sábado, 10 de maio de 2014

"O traço"

“O traço” na vida dos panguilas…
Na vida, todos os panguilas têm o seu traço, que reflecte o seu modo de pensar.
A cabeça, de certos panguilas é um tracejado, tem pensamento sim, pensamento não. Mas a cabeça de outros nem tracejado tem, não passa de estrada sem traço. Admiro os panguilas que têm traço contínuo. Também admiro e respeito quem tem traço contínuo mas duplo. Fico contente, por ser um panguila com dois traços, um contínuo e outro tracejado. Mas ainda há os panguilas com duplo traço tracejado.
Este texto exige uma explicação, da minha parte.
Há pessoas que são inconstantes, pensam e deixam de pensar. São os comuns mortais, quase todos os panguilas são assim. Muitos, coitados, não pensam nem deixam de pensar, são as nulidades. O traço contínuo refere-se a panguilas demasiado constantes, em alerta ao terreno e ao pensamento. Os de traço contínuo mas duplo, são como os anteriores mas mais exagerados. Os panguilas com traço contínuo e traço tracejado, são os multifacetados, conseguem sonhar e realizar. Os panguilas com duplo tracejado são aqueles que vivem em constante mutação, ora no real, ora na fantasia, vivem ora no mundo terra, ora no mundo da lua. Os loucos integram-se neste grupo!
Comeira, 28/9/2013
ZM


