domingo, 30 de junho de 2013

Os Bray, a caminhada

Os Bray, a caminhada
Alguns primos pediram-me para de uma forma simples fornecer informações dos nossos antecedentes. Já escrevi alguns textos, a sua actualidade depende de cada informação recolhida por todos que se dedicam à investigação do nosso apelido.
Banda da Ermegeira fundada em 1882
O meu bisavô é o jovem  sentado,  o ultimo à direita na imagem
Silvério Pedro da Rosa Bray

Esclareço desde já que esta recolha de dados foi feita por diversos investigadores, quase todos de nossa família, a mim só cabe parte. Mas os primos querem dados, por isso mãos ao trabalho.
Nas investigações para simplificar separo a estória da família em várias fases, a primeira até ao Agapito, depois até José Bray feitor na Quinta da Ermegeira, de seguida até à minha geração, acabando na fase contemporânea. Esta ultima fase, a cada um pertence, por isso não vou escrever sobre ela.
Para mim o casal Agapito/Violante é um pêndulo entre as duas primeiras fases.
São conhecidas quatro gerações nos antecedentes de António Agapito da Rosa Bray, todos nascidos na zona de S. Domingos de Carmões, vejamos:
Pedro Dias/Maria Francisca, nascidos por volta de 1650, trisavós do Agapito.
António Francisco (n1678) /Luzia da Conceição (n?), bisavós do Agapito.
Manuel Francisco (n1702) /Maria Josefa (n1710?), avós do Agapito.
António Francisco (Agapito Bray *) (n1742) /Joaquina Sant’ana (n1745), pais do Agapito
(* este ultimo foi o primeiro a assinar Bray ao ser padrinho de um casamento).
António Agapito da Rosa Bray nasceu a 24 de Março de 1776, casou a 4 de Junho de 1798 com Violante Maria Peregrina de Barcelos Barreto nascida a 14 de Junho de 1770. Violante era seis anos mais velha que o Agapito.
O Agapito, que se saiba teve quatro irmãos: Maria Rita (n1772), José (n1774), Anna (n1779) e Violante (n1782).
O Agapito era capitão ou coisa parecida, não sabemos de quê, exército, marinha de guerra ou navio mercante, são hipóteses.
São conhecidas três gerações nos antecedentes de Violante Maria Peregrina de Barcelos Barreto, todos dos Açores, excepto a mãe de Violante.
Matias de Barcelos/ Catarina Pacheco, nascidos por volta de 1670, bisavós de Violante.
Manuel de Barcelos (n1692) /Maria Luís (n1700), bisavós de Violante.
José de Barcelos Barreto (n1732) /Madalena Caetana (n?), casaram na Ajuda/Lisboa em 1762, pais de Violante.
A Violante que se saiba teve dois irmãos: Gertrudes (n1764) e Lourenço António de Barcelos (n1767), ambos mais velhos que Violante.
Esta família oriunda dos Açores, desde o tempo do povoamento da Terceira, veio para o Continente devido às calamidades que se abateram sobre o arquipélago a meio do século XVIII.
Para fechar esta primeira fase quero dizer que uma irmã do Agapito a Maria Rita já tinha casado com um irmão da Violante em 1796, tendo já o filho João Baptista nascido três meses antes do casamento.
Assim encerro a primeira fase, avancemos para a segunda.
O casal Agapito/Violante viveram na Corujeira freguesia de S. Domingos de Carmões, foram pais de cinco filhos: Francisco Xavier da Rosa Bray (n1800), Perpétua Carlota da Rosa Bray (n1803), António Pedro da Rosa Bray (n1807), Silvério Pedro da Rosa Bray (n1809) e Maria da Conceição (n?)
