domingo, 29 de junho de 2014

Xadrez - Memorial Vareda versus Nacional Semi-rápida Equipas

135 - Xadrez – Memorial Vareda versus Nacional de Semi-rápidas
Com atraso, mas pleno de oportunidade venho escrever mais uma vez sobre o Memorial José Vareda versus Nacional de Semi-rápidas Equipas.
Como todos os xadrezistas sabem o Memorial Vareda disputa-se há vinte e cinco anos na Marinha Grande sendo até 2012 simultaneamente o Nacional de equipas. O que muita gente não sabe é que fui eu quem criou a prova em homenagem ao doutor José Henriques Vareda, ilustre cidadão da cidade vidreira. O nosso “Doutor” foi um competente advogado defensor da liberdade, um não menos famoso político assim como um homem do associativismo e voluntariado em causas do bem público. Também era um admirador da nossa modalidade que praticava sempre que possível. Uma das obras da sua vida foi o SOM, ou seja, o crescimento e dignificação do seu Sport Operário Marinhense.
Após o seu precoce desaparecimento, com ajuda de alguns amigos decidi avançar para a realização de um Memorial em homenagem o nosso Doutor.
Poucas pessoas sabem que, nessa época não havia no calendário nacional o Campeonato de Semi-rápidas de equipas. Mas, ainda menos pessoas sabem que foi a Federação Portuguesa de Xadrez a pedir ao SOM para a prova ser também Nacional, o que teve a nossa aceitação, para bem da modalidade. Assim aconteceu durante de vinte e poucos anos. No último fim-de-semana de Janeiro, o Operário transformava-se na capital do xadrez.
A Federação tinha assim mais uma prova de prestigio no seu calendário, a maior parte da vezes a custo zero e sem nenhum trabalho. Desmintam-me se não for verdade.
Por este Portugal, há centenas de jogadores que têm uma grande simpatia, empatia e ternura por este evento. Façam um inquérito e analisem o resultado. Por cá passaram muitos jovens que hoje são pais e muitos foram pais e já são avós.
Pela Marinha Grande passaram milhares de xadrezistas e familiares. Não há clube de xadrez em Portugal que se preze, que não tenha troféus do Memorial nas suas vitrinas.
Através do tempo houve alguns problemas entre os dois organismos, FPX/SOM, mas com bom senso sempre foram ultrapassados, terminando inclusive na feitura de um protocolo.
Em 2013 levantou-se um contencioso a que sou alheio entre o SOM e a FPX, ou vice-versa. O resultado desse imbróglio é que foi separado o Memorial do Nacional ou vice-versa.
Na minha opinião, um tremendo disparate e falta de tacto de parte a parte! Ninguém ganhou com isso. De quem foi a culpa? Não estou de momento a tentar saber e muitos a incriminar.
Este ano o Memorial Vareda realizou-se com 12 doze equipas, por sua vez o Nacional foi jogado em Coimbra por 18 equipas. Um tremendo flop nas duas provas. Como disse em local certo, não merece a pena manipular as cabeças, foi mesmo um fracasso.
Quem ganhou com a falta de bom senso. O Xadrez? Os xadrezistas? O SOM? A Federação Portuguesa de Xadrez? Provavelmente ninguém!
Com tudo isto, o Memorial José Vareda pode ter morrido em 2014 e a Federação terá uma prova da treta, como se viu este ano.
Pergunto a todos os responsáveis.
Não é de parar e pensarem em retornar ao modelo antigo? Não será de dar o braço a torcer e o Memorial José Vareda voltar a ser o que sempre foi? É óbvio que sim! Pensem no assunto...para ajudar, se acharem útil, saibam que podem contar comigo.
José Bray, 29/6/2014