O drama da joaninha Lua

O drama da joaninha Lua
Era uma vez uma jovem joaninha que tinha muita vaidade nas suas seis pintas negras que forravam o exterior do seu vestido vermelho.
Aquela joaninha bonita mas algo supérflua, chamava-se Lua e era a perdição dos insectos macho, daquele florido pomar. Grilos, besouros, gafanhotos e outros mais invulgares, perdiam a cabeça ou seja o tacto, devido à paixão que ela inspirava neles, nos machos conquistadores daquele paraíso.
Naquele dia de primavera a nossa adolescente foi passear através de uma romãzeira que floria em pleno. Após saborear o pequeno-almoço composto por ofídios, pequenos piolhos malignos, a nossa joaninha decidiu bater uma sorna debaixo das frescas folhas da romãzeira.
Lua não dormiu muito tempo. Entretanto, sonhou que namorava com um belo zangão que a andava a inquietar o seu volátil coração. Acordou ao som de uma monótona melodia executada por uma cantora muito irresponsável, a cigarra dona Escura. Em voz alta Lua exclamou. – Esta senhora também não sabe outra música, até incomoda o mais paciente.
Nesse meio tempo perscrutou a paisagem para tentar descobrir a cantora, mas só viu uma formiga que atarefada fazia pela vida, o inverno chegaria um dia e devia ser rigoroso. Era preciso encher a dispensa e depressa, para a família não passar fome nesse período de invernia.
- Já andas na labuta formiga Obreira? Tu exageras, tens também de viver a vida, diverte-te rapariga.
- Pensas que tenho as tuas bonomias? Comer, passear e namorar. Alimentas-te de vermes e insectos viventes, terás sempre comida nos teus cento e oitenta dias de vida, mas eu sou vegetariana, por isso tenho que fazer reservas para o inverno.
Apressada a formiga afastou-se com o seu pesado fardo de comida, mas antes ainda exclamou. – Que se passa contigo Lua? Estás hoje diferente mas não sei dizer o quê.
Após fazer esta afirmação continuou na sua azáfama à qual se juntou uma sua irmã.
- Que se passará comigo? Assim pensou a nossa joaninha, não sentia dores nem estava mal disposta.
Entretanto uma abelha, a Maia, esvoaçava de flor em flor para encher a seu depósito de pólen.
- Bom dia Lua, que se passa contigo, hoje estás diferente, não estás tão bonita como de costume.
Dito isto Maia afastou-se. Lua começou a ficar preocupada. – Que se passa meu Deus dos insectos? Pensou ela em silêncio.
Entretanto, mais alguns amigos e amigas passaram por ela e todos disseram o mesmo.
- Estás diferente, mas não sabemos em quê, nem o porquê.
Claro que nem a joaninha sabia, mas não estava a gostar nada da situação. Lua então decidiu ir ver-se no primeiro espelho que encontrasse, coisa que não foi difícil. Na parte inferior da romãzeira gotas de orvalho eram às dezenas. Chegou perto de uma por sinal bem grande e límpida. Olhou para a sua imagem com muita atenção, logo viu o que se passava. Não tinha no vestido vermelho as seis pintas negras, alguém durante o seu dormir as roubara.
- Meu Deus dos insectos, estou perdida, sem as minhas pintas negras pareço um tomate maduro.
A jovem joaninha chorou a bom chorar, lágrimas das verdadeiras. Foi para casa, queria desabafar com a sua mãe, no caminho encontrou a lagarta Verde, a quem contou o seu drama. Esta deu-lhe então uma útil informação.
- Sabes Lua, quem eu vi junto a ti enquanto dormias? Foi o grilo Cantante.
-Então foi esse malandro, anda sempre a fazer marotices, vou já à procura dele. Obrigada lagarta Verde.
Se assim o disse mais depressa o fez. Após procurar durante três horas, horas em que todos continuaram a dizer que Lua estava diferente, mas não sabiam porquê. Mas agora ela replicava. – Foi culpa do malandro do grilo Cantante, roubou-me as minhas seis pintas negras. Entretanto acabou por encontrar o reguila do grilo Cantante, o terror das mães com meninas adolescentes.
- Olá linda joaninha, hoje não estás tão bonita como de costume. Que te aconteceu?
- Tu bem sabes, meu bandido. Porque roubaste as minhas seis pintas negras?
- Eu? Eu não roubei nada, não levantes falsos testemunhos. Só estive a admirar-te enquanto dormias.
- Mentiroso, és sempre o mesmo, não posso confiar em ti, nem eu nem ninguém.
Realmente Lua tinha uma paixão assolapada pelo belo grilo, este correspondia mas não gostava do excesso de vaidade da joaninha.
- Nunca acreditas em mim, paciência.
- Claro que não acredito, não quero mais nada contigo. Enquanto não me devolveres as minhas seis pintas negras, não mais te falarei.
- Mas eu gosto de ti mesmo sem pintas!
- Não me interessa, sem pintas não haverá mais nada entre nós, deixa-me.
- És uma joaninha vaidosa, para ti só a beleza conta, passa bem quando quiseres procura-me.
Lua partiu para casa a voar e a chorar. O seu conflito era imenso, um drama entre o amor e a vaidade. Ao chegar foi para o regaço da mãe joaninha.
- Mãe, o grilo Cantante é um malandro, roubou as minhas seis pintas negras, não o quero ver mais.
- Tens a certeza que foi ele? Por vezes há equívocos.
- Ele bem negou, mas eu não acredito na palavra dele, viram-no perto de mim enquanto dormia.
- Filha, espero que não te venhas a arrepender,
O tempo passou e o grilo sempre a negar. Mas também não abria o jogo, queria ver até que ponto a Lua preferia a beleza ao amor.
Passaram-se uns dias, Lua não perdoou mesmo. Numa certa tarde começou a cair uma chuva miudinha, mais tipo cacimbo forte. A nossa joaninha voava, acabando por se molhar completamente. Abrigou-se debaixo de uma enorme folha de figueira, ao lado noutra folha formara-se um lago que reflectia as imagens. Lua foi mirar-se no espelho do lago e qual não é o seu espanto as pintas estavam novamente no seu vestido.
Afinal, o grilo Cantante não roubara as seis pintas negras, só as pintara de vermelho com o sangue do seu corpo. Fizera isso para dar uma lição à joaninha vaidosa.
Esta exclamou chorando.
- Que raio de porcaria eu fiz? Estraguei tudo, valha-me Deus dos insectos.
Nessa altura já o grilo Cantante namorava a formiga Obreira e não mais quis saber da joaninha Lua.
Lisboa, 21 de Julho de 2013
José Bray
Nota: Este conto infantil, foi escrito parte às oito horas da manhã na Flor do Império e a outra parte no Jardim Constantino ao meio-dia. Nesse dia, mergulhado na minha solidão senti que alguém tinha roubado a minha cidade. Sensação estranha!




