segunda-feira, 6 de maio de 2013

Os velhos!

Nas culturas africanas  a sul do Saará há um grande respeito pelos mais velhos, ser idoso é um posto. Para estes lados, os velhos são desprezados, ridicularizados e postos à margem da sociedade. O pessoal esquece que vai ser velho se passar de novo. A razão porque os negros respeitam os seus idosos é bem compreensível. Os velhos sobreviveram a todos os medos do mundo e acumularam conhecimentos pela aprendizagem diária, assim como saberes recebidos dos seus antepassados por via oral. Todos devíamos aprender com os nossos velhos e respeitar as suas opiniões. No fim da vida somos todos novamente crianças e estas sabem tudo e são puras.
Na minha cidade, como em todas povoações deste país, há uma percentagem elevada de velhos. Salvo excepções, que fazem eles? Vegetam pelos vários cantos da povoação, os mesmos grupos, sempre no mesmo local, sempre os mesmos velhos, falando das mesmas coisas, todos os dias do resto das suas vidas. A maior parte destes idosos têm mais valias que podiam ser aproveitadas para bem deles e da sociedade que os rodeia. Tanto desperdício de saber acumulado numa vida.
Era tão fácil fazer estes velhos mais felizes, para seu drama já chega a doença, a saudade, a carência de amor e a falta de meios. Muitas vezes o desprezo da própria família.
Qual então a solução? Simples, muito simples! Algumas sugestões:
Ouvir as suas conversas com interesse. Pôr os idosos a fazer o que sabem, mas por prazer. Organizar passeios através do país e do mundo. Muitas festas de convívio, idas a espectáculos, teatro, musica, cinema, desporto.
Organizar grupos de convívio, desenvolvendo as mais diversas actividades, dançar, nadar, caminhar, praticar jogos físicos e mentais. Não esquecer a actividade sexual, os jovens pensam que as pessoas aos setenta estão acabadas para o sexo, uma grande tolice pensarem isso.
Aprender sempre até morrer...sim pensam que não se aprende em velho? Como daria um filósofo meu amigo, uma falácia,  aprende-se até ao poente da mente. Vou contar uma estória real que vem da minha experiência de vida.
Um amigo meu que já ultrapassou os oitenta anos e que está doente, começou a aparecer no local onde regularmente jogava xadrez com outros amigos. Este senhor há trinta anos ou mais, jogava a arte de Caissa com os seus amigos de tertúlia no café Cristal. Regularmente passava pelo local e dava uma vista de olhos aos jogos. Eram todos jogadores muito fracos e o seu xadrez era ridículo  O meu amigo era dos piores. Há pouco tempo, o senhor Vargas, é esse o seu nome, começou a ser um mirone crónico e muito atento das partidas que eu jogava, ouvindo as minhas explicações dadas aos meus parceiros. Um dia humildemente pediu para jogar e qual não foi o meu espanto ao verificar a sua meteórica evolução. Quem aprende xadrez aos oitenta, aprenda qualquer matéria.
Não há velhos nem novos, há corpos com dias a gastar e em breve nenhum cá estará, eles e nós.

domingo, 5 de maio de 2013

A mãe! A minha e todas as outras!