quarta-feira, 18 de junho de 2014

Crianças - Ilusão no Xadrez



Não se pode ficar só na ilusão
Resultados da Terceira etapa do Circuito Jovem do distrito de Leiria - em Rio Seco - os representantes do SOM:
Guilherme Faria em 5 jogos ganhou 4
Rafael Balseiro em 5 jogos ganhou 3
Excelentes resultados!
Através do facebook tive acesso a esta informação e comentei.
- Sim os resultados foram bons! Mas é preciso evoluir, para isso é preciso muito trabalho e quem saiba ensinar. Não se pode ficar só na ilusão!
Este meu comentário deu origem a outro que se interligam.
- Queria apenas salientar que o Rafael nunca teve aulas de xadrez... e eis que conseguiu este resultado espectacular! Parabéns ao Rafael!
Como era óbvio...confirmei.
- Sim claro, parabéns!
Alguém ficou admirado ou curioso e comentou.
- Ilusão?
A minha frase: Não se pode ficar só na ilusão! Foi a raiz para os diversos comentários no facebook, mais alguns feitos pessoalmente. Vou então tentar explicar sem quaisquer sofismas a razão do meu comentário.
Atenção, estamos a falar de xadrez uma modalidade de alta exigência. Estamos a falar de algo profundamente científico, sem dúvida uma arte, uma filosofia, para alguns uma religião e finalmente um jogo de alta competição. Diz quem sabe que a vida imita o xadrez e também que a vida é curta para o xadrez.
As crianças aprendem os movimentos básicos, depois são levadas para a competição pelos pais, monitores, professores, seccionistas e também por eles mesmo. Contudo, a maior parte vai sem um mínimo de formação.
Os miúdos querem de imediato entrar nos campeonatos, muito bem (ou muito mal), tendo ou não preparação adequada. Não devemos desmotivar a rapaziada, antes pelo contrário. Mas tem de haver bom senso (tacto) nessa motivação. Não podemos cair num excesso de paternalismo que não leva a nada. Eu mesmo, cometi esse erro muita vez no passado. Acabei por verificar que de nada servia, só criava a ilusão nos jovens. Com a idade e com a azia da vida talvez tenha exagerado no sentido contrário.
As crianças mal sabem movimentar as peças, querem logo jogar e querem de imediato ganhar.
Pior ainda, os pais que nem as peças sabem movimentar e por vezes nem a designação das mesmas, só pensam na perspectiva do ganhar. A frase tipo doa pais, que mais se ouve no fim das sessões é a trivial pergunta. – Ganhaste? – Nunca oiço ninguém perguntar. - Então filho como correu? – Então filho foi uma boa luta? – Então filho aprendeste alguma coisa? – Então filho foi divertido?
Muitas vezes, ignorantes do xadrez, ainda ralham com os filhos. Vi mesmo há anos uma besta a dar uma chapada no miúdo!
Como é óbvio, as crianças atirados assim aos bichos, é para perder, perder e voltara perder. Isso é o normal, o anormal é se fosse ao contrário.
Sem aprender ninguém fica a saber, verdade de La Palice. Por isso é preciso trabalhar muito para aprender e o xadrez não se assimila em segundos.
Falemos então da ilusão…
Os jovens quando começam nada sabem, estão no patamar zero. Vão entretanto jogar com outros que também nada sabem e por vezes nem no patamar zero estão. Alguém tem de vencer embora tudo feito ao acaso, lances ilegais, sobre lances ilegais. Reis que se mantêm sobre xeque, movimentos incorrectos, peças mudadas e que depois voltam atrás. Enfim só disparates de quem não sabe o que está a fazer. Ou seja nem as regras sabem.
No fim uns fazem mais pontos que outros, mas nem sabem como. Todos ficam contentes e os responsáveis a babarem-se de felicidade. Contudo não se devem desmoralizar os miúdos.
Então que há a fazer? Muito simples! Temos que estudar as fraquezas do jovem jogado, analisar o seu jogo e dar formação. Mas dada por quem sabe.
Quanto aos pais já sou mais crítico. Quase sempre ignorantes na modalidade, pensam que têm uma estrela do xadrez em casa. Sei isso porque converso muito com esses pais e mães. Tento explicar que as crianças ainda estão no zero e precisam de muita formação, mas eles não acreditam e julgam que sou chato.
Os anos passam, os putos deixam o xadrez que nunca chegaram a aprender.
Mas também grave, é a atitude dos monitores, professores, treinadores, que enviam para a competição a oficial, inclusive nacionais, jovens sem a mínima preparação.
Estas são algumas das razões porque disse, para não ficarem só na ilusão que os vossos filhos sabem, quando na verdade estão ainda no zero.
José Bray, 17/6/2014
Nota: quem estiver interessado, em temas com ligação a este, deve ler no meu blogue, brayxadrez.blogspot.com “O homem do tijolo e o Xadrez” e “Os xadrezistas do senhor Alcobia”.