Espionagem

Este texto conta a estória verídica de uma espionagem feita nos anos sessenta a uma empresa concorrente. O pedido, leia-se exigência, foi feito pelo patrão a um funcionário tipo “estrela”. O rapaz, pouco mais que adolescente, aceitou o desafio. Para ele nem desafio era, na verdade não precisava de espionar coisa alguma, tinha uma visão clara da empresa concorrente assim como das razões de alguns insucessos da sua firma. O Rui mesmo assim alinhou o que deu origem a esta narrativa que agora contamos. Foi na verdade uma estória mais romântica que de espionagem, com um fim insólito mas normal naquela época.
Espionagem
Um dia o patrão S chamou o Rui a estrela da empresa para com bons modos pedir ao jovem a execução de uma missão especial. O senhor S com um largo sorriso no rosto magro, convidou o seu colaborador a sentar-se no maple de cabedal do seu amplo gabinete. Ofereceu-lhe um cigarro Chesterfield que acendeu com o seu isqueiro Dupont, seguiu-se uma conversa trivial sobre problemas de gestão, depois falaram do Bridge vício do patrão. Rui pensou; este está a dar-me conversa mole, vamos lá ver o que vai sair daqui? Por fim lá saiu mesmo…
- Rui, precisamos de estar informados sobre a concorrência, temos de recolher algumas informações sobre a firma X, o nosso principal rival nos negócios, como sabes. Não posso pedir aos outros, não confio neles, a C ofereceu-se mas não a quero envolvida nestes imbróglios, o engenheiro é um conas e o agente técnico não é credível. Que dizes?
Rui coçou a farta cabeleira, após um sorriso irónico, observou.
- Senhor S, primeiro preciso que me diga qual o tipo de informações que pretende e se não podem ser obtidas por vias oficiais? Pela sua cara já vejo que não.
- Pensa e logo chegarás à conclusão do que pretendemos, não é difícil imaginar.
- Claro que sei! Vou pensar no seu pedido e amanhã já lhe diga a minha decisão.
O Rui nesse resto de dia não pensou noutro assunto, após a saída da escola nocturna, durante o caminho para casa feito a pé, mediu os prós e os contras do pedido insólito do patrão. Aquilo era a chamada espionagem industrial ou comercial, como der mais jeito denominar. O senhor S queria saber preçários, dimensão da carteira de clientes, percentagem do concorrente no mercado, custo das matérias-primas, estratégia do concorrente. Em resumo, os seus pontos fracos e pontos fortes. O Rui não estava a achar graça à situação, por outro lado sentia uma certa pica na execução do empreendimento.
O alvo era um concorrente forte que estava a ganhar muitos negócios, embora a gerência da firma do Rui não encontrasse razões palpáveis para esse facto. O Rui conhecia uma razão que talvez justificasse essas percas, iria tentar comprovar isso mesmo.
O negócio das duas empresas era vender e alugar estruturas metálicas desmontáveis. O tubo e as uniões eram a matéria principal. O tubo de ferro era igual para as duas firmas, podendo custar uns escudos de deferência em função às quantidades adquiridas de uma só vez, planeamento e à forma de pagar desses fornecimentos. Isso é óbvio para qualquer bom gestor. Nas uniões já a situação tinha outras nuances, para além das atrás descritas havia a questão técnica das uniões, nem todos os modelos ficavam ao mesmo preço por peça. A união de M empresa do Rui, era tecnicamente a melhor, mas o custo de fabrico era um pouco mais elevado. A compensação económica vinha nas quantidades encomendadas de uma só vez ao fabricante e da capacidade de pagar no mais breve espaço de tempo possível. Tudo isto são verdades de La Palice, mas sem ovos não se fazem omeletas, a capacidade financeira no investir era essencial.
O Rui a tal estrela da M já se tinha apercebido que nos alugueres havia uma maior discrepância nos valores concorrenciais. Qual era a razão, para além das atrás expostas? O rapaz sabia mas não queria abrir o jogo ao patrão. Preferiu entrar no jogo dele.
No dia seguinte entrou no gabinete da gerência, logo que o patrão chegou, eram dez horas.
- Senhor S, depois de pensar maduramente decidi aceitar o desafio proposto por si.
-Então, como vais fazer?
- Desculpe senhor S isso vai ser à minha maneira, para não ficar mais ninguém salpicado se a coisa der para o torto.
Aquilo era tudo folclore do Rui, ele já tinha grande parte dos elementos com ele, o relatório podia ser logo entregue, era preciso só esclarecer melhor alguns tópicos. Por isso a tarefa a realizar era quase só cenário, mas queria divertir-se um pouco com a situação.