Hoje é o dia da mãe, portanto da minha também. Pela lógica todos têm uma mãe, embora nem todos tenham conhecido a sua. A minha está bastante doente e idosa, a mãe tem ainda razoável lucidez para o seu estado de saúde e idade. A minha mãe, fez parte do seu percurso de vida, durante os tempos do Estado Novo, tendo nascido alguns anos antes do advento do mesmo. Nesse período tenebroso era muito difícil ser mulher, mais do que é tradicional, por isso ela sentiu esse drama no corpo e na alma. A minha mãe foi uma heroína, como heroínas foram quase todas as mulheres deste país nessa época. Hoje fala-se muito das liberdades de Abril e fazem-se comparações, na verdade houve um acertar passo relativamente aos direitos das mulheres, embora ainda muito esteja por fazer. Comparam-se os dois tempos, o Estado Novo e o novo Estado Novo, mas não há comparações possíveis. Os amigos da onça tentam assustar o povo com os tempos que aí vêm, mas nada se pode comparar. Os excessos de hoje eram uma riqueza no passado, excesso de comida, excesso de roupas, excesso de toda a porcaria possível que se possa imaginar. Era muito útil e esclarecedor explicar às novas gerações a realidade de Portugal nos anos 30, 40 e 50. Não falo dos refilões que viviam em berços de ouro e fizeram exílio cinco estrelas,  reclamando contra o não terem direito a exprimirem-se. Claro que não lhes tiro a razão, mas o Salazarismo era muito mais fundo do que isso. Era o tempo dos filhos de pai incógnito e por vezes de mãe incógnita, quando todos conheciam os progenitores. Era o tempo em que as mulheres não votavam e quando queriam viajar tinham de ter a assinatura do marido. Era o tempo da virgindade e tudo que isso acarretava. Era o tempo em que estudava quem tivesse dinheiro mesmo sendo burro e os inteligentes iam para a oficina. Era o tempo da descriminação entre o liceu e escola industrial. Era o tempo das criadas de servir, verdadeira escravatura doméstica. Era o tempo da prostituição oficial e de 90% de analfabetos. Era o tempo dos sapatos de pele natural. Era o tempo da mortalidade infantil por falta de prevenção. Eram o tempo de 95% de pobres, mas mesmo pobrezinhos.
A minha mãe viveu quase todos os dramas desse tempo, só uma personalidade muito forte lhe deu capacidade para tantas agruras. A minha mãe era uma mulher muito séria (talvez demasiado) em todos os sentidos, embora tivesse uma grande paixão por mim teve sempre muita dificuldade em exprimir as suas emoções. Digo isto com algum lamento!...
Mãe, obrigado por tudo e desculpa se não estive à altura como filho!

terça-feira, 9 de abril de 2013

Xadrez - Veteranos 2013




Vou falar dos nacionais de veteranos de 2013 em xadrez. Não vou falar da minha prestação competitiva que pouco interessa para a estória, tentarei dar uma imagem interessante à narrativa, se para tal me der o engenho e a arte.

As provas foram disputadas em Fátima num hotel com excelentes instalações, mas por outro lado a alimentação foi fraca. Estive para propor ao gerente dar um curso de culinária aos cozinheiros porque os erros de confecção foram muitos, salvando-se os pequenos-almoços. Fiquei admirado não haver WC no piso 0 (recepção, restaurante e bar) nem uma simples instalação para lavar as mãos. Todo o pessoal do hotel foi bastante simpático, é justo dizê-lo. Foi pena que o café no bar custasse 1,25€, mas no exterior a pouco mais de vinte metros era excelente, barato e o patrão patusco.

As provas foram disputadas na cave num salão com condições, excepto talvez um pouco de falta de ar puro, ainda bem que é proibido fumar no xadrez. Para muitos a luz artificial é um handicap, mas era realmente boa assim como a ausência de barulhos. Resumindo, as mesas eram ideais, as cadeiras também, só faltavam os braços para os sonolentos descansarem, os tabuleiros e peças como manda a sapatilha. Todas as doze partidas vezes sete jornadas = a oitenta e quatro jogos foram transmitidas pela Net. Uma pintarola, que mais querem os velhinhos? Que ninguém se ofenda, mas alguns são-no e os outros para lá irão.

Paralelamente houve uma organização Carlos Carneiro com um FIDE e um Semi-rápidas, o mestre Fróis também levou a efeito um curso de formação.

A arbitragem esteve nos nacionais a cargo de Altino Costa e Ilda Miranda que mostraram competência e acima de tudo muito tacto! Estes não são do apito dourado…

Foi realmente muito bom estar entre tantos amigos alguns que conheço há cerca de trinta e cinco anos e o Augusto Dias há mais de quarenta, dos tempos gloriosos de África. Senti muitas saudades da não presença do Tarira e do Loureiro que devem estar lá não sei onde a jogar o xadrez com paixão.