sábado, 14 de junho de 2014

Xadrez - Sistema Suiço




Xadrez – Sistema Suíço
No xadrez, havia um problema na organização das provas, difícil de ultrapassar. Ou seja. Que fórmula usar para disputar os torneios com muitos jogadores inscritos? Mas de forma que todos jogassem da primeira à última jornada, e também de modo que as competições não se prolongassem excessivamente no tempo.
Havia três fórmulas:
A – Todos contra todos. Sem duvida o sistema mais justo. Mas impraticável para quantidade de participantes. Para oito xadrezistas, dez, doze, muito bem. Mas para trinta, sessenta, cem, duzentos, seiscentos? Obviamente impraticável. Em Luanda disputei torneios com dezasseis jogadores, foi o máximo. Era quinze dias a jogar no duro. Hoje ninguém tem vida para isso a não ser alguns profissionais.
B – Por séries. Sistema já muito usado e uma boa solução ainda. Mas tendo como inconveniente a limitação, porque só alguns poderão jogar as partidas todas.
C – Por eliminatórias. Este sistema só tem alguma lógica para provas tipo Taça de Portugal por equipas, ou similar.  Após a primeira sessão, metade fica de fora e após a segunda só 25% dos participantes estão em prova. Por tudo isto, este sistema cada vez mais caiu em desuso
O xadrez é uma modalidade em que podem aparecer muitos atletas a quererem competir, o que é excelente. Como podemos então pôr todos a jogar a prova, competindo em todas as jornadas e com objectivos na classificação geral?
Por isso:
Alguém no passado pensou no problema puxou pela cabeça e assim nasceu a quarta fórmula o “Sistema Suíço”.
Suíço porquê? Simples, o senhor que o inventou no século XIX era suíço de seu nome Julius Muller, foi usado pela primeira vez em Zurique num torneio de xadrez. Por isso ficou designado Sistema Suíço, nada mais justo.
Este sistema passou a ser usado em inúmeras modalidades entre elas as Damas, o Bridge e o Gamão.
Durante algumas dezenas de anos, o trabalho organizativo era elaborado através de fichas o que dava imenso trabalho. Para o fim do século XX apareceram os suportes informáticos e tudo se simplificou. Em Portugal o primeiro programa criado foi o Protos da autoria do José Coelho e foi testado num torneio 25 de Abril da Marinha Grande. Nessa época o Coelho era estudante na Escola Secundária da cidade vidreira, mas já era um génio da informática. Hoje é professor no Técnico.
Então temos:
D – Sistema Suíço. Esta é então a quarta fórmula de organizar provas de xadrez. A mais usada especialmente nos torneios individuais.
Como todos sabem, este sistema tem um rigoroso regulamento, por princípio ninguém deve fugir ao cerne fundamental do Suíço. Para alguns pontos há opções, mas estão devidamente regulamentadas.
Regras fundamentais do Sistema Suíço: a)- nenhum xadrezista poderá jogar com o mesmo adversário duas vezes, b)- os xadrezistas sempre que possível terão de jogar com adversários com a mesma pontuação, c)- sempre que possível haverá alternância nas cores, d)- um jogador não poderá voltar a subir ou descer no grupo pontual, desde que haja alternativa, e)- quando a numero de participante for ímpar, um jogador não poderá ficar de fora mais que uma vez, f)- na primeira sessão os jogadores serão ordenados pelo seu rating ou seja a lista elo. g)- os desempates obedecerão a uma das opções da escolha da organização do torneio, h)- o número de sessões de uma prova no Sistema Suíço, deve ser a raiz quadrada mais um. Ou seja se forem 100 jogadores as sessões deverão ser 10+1=11.
Penso que referi os aspectos fundamentais do sistema suíço. Um sistema com algumas falha de objectivo mas que permite organizar torneios que chegam a ter centenas de jogadores.
Agora vem a razão porque escrevi este texto.
Os organizadores das provas, seja a Federação Portuguesa de Xadrez, sejam as Associações Distritais, sejam os Clubes, sejam outras Entidades, ou simples organizadores individuais, todos cometem uma agressão ao Sistema Suíço. Reduzem o número de sessões, caindo muitas vezes no ridículo.
Porque o fazem? São burros? Claro que não! Fazem-no por razões financeiros e de tempo. A vida cada vez está mais acelerada e o dinheiro anda escasso. Mas daí até ao direito de desvirtuarem o Sistema Suíço, vai uma distância enorme.
É uma aberração fazer torneios de cinco sessões com sessenta jogadores a competir, ou sete sessões para quantidades acima de cem jogadores.
Se um qualquer organismo privado em prova privada faz essa aberração, quem quer come, quem não quer não come. Mas nas provas oficiais não aceito tal situação.
Não há bela sem senão! Na verdade alguma coisa tem de ser sacrificada, mas nunca a verdade desportiva. Ou não se aceitam inscrições a mais, ou então aumentam-se o número das sessões diárias. A redução do número de sessões? Nunca no Sistema Suíço!
José Bray, 14/6/2014