A empresa concorrente não diversificava muito da sua, não tinha um sub-gerente como a C nem uma estrela como o Rui, mas tinha outras mais-valias. Era o caso da recepcionista que assumia com competência outras tarefas. O restante pessoal era formado por um engenheiro capaz, um chefe de montagens também competente, um vendedor fala-barato, um paquete antipático, uma dactilógrafa, um desenhador orçamentista, o patrão e a sua secretária. O Rui tinha informações através de um montador amigo, parte do pessoal pouco prestava, na sua opinião só mesmo a recepcionista no que respeitava a mulheres.
Um dia numa hora estudada, o Rui ligou para a empresa X sua concorrente. Sabia que o orçamentista saía todos os dias mais cedo para ir para a Instituto Industrial onde estava a tirar um curso superior média, agente-técnico..
Do lado de lá uma voz agradável mas firme de quem sabe falar ao telefone, coisa rara na época como ainda hoje.
-Boa tarde, fala da firma X, faça favor de dizer.
- Boa noite minha senhora, desculpe incomodar, está aí alguém que me possa dar um orçamento?
- Neste momento não, o nosso orçamentista não está, mas posso ficar com os dados e amanhã o senhor será contactado. Se puder e souber tudo farei para o ajudar.
Não havia dúvida, Rui falava com uma profissional competente, se calhar tanto como a sua colega C.
- Talvez sim minha senhora, se não for muita maçada. Queria alugar um andaime para limpar os prédios da família e queria saber valores. A senhora é muito simpática. Por favor o seu nome?
-Elsa e nada de senhora, isso faz-me sentir mais velha, além disso sou solteira.
- Elsa desculpe a minha falta de tacto, mas a mãezinha ensinou-me a ser delicado e educado com as senhoras, menina neste caso. Sou Francisco, mas todos me tratam por Xico, melhor Xico Zé, porque na verdade sou Francisco José, sim, exactamente como o cantor romântico.
- Então diga lá senhor Francisco José!
- Queria alugar, mas se os preços forem muito elevados talvez vá para a opção de comprar. Dá para as várias limpezas, depois armazenamos para o futuro. Claro que irei saber preços à concorrência. Já agora nada de senhor, esse está no céu.
E desta forma, mais coisa menos coisa a conversa foi sendo desenvolvida. Os dois ao fim de mais de uma hora despediram-se marcando um telefonema para o dia seguinte. Claro que o nosso homem clarificou que só podia ao fim do dia, hora que o orçamentista não estava.
Alguns dias mais tarde, talvez pouco mais de uma semana, já pouco se falava dos andaimes. Com o passar dos dias tudo se encaminhava para um encontro ao vivo que o Rui evitava a todo o custo.
A pouco e pouco foi recolhendo uma serie de informações, umas já sabia outras não. A jovem estava sendo manipulada sem ter a mais pequena desconfiança.
Era Elsa para lá Francisco para cá. Contaram coisas das suas vidas, da parte do Rui eram só mentiras, da parte da mulher talvez sim talvez não, coisa que nunca saberemos.
Um dia não foi possível protelar mais o encontro, a missão estava cumprida. Para o Rui era simples, não contactar mais a rapariga, contudo o rapaz ainda quis pôr a cereja em cima do bolo. Marcou mesmo um encontro, queria observar bem a Elsa. Isso era na realidade o máximo da sacanice, a rapariga confessara ter trinta e dois anos e o Rui disse ter trinta e três, na verdade ainda não fizera dezanove, faltava uns dias.
 O Rui entretanto entregara o relatório ao patrão com as suas conclusões:
Publicidade mais bem pensada do concorrente, vendedor mais mexido, divulgação nos sítios certos, um bom projecto. A razão dos alugueres serem mais baratos devia-se ao facto das uniões de X raramente partirem, por isso com mais rentabilidade na execução. O Rui já sabia isso tudo, a Elsa só confirmou o que ele pensava e já investigara no passado.
O encontro foi marcado para um centro comercial na rua Braamcamp, num restaurante escolhido pelo sacana do Rui. Acompanhado de uma amiga que nada sabia da estória, foi colocar-se num local estratégico para observar calmamente enquanto fingia namorar com a companheira.
À hora marcada entrou uma mulher vistosa que se sentou no local combinado. Era alta, bem-feita, de beleza vulgar, mas com um ar distinto. Esperou, esperou, esperou, olhou dezenas de vezes para o relógio e para a porta de entrada. Por fim com o semblante carregado, mas sem perder a compostura, levantou-se e muito direita saiu porta fora, perdendo-se na noite.
O Rui nessa noite foi dormir com a amiga, ia com a consciência pesada que se reflectiu nos trabalhos de cama.
Marinha Grande, 19/3/2013
Alberto Pereira de Castro