O nacional de veteranos pode ser realizado em qualquer época do ano por razões óbvias, com isso é possível angariar condições de excepção nos hotéis. Sabemos que haverá sempre alguém a dizer que a época não lhe convém, mas será sempre uma questão de opção de cada um. A crise é muita e temos neste caso de aproveitar essa infelicidade para a sociedade, vou dar um exemplo, mesmo em Fátima é possível um bom hotel por 20€/noite duplo, refeições a 6,50€, ou seja por 23€/dia vezes cinco dias = 115€ no total. Claro que não sou mais esperto que os outros, mas temos de estar de olho aberto.

Foi muito boa a ideia da Federação Portuguesa de Xadrez organizar as três provas, rápidas, semi-rápidas e clássicas no mesmo local e em sequência. Sem dúvida que mostra lucidez de quem manda, temos de concordar que o jovem tem esperto na cabeça.

Na minha opinião, como acontece nos jovens, devia haver vários níveis etários nos veteranos, um jogador de 60 anos nada tem a ver com um de 80 ou mais. Por outro lado lado não compreendo porque razão uma mulher é veterana aos 50 (uma jovem) e os homens são veteranos aos 60? Os veteranos deviam de começar todos aos 50 e mudando de escalão de dez em dez anos. Isto ou coisa parecida. Será instruções da FIDE ou cada federação faz à sua maneira?
Mas afinal de que mais gostei? Gostei acima de tudo das longas conversas tidas com alguns, gostei de conversar do meu Benfica com o Lavrador, gostei do espírito de humor do Solha uma obra de arte, gostei da delicadeza do Videira e da sua bonita companheira, gostei de conversar com o Júlio Santos um senhor. Gostei da estória do Augusto Dias que veio reencontrar neste campeonato a filha do seu antigo chefe. Compreendi muito bem a sua emoção porque isso já me aconteceu algumas vezes na vida. Claro, gostei de todas as polémicas que se travaram entre todos.

A Federação está de parabéns por este evento, mas não se esqueçam que tão importante é o primeiro como o último, que tão importante é o miúdo como o velho! Se não entenderem eu explico com calma!

Meus amigos, ando no xadrez por paixão, como em tudo na vida. Como dizia o meu amigo Tarira e eu próprio, o xadrez é competição, ciência, arte, filosofia e quem se sabe se não é uma religião para muitos.



terça-feira, 5 de março de 2013

Xadrez - "Empates de salão"

