quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Irmão abandonado




O polegar estava triste, uma tristeza sem fim. Uma mágoa imensa, melancolia e saudade da sua época áurea. Deixado ao abandono, ele sentia na alma e no corpo o desprezo dos irmãos. Até o mais pequeno que nada fazia, nem antes nem agora, ria-se do irmão polegar, acompanhando os outros três irmãos na árdua tarefa de debitar letras. O polegar sonhava com o tempo em que ele sozinho fazia metