quaresma da Norma de MI em Xadrez por Correspondência. Isto foi motivo de grande orgulho para todos nós.
Hoje 27/10/2014 ao transcrever o texto para o Word não consigo evitar as lágrimas.
Primeiro ponto: ficou decidido que o Sport Operário Marinhense, jogaria a Taça de Portugal: votos a favor de Quaresma, Cordeiro, Dias e Ribeiro. Bray votou em branco.
Segundo ponto: Memorial Dr. José Vareda em xadrez postal, vai encerrar. Vamos preparar a festa para entrega de prémios e do livro do torneio.
Terceiro ponto: analisou-se o ponto de situação da equipa na 9º Torneio nacional de Clubes. Chegou-se à conclusão que ainda poderemos chegar à vitória.
Quarto ponto: Puseram-se em dia as estórias do Xadrez.
O barulho foi cada vez aumentando mais. Nesta altura altura do campeonato, ninguém ligava à presença da dona Lurdes que queria saber das sobremesas. Só à quarta tentiva foi ouvida.
Quinto ponto: ficou decidido que os notáveis se iriam juntar para jantar cada seis meses. Depois logo se vê quem paga. Também se passará a convidar dois ou três notáveis de outros clubes do Distrito.
Sexto ponto: Decidiu-se apostar no Inatel de Equipas.
Por fim, já era dia 30 de Novembro há muito, os Notáveis decidiram partir para os seus destinos, marcando já encontro para o próximo jantar dos Notáveis.
Assinaturas:
José Bray
Vitor Cordeiro
Carlos Quaresma
Carlos Marques
 Carlos Dias
José Ribeiro
Pedro do Mar
Carlos Nobre
Germano do Mar
Marinha Grande, 29 de Novembro de 1996

Nota: há fotos deste jantar!

domingo, 29 de junho de 2014

Xadrez - Crise na Associação de Xadrez de Leiria



Xadrez – Em busca da solução perdida!

Em vinte e oito de Julho de 2013 escrevi no meu blogue um texto sobre a gestão da Associação de Xadrez de Leiria. A minha mensagem levantou uma certa polémica, e alguém sentiu-se atingido. Ela foi escrita para alertar consciências. Dias depois, a dois de Agosto, coloquei nova mensagem no blogue dando alguns esclarecimentos relativamente aos meus pontos de vista.
Nas minhas mensagens ao contrário de que muita gente pensou, não era para atingir ninguém. Era sim para criticar certos procedimentos com que não concordo. Coisa que faço sem papas na língua no sitio certo.
Pois é! Alguém ficou ferido e demitiu-se das suas funções de presidente.
Após isso, foi eleita uma nova Direcção para a Associação de Leiria que apoiei. Nessa altura coloquei uma nova mensagem no blogue no dia vinte e um de Setembro. Duas semanas depois, a seis de Outubro nova mensagem no blogue considerando que a Associação estava no bom caminho.
E agora? Agora, ainda não passado um ano, sinto-me na obrigação de voltar escrever uma mensagem no blogue. E porquê? Porque a coisa está feia.
Não quero que ninguém se ofenda, nem tenho a intenção de atacar seja quem for. Ao fim e ao cabo como nas mensagens anteriores.
Há dias a direcção enviou-me uma carta de demissão em que quatro directores a subscreveram. Quer isto dizer que a coisa está negra. Conclusão! Nesta estória, falhámos todos, inclusive a minha pessoa.
Nunca pensei ser possível, tantas clivagens, inclusive no seio da própria direcção gestora.
Não vou lavar aqui roupa suja, mas parece impossível que numa modalidade em que a mente é soberana, haja tantas picardias. Tantos feudos, tantos inimigos de estimação, tanta falta de educação e tanta falta de tolerância. Isto é só xadrez meus senhores!
Apelo ao bom senso de todos. Tentem não pôr as miudezas à frente dos interesses do colectivo e da modalidade.
Um Distrito com tanto para dar, em todas as frentes, não se entende que andem nestas guerras do Alecrim e da Manjerona.
Da minha parte como Presidente da Assembleia Geral, tentarei ajudar no que puder. Reunirei com os membros da Mesa, depois tentaremos falar com todos os intervenientes responsáveis do xadrez do Distrito, para auscultar opiniões e possíveis soluções.
Peço a todos que façam jogo limpo!
José Bray, 29/6/2014


Digníssimo Presidente da Assembleia Geral da A. X. Leiria

Sr. José Manuel Bray

Carlos Oliveira Dias, Presidente da Direcção da AXL, Carlos Baptista, Vice-Presidente da Direcção da AXL, Mário Canaverde, Tesoureiro da AXL e Jorge Gonçalves Silva, Vogal da Direcção da AXL, vêm mui respeitosamente pedir a demissão dos cargos que ocupam na AXL, solicitando a V. Exa se digne marcar eleições.
Mais informamos que até final da época estaremos em função e cumpriremos o calendário associativo.
Respeitosamente,
Carlos Oliveira Dias
Carlos Maximiano Baptista
Mário Canaverde
Jorge Gonçalves Silva




Xadrez - Memorial Vareda versus Nacional Semi-rápida Equipas

135 - Xadrez – Memorial Vareda versus Nacional de Semi-rápidas
Com atraso, mas pleno de oportunidade venho escrever mais uma vez sobre o Memorial José Vareda versus Nacional de Semi-rápidas Equipas.
Como todos os xadrezistas sabem o Memorial Vareda disputa-se há vinte e cinco anos na Marinha Grande sendo até 2012 simultaneamente o Nacional de equipas. O que muita gente não sabe é que fui eu quem criou a prova em homenagem ao doutor José Henriques Vareda, ilustre cidadão da cidade vidreira. O nosso “Doutor” foi um competente advogado defensor da liberdade, um não menos famoso político assim como um homem do associativismo e voluntariado em causas do bem público. Também era um admirador da nossa modalidade que praticava sempre que possível. Uma das obras da sua vida foi o SOM, ou seja, o crescimento e dignificação do seu Sport Operário Marinhense.
Após o seu precoce desaparecimento, com ajuda de alguns amigos decidi avançar para a realização de um Memorial em homenagem o nosso Doutor.
Poucas pessoas sabem que, nessa época não havia no calendário nacional o Campeonato de Semi-rápidas de equipas. Mas, ainda menos pessoas sabem que foi a Federação Portuguesa de Xadrez a pedir ao SOM para a prova ser também Nacional, o que teve a nossa aceitação, para bem da modalidade. Assim aconteceu durante de vinte e poucos anos. No último fim-de-semana de Janeiro, o Operário transformava-se na capital do xadrez.
A Federação tinha assim mais uma prova de prestigio no seu calendário, a maior parte da vezes a custo zero e sem nenhum trabalho. Desmintam-me se não for verdade.
Por este Portugal, há centenas de jogadores que têm uma grande simpatia, empatia e ternura por este evento. Façam um inquérito e analisem o resultado. Por cá passaram muitos jovens que hoje são pais e muitos foram pais e já são avós.
Pela Marinha Grande passaram milhares de xadrezistas e familiares. Não há clube de xadrez em Portugal que se preze, que não tenha troféus do Memorial nas suas vitrinas.
Através do tempo houve alguns problemas entre os dois organismos, FPX/SOM, mas com bom senso sempre foram ultrapassados, terminando inclusive na feitura de um protocolo.
Em 2013 levantou-se um contencioso a que sou alheio entre o SOM e a FPX, ou vice-versa. O resultado desse imbróglio é que foi separado o Memorial do Nacional ou vice-versa.
Na minha opinião, um tremendo disparate e falta de tacto de parte a parte! Ninguém ganhou com isso. De quem foi a culpa? Não estou de momento a tentar saber e muitos a incriminar.
Este ano o Memorial Vareda realizou-se com 12 doze equipas, por sua vez o Nacional foi jogado em Coimbra por 18 equipas. Um tremendo flop nas duas provas. Como disse em local certo, não merece a pena manipular as cabeças, foi mesmo um fracasso.
Quem ganhou com a falta de bom senso. O Xadrez? Os xadrezistas? O SOM? A Federação Portuguesa de Xadrez? Provavelmente ninguém!
Com tudo isto, o Memorial José Vareda pode ter morrido em 2014 e a Federação terá uma prova da treta, como se viu este ano.
Pergunto a todos os responsáveis.
Não é de parar e pensarem em retornar ao modelo antigo? Não será de dar o braço a torcer e o Memorial José Vareda voltar a ser o que sempre foi? É óbvio que sim! Pensem no assunto...para ajudar, se acharem útil, saibam que podem contar comigo.
José Bray, 29/6/2014