O nosso avoengo foi o António Pedro da Rosa Bray casado com Maria Sant’ana., pais de José Pedro da Rosa Bray que nasceu a 19 de Março de 1843, no mesmo dia mas em 1845 morre António Agapito nas vésperas de fazer 69 anos.
José Pedro da Rosa Bray casou com Maria das Dores (n20/1/1848) no dia 3 de Setembro de 1866.  O filho Silvério já tinha nascido.
Este casal após o casamento foi viver para a Quinta da Ermegeira, o José Bray como feitor da Quinta e a Maria das Dores como dama de companhia da Viscondessa.
Assim começou a saga dos Bray na Ermegeira.
O casal José Pedro da Rosa Bray/Maria das Dores, foram pais de seis filhos: Silvério Pedro da Rosa Bray (n1866), Maria Henriqueta (n1868), Luisa Maria (n1870), Mariana (n1872), Amélia (n1874), José Pedro da Rosa Bray, conhecido por José do Sobrigal (n1877) e António (n1879, f1/3/1880).
Conta-se que Maria das Dores foi com o bebé António visitar a família às Carreiras a terra de seus pais. No regresso ela e filho foram surpreendidos por forte temporal apanhando ambos uma grande molha. Ficaram doentes, falecendo dias depois, o menino a 1 de Março e a mãe a 6 do mesmo mês do ano de 1880. António tinha um ano e a mãe trinta e dois.
José Pedro da Rosa Bray mandou erigir um pequeno mas digno monumento, no cemitério do Maxial em memória da mulher Maria das Dores.
Chamo a atenção para, Pedro, Rosa e Bray serem apelidos, que se mantiveram nos nomes dos homens da família, pelo século XX dentro até ao Estado Novo.
Terminaram aqui as duas primeiras fases, entrando-se na fase moderna.
Com os filhos do José Bray/Maria das Dores, abriram-se caminhos diferentes, cada um seguiu a sua estrada. Silvério, Maria e Luisa viveram na Ermegeira, Mariana e José no Sobrigal e Amélia em Lisboa.
Nesta terceira fase que chamo de moderna, seguirei o meu trilho.
No meu caso o meu bisavô foi o Silvério Pedro da Rosa Bray casou com Henriqueta Maria, foram pais de cinco filhos: António Pedro da Rosa Bray (n1888), Mário Pedro da Rosa Bray (n1894), José Pedro da Rosa Bray (n1896), Maria Henriqueta Bray (n?) e Felicidade Bray (n?). Esta gente deu ao casal Silvério Bray/Henriqueta Maria, trinta e dois netos não contando os que terão fenecido em crianças.
A minha avó Maria Henriqueta Bray gerou a minha mãe Maria Alice Bray, meus tios Alberto, Damião, João e as tias Maria Correia, Carminda e Natalina, sete ao todo. O António teve um filho, Mário nove, José também nove e Felicidade seis.
Eu tomei o comboio da vida em 1943, minha filha Ana Maria Freire Bray em 1971, Isa Paula Freire Bray em 1976. Meus netos, o Daniel em 1994, António em 2009 e Alexandre em 2012.
Nesta caminhada, treze gerações aconteceram desde Pedro Dias/ Maria Francisca e doze desde Matias de Barcelos/ Catarina Pacheco.
Continuamos sem saber como entrou o apelido Bray na família, sabemos sim que um avoengo nascido em 1742 António Francisco, assinou Agapito Bray ao ser padrinho de um casamento.
Na primeira metade do século XVIII foi viver para Coimbra uma família com apelido Bray oriunda da Inglaterra, contudo não conseguimos fazer a ligação com os Bray de Carmões.
Quase tudo escrito neste texto tem documentação comprovativa, contudo pode haver alguma incorrecção. Se tal acontecer peço a vossa ajuda para se corrigir.
Marinha Grande, 30 de Junho de 2013
José Bray