sábado, 17 de maio de 2014

O casamento pelo civil

O casamento pelo civil
O rapaz entrou receoso no santuário do mestre Oliveira. Ali, naquela sala, o velhote de bigode retorcido era rei. Tratava-se do Registo Civil daquela modesta Freguesia situada na Lezíria Ribatejana, na margem direita do rio Tejo.
O senhor Oliveira bem viu o visitante, mas fingiu não se aperceber da sua entrada. Continuou a escrever a carta para sua filha que vivia lá para as bandas de Espanha. O idoso era um autodidacta, um dos poucos homens cultos da aldeia, além disso a sua elegante caligrafia fazia inveja a qualquer escrivão. Por tudo isso, ele colaborava nos diversos registos, nascimentos, baptizados, casamentos e óbitos. Tudo no civil, porque o tempo era da separação da Igreja do Estado.
O homem ainda novo, esperou pacientemente, dando voltas e mais voltas ao barrete que tinha entre as mãos, por sinal pouco calejadas. Cinco minutos depois, o secretário Oliveira terminou a sua missiva para a filha Joana, preencheu o subscrito, dobrou cuidadosamente a carta que colocou dentro do dito. Depois sem pressa, retorcendo o farto bigode, levantou o olhar encarando o rapaz, em voz grossa e enérgica, inquiriu, o receoso visitante.
- Então João Marialva, que te trás cá? Fala lá, não tenhas medo que não como criancinhas.
O homem a muito custo foi desbobinando a sua pretensão.
- Senhor Oliveira precisava da sua ajuda, estou numa enrascada e não sei como sair dela.
O velho manhoso com expressão seráfico interpelou o sacaninha.
- João, explica-me tudo com muita calma, não omitas nada.
- Desculpe que quer dizer com não omitas nada?
- Não me escondas nada meu ignorante.
Então, o rapaz lá contou a sua estória e a sua pretensão. O mestre Oliveira já sem o tal sorriso sarcástico, foi ouvindo o enredo, fazendo de vez em vez uma ou outra pergunta.
Para simplificar, vou resumir por palavras minhas.
O João namorava a Maria uma rapariga de uma aldeia vizinha. No namoro o par adiantou-se, a família da moça exigiu uma reparação, senão dava cabo do rapaz. Por sua vez a família do João não aceitava a rapariga. Aconselhado por alguém sabido, armado em esperto o moço pensou fazer um casamento falso para calar a boca aos pais da rapariga e assim ter uma folga para saber que fazer no futuro. Para isso foi ter com o senhor Oliveira, por sinal amigo do seu abastado pai.
Após dar a conhecer o seu problema e fazer o seu pedido, ficou esperando com a viseira descaída a resposta do velhote.
- Quer dizer, comeste a miúda e agora queres uma forma de te safares.
- Era isso mestre Oliveira, ajude-me por amor de Deus.
Seguiu-se um longo silêncio, o rapaz continuava de olhos pregados no chão aguardando a atitude do escrivão. Pensou que não haveria problema porque o Oliveira era amigo do seu pai, nas vadiagens em que os dois homens eram peritos. Por fim o nosso velho sabido, falou.
- João, vais trazer duas testemunhas para tudo parecer mais real. Não podem ser bêbedos, nem malucos. Não te esqueças de trazer também a Maria. Venham cá amanhã à hora da sesta.
O rapaz partiu feliz, estava desenrascado. Não havia nada como ser filho de homem rico, ainda por cima amigo do escrivão e companheiro nas tertúlias de mulheres, guitarradas, cavalos e copos.
No dia seguinte, lá estavam as duas testemunhas e o jovem casal. O senhor Oliveira apareceu vestido a rigor, com os olhos rindo cheios de ironia.
- Vamos lá tratar da papelada.
Mandou sentar os quatro e passou a meia hora seguinte a escrever no livro dos registos, fazendo aqui e ali algumas perguntas sobre dados essenciais. Tudo registado com letra bonita, de escrivão ou doutor. Por fim avançou para o acto final.
 - João, aceitas Maria para tua esposa? Maria, aceitas João para teu esposo? As testemunhas têm alguma coisa a declarar contra?
Eles aceitaram-se mutuamente, as testemunhas nada tinham contra. No fim todos assinaram! O casamento estava feito.
- Muito obrigado senhor Oliveira, quanto devo?
- Nada meu rapaz, foi o casamento que mais prazer me deu fazer. Pega na tua mulher e leva-a para tua casa!
- Mas senhor Oliveira… Que quer dizer?
- Meu sacana, quer dizer que estás mesmo casado! Pensavas que faria um casamento falso? És mesmo burro. Logo falo com o teu pai. Felicidade para ti, Maria.
Marinha Grande, 16 de Agosto de 2013
José Bray
Nota: Esta estória é baseada num acontecimento verídico, passado no limiar da primeira República.