quarta-feira, 18 de junho de 2014

Crianças - Ilusão no Xadrez



Não se pode ficar só na ilusão
Resultados da Terceira etapa do Circuito Jovem do distrito de Leiria - em Rio Seco - os representantes do SOM:
Guilherme Faria em 5 jogos ganhou 4
Rafael Balseiro em 5 jogos ganhou 3
Excelentes resultados!
Através do facebook tive acesso a esta informação e comentei.
- Sim os resultados foram bons! Mas é preciso evoluir, para isso é preciso muito trabalho e quem saiba ensinar. Não se pode ficar só na ilusão!
Este meu comentário deu origem a outro que se interligam.
- Queria apenas salientar que o Rafael nunca teve aulas de xadrez... e eis que conseguiu este resultado espectacular! Parabéns ao Rafael!
Como era óbvio...confirmei.
- Sim claro, parabéns!
Alguém ficou admirado ou curioso e comentou.
- Ilusão?
A minha frase: Não se pode ficar só na ilusão! Foi a raiz para os diversos comentários no facebook, mais alguns feitos pessoalmente. Vou então tentar explicar sem quaisquer sofismas a razão do meu comentário.
Atenção, estamos a falar de xadrez uma modalidade de alta exigência. Estamos a falar de algo profundamente científico, sem dúvida uma arte, uma filosofia, para alguns uma religião e finalmente um jogo de alta competição. Diz quem sabe que a vida imita o xadrez e também que a vida é curta para o xadrez.
As crianças aprendem os movimentos básicos, depois são levadas para a competição pelos pais, monitores, professores, seccionistas e também por eles mesmo. Contudo, a maior parte vai sem um mínimo de formação.
Os miúdos querem de imediato entrar nos campeonatos, muito bem (ou muito mal), tendo ou não preparação adequada. Não devemos desmotivar a rapaziada, antes pelo contrário. Mas tem de haver bom senso (tacto) nessa motivação. Não podemos cair num excesso de paternalismo que não leva a nada. Eu mesmo, cometi esse erro muita vez no passado. Acabei por verificar que de nada servia, só criava a ilusão nos jovens. Com a idade e com a azia da vida talvez tenha exagerado no sentido contrário.
As crianças mal sabem movimentar as peças, querem logo jogar e querem de imediato ganhar.
Pior ainda, os pais que nem as peças sabem movimentar e por vezes nem a designação das mesmas, só pensam na perspectiva do ganhar. A frase tipo doa pais, que mais se ouve no fim das sessões é a trivial pergunta. – Ganhaste? – Nunca oiço ninguém perguntar. - Então filho como correu? – Então filho foi uma boa luta? – Então filho aprendeste alguma coisa? – Então filho foi divertido?
Muitas vezes, ignorantes do xadrez, ainda ralham com os filhos. Vi mesmo há anos uma besta a dar uma chapada no miúdo!
Como é óbvio, as crianças atirados assim aos bichos, é para perder, perder e voltara perder. Isso é o normal, o anormal é se fosse ao contrário.
Sem aprender ninguém fica a saber, verdade de La Palice. Por isso é preciso trabalhar muito para aprender e o xadrez não se assimila em segundos.
Falemos então da ilusão…
Os jovens quando começam nada sabem, estão no patamar zero. Vão entretanto jogar com outros que também nada sabem e por vezes nem no patamar zero estão. Alguém tem de vencer embora tudo feito ao acaso, lances ilegais, sobre lances ilegais. Reis que se mantêm sobre xeque, movimentos incorrectos, peças mudadas e que depois voltam atrás. Enfim só disparates de quem não sabe o que está a fazer. Ou seja nem as regras sabem.
No fim uns fazem mais pontos que outros, mas nem sabem como. Todos ficam contentes e os responsáveis a babarem-se de felicidade. Contudo não se devem desmoralizar os miúdos.
Então que há a fazer? Muito simples! Temos que estudar as fraquezas do jovem jogado, analisar o seu jogo e dar formação. Mas dada por quem sabe.
Quanto aos pais já sou mais crítico. Quase sempre ignorantes na modalidade, pensam que têm uma estrela do xadrez em casa. Sei isso porque converso muito com esses pais e mães. Tento explicar que as crianças ainda estão no zero e precisam de muita formação, mas eles não acreditam e julgam que sou chato.
Os anos passam, os putos deixam o xadrez que nunca chegaram a aprender.
Mas também grave, é a atitude dos monitores, professores, treinadores, que enviam para a competição a oficial, inclusive nacionais, jovens sem a mínima preparação.
Estas são algumas das razões porque disse, para não ficarem só na ilusão que os vossos filhos sabem, quando na verdade estão ainda no zero.
José Bray, 17/6/2014
Nota: quem estiver interessado, em temas com ligação a este, deve ler no meu blogue, brayxadrez.blogspot.com “O homem do tijolo e o Xadrez” e “Os xadrezistas do senhor Alcobia”.