quinta-feira, 16 de maio de 2013

A capa escarlate



Há muitos anos atrás, ainda as aldeias não tinham electricidade e a água era das fontes, um rapaz da Ermegeira foi ao habitual baile de sábado que se fazia no Maxial. Era um evento rotineiro frequentado pelos rapazes e raparigas vindas de duas léguas em redor da pequena freguesia. No excelente salão de um palacete com função social, juntava-se imensa gente, mas de um modo geral quase todos se conheciam, em especial os mais assíduos.
Aquele baile no sábado, dia seis do mês de Março de mil novecentos e quarenta e três, ficou para sempre gravado a letras de fogo na memória do rapaz da Ermegeira.
Ela apareceu ninguém sabe de onde, embrulhada numa longa capa escarlate que deixou no bengaleiro. Os longos cabelos negros desciam-lhe pelas costas até aos quadris, que se adivinhavam através do vestido branco enfeitado por fitas azul-marinho. A fazer contraste com o cabelo, um rosto belo mas que não sorria, muito alvo quase transparente, uma boca carnuda, um nariz arrebitado e uns olhos negros enormes. Sem dúvida uma visão quase divina, se sorrisse, o quadro seria perfeito.
A rapaziada do baile ficou toda com os corninhos no ar, sentindo-se inferiorizados não tiveram coragem de avançar com pedido para dançar com enigmática rapariga, o famoso sinal à distância. Foi então que o rapaz da Ermegeira decidiu tentar a sorte, com uma táctica diferente, avançou devagar olhando a rapariga nos olhos, perguntou à estranha se precisava de alguma coisa. Ela disse que não, então ele convidou-a para uma dança, a rapariga sem dar um sorriso disse que sim. A beldade avançou para ele e ao som de uma valsa rodopiaram pelo salão. Foram horas de dança, ninguém sabe do que falaram, se é que houve diálogo, especialmente da parte da rapariga.
A manhã vinha aí, em breve. A jovem pediu a capa no bengaleiro, solicitou depois ao seu par um copo de água. Quando o jovem regressou com a bebida ela já tinha partido, sem hesitar foi a trás dela.
A rapariga parecia voar, dirigindo-se na direcção do Vilar, no fim da povoação virou à direita encaminhando-se na sentido do Montejunto e do cemitério. O portão fechado parecia ser obstáculo, mas não foi, atravessou-o como uma cortina de fumo. O rapaz viu isso ao longe, o portão estava fechado à chave e tinha pontas de seta no topo, então,sem hesitar ele saltou o muro e entrou também no cemitério. Olhou para todos os lados e não a viu mais, procurou entre os mausoléus mas nada. A madrugada chegara, os primeiros alvores apareceram do lado da montanha. Foi então que o rapaz viu algo que o aterrorizou, sobre uma campa estava a capa escarlate que a mulher usara, fugiu em direcção à sua aldeia e só parou quando entrou em casa.
A campa tinha um pequeno monumento erigido em honra de Maria das Dores falecida a 6 de Março de mil oitocentos e oitenta, um sábado. O jovem da Ermegeira estivera a dançar toda a noite com o fantasma da sua bisavó.
José Bray, 13/5/2013

domingo, 12 de maio de 2013

Paradoxos no mundo do trabalho!

Um filosofo meu amigo, pessoa muito sensata, dizia que tudo o que se passa neste país é um paradoxo. Um paradoxo? Perguntei numa tentativa de o pôr a falar, coisa a que ele não se fez rogado. Achei piada ao termo paradoxo, quando era menino adorava a palavra e servia-me dela como um bordão. O paradoxo servia para apoiar qualquer tema, mesmo nada tendo com o mesmo. Sempre era mais interessante, penso eu, do que o cara..., o cabr.., o bué o pá e mais recentemente o "prontos". Mas voltemos ao meu amigo.  Dizia ele falando do emprego e do desemprego.
-Dizem que há desemprego, mas o que há é desempregados.  Há trabalho e mão de obra, se dividirem o trabalho pela mão de obra existente, a palavra desemprego sai do nosso léxico e deixa de haver desempregados.
Pensei um pouco e estou quase a concordar com o meu amigo filósofo que aprendeu muito com o pai e o avô trabalhadores do campo. Entretanto ele continuou o seu raciocino.
-Dizem que há altas percentagem de trabalhadores no desemprego, 15%, 18%, 21% e por aí fora. Dizem que é preciso criar postos de trabalho. Tudo isso é uma falácia.
Também sinto simpatia por este termo, falácia soa bem e rima com incompetência. Questionei o meu amigo. Isso não é lógico?
-Claro que não, actualmente muitos postos de trabalho são supérfluos,  nem sequer tinham razão de existir. A tendência na sociedade futura é para as máquinas substituírem o homem, ou seja, postos de trabalho, isso já está acontecendo há muito. Na filosofia da economia actual, o desemprego (coisa que não existe) vai subir para 30%, 40%, 50%, 60%, 70%, 80%, 90% e por fim 99%. Depois que fazem às pessoas?
Percebendo o ponto de vista do amigo, comentei. Não estás a exagerar no cenário.
-Claro, estou a exagerar para as pessoas interessadas e não interessadas  observarem melhor o fenómeno (o monstro). Mas não tenhas duvidas que vai acontecer algo parecido, não sendo obviamente tão exagerados os números.
Penso que compreendi os pontos de vista do filósofo meu amigo, mas ele ia lançado e não parou o seu filosofar.
-Agora repara neste disparate que é um super paradoxo. Os do poder querem aumentar o tempo de trabalho da mão de obra no activo, retirar os feriados aos trabalhdaores e passar a reformas para uma idade superior. Com isso até o mais ceguinho da cabeça vê, só estão a retirar  a hipótese de  trabalho a desempregados,  não reduzindo a tal taxa de desemprego, coisa como já demonstramos não existe.
Diz-me, no futuro não vai haver áreas em que há necessidade de mais gente a trabalhar?
-Sim haverá, por exemplo, no saúde, no ensino, no lazer, na assistência aos jovens e aos idosos, mas tudo isso nunca irá compensar o que terá de acabar e o que a ciência virá a substituir.
Amigo filósofo, obrigado pelo teu raciocinar, mas estarás certo? Até à próxima e obrigado.
-Ainda não me fui embora, calma aí. Quero contar uma parábola que aconteceu num país de espertos.
Era uma  vez um pequeno país com muito dinheiro sugado a países de gente sem tutano. Aconteceu que nesse país rico começou o desemprego (que não existe) a aumentar, já ia nos 50%. O Governo começou a ficar preocupado com tanto ociosidade. O ministro principal reuniu com urgência os restantes governantes. Exigiu uma solução para o desemprego. Após uma sessão prolongada, cada ministro deu uma solução. O da agricultura decidiu produzir o dobro das colheitas, empregando com isso muita gente. O da saúde, decidiu fazer exames aos doentes por tudo e por nada, ainda decidiu produzir medicamentos sem limites de plafond. O da industria decidiu mandar produzir o dobro dos carros, dez vezes mais telemóveis e tralhas semelhante, como computadores, televisores, fogões, frigoríficos, etc, etc.
O primeiro ministro com um ar seráfico perguntou aos ministros. Mas que fazemos a tanta produção? A resposta foi unânime.  Simples senhor primeiro ministro, deitamos fora o excesso e produzimos de novo.
Pensem! Pensem! Agora sim vou embora.
Conclui que o filósofo meu amigo tem razão em muita coisa, mas também entendi o que querem os barrigas cheias deste mundo.





segunda-feira, 6 de maio de 2013

Os velhos!

Nas culturas africanas  a sul do Saará há um grande respeito pelos mais velhos, ser idoso é um posto. Para estes lados, os velhos são desprezados, ridicularizados e postos à margem da sociedade. O pessoal esquece que vai ser velho se passar de novo. A razão porque os negros respeitam os seus idosos é bem compreensível. Os velhos sobreviveram a todos os medos do mundo e acumularam conhecimentos pela aprendizagem diária, assim como saberes recebidos dos seus antepassados por via oral. Todos devíamos aprender com os nossos velhos e respeitar as suas opiniões. No fim da vida somos todos novamente crianças e estas sabem tudo e são puras.
Na minha cidade, como em todas povoações deste país, há uma percentagem elevada de velhos. Salvo excepções, que fazem eles? Vegetam pelos vários cantos da povoação, os mesmos grupos, sempre no mesmo local, sempre os mesmos velhos, falando das mesmas coisas, todos os dias do resto das suas vidas. A maior parte destes idosos têm mais valias que podiam ser aproveitadas para bem deles e da sociedade que os rodeia. Tanto desperdício de saber acumulado numa vida.
Era tão fácil fazer estes velhos mais felizes, para seu drama já chega a doença, a saudade, a carência de amor e a falta de meios. Muitas vezes o desprezo da própria família.
Qual então a solução? Simples, muito simples! Algumas sugestões:
Ouvir as suas conversas com interesse. Pôr os idosos a fazer o que sabem, mas por prazer. Organizar passeios através do país e do mundo. Muitas festas de convívio, idas a espectáculos, teatro, musica, cinema, desporto.
Organizar grupos de convívio, desenvolvendo as mais diversas actividades, dançar, nadar, caminhar, praticar jogos físicos e mentais. Não esquecer a actividade sexual, os jovens pensam que as pessoas aos setenta estão acabadas para o sexo, uma grande tolice pensarem isso.
Aprender sempre até morrer...sim pensam que não se aprende em velho? Como daria um filósofo meu amigo, uma falácia,  aprende-se até ao poente da mente. Vou contar uma estória real que vem da minha experiência de vida.
Um amigo meu que já ultrapassou os oitenta anos e que está doente, começou a aparecer no local onde regularmente jogava xadrez com outros amigos. Este senhor há trinta anos ou mais, jogava a arte de Caissa com os seus amigos de tertúlia no café Cristal. Regularmente passava pelo local e dava uma vista de olhos aos jogos. Eram todos jogadores muito fracos e o seu xadrez era ridículo  O meu amigo era dos piores. Há pouco tempo, o senhor Vargas, é esse o seu nome, começou a ser um mirone crónico e muito atento das partidas que eu jogava, ouvindo as minhas explicações dadas aos meus parceiros. Um dia humildemente pediu para jogar e qual não foi o meu espanto ao verificar a sua meteórica evolução. Quem aprende xadrez aos oitenta, aprenda qualquer matéria.
Não há velhos nem novos, há corpos com dias a gastar e em breve nenhum cá estará, eles e nós.