domingo, 29 de dezembro de 2013

A joaninha da romãzeira

A joaninha da romãzeira

Era uma vez uma joaninha que vivia numa romãzeira. Era feliz, ninguém implicava com ela. Mas um dia… apareceu um menino e uma cadela e nunca mais a deixaram em paz. Ela bem se escondia debaixo das folhas, mas se não era o menino era a cadela que a descobria. Por essa razão a joaninha decidiu partir, preparou a mala colocou os óculos de sol e lá partiu com destino incerto. O menino e a cadela ficaram muito tristes e prometeram que não mais incomodariam as joaninhas que aparecessem.
Passaram os dias e as noites também, no jardim da casa os vários insectos pulavam de árvore em árvore de folha em folha. Eram abelhas, vespas, besouros, moscardos e mosquitos. a joaninha é que não.
O menino decidiu pedir ajuda ao avô, que por sinal era um druida disfarçado. O velhote foi falar com a rainha das joaninhas e depois de alguma argumentação convenceu sua majestade. No dia seguinte a romãzeira estava cheia de belas joaninhas.
O menino e a cadela ficaram muito contentes e nunca mais incomodaram as joaninhas.
Foram felizes para sempre.

Marinha Grande, 30 de Agosto de 2000
José M. Bray
Dedicado ao meu neto Daniel Bray de seis anos, uma das coisas boas na minha vida!


Nota: Ao dar a volta a manuscritos antigos, encontrei este conto com que entretinha o meu neto no verão de 2000, tinha ele seis anos. Não resisti em metê-lo no blogue!

