segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Memorial José Vareda 2013 - Esclarecimento

Após a publicação neste blogue da minha mensagem de 11 de Fevereiro, recebi no mesmo dia um email do presidente da Federação Portuguesa de Xadrez fornecendo alguns esclarecimentos relativo ao processo em polémica referente ao Memorial José Vareda 2013.
Pedi autorização ao Francisco Castro para inserir neste blogue a seu texto de esclarecimento, a sua resposta foi: Pedia-lhe que não colocasse. Não pretendemos criar mais polémica e confusão. O xadrez tem de estar unido. Compreendi a sua preocupação, por isso respeito o pedido do presidente. Em qualquer momento se Francisco Castro o desejar o blogue está à sua disposição para publicar os seus esclarecimentos.
Contudo sinto que tenho a obrigação de fazer alguns comentários, tentando que sejam de seu a seu dono:
1º - Continuo a pensar que é um disparate separar o Memorial José  Vareda do Nacional de Semi-rápidas equipas. A Federação tinha uma prova realizada no seu calendário sem qualquer trabalho e sem custos. O Memorial tinha o prestigio de ser uma prova Oficial, valorizando a memória do Dr. José Henriques Vareda.
2º - Quero dizer ao senhor presidente da FPX que não se defende os interesses da Federação mas sim do Xadrez, ao fim e ao cabo a missão do organismo. A FPX não é uma empresa.
3º - Um protocolo, um tratado, um acordo, não se esgota no fim de um qualquer mandato. Pode ser renegociado, ou anulado se uma das partes não cumprir.
4º - Não concordo que a FPX queira parte das inscrições com a desculpa que é para a arbitragem. No máximo podem exigir que a organização pague aos árbitros. O SOM até podia ter quem o fizesse a custo zero.
5º - Penso que devia ter acontecido uma  parceria entre FPX e SOM assente no dialogo e na tolerância. Devia ser assegurado os interesses do xadrez e do memorial.
Segundo os esclarecimentos do presidente da FPX, da parte do presidente do SOM não aconteceu esse dialogo tolerante e amistoso que leva à solução dos contenciosos. Francisco Castro também afirmou que sempre foi desejo da FPX que o Nacional se realizasse em conjugação com o Memorial José Vareda.
Agradeço ao Francisco Castro os esclarecimentos que me enviou, quando não tinha qualquer obrigação de o fazer. Por isso senti-me na obrigação de escrever esta mensagem.
Como notas finais e já dentro de outro âmbito quero dizer só mais duas coisas.
A - O fiasco do Memorial ficou a dever-se ao facto de o mesmo não ser prova do calendário oficial, ou seja  o Nacional de Semi-rápidas Equipas, como sempre foi no passado. Não é preciso encontrar desculpas inteligentes como a crise ou o mau tempo.
B - Lamento que no meio de tudo isto a memória ao Dr. Vareda  seja pouco documentada. Nunca, ou pouco se fala no homenageado, por isso parte dos jogadores nem sabe quem era o nosso doutor. Contudo, há quem queira ficar no pedestal.
José Bray



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Memorial José Vareda 2013 - Xadrez