domingo, 5 de maio de 2013

A mãe! A minha e todas as outras!

Hoje é o dia da mãe, portanto da minha também. Pela lógica todos têm uma mãe, embora nem todos tenham conhecido a sua. A minha está bastante doente e idosa, a mãe tem ainda razoável lucidez para o seu estado de saúde e idade. A minha mãe, fez parte do seu percurso de vida, durante os tempos do Estado Novo, tendo nascido alguns anos antes do advento do mesmo. Nesse período tenebroso era muito difícil ser mulher, mais do que é tradicional, por isso ela sentiu esse drama no corpo e na alma. A minha mãe foi uma heroína, como heroínas foram quase todas as mulheres deste país nessa época. Hoje fala-se muito das liberdades de Abril e fazem-se comparações, na verdade houve um acertar passo relativamente aos direitos das mulheres, embora ainda muito esteja por fazer. Comparam-se os dois tempos, o Estado Novo e o novo Estado Novo, mas não há comparações possíveis. Os amigos da onça tentam assustar o povo com os tempos que aí vêm, mas nada se pode comparar. Os excessos de hoje eram uma riqueza no passado, excesso de comida, excesso de roupas, excesso de toda a porcaria possível que se possa imaginar. Era muito útil e esclarecedor explicar às novas gerações a realidade de Portugal nos anos 30, 40 e 50. Não falo dos refilões que viviam em berços de ouro e fizeram exílio cinco estrelas,  reclamando contra o não terem direito a exprimirem-se. Claro que não lhes tiro a razão, mas o Salazarismo era muito mais fundo do que isso. Era o tempo dos filhos de pai incógnito e por vezes de mãe incógnita, quando todos conheciam os progenitores. Era o tempo em que as mulheres não votavam e quando queriam viajar tinham de ter a assinatura do marido. Era o tempo da virgindade e tudo que isso acarretava. Era o tempo em que estudava quem tivesse dinheiro mesmo sendo burro e os inteligentes iam para a oficina. Era o tempo da descriminação entre o liceu e escola industrial. Era o tempo das criadas de servir, verdadeira escravatura doméstica. Era o tempo da prostituição oficial e de 90% de analfabetos. Era o tempo dos sapatos de pele natural. Era o tempo da mortalidade infantil por falta de prevenção. Eram o tempo de 95% de pobres, mas mesmo pobrezinhos.
A minha mãe viveu quase todos os dramas desse tempo, só uma personalidade muito forte lhe deu capacidade para tantas agruras. A minha mãe era uma mulher muito séria (talvez demasiado) em todos os sentidos, embora tivesse uma grande paixão por mim teve sempre muita dificuldade em exprimir as suas emoções. Digo isto com algum lamento!...
Mãe, obrigado por tudo e desculpa se não estive à altura como filho!

terça-feira, 9 de abril de 2013

Xadrez - Veteranos 2013




Vou falar dos nacionais de veteranos de 2013 em xadrez. Não vou falar da minha prestação competitiva que pouco interessa para a estória, tentarei dar uma imagem interessante à narrativa, se para tal me der o engenho e a arte.