sábado, 14 de junho de 2014

Xadrez - Sistema Suiço




Xadrez – Sistema Suíço
No xadrez, havia um problema na organização das provas, difícil de ultrapassar. Ou seja. Que fórmula usar para disputar os torneios com muitos jogadores inscritos? Mas de forma que todos jogassem da primeira à última jornada, e também de modo que as competições não se prolongassem excessivamente no tempo.
Havia três fórmulas:
A – Todos contra todos. Sem duvida o sistema mais justo. Mas impraticável para quantidade de participantes. Para oito xadrezistas, dez, doze, muito bem. Mas para trinta, sessenta, cem, duzentos, seiscentos? Obviamente impraticável. Em Luanda disputei torneios com dezasseis jogadores, foi o máximo. Era quinze dias a jogar no duro. Hoje ninguém tem vida para isso a não ser alguns profissionais.
B – Por séries. Sistema já muito usado e uma boa solução ainda. Mas tendo como inconveniente a limitação, porque só alguns poderão jogar as partidas todas.
C – Por eliminatórias. Este sistema só tem alguma lógica para provas tipo Taça de Portugal por equipas, ou similar.  Após a primeira sessão, metade fica de fora e após a segunda só 25% dos participantes estão em prova. Por tudo isto, este sistema cada vez mais caiu em desuso
O xadrez é uma modalidade em que podem aparecer muitos atletas a quererem competir, o que é excelente. Como podemos então pôr todos a jogar a prova, competindo em todas as jornadas e com objectivos na classificação geral?
Por isso:
Alguém no passado pensou no problema puxou pela cabeça e assim nasceu a quarta fórmula o “Sistema Suíço”.
Suíço porquê? Simples, o senhor que o inventou no século XIX era suíço de seu nome Julius Muller, foi usado pela primeira vez em Zurique num torneio de xadrez. Por isso ficou designado Sistema Suíço, nada mais justo.
Este sistema passou a ser usado em inúmeras modalidades entre elas as Damas, o Bridge e o Gamão.
Durante algumas dezenas de anos, o trabalho organizativo era elaborado através de fichas o que dava imenso trabalho. Para o fim do século XX apareceram os suportes informáticos e tudo se simplificou. Em Portugal o primeiro programa criado foi o Protos da autoria do José Coelho e foi testado num torneio 25 de Abril da Marinha Grande. Nessa época o Coelho era estudante na Escola Secundária da cidade vidreira, mas já era um génio da informática. Hoje é professor no Técnico.
Então temos:
D – Sistema Suíço. Esta é então a quarta fórmula de organizar provas de xadrez. A mais usada especialmente nos torneios individuais.
Como todos sabem, este sistema tem um rigoroso regulamento, por princípio ninguém deve fugir ao cerne fundamental do Suíço. Para alguns pontos há opções, mas estão devidamente regulamentadas.
Regras fundamentais do Sistema Suíço: a)- nenhum xadrezista poderá jogar com o mesmo adversário duas vezes, b)- os xadrezistas sempre que possível terão de jogar com adversários com a mesma pontuação, c)- sempre que possível haverá alternância nas cores, d)- um jogador não poderá voltar a subir ou descer no grupo pontual, desde que haja alternativa, e)- quando a numero de participante for ímpar, um jogador não poderá ficar de fora mais que uma vez, f)- na primeira sessão os jogadores serão ordenados pelo seu rating ou seja a lista elo. g)- os desempates obedecerão a uma das opções da escolha da organização do torneio, h)- o número de sessões de uma prova no Sistema Suíço, deve ser a raiz quadrada mais um. Ou seja se forem 100 jogadores as sessões deverão ser 10+1=11.
Penso que referi os aspectos fundamentais do sistema suíço. Um sistema com algumas falha de objectivo mas que permite organizar torneios que chegam a ter centenas de jogadores.
Agora vem a razão porque escrevi este texto.
Os organizadores das provas, seja a Federação Portuguesa de Xadrez, sejam as Associações Distritais, sejam os Clubes, sejam outras Entidades, ou simples organizadores individuais, todos cometem uma agressão ao Sistema Suíço. Reduzem o número de sessões, caindo muitas vezes no ridículo.
Porque o fazem? São burros? Claro que não! Fazem-no por razões financeiros e de tempo. A vida cada vez está mais acelerada e o dinheiro anda escasso. Mas daí até ao direito de desvirtuarem o Sistema Suíço, vai uma distância enorme.
É uma aberração fazer torneios de cinco sessões com sessenta jogadores a competir, ou sete sessões para quantidades acima de cem jogadores.
Se um qualquer organismo privado em prova privada faz essa aberração, quem quer come, quem não quer não come. Mas nas provas oficiais não aceito tal situação.
Não há bela sem senão! Na verdade alguma coisa tem de ser sacrificada, mas nunca a verdade desportiva. Ou não se aceitam inscrições a mais, ou então aumentam-se o número das sessões diárias. A redução do número de sessões? Nunca no Sistema Suíço!
José Bray, 14/6/2014