Este ano a 26 de Janeiro disputou-se na Marinha Grande o 24º Memorial José Vareda, torneio de xadrez, homenagem do SOM ao ilustre cidadão homem com H grande, da cidade vidreira e não só. Estiveram presentes dezanove equipas sendo duas do clube anfitrião. Infelizmente foi um fiasco, no ano anterior estiveram quarenta e sete equipas sendo só uma da casa.
Desde que José Bray em 1990 arquitectou e levou à prática este evento, o Memorial foi sempre uma organização de excelente qualidade, ou seja um sucesso, sendo considerada por muitos a melhor prova de xadrez do calendário português. A pedido da Federação Portuguesa de Xadrez o Memorial passou a ser simultaneamente Campeonato Nacional de Equipas em partidas semi-rápidas. Foi assim durante vinte e três anos.
O casamento SOM/FPX nos últimos anos não foi contudo pacifico. A ruptura esteve diversas vezes para acontecer, mas no fim o bom senso imperou. Um protocolo foi assinado que dava o direito ao Memorial José Vareda ser até 2014 também Nacional, depois se voltaria a negociar. Este documento foi assinado entre a Direcção do SOM e o presidente da FPX Jorge Antão.
Sempre me fez confusão estes ataques sem tacto da FPX à filosofia do projecto do SOM no que respeita ao Memorial, uma vez que a Federação Portuguesa de Xadrez tinha um torneio oficial do seu calendário nacional, realizado a custo zero, sem qualquer trabalho e sem qualquer chatice. QUE MAIS PODERIAM QUERER? A ideia foi do SOM, a data foi conquistada pelo SOM, o trabalho foi do SOM e o prejuízo foi do SOM. Os anteriores presidentes da FPX, gestores mais experientes, foram sensíveis a estes argumentos.
Foi com grande espanto que este ano tomei conhecimento da divórcio SOM/FPX, levado a cabo por um jovem presidente (nascido quase na altura do primeiro Memorial) e um presidente que não cedeu às exigências federativas, não sei se bem se mal. Tentei investigar.
O senhor presidente da FPX, fez simplesmente tábua rasa do compromisso assumindo pelo seu antecessor.
Segundo me disseram a Federação pretendia uma parte das verbas relativas às inscrições na prova, dizem um terço. Será verdade? Se for é ridículo no mínimo!
Sim é um disparate, como muitos que têm sido feitos no xadrez nacional. A Federação queria parte das inscrições e o SOM ficaria com os prejuízos aumentados devido a isso. O Memorial dá sempre prejuízo, sem as inscrições ele ainda seria maior.
Ainda por cima a Federação cheia de falta de tacto foi marcar o Nacional para a mesma data que o Memorial que já acontece há 23 anos na Marinha Grande e sempre no último sábado de Janeiro. Por fim num recuo de última hora passaram para Março perante uma evidente derrota que se avizinhava.
Em qualquer dos casos contribuíram provavelmente para o fim de uma prova ímpar  Que ganhou o Xadrez de Portugal com tanto disparate?
Quero também dizer que embora já não faça parte do xadrez do SOM, apoio a sua tomada de posição. Não tinham infelizmente outra atitude a tomar, seguir em frente mesmo sendo um fracasso e com um grande buraco financeiro.
Tenham juízo meus senhores! Se não sabem, peçam conselhos.
José Bray

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Os Bray saíram do SOM! Porquê?