Navio Negreiro

Navio Negreiro
Navio negreiro, triste sina
Leva corpos, leva almas.
Corpos negros, almas brancas
Corpos brancos, almas negras.
Deus dormindo
No ondular do mar.
Diabo à solta,
Na excitação das vagas.
Drama imenso
No vogar das ondas,
Humanidade perdida.
Gente canalha,
Nações bandidas.
Deus dormindo
Em regaço de rico.
Diabo feliz
Gozando e rindo.
Corpos negros, almas brancas
Ração do mar salgado.
Corpos negros, pretos, escuros!
Navio negreiro, triste sina!
José d’ Barcellos, 10/6/2013
Baseado no quadro de, William Turner, O Navio Negreiro



quinta-feira, 15 de maio de 2014

Irmandade JM - a ultima brincadeira proibida


Irmandade JM – a ultima brincadeira proibida
Naquele universo cúbico abaixo do piso zero, a irmandade JM estava reunida, mais uma brincadeira proibida estava em marcha, mais que proibida, perigosa mesmo. Nenhum dos quatro estava drogado ou simplesmente com os copos, contudo o bom senso não encontrou aceitação, o diabo espicaçava os miúdos naquele dia, talvez culpa da primavera ou então os anjos do bem dos quatro foram dar uma volta e deixaram os adolescentes entregues aos do mal. Vamos narrar de mansinho para não chocar muito…
Primeiro, porque era chamada a irmandade JM? Simples porque havia o José Manuel, o Jorge Manuel, o Joaquim Manuel e a Joana Maria. Era uma coincidência mas era mesmo assim. Um dia, ao reparar nisso, um dos putos, não interessa qual, sugeriu criar a irmandade JM.
Os adolescestes tinham todos doze anos excepto a Joana que ia nos treze. A rapariga nada tinha de bonito e o físico deixava muito a desejar, era franzina e parecia mais nova, excepto em relação ao irmão Jorge pequeno como ela, o Joaquim era gordo, o José era o mais alto e o mais bonito. Os rapazes eram todos ainda meninos, pouco pintavam ou mesmo nada, talvez um pouco um dos JM, mas a garota nada lhe dizia. Mas Joana Maria já tinha bastante vício, era mais velha e como se sabe as moças desenvolvem mais cedo, são mais precoces.
Nesse dia a irmandade partiu para uma brincadeira que podia ter acabado mal, Joana quis brincar aos casais. O José e o Joaquim ficaram vermelhos cheios de vergonha, mas não deram parte de fracos, para o Jorge parecia ser tudo normal.
A rapariga foi para o quarto dos pais, despiu-se e meteu-se dentro da roupa, chamando depois os rapazes, um de cada vez. Ela definiu o tempo, cada um estaria casado com ela quinze minutos. Os putos lá foram cada um na sua vez!
Gostavam de saber o que se passou? Nada de especial…
Depois o Joaquim foi para casa e o José também, o Jorge ficou com a irmã. Mas antes a Joana que não deve ter gozado, zangou-se e fez uma ameaça, contar aos pais que tinha sido obrigada!
Nessa noite Joaquim teve pesadelos, por sua vez José ficou cheio de medo e até bastante tarde ficou à janela sempre à espera que lá ao longe aparecesse o pai ou mãe da Joana.
Depois dessa brincadeira a irmandade JM implodiu como uma bolha de sabão.
 José Bray, 11/1/2013
Nota: Esta pequena estória, verídica, faz parte do romance biográfico "Capitães da relva".