sábado, 17 de maio de 2014

O casamento pelo civil

O casamento pelo civil
O rapaz entrou receoso no santuário do mestre Oliveira. Ali, naquela sala, o velhote de bigode retorcido era rei. Tratava-se do Registo Civil daquela modesta Freguesia situada na Lezíria Ribatejana, na margem direita do rio Tejo.
O senhor Oliveira bem viu o visitante, mas fingiu não se aperceber da sua entrada. Continuou a escrever a carta para sua filha que vivia lá para as bandas de Espanha. O idoso era um autodidacta, um dos poucos homens cultos da aldeia, além disso a sua elegante caligrafia fazia inveja a qualquer escrivão. Por tudo isso, ele colaborava nos diversos registos, nascimentos, baptizados, casamentos e óbitos. Tudo no civil, porque o tempo era da separação da Igreja do Estado.
O homem ainda novo, esperou pacientemente, dando voltas e mais voltas ao barrete que tinha entre as mãos, por sinal pouco calejadas. Cinco minutos depois, o secretário Oliveira terminou a sua missiva para a filha Joana, preencheu o subscrito, dobrou cuidadosamente a carta que colocou dentro do dito. Depois sem pressa, retorcendo o farto bigode, levantou o olhar encarando o rapaz, em voz grossa e enérgica, inquiriu, o receoso visitante.
- Então João Marialva, que te trás cá? Fala lá, não tenhas medo que não como criancinhas.
O homem a muito custo foi desbobinando a sua pretensão.
- Senhor Oliveira precisava da sua ajuda, estou numa enrascada e não sei como sair dela.
O velho manhoso com expressão seráfico interpelou o sacaninha.
- João, explica-me tudo com muita calma, não omitas nada.
- Desculpe que quer dizer com não omitas nada?
- Não me escondas nada meu ignorante.
Então, o rapaz lá contou a sua estória e a sua pretensão. O mestre Oliveira já sem o tal sorriso sarcástico, foi ouvindo o enredo, fazendo de vez em vez uma ou outra pergunta.
Para simplificar, vou resumir por palavras minhas.
O João namorava a Maria uma rapariga de uma aldeia vizinha. No namoro o par adiantou-se, a família da moça exigiu uma reparação, senão dava cabo do rapaz. Por sua vez a família do João não aceitava a rapariga. Aconselhado por alguém sabido, armado em esperto o moço pensou fazer um casamento falso para calar a boca aos pais da rapariga e assim ter uma folga para saber que fazer no futuro. Para isso foi ter com o senhor Oliveira, por sinal amigo do seu abastado pai.
Após dar a conhecer o seu problema e fazer o seu pedido, ficou esperando com a viseira descaída a resposta do velhote.
- Quer dizer, comeste a miúda e agora queres uma forma de te safares.
- Era isso mestre Oliveira, ajude-me por amor de Deus.
Seguiu-se um longo silêncio, o rapaz continuava de olhos pregados no chão aguardando a atitude do escrivão. Pensou que não haveria problema porque o Oliveira era amigo do seu pai, nas vadiagens em que os dois homens eram peritos. Por fim o nosso velho sabido, falou.
- João, vais trazer duas testemunhas para tudo parecer mais real. Não podem ser bêbedos, nem malucos. Não te esqueças de trazer também a Maria. Venham cá amanhã à hora da sesta.
O rapaz partiu feliz, estava desenrascado. Não havia nada como ser filho de homem rico, ainda por cima amigo do escrivão e companheiro nas tertúlias de mulheres, guitarradas, cavalos e copos.
No dia seguinte, lá estavam as duas testemunhas e o jovem casal. O senhor Oliveira apareceu vestido a rigor, com os olhos rindo cheios de ironia.
- Vamos lá tratar da papelada.
Mandou sentar os quatro e passou a meia hora seguinte a escrever no livro dos registos, fazendo aqui e ali algumas perguntas sobre dados essenciais. Tudo registado com letra bonita, de escrivão ou doutor. Por fim avançou para o acto final.
 - João, aceitas Maria para tua esposa? Maria, aceitas João para teu esposo? As testemunhas têm alguma coisa a declarar contra?
Eles aceitaram-se mutuamente, as testemunhas nada tinham contra. No fim todos assinaram! O casamento estava feito.
- Muito obrigado senhor Oliveira, quanto devo?
- Nada meu rapaz, foi o casamento que mais prazer me deu fazer. Pega na tua mulher e leva-a para tua casa!
- Mas senhor Oliveira… Que quer dizer?
- Meu sacana, quer dizer que estás mesmo casado! Pensavas que faria um casamento falso? És mesmo burro. Logo falo com o teu pai. Felicidade para ti, Maria.
Marinha Grande, 16 de Agosto de 2013
José Bray
Nota: Esta estória é baseada num acontecimento verídico, passado no limiar da primeira República.