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal no Asilo

Natal no Asilo
“Quando eu penso no meu futuro não esqueço o meu passado. Penso no futuro, penso no passado mas vivo o presente! Este texto abaixo tem o sentir de uma triste realidade, o drama da terceira idade”.
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O dia estava no fim, os velhos recolhiam aos poucos aos seus aposentos, uns iam em cadeira de rodas, outros de canadianas, mais uns tantos de bengala, mas também havia alguns que ainda usavam as suas pernas embora tremelicando como canas num canavial. Nos quartos estavam os que nunca saíam a não ser para a viagem final, olhavam para tudo, nada vendo com suas vistas vazias e babando-se continuadamente.
Era noite de Natal, o jantar tinha sido um pouco reforçado, terminando com filhoses para todos, enviadas por uma benemérita. A acompanhar um café fraco ou um chá conforme o gosto de cada um, alguns dos velhos receberam um golo de aguardente. Mais tarde os que podiam sair dos quartos e camaratas iam assistir à missa do galo, beber um pouco de leite e comer uma fatia de bolo-rei oferecido pela mesma benemérita a senhora das filhoses.
Muitos esperavam ter visita no dia seguinte, mas só poucos teriam essa sorte. A maior parte destes idosos vindos de gente pobre, ao terem deixado de ter utilidade aos filhos e aos netos eram despejados naquela vetusta instituição fundada no tempo da rainha dona Amélia.
Mal eles sabiam que estava para acontecer dois momentos de grande alegria para eles, um nessa noite e outro, depois do almoço de Natal. Mas não vamos ainda esclarecer o mistério.
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Nas águas furtadas daquele prédio, quatro jovens estavam trabalhando arduamente, eram estudantes que decidiram não ir a casa para cumprir uma promessa feita ao director do Asilo.
Asdrubal e o Ochoa eram dois estudantes da Escola das Belas Artes, vivendo com as namoradas nas águas furtadas de um prédio velho no centro da cidade. Os quadros jovens eram prendados, Asdrubal escrevia, tinha muita imaginação, sua companheira cantava bem e queria seguir canto, Ochoa era um talento no desenho, por sua vez a sua querida queria ser actriz e sonhava dia e noite com teatro.
A água furtada era uma enorme sala,  com uma mini cozinha e um minúsculo WC que completavam o espaço. A sala era dividida por um pano preso por molas da roupa a um cordão de nylon que atravessava a sala fazendo duas divisões, um quarto para cada casal. A privacidade era quase nula. Os quatro davam-se bem e tudo dividiam, tudo menos a vida sexual, aí os rapazes eram muito conservadores, as raparigas não tanto. Na verdade Mara e Dália eram bem mais experimentadas na vida e nada lhes fazia confusão, contudo respeitavam as cabeças quadradas dos namorados.
Estes jovens tinham em comum, serem uns tesos. Sempre com falta de dinheiro, passando necessidades primárias em especial comida. Os poucos recursos eram gastos em tabaco, álcool, discos e livros. Aos trambolhões lá iam sobrevivendo, tentando acabar os cursos que frequentavam. As raparigas eram da capital, os rapazes não, tinham vindo para a cidade grande de muito longe. Estavam perto do Natal e com ele as férias escolares. Asdrubal e Ochoa não tinham dinheiro para ir à terra, também não estavam interessados em deixar as namoradas na capital, não fossem elas dar o fora. Eles pensavam que não, mas nunca se sabia. Então decidiram ficar todos juntos e dividir o nada que cada um tinha.
As traseiras do velho prédio davam para as traseiras do Asilo dos velhos. Os rapazes, em especial o Asdrúbal, observavam das janelas das águas furtadas os homens e as mulheres no crepúsculo da vida, sentados no pátio apanhando sol nos dias bons. Os quatro tinham imensa pena dos tristes idosos. Raramente eles sorriam ou falavam uns com os outros, eram mortos ainda com vida.
Um dia os rapazes tiveram uma ideia e foram falar com o director do Asilo…
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Com a colaboração do Zé das plantas, seu cúmplice, João pôs em movimento as fases do plano há dias pensado. 
Era vinte e quatro de Dezembro, como habitual o clã Lopes reuniu-se em casa do banqueiro pai do João, cerca de trinta. O jantar era cheio de requintes. Todos comiam, todos bebiam, todos riam. Era uma felicidade sem limites. Mas não era total a felicidade. Três pessoas sentiam na alma o contraste daquela noite esfuziante. Era o velho jardineiro Zé das plantas, convidado mas que não saiu do seu anexo, só foi ao salão fazer um brinde à família. A esposa do banqueiro que recordava o passado e a sua avó falecida há dez anos. O João que sentia na alma o drama dos pobres em especial os idosos.
Chegou a hora de abrir os presentes, João quis ser o primeiro, recebeu, agradeceu e de seguida saiu observado pelo olhar atento de sua mãe.
A pequena charrete puxada por um corcel negro dirigia-se para parte velha da cidade, ia a passo certo e na estrada de paralelepípedos, os cascos do animal ressoavam na noite fria. Flocos de neve tudo cobriam, fazendo um contraste no dorso negro do cavalo. A charrete era conduzida por um velho muito velho, a seu lado um pai Natal pequeno, era o João equipado como mandam as regras. Sorriam, iam felizes.
O destino era o Asilo dos velhos, para idosos muito pobres, e abandonados pelos seus familiares. Naquele vetusto edifício, dividido em uma ala para mulheres outra para homens, esperavam a morte duas centenas de velhos e velhas. Bateram ao portão, foram recebidos por um responsável já a par do plano do João.
Os velhos tinham terminado a missa do galo, estavam agora no refeitório a beber um pouco de leite. Quando o menino entrou fardado de pai Natal, os velhinhos puseram-se a bater palmas e a rir, pareciam patetinhas, com tanta alegria.
Com ajuda do Zé das plantas João foi entregando a um e um os presentes que todos agradeciam emocionados. Depois foram até às camaratas entregar aos acamados também uma prenda a cada um. Uns sorriam e atiravam beijos, outros pareciam nada sentir ou talvez não porque um brilho aparecia nos olhos já cansados, pela idade e pelo sofrimento.
Despediram-se e regressaram à charrete, quando partiram, ouviram uma algaraviada, era os velhinhos a dizerem adeus através das janelas do Asilo. Meia hora depois, chegaram ao palácio dos Lopes.
Ultrapassaram o portão e ao chegar à escadaria da residência a mãe do João esperava por eles.
- Obrigada, meu filho, obrigada Maia meu amigo! Estou muito emocionada. João, a minha avó e tua bisavó, deve estar muito feliz lá onde estiver.
O João foi abraçar-se à mãe chorando. Uma lágrima de saudade rolou pela cara de Carlos da Maia, verdadeiro nome do velho jardineiro.
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Nesse dia o almoço de Natal foi muito bom devido a ofertas especiais, como por exemplo a vinda da casa do Robalo Lopes, banqueiro importante da cidade. Alguns familiares dos velhos, poucos, estiveram presentes.
Após o almoço os idosos deslocaram-se para um salão polivalente, onde existia um pequeno palco. Nesse dia o palco estava profusamente decorado com muitas luzes. À hora certa um gongo deu três pancadas e o pano de cena foi puxado para um dos lados, quatro jovens apareceram à frente de um artístico cenário. Os idosos sem nada ainda ter acontecido, começaram a bater palmas. Depois...
Depois foram três horas de sonho. Houve de tudo! Primeiro a representação de uma estória de amor, amor com muita pureza, escrita pelo Asdrubal. Depois, Mara cantou inúmeras canções do passado, pedindo aos velhos que também o fizessem, inclusive pedindo a um e a outro que viesse ao palco. Ochoa fazia rápido caricaturas passando pelas mesas. Dália com bela representação contava anedotas. Asdrubal recitava pequenos poemas coisa que ele adorava, muitos dedicados aos idosos. Para acabar, um baile foi levado a efeito por todos que se podiam mexer, inclusive as cadeiras de rodas também rodopiaram.
Depois, depois os idosos felizes regressaram aos seus cubículos. Mas naquele Asilo nada voltou a ser como antigamente, ventos de esperança sopraram por todo o velho edifício.
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Nota: Este texto tem parte de dois contos distintos, “A palavra e o desenho” e “O rapaz e o jardineiro”.
Comeira, 22 de Dezembro de 2013
ZM
Dedicado aos idosos deste país, tão desprezados pela família e pela sociedade!