O mundo do xadrez de Portugal e não só, interrogou-se admirado por os Bray terem saído do SOM - Sport Operário Marinhense.
Após dezenas de anos de dedicação, como dirigentes, jogadores e professores e a pedido de inúmeros amigos e talvez alguns inimigos assim como dos xadrezistas em geral, sinto-me na obrigação de fornecer alguns esclarecimentos.
Sou sócio do Operário desde 1980 mais ano menos ano, actualmente além de mim são sócios também Ana Bray, Isa Bray e Daniel Bray.Comecei a colaborar com o xadrez do SOM a meio dos anos oitenta, sim por volta de 1985, já lá vão vinte oito anos. Isto no tempo do doutor José Henriques Vareda homem ilustre da Marinha Grande e não só. Nessa época tinha com amigos fundado o Núcleo de Xadrez da Marinha Grande, o nosso doutor tinha grande admiração pela forma com eu estava no mundo, ou seja havia grande empatia entre nós. A seu pedido organizei no seu Operário muitos eventos de qualidade tanto em xadrez como em damas, por sua vez José Vareda cedeu ao Núcleo de Xadrez uma sede a custo zero de aluguer.
Como tudo na vida, nasce, cresce e morre, o nosso doutor deixou-nos de surpresa em 1989, deixando órfão o grande amor da sua vida o seu Operário. Nesse fatídico fim-de-semana os xadrezistas do Núcleo jogando nas provas do INATEL em representação do SOM coroaram-se campeões nacionais de equipas. Foi como um requiem ao meu amigo! Fizeram parte dessa equipa, José Bray, Carlos Quaresma, Vítor Cordeiro, Carlos Marques e Mário Carvalho.
Após a falecimento do doutor  os ilustres do Operário falaram assim comigo:
--José Bray, era um sonho do José Vareda que o xadrez viesse para a sede do SOM e aqui se fizesse uma equipa federada, por isso pedimos a vossa boa vontade nesse sentido.
Falei com o núcleo duro do xadrez da cidade vidreira e decidimos fazer a vontade aos directores do SOM que nessa altura tinham realmente mérito e não estavam no clube por penacho ou promoção.
Pegamos nos tarecos do xadrez que já eram muitos, todos propriedade do NXMG e lá fomos para a sala quatro do SOM. Eram muitos relógios, muitos tabuleiros e peças, muitas mesas, cadeiras, livros e revistas não muitos. Fundou-se a equipa do SOM e mais tarde houve fusão com o NXMG.
Seguiram-se anos de glória, com a ajuda das competentes direcções, das eficientes funcionárias da secretaria do clube e com o apoio da autarquia Marinhense que tinha visão abrangente e percebia as vantagens da prática do xadrez no concelho.
Durante muitos anos organizámos o torneio 25 de Abril da Marinha Grande, prova ímpar em homenagem à revolução e seus ideais.
Criei o Memorial Dr. José Vareda em memória do meu amigo. Esta prova não existia em Portugal, por isso passou a ser designada também como campeonato nacional de semi-rápidas de equipas. Foi um evento único como todos sabem, um sucesso único no xadrez nacional. Este ano foi a vigésima quarta edição, infelizmente um fiasco.
A estória do Memorial será contada em texto que escreverei neste blogue, mais dia, menos dia.
Voltemos ao tema em causa. Durante vinte anos organizámos torneios fabulosos, além do 25 de Abril e Memorial  José Vareda, campeonatos nacionais e distritais, torneios FIDE, aulas de xadrez a centenas de jovens. As equipas do SOM e seus xadrezistas brilharam ano após ano, conquistando  títulos distritais e nacionais. Muitos dos seus jovens alcançaram o pódio e mesmo títulos de campeões nacionais.
Tudo o que tenho escrito é do conhecimento do universo xadrezista do país. Pela Marinha Grande nestes trinta anos de xadrez passaram milhares de jogadores nacionais e muitos estrangeiros. A cidade vidreira conhecia pelo vidro, ideais políticos de esquerda, passou também a ter reputação pelo xadrez.
A Marinha Grande chegou a ser conhecida pela Catedral do Xadrez de Portugal.
Em dada altura do percurso entrou a minha filha Isa Bray na modalidade chegando a  ser das mais fortes jogadoras do país. Em 2003 começou a jogar o Daniel Bray meu neto, que até hoje somou êxitos sobre êxitos,  foi campeão distrital absoluto com 15 anos em 2009, repetiu o titulo em 2011 e 2012, sendo por isso o campeão em titulo. De mim não falarei muito mas todos sabem que sou o campeão nacional de veteranos de 2012.
Contei isto tudo para entenderem o papel dos Bray no xadrez da Marinha Grande e do SOM.
Através destes 30 anos dei o meu melhor, como jogador, como dirigente e como professor. sacrifiquei muito do meu tempo e gastei do meu bolso muito dinheiro, muito mesmo!
A partir de certa altura entraram no SOM direcções que já não tinham a classe das anteriores. Os antigos directores devido às mais diversas razões foram-se afastando do clube, entrando outros que não tinham a mesma maneira de ver a carolice e o voluntariado. Para os novos tudo estava mal! Todos trabalhavam mal! Pobre ousadia da ignorância  Nessa altura também me afastei das responsabilidades ficando só a funcionar como jogador. Contudo quando havia qualquer problema lá vinham incomodar o Bray que não tinha a ver com as questões em causa. Ou seja, não havendo solução lá ia o Bray pegar na viatura e solucionar o problema muitas vezes com elevados custos, e ainda por cima ter de jogar mesmo não querendo.
Finalmente a razão porque saí:
No principio da época quis saber qual o projecto para a temporada que ia começar, para tal solicitei essa informação à Direcção e a um individuo que apareceu dizendo que era o novo seccionista. Queria tudo escrito preto no branco, tim por tim, não queria comprar nabos em saco. Queria um documento assinado  pela Direcção do SOM.
Insisti várias vezes e sabem o que aconteceu? A Direcção em birra comigo nunca respondeu  embora anteriormente me aborrecesse por coisas sem qualquer importância e que tinham sido feitas por outros.
Por sua vez o seccionista que ninguém nos informou que o era, aquando dos seus contactos connosco foi  dizendo umas coisas mas, no fundo, nada dizia..
Esperei até 4 de Dezembro, dois meses após começar a época. O Daniel Bray não pôde por isso ir a uma prova oficial. Ainda por cima me chegaram algumas comentários desagradáveis. Então que fiz mais os outros Bray? Partimos, não tínhamos outra solução!... A Direcção do SOM na sua prepotência nada fez para segurar os Bray.
Tive o cuidado de não influenciar ninguém com a nossa saída, porque quero o melhor para o SOM.
Quero esclarecer que tenho uma pasta com todos os documentos inerentes a este processo, que me levaram a escrever no meu blogue.
José Bray






quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Enigma do casal apaixonado