Xadrez – Empates de salão
O empate numa partida de xadrez é um resultado normal, tão vulgar como a vitória ou a derrota. Acontece quando nenhum dos jogadores tem material para poder conduzir à vitória as suas peças em função da defesa do adversário. Acontece quando os dois jogadores repetem três vezes a mesma posição no tabuleiro. Acontece quando um dos jogadores afoga o rei do outro. Acontece quando os dois jogadores acordam no empate.
Até aqui tudo bem!
Não é por causa dos empates descritos acima a razão deste meu texto, é sim, por causa dos falsos empates, os chamados “empates de salão”. Em muitos Opens antes de começar uma qualquer jornada já os resultados estão combinados. Isto não é desporto é abandalhamento da verdade, para não lhe chamar outro nome. Esse sim, muito feio!
Embora não goste, ainda compreendo o empate, por motivo de interesse comum, no fim de uma prova. Dou como exemplo: O jogador que na última jornada lhe chega o empate para vencer a prova, propõe e o adversário por interesse ou medo, aceita. Outro exemplo curioso, acontecia em Luanda entre dois jogadores muito amigos, nunca um derrotava o outro. Também, já assisti a um jogador (cobarde) propor o empate dando o título ao outro só para garantir o terceiro lugar, curiosamente o adversário nem era superior e o medroso, podendo ganhar a prova, preferiu... não lutar porque se perdesse ficava em sexto ou sétimo lugar.
Agora o que não compreendo são aqueles xadrezistas (maus desportistas) que entram num grande torneio e sem luta começam a empatar entre eles, desvirtuando toda a verdade. Os xadrezistas sérios esfolam-se durante horas e mais horas ganhando ou perdendo, ficam esgotados e no outro dia voltam ao combate, enquanto uns (escolham vocês o adjectivo), passam as jornadas boiando como a cortiça, para depois se aplicarem em um ou dois jogos e por vezes nem isso.
- Mas que tem você com isso? Perguntam os caros leitores, mas eu explico porque o tema ainda encerra mais incorrecções. Na minha vida organizei e vi organizar muitas provas, senti na minha pele e também o que outros sentiram.
Organizamos um Open com muito sacrifício, muito trabalho e muitos gastos. Convida-se uns senhores que não pagam inscrição, muitos têm estadia gratuita, e ainda há alguns a quem é pago um cachet.
A arraia-miúda, inscreve-se e paga tudo com língua de palmo e nada recebe, com esforço pode amealhar uns pontos de Elo, ou seja, os senhores chegam, não pagam e ainda recebem. No fim da prova, depois de pouco jogarem levam os troféus e os prémios em dinheiro.
Isto tudo é imoral! Por isso era preciso tomar atitudes, coisa que infelizmente ninguém parece ter força para tomar uma decisão. Penso que algumas medidas podiam ser encontradas, coisa que mais tarde ou cedo acontecerá.
Quanto aos patrocinadores, carolas e voluntários, para eles é simples tomarem uma atitude, simplesmente desistirem e mandarem a malta, jogar a pau com os ursos. Infelizmente foi o meu caso e de alguns amigos!
Na minha opinião nunca se conseguirá provas para esses empates de salão, embora todos saibamos que os fazem. Como solução para os falsos empates, penso que os desempates na   classificação deviam ter factores penalizadores. Por exemplo: Um jogador com cinco vitórias e cinco derrotas ficaria sempre à frente de outro com dez empates. Outro exemplo e este mais radical: O empate no lugar de valer 0,50 passava a valer 0,49. Desta formas os jogadores fugiam aos empates combinados e as panelinhas eram mais difíceis.
Obrigado pela vossa atenção.
José Bray, 5/3/2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

A revolta



O rapaz não resistiu ao apelo que lhe ia na alma, saiu de sua casa para uma missão arriscada. A revolta estava na rua! Muitos dos seus amigos estavam envolvidos na confusão, ele queria estar com eles. A companheira ainda tentou dissuadir o jovem, convencê-lo da inutilidade da obsessão, mas em vão. O rapaz não cedeu aos apelos e argumentos da jovem mulher. Resoluto avançou para a Avenida em passo certo embora as pernas tremessem. Ao longe ouviam-se tiros que ecoavam na madrugada. Chegou perto dos tumultos mas não se envolveu, ficando a trinta metros dos manifestantes que trocavam mimos com os esbirros. A companheira aterrorizada apareceu de uma rua transversal e com lágrimas no rosto acercou-se do seu homem. A polícia de intervenção agredia uma centena de revoltosos mais corajosos, jovens cheios de cólera e ódio que sentiam aos canalhas. A cerca de setenta metros uma multidão de alguns milhares, gritavam palavras de ordem e agrediam verbalmente a escumalha do regímen, observavam mas não reagiam, ou seja não avançavam. Entre os dois grupos, os que levavam pancada e os indecisos por medo e cobardia, encontrava-se o jovem casal, como pêndulo de uma balança. O rapaz sentia muito medo e sabia da inutilidade de se envolver na luta física. Contudo tomou uma atitude. Virou-se para a multidão acobardada e botou violento e empolgante discurso. Em tom inflamado chamou-lhes cobardes e sem solidariedade para com os da frente. Tudo isto com ênfase de verdadeiro revolucionário, para os ferir no seu âmago. No fim desafiou-os a avançar para a luta, para a zona da pancadaria. Um autêntico fanático a promover um ideal. Aos poucos, timidamente a multidão começou a avançar, primeiro devagar, depois a adrenalina subiu e em cavalgada correram a juntar-se aos companheiros que lutavam. Em segundos caíram em cima dos esbirros que foram esmagados pela fúria do povo. Mas os lacaios do poder  ainda abateram alguns dos revoltosos, inocentes que acreditavam nos seus ideais. No chão negro do asfalto pintado de vermelho pelo sangue, um jovem casal jazia com os corpos crivados pelas balas. A revolução contudo triunfou!
José d' Barcellos, 1/10/2012