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A viagem de minha mãe!

A viagem de minha mãe!
Parei à saída daquele bairro residencial para fazer um telefonema importante. O dia estava bonito, um verão de São Martinho prolongado mas bem frio. Após algumas tentativas alguém entendeu a minha chamada.
- Estou sim, quem fala?
- Bom dia, sou o Zé Manel. É o tio Alberto?
- Sou eu sim. Como estás sobrinho? Já não falo contigo desde a tua ida à Ermegeira naquela noite mágica do passado. Quando vens visitar os teus familiares que estão longe?
- Mais depressa que o tio pensa. O meu guia de viagem já está à minha espera para lá da ponte. Tem caçado muito, ou a lei daí proíbe? Ainda há dias contei a pessoa amiga a estória de só matar um coelho. Uma grande lição de vida que tento transmitir aos mais novos.
- Zé Manel, deixei de caçar há muito tempo. Não temos o direito de tirar a vida aos pobres coelhos, lebres, perdizes, que não fazem mal a ninguém. Todos estes bichos são animais de Deus, por isso têm alma.
- Já agora, como está o meu padrinho e restante família, tenho muitas saudades deles, de uns mais que de outros. Sou um simples mortal com qualidades e defeitos, por isso não consigo gostar por igual.
- O teu padrinho continua a tocar o seu trombone, todos gostam de o ouvir. Deve estar neste momento a ensaiar ou a ensinar, alguns pequenitos que aqui chegaram há pouco tempo. Ele é mesmo muito bom em todos os sentidos. Penso que a irmã caçula a Amélia está neste momento ao pé dele, são muito amigos.
- Sempre gostei muito deles e do tio também, são a par da minha irmã Ana Maria os familiares que mais me emocionam na minha saudade. Tio diga à menina que a sua mãe a vai visitar!
- Não me digas, então a minha irmã Alice vem aí. Já a não vejo há quase cinquenta anos…Como está ela?
- Foi por isso também que lhe liguei. Tio a minha mãe está muito velhota, têm de ter muita paciência com ela. Como sabe melhor que eu, o primeiro terço da vida dela foi de grande sofrimento, foi uma mulher muito sofrida. Depois os outros dois terços foram mais equilibrados, mas foi sempre uma mulher castrada. Um carácter muito forte, mulher orgulhosa mas com imensos complexos, fizeram dela uma mulher fechada em si mesmo, que pouca alegria teve na vida.
Parei para tomar folgo, depois continuei e terminei o contacto.
- Tio, peço que ajudem a minha mãe a adaptar-se, peça a todos em especial ao meu padrinho, casa onde eu nasci e tanto apoio deu à Alice nesse drama. Preparem a minha irmãzinha para a chegada da mãe.
- Fica descansado Zé Manel, tudo será feito como desejas. Adeus!
- Obrigado meu tio e até um dia destes.
Desliguei a chamada com emoção. O dia continuava bonito naquele bairro residencial. Olhei para trás, lá dentro numa campa húmida e fria o corpo de minha mãe repousa. Neste momento, a sua alma deve estar a chegar junto dos nossos antepassados falecidos!
16/12/2013
ZM
Para, Maria Alice Bray 1923/2013