As provas foram disputadas em Fátima num hotel com excelentes instalações, mas por outro lado a alimentação foi fraca. Estive para propor ao gerente dar um curso de culinária aos cozinheiros porque os erros de confecção foram muitos, salvando-se os pequenos-almoços. Fiquei admirado não haver WC no piso 0 (recepção, restaurante e bar) nem uma simples instalação para lavar as mãos. Todo o pessoal do hotel foi bastante simpático, é justo dizê-lo. Foi pena que o café no bar custasse 1,25€, mas no exterior a pouco mais de vinte metros era excelente, barato e o patrão patusco.

As provas foram disputadas na cave num salão com condições, excepto talvez um pouco de falta de ar puro, ainda bem que é proibido fumar no xadrez. Para muitos a luz artificial é um handicap, mas era realmente boa assim como a ausência de barulhos. Resumindo, as mesas eram ideais, as cadeiras também, só faltavam os braços para os sonolentos descansarem, os tabuleiros e peças como manda a sapatilha. Todas as doze partidas vezes sete jornadas = a oitenta e quatro jogos foram transmitidas pela Net. Uma pintarola, que mais querem os velhinhos? Que ninguém se ofenda, mas alguns são-no e os outros para lá irão.

Paralelamente houve uma organização Carlos Carneiro com um FIDE e um Semi-rápidas, o mestre Fróis também levou a efeito um curso de formação.

A arbitragem esteve nos nacionais a cargo de Altino Costa e Ilda Miranda que mostraram competência e acima de tudo muito tacto! Estes não são do apito dourado…

Foi realmente muito bom estar entre tantos amigos alguns que conheço há cerca de trinta e cinco anos e o Augusto Dias há mais de quarenta, dos tempos gloriosos de África. Senti muitas saudades da não presença do Tarira e do Loureiro que devem estar lá não sei onde a jogar o xadrez com paixão.

O nacional de veteranos pode ser realizado em qualquer época do ano por razões óbvias, com isso é possível angariar condições de excepção nos hotéis. Sabemos que haverá sempre alguém a dizer que a época não lhe convém, mas será sempre uma questão de opção de cada um. A crise é muita e temos neste caso de aproveitar essa infelicidade para a sociedade, vou dar um exemplo, mesmo em Fátima é possível um bom hotel por 20€/noite duplo, refeições a 6,50€, ou seja por 23€/dia vezes cinco dias = 115€ no total. Claro que não sou mais esperto que os outros, mas temos de estar de olho aberto.

Foi muito boa a ideia da Federação Portuguesa de Xadrez organizar as três provas, rápidas, semi-rápidas e clássicas no mesmo local e em sequência. Sem dúvida que mostra lucidez de quem manda, temos de concordar que o jovem tem esperto na cabeça.

Na minha opinião, como acontece nos jovens, devia haver vários níveis etários nos veteranos, um jogador de 60 anos nada tem a ver com um de 80 ou mais. Por outro lado lado não compreendo porque razão uma mulher é veterana aos 50 (uma jovem) e os homens são veteranos aos 60? Os veteranos deviam de começar todos aos 50 e mudando de escalão de dez em dez anos. Isto ou coisa parecida. Será instruções da FIDE ou cada federação faz à sua maneira?
Mas afinal de que mais gostei? Gostei acima de tudo das longas conversas tidas com alguns, gostei de conversar do meu Benfica com o Lavrador, gostei do espírito de humor do Solha uma obra de arte, gostei da delicadeza do Videira e da sua bonita companheira, gostei de conversar com o Júlio Santos um senhor. Gostei da estória do Augusto Dias que veio reencontrar neste campeonato a filha do seu antigo chefe. Compreendi muito bem a sua emoção porque isso já me aconteceu algumas vezes na vida. Claro, gostei de todas as polémicas que se travaram entre todos.