quarta-feira, 14 de maio de 2014

Escrevendo em voz alta...ou como tratar a neura!

Fui com sede ao pote? Talvez sim, talvez não. Convém que a água esteja preparada para ser bebida. Ir demasiado cedo só serve para turvar o liquido e depois nunca mais assenta. Isto faz lembrar a parábola do pescador de emoções, esse sim, fazia as coisas como deve ser. Vou contar...
O pescador muito de mansinho deitava a rede ao lago, esperava o tempo que fosse necessário calmamente. Com arte e engenho ia deitando pequenos iscos para encantar a pesca. Quando pensava que tudo tinha sido feito nos conformes, puxava devagar a rede para não espantar a pesca. Depois com o saber de pescador muito treinado e safado, estudava a safra e tomava uma decisão. Se houvesse alguma pesca que lhe agradasse, deitava a restante pesca ao lago. Depois durante um tempo só consumia a pesca escolhida. Quando acontecia não haver pesca de jeito, ia tudo para o lago. Depois com toda a paciência do mundo e com a sua arte e engenho de bom pescador voltava a deitar a rede ao lago sempre na esperança de acontecer uma boa pesca. Acabava sempre por ter sorte! Ou era saber?
Acabou para a Academia de Xadrez do Bombarral o nacional da segunda divisão, este é meu clube e do Daniel. A equipa manteve-se a custo na segunda divisão. Com dificuldade sim, mais por erros de percurso do que por necessidade. Com a armada espanhola teríamos lutado para o primeiro lugar, mas os barcos de Espanha afundaram nas rias da Galiza, como aconteceu à outra armada no canal da Mancha, a invencível. As melhores prestações foram do Fernando Sena que arrecadou 63 pontos Elo (muito bom) fazendo 4,5 em 7 pontos e do Daniel Bray que fez 4 pontos em 6 pontos e arrecadou 15 pontos Elo. Cá o velhote fez uma prestação medíocre, a idade não perdoa. A Academia deve apostar na juventude. Para o ano, se algum reforço chegar melhor, mas jogadores de perto, não vá a tempestade tramar tudo outra vez.
No próximo sábado vai acontecer o nacional de semi-rápidas de equipas em Coimbra. Como todos sabem, fui o criador desta variante que não existia no panorama português. A prova tinha a designação de Memorial José Vareda. Era uma organização de excelência, chegando durante anos a ser a melhor prova nacional, isto na opinião de quem sabe. Foi assim vinte anos. Um estúpido contencioso entre a direcção do SOM e da FPX, deu-se o divórcio. Não interferi porque tinha morrido para o xadrez da Marinha Grande, outro contencioso estúpido mas não chamado para aqui. Mas acompanhei o processo à distância e numa mensagem anterior falei nisso neste blogue. Que aconteceu entretanto? A Federação passou a fazer o Nacional e o SOM o Vareda. Este ano o Vareda teve doze equipas, duas da casa, para o nacional do dia 17 estão inscritas dezanove equipas, sendo várias da Associação organizadora e cinco equipas B, ou seja só estão representados catorze clubes. O Memorial José Vareda por várias vezes esteve perto das cinquenta equipas. Perderam todos pau e bola, o SOM, a FPX e pior que tudo o Xadrez. Foi a boa cagada que os responsáveis fizeram. Bem hajam!