Era um casal muito apaixonado, seu romance de amor vinha dos confins do tempo. Após muito namoro decidiram juntar os destinos, que há muito estava definido. Casaram porque tinham medo que a vida passasse por eles e no fim dos tempos não deixassem descendência. Tomaram a importante decisão do matrimónio numa madrugado mesmo ao nascer do dia. Padrinhos logo tiveram, o Sol e a Lua, nem podiam ser outros, conhecidos dos noivos de longa data. Ao cair da tarde e ao chegar da noite de certo dia, aconteceu o enlaço para a eternidade. Mas já vos digo que não foi uma união fácil, ao fim e ao cabo como qualquer casal que se preze. Os padrinhos bem os avisaram: vejam lá no que se metem? Tinha razão, o casal era muito desfasado, ela doce e calma, ele brilhante e turbulento. Mas meu Deus quando os dois se encontravam era momentos de loucura. Faziam todos os dias amor, uma vez no nascer do dia, outra no nascer da noite. Depois era como se não conhecessem. Conheço este estranho casal, todos os dias o vejo. O amor continua, mas sempre com encontros e desencontros. Um dia apresento  a todos vós este admirável e complexo par.
Sabem a quem me refiro? É um enigma mesmo! É o Dia e a Noite, estão casados desde sempre, em cada dia têm dois fugazes encontros sublimes e eternos!
Bray, 18/5/2012

Irmão abandonado




O polegar estava triste, uma tristeza sem fim. Uma mágoa imensa, melancolia e saudade da sua época áurea. Deixado ao abandono, ele sentia na alma e no corpo o desprezo dos irmãos. Até o mais pequeno que nada fazia, nem antes nem agora, ria-se do irmão polegar, acompanhando os outros três irmãos na árdua tarefa de debitar letras. O polegar sonhava com o tempo em que ele sozinho fazia metade da tarefa. O polegar sentia revolta e ódio pelo avanço da modernidade que anulara os seus préstimos. O polegar sentia-se inútil. Não podia abandonar os irmãos mas sentia raiva por eles serem felizes, enquanto ele fora posto de fora como parasita do talento dos outros. Mas um dia houve glória. O polegar, a caneta e o papel, uniram-se fazendo um pacto. Avançaram para o manuscrito em força, com desejo e talento. Assim a obra nasceu! Nesse dia ao deitar o polegar estava feliz!
Bray, 5/6/2012 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Improviso da Noite de Natal 2012

Hoje apetece-me escrever de improviso, ainda não sei do que vou falar ou escrever neste caso, mas alguma coisa vai sair. Começo já por dizer que não gosto do Natal, a hipocrisia é muita e todos, ou quase todos embarcamos na farsa. Digam-me lá! Alguém pode ter a consciência tranquila ao ver a mesa recheada de tudo, para depois deitar para o lixo o que foi desperdiçado  sem contudo haver a percepção que dois terços da população do mundo passa fome, e uma grande parte dessa gente morre por falta de alimento devido a isso?  É justo que crianças tenham brinquedos às pazadas e depois a maior parte nem a prenda mais insignificante tenha? Afinal onde está o menino Jesus, ou outro Jesus qualquer para permitir tanta desigualdade? O Pai Natal sai da Lapónia com brinquedos para as crianças do mundo, mas afinal só alguns têm o brinquedo pedido.
Já sei, vão-me dizer! Mas isso é uma fantasia para alimentar o imaginário dos meninos. Todos sabemos que o Pai Natal não existe e o menino Jesus tem mais em que pensar. Então pergunto eu, é com essas fantasias que vão enraizar nas crianças valores? Onde esta a fraternidade? Onde está a igualdade? Onde está a justiça? Onde está o direito a SER! Onde está a Carta das Nações dos direitos das crianças?
Na verdade, somos todos controlados como  carneiros, para este jogo infernal do "mundo ao contrário" que os poderosos foram criando a partir da revolução industrial. Mas as crianças senhor (Deus) porque não são protegidas?
Hoje é noite de Natal, nem sei porquê? Jesus nem nasceu nesta data como todos sabem, era preciso ocupar o espaço devido ao marketing dos interesses. Hoje nesta noite de Natal tenho recordado os amigos, em especial os que partiram. A amizade quando verdadeira é algo sublime, não falo de amor homem mulher, falo da amizade entre seres humanos. No xadrez tenho tido através da vida muitas dezenas de amigos, talvez mesmo centenas. Como é característica da modalidade, passámos muitas horas frente a esses amigos no tabuleiro do xadrez e também no tabuleiro da vida. Já partiram muitos, quase todos deixaram gratas lembranças que vão perdurar em quanto formos habitante desta bola de todos nós, mas que alguns pensam que é só deles. Dos mais representativos o primeiro a partir foi o Victor Cardoso o jogador número um de Monte Real, depois seguiram-se o Mário Silla o meu querido amigo de Angola, oficialmente o primeiro campeão daquele país após independência, seguiu-se o Valter Tarira filósofo do xadrez e da vida, uma mistura de tudo que fosse lusitanidade. António Mamede Diogo partiu em Setembro de 2009, após luta heróica contra a doença que o acabou por vencer, entretanto partiu o senhor Loureiro grande desportista que também travou luta tenaz com o terrível mal. Em 2010 partiu o nosso inigualável Carlos Quaresma companheiro de trinta anos de xadrez e de amizade. O último amigo a partir foi o Álvaro Gonçalves o campeão de Figueiró dos Vinhos, os seus amigos vão-lhe perpetuar uma homenagem ao irem fundar o Museu do Xadrez na sua terra e com o seu nome. Muitos outros partiram, mas estes vieram hoje falar comigo e dei-lhes toda a atenção. Vi nítido os seus rostos, ouvi as suas vozes, até o cheiro deles eu senti!...
Acabei por beber por todos eles! Discutindo os pontos de vista sobre o xadrez, lá partiram com saudade  do amigo que com eles tinha confraternizado na noite de Natal.
Como vêm, alguma coisa saiu, mesmo de improviso!
Bray, 24/12/2012