A Federação está de parabéns por este evento, mas não se esqueçam que tão importante é o primeiro como o último, que tão importante é o miúdo como o velho! Se não entenderem eu explico com calma!

Meus amigos, ando no xadrez por paixão, como em tudo na vida. Como dizia o meu amigo Tarira e eu próprio, o xadrez é competição, ciência, arte, filosofia e quem se sabe se não é uma religião para muitos.



terça-feira, 5 de março de 2013

Xadrez - "Empates de salão"

Xadrez – Empates de salão
O empate numa partida de xadrez é um resultado normal, tão vulgar como a vitória ou a derrota. Acontece quando nenhum dos jogadores tem material para poder conduzir à vitória as suas peças em função da defesa do adversário. Acontece quando os dois jogadores repetem três vezes a mesma posição no tabuleiro. Acontece quando um dos jogadores afoga o rei do outro. Acontece quando os dois jogadores acordam no empate.
Até aqui tudo bem!
Não é por causa dos empates descritos acima a razão deste meu texto, é sim, por causa dos falsos empates, os chamados “empates de salão”. Em muitos Opens antes de começar uma qualquer jornada já os resultados estão combinados. Isto não é desporto é abandalhamento da verdade, para não lhe chamar outro nome. Esse sim, muito feio!
Embora não goste, ainda compreendo o empate, por motivo de interesse comum, no fim de uma prova. Dou como exemplo: O jogador que na última jornada lhe chega o empate para vencer a prova, propõe e o adversário por interesse ou medo, aceita. Outro exemplo curioso, acontecia em Luanda entre dois jogadores muito amigos, nunca um derrotava o outro. Também, já assisti a um jogador (cobarde) propor o empate dando o título ao outro só para garantir o terceiro lugar, curiosamente o adversário nem era superior e o medroso, podendo ganhar a prova, preferiu... não lutar porque se perdesse ficava em sexto ou sétimo lugar.
Agora o que não compreendo são aqueles xadrezistas (maus desportistas) que entram num grande torneio e sem luta começam a empatar entre eles, desvirtuando toda a verdade. Os xadrezistas sérios esfolam-se durante horas e mais horas ganhando ou perdendo, ficam esgotados e no outro dia voltam ao combate, enquanto uns (escolham vocês o adjectivo), passam as jornadas boiando como a cortiça, para depois se aplicarem em um ou dois jogos e por vezes nem isso.
- Mas que tem você com isso? Perguntam os caros leitores, mas eu explico porque o tema ainda encerra mais incorrecções. Na minha vida organizei e vi organizar muitas provas, senti na minha pele e também o que outros sentiram.
Organizamos um Open com muito sacrifício, muito trabalho e muitos gastos. Convida-se uns senhores que não pagam inscrição, muitos têm estadia gratuita, e ainda há alguns a quem é pago um cachet.
A arraia-miúda, inscreve-se e paga tudo com língua de palmo e nada recebe, com esforço pode amealhar uns pontos de Elo, ou seja, os senhores chegam, não pagam e ainda recebem. No fim da prova, depois de pouco jogarem levam os troféus e os prémios em dinheiro.
Isto tudo é imoral! Por isso era preciso tomar atitudes, coisa que infelizmente ninguém parece ter força para tomar uma decisão. Penso que algumas medidas podiam ser encontradas, coisa que mais tarde ou cedo acontecerá.
Quanto aos patrocinadores, carolas e voluntários, para eles é simples tomarem uma atitude, simplesmente desistirem e mandarem a malta, jogar a pau com os ursos. Infelizmente foi o meu caso e de alguns amigos!
Na minha opinião nunca se conseguirá provas para esses empates de salão, embora todos saibamos que os fazem. Como solução para os falsos empates, penso que os desempates na   classificação deviam ter factores penalizadores. Por exemplo: Um jogador com cinco vitórias e cinco derrotas ficaria sempre à frente de outro com dez empates. Outro exemplo e este mais radical: O empate no lugar de valer 0,50 passava a valer 0,49. Desta formas os jogadores fugiam aos empates combinados e as panelinhas eram mais difíceis.
Obrigado pela vossa atenção.
José Bray, 5/3/2013