Estive três dias e duas noites no Alentejo, na região de Beja. Estive com olhos de ver como nunca tinha estado. Claro que já por lá tinha andado, não falo nas passagens para o Algarve embora sempre tivesse parado aqui e ali. Isa Bray tirou o curso em Évora, por isso lá ia regulamente, batendo a zona. Vi muitos monumentos e bebi muito vinho com a gastronomia da região. Também joguei o torneio de Odemira duas vezes, o que me permitiu ver a aquela zona. Andei por Castelo de Vide, Marvão e Portalegre, numa interessante viagem com muito para contar, mas não nesta conversa, mas foi giro. Principalmente a ida a Espanha numa noite de borga para jantar (ou cear) comida espanhola e no fim descobri que o restaurante era de um casal português. Há anos andei para Reguengos e Reguengos de Monsaraz. Mas a viagem que fiz há dias foi especial. A minha intenção era de beber o Alentejo com todos os meus sentidos. Falar com aquela gente que tão mal tratada tem sido através do sempre. Povo que passa as horas a ver passar o tempo, com os olhos perdidos no vasto horizonte. Fiquei em Aljustrel, num hotel novo com tudo do mais requintado na arte de bem servir. Mas não imaginem que era para ricos, não senhor, a preços acessíveis. Gostei imenso da vila, tem uma traça mais modernista por exemplo que Ferreira onde também estive. Não se via um papel no chão e a acessibilidade para todos  era uma constante em todos os locais, passeios e edifícios. O meu destino principal era Ervidel uma aldeia enorme, arrumadinha e  vazia. Foi um favor feito a uma amiga, aproveitando para respirar Alentejo. Na aldeia visitei o museu local, pequeno mas interessante, onde um funcionário deficiente faz serviço todo o dia, mas que tem dias e dias que ninguém visita o museu. Na aldeia todo o meu tempo foi passado a escutar as conversas, em especial no largo central onde os compadres vegetavam bebendo uns tintos e dizendo umas tretas mil vezes repetidas na ano. De repente dei comigo a falar alentejano. Fui a Ferreira e gostei, mas não tanto como de Ervidel. Mas lá aconteceu uma cena muito gratificante. Como sabem sou de fala fácil. Ao passar junto a um hotel de charme meti conversa com um compadre que estavam abrindo uma garagem, ou pequeno armazém. Então o raio do senhor Francisco convidou-me para ver uma coisa, fui! sabem o que era? Um museu privado, nessa garagem ou pequeno armazém, ou para as duas funções. Centenas de peças de tudo e mais alguma coisa, por exemplo ratoeiras (armadilhas) de todos os tamanhos e feitios, do pequeno pardal ou rato até raposas e lobos. Miniaturas de ferramentas de todas as profissão do campo, adegas, lagares, etc. Era tanta coisa que até custa a descrever, camas de ferro, recipientes, candeeiros, ate quadros pintados não sei por quem. No dia um de Maio fui a um piquenique do pessoal de Ervidel na barragem do Roxo. Comi rancho e depois caracóis e bebi bom vinho, escutei discurso politica mas já sem garra, depois um coro de mulheres e a seguir outro de homens, para terminar um grupo folclórico de Faro. No dia dois fui para Beja, gostei, tinha uma ideia errada da cidade quando há muitos anos por lá passei. Mas não me vou alongar, porque tinha muito para escrever. Foi a lidação com o povo alentejano que me fascinou. Também me deu grande satisfação, ver olivais com dezenas de milhar de oliveiras assim como pinhais imensos de pinheiros mansos, searas de girassol e de trigo, para além dos sobreiros e das vinhas e do gado. O Alqueva vai fazer maravilhas no Alentejo. Gostei, os meus amigos do norte que me perdoem, mas gosto mais de estar a sul do Tejo! Um filosofo meu amigo dizia que o alentejano só emigra para o cemitério. Outro dizia que o alentejano evita atravessar o Tejo.
Penso que já escrevi bastante! Dedico estas tretas a quem gostar de ler o que escrevo.
José Bray