sexta-feira, 1 de março de 2013

Porca, a bela!


Era uma vez uma porca que vivia em solidão no seu habitat. Não era grande nem pequena, mas assim-assim. Um belo exemplar com tudo no sítio, seja no alinhamento das dimensões como na qualidade do produto. Luzia o olho a quem a visse e era a inveja das outras porcas. Contudo, vivia triste por não ter um companheiro: – Mas afinal para que sirvo eu? Interrogava-se ela.
O tempo ia passando, e nada acontecia de especial na vida da porca, aos poucos foi perdendo o seu brilho, a velhice tomava conta do seu corpo e ela sentia-se a enferrujar. As outras porcas que também ocupavam o seu habitat iam partindo, fossem grandes ou pequenas, nenhuma lá ficava, se eram felizes ou não, ela também não sabia, mas lá iam à vida, sempre era uma mudança.
O seu velho dono, nem para ela olhava quanto mais tocar no seu corpo. Quando aparecia levava uma das companheiras, por vezes duas, e houve um dia que até levou, logo, meia dúzia e todas da mesma qualidade.
Até que um dia o idoso partiu para a quinta das tabuletas, um novo dono apareceu, por sinal um simpático rapaz. A bela porca sentiu renascer a esperança em algo: – Será que a minha vida vai, agora, mudar?
O tempo continuou a passar e nada acontecia que merecesse a pena ser contado, exceptuando a tristeza que a porca sentia dia após dia, cada vez mais velha e mais enferrujada. Mas um dia há sempre um dia…
Era uma noite de lua nova, nada se via dentro do velho armazém, no seu canto, porca desperta e infeliz revia o seu triste fadário.
Foi então que o portão se abriu muito de mansinho para não haver barulhos, e um homem pequeno e gordo de lanterna  na mão entrou devagar dirigindo-se ao habitat onde a porca, muito encolhida tremia de frio mas também de excitação, estava a acontecer uma aventura, uma coisa diferente dos outros dias.
– Aqui está o que eu queria, esta porca vem mesmo a calhar! Conforme entrou o homem saiu, tendo o cuidado de não dar nas vistas. Por sua vez a bela porca ia feliz, chegara o dia de partir.
Mas mais feliz ficou, quando dias depois o homem pequeno e gordo, introduziu no buraco da porca um parafuso feito do mais fino metal. Porca e parafuso enroscaram bem e foram felizes muitos anos!
Alberto Pereira de Castro



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Fumar ou não fumar!