domingo, 23 de dezembro de 2012

O Rabisco - (para sorrir)

Era a época do rabisco da azeitona. Na minha aldeia, as pessoas válidas sem trabalho, iam quase todas para essa tarefa. Idosos, desempregados e sobretudo crianças. Cada um com o seu cesto, lá iam os miúdos a partir dos cinco e seis anos, rabiscar. Estava nessa altura em casa do Zé Mosca, irmão da minha avó materna. Período marcante da minha vida de criança. As memórias dessa época são já em razoável quantidade. Recordo-me dessa tarefa feita todos os anos. Também havia o rabisco da uva, mas a sua importância era insignificante e na verdade confundia-se com as vindimas. Essas sim cheias de carisma. Mas voltemos às azeitonas. O rabisco era importante para a economia das famílias pobres. Após o rabisco as azeitonas eram levadas ao lagar, depois recebíamos azeite em contrapartida ao produto entregue. Um dia com o cesto na mão, desci a ladeira da igreja até à estrada principal. Depois segui no sentido da Abrunheira até à ponte romana. Os quatro plátanos, dois de cada lado da estrada, lá estavam imponentes e lindos como sempre. Virei à direita e acompanhei o rio da Várzea durante duas centenas de metros, no sentido da nascente. Depois atravessei as vinhas até ao olival. Caminhei até lá, brincando com tudo que aparecia. O dia estava lindo, frio, mas o sol a partir de certa hora aquecia tudo um pouco, sabia mesmo bem. Curiosamente ia sozinho, não devia ter mais de sete anos feitos há pouco. Mas na aldeia era assim, os garotos começavam muito cedo naquelas lidas. O primo António Luís, costumava andar comigo, mas naquele dia não ia, devia ter outra tarefa. Junto às oliveiras comecei a minha missão. As azeitonas já escasseavam, o trabalho ia durar muito. Enfim lá fui fazendo o que podia, de vez em quando olhava para a Ermegeira, lá estava a casa do tio Zé, sede da música, a capela, o monte com o moinho, através do arvoredo via-se o telhado da quinta. A minha aldeia era uma terra maravilhosa, própria de um conto de fadas. De repente parei. Na base de uma imponente oliveira, vi um enorme avental preto, estava gordo com o seu conteúdo. Aproximei-me e espreitei, gloriosa visão, estava cheio de azeitonas. Olhei em volta, não vi ninguém, pumba, despejei até encher o meu cesto. A seguir desandei rápido, não chegando a ver a dona do avental. Com passo apressado avancei rápido para casa do tio Zé. Sem parar, mudando o cesto de mão,por diversas vezes devido ao peso, lá cheguei ao pobre casebre, em menos de dez minutos. A minha tia ao ver-me chegar ficou admirada, por ter conseguido tanto rabisco em tão pouco tempo. Sorriu, fez qualquer breve elogio e lá continuou no seu lidar. Nesse dia subi uns pontos na sua consideração. À tarde fui brincar com a rapaziada para o centro da aldeia, defronte da casa do tio Mário. Quando não é o meu espanto, uma velha bem conhecida estava a falar com outras mulheres. Toda enervada, contando que lhe tinham roubado as azeitonas. Fazia insinuações e ameaças, rogando pragas a torto e a direito e eu a ver e a ouvir calado, e amedrontado, mas nunca me desmanchei. A velha era só, vejam lá, a bruxa oficial da Ermegeira. Fraca bruxa porque não adivinhou quem a tinha roubado. José d' Barcellos, 25 de Janeiro de 1999