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A mãe Natal

A mãe Natal
Vinte e quatro de Dezembro, era grande a azáfama na Lapónia, centenas de idosos preparavam-se para partir nos seus trenós através do mundo para entregarem aos meninos as prendas de Natal. O pai Natal nº 2013 estava entre eles, nesse dia abusara da bebida, vício que apanhara nas idas a um pequeno país do sul da Europa. Antes da hora da partida decidiu ir a casa dormir um pouco para recuperar a lucidez.
A companheira do pai Natal nº 2013, estava muito zangada porque o seu homem voltou a entrar em casa com o abatatado nariz, muito vermelho, mais parecendo um tomate maduro, em enorme contraste com a barba branca e o barrete verde.
- Homem, outra vez com os copos…Não tens vergonha? Logo hoje que tens a tarefa de levar os presentes às crianças conforme está estipulado pelo São Nicolau. Como vais conduzir o trenó nesse estado?
 - Querida mulher, meu amor. Não te preocupes, não há problema, as renas já sabem, de olhos fechados, o caminho.
- E o exemplo que dás às crianças? Achas bem se alguma te vê ou sente o teu odor?
- Deixa lá, os meninos àquelas horas da noite estão todos dormindo.
Após esta declaração, o velho pai Natal de longas barbas brancas e junto a uma fogosa lareira, sentou o seu amplo traseiro no confortável sofá da sala. Rapidamente adormeceu e alguns minutos depois ressonava alto e em bom som.
- Isto está mau este ano, o meu homem precisa de reforma…
Assim pensava em voz alta a ruiva e anafada companheira do pai Natal 2013 que dormia a bom dormir.
- Acorda homem, tens de atrelar as renas e carregar o trenó, senão fica tarde para partires.
Mas qual quê, o pai Natal não dava sinais de acordar, o seu ressonar parecia um trombone. Foi então que a dinâmica mulher tomou uma atitude.
- Vou realizar o meu sonho de menina, ir entregar as prendas às crianças, mas às pobres. Ah! Ah! Ah!
Se assim pensou, mais rápido o executou. Perante o olhar incrédulo das seis renas, atrelou-as ao trenó. Depois carregou as centenas de presentes, pegou na lista de distribuição e partiu feliz. O destino desse ano que calhava ao pai Natal nº 2013, era uma pequena cidade de Portugal. Uma povoação com muitos ricos, mas muitos mais pobres.
Como convém numa noite de Natal, estava muito frio, o céu estava limpo, carregado de estrelas. Nas zonas mais elevadas um manto de neve cobria os cumes até meia encosta.
O trenó guiado pela mãe Natal fazia um vistão lá no céu, flutuando entre a terra e a lua. Iluminado por dezenas de luzes e igual número de guizos tocando melodias próprias da época.
A anafada mãe Natal, ia lendo os nomes e as moradas das crianças eleitas para receber os presentes dessa noite mágica. A mulher já tinha uma ideia fisgada! Ao chegar à cidade do destino, as luzes do trenó foram desligadas e os guizos emudecidos. Por norma do pai Natal chefe, os trenós tinham de passar despercebidos e muito menos podiam ser vistos.
Como a mãe Natal já calculava, todos os endereços eram de casas opulentas, de pessoas com muito dinheiro. Numa atitude enérgica rasgou a lista em duzentos e cinquenta e seis bocadinhos que lançou no céu sobre a cidade. Ao mesmo tempo pediu ajuda ao menino Jesus.
- Meu querido menino Jesus, faz que cada bocadinho de papel caia sobre a casa de um menino pobre para lhe poder levar um presente de Natal.
O menino Jesus ficou maravilhado com o desejo da mãe Natal. Não só encaminhou os papelinhos para as casas das crianças pobres, como lhes deu luz de estrela, para orientar a mãe Natal nas entregas.
Com grande eficiência a mãe Natal executou a sua tarefa de bem-fazer. Tinha realizado o seu sonho de menina!
Naquela noite de Natal os meninos pobres daquela pequena cidade receberam a sua prenda, oferecida pela mãe Natal com ajuda do menino Jesus.
Na Lapónia o velho e rabugento pai Natal continuava no seu sono de bêbedo, ressonando alto e em bom som.
Comeira, 4/12/2013
José d’ Barcellos
Para, Francisca no seu primeiro Natal.