Fumar ou não fumar, eis a questão? Este dilema coloquei a mim mesmo durante anos, faltou sempre a coragem para tomar uma decisão. Sabia bem que era um disparate, por isso de vez enquanto fazia uma tentativa para parar com o vício, mas o sacana vencia sempre. As tentativas não passavam de truques para me enganar. Marcava uma data para chupar o meu último cigarro, o dia passava e nem de tal me lembrava. Decidia ir reduzindo o numero de cigarros gradualmente, dia após dia fumava menos um cigarro, de repente vinha a pressão da vida o programa era interrompido e ia para as calendas. Fumava tabaco fingido, mas claro que não colava. Com isto tudo o tempo ia passando e o corpo ia sentido os efeitos malignos da droga. Os dentes estavam negros, como negros estavam os dedos que seguravam os cigarros, os escarros eram castanhos e quando me assoava o lenço metia nojo e não era só ranho, era também da sujidade derivada da nicotina, do alcatrão e restante porcarias. Estava ficando pele e osso, faltava o ar quando corria ou nadava, até nas quecas sentia a diferença. Tudo isto e ainda não tinha trinta anos.
Na minha vida social, amigos e família, no trabalho e no desporto, incomodava toda a gente. Fumava em casa junto da companheira e filha, tanto na mesa da refeição como no quarto de dormir, fumava junto dos colegas que nunca pegavam num cigarro, fumava na mesa de jogar xadrez defronte de adversários que não fumavam, inclusive crianças e doentes. Tudo isto era de um egoísmo primário, de alguém sem dignidade nem carácter.
O carro tinha cinza e mau cheiro, metia nojo, as camisas eram queimadas porque por vezes tinha dois cigarros acesos e não tinha controlo sobre eles. Isso acontecia muito quando me concentrava no jogo nos campeonatos de damas ou xadrez.
Fumava tudo, três maços de cigarros por dia, cachimbo, cigarrilhas e até de vez em vez um charuto. Estão a ver o filme? Começava às oito da manhã e terminava às duas da madrugada ou mais tarde ainda.
Comecei a fumar ao mesmo tempo que comecei a trabalhar, tinha treze anos. Era fino, era ser homem, era ser importante. Rapaz a chegar a adulto que não fumasse era assim uma coisa para o outro lado. Tudo um disparate do marketing das empresas responsáveis pelo veneno. Nesse tempo, a divulgação dos malefícios e respectivo aviso era omisso.
Um dia deixei de fumar, deixei mesmo de vez. Vocês perguntam. – Como conseguiste, quando antes não foste capaz? Muito simples, da única maneira que considero efectiva, por teimosia.
Nos primeiros dias de Outubro desse ano, na Academia de Xadrez de Luanda, estava a jogar o campeonato de Luanda e chupava cigarro atrás de cigarro, por vezes com dois acesos. Todos tossicando devido à fumaça que navegava no ar da sala. No lugar de me concentrar na partida olhava para a assistência e pensava exactamente na porcaria do vício. Ao fundo da Academia sentada num cadeirão, uma senhora * de meia-idade olhava para mim com olhar reprovador. Quando me levantei no fim da partida veio falar comigo e deu-me um ralhete.
-Senhor Bray, um homem que ainda é um jovem, tão jeitoso, não vê como está magro e negro do tabaco. Um dia vai ter um problema grave, o tabaco é um veneno que mata um nadinha de cada vez, deixe de fumar.
Nesse dia fui para casa sempre pensando na merda do cigarro. Mas ainda não tive coragem de parar. Durante a noite foram só pesadelos…
No dia seguinte era sábado, começava o campeonato de Angola para o qual estava apurado. Parei na rua António Barroso para tomar café, enquanto saboreava o mesmo, pensava. - Bray tens a mania que és muito inteligente, mas não passas de uma besta, andas a dar cabo da saúde e ainda por cima a gastar o dinheiro que pode faltar para dar leite à tua filha, burro, burro. Puxei do maço de cigarros ainda quase cheio era da marca MC. Olhei uns minutos para a linda embalagem depois amachuquei o dito e caixote do lixo com ele. Até hoje não voltei a meter um cigarro na boca. Já lá vão muitos anos, aconteceu em 3 de Outubro de 1973.
Hoje não há falta de informação e os avisos são muitos. O TABACO MATA! Não entendo como se continua a fumar, ainda mais que no meu tempo!
Para deixar de fumar basta ter força de vontade. É óbvio que custa!
Penso que já não existia se não tenho parado de fumar.
O pouco que tenho é resultado do que não gastei em tabaco. Já fiz as contas.
Pouca gente sabe que fui o primeiro dirigente em Portugal a proibir o fumar nas salas de competição de xadrez, mesmo antes da FIDE.
* A senhora era a mulher do Paes Faria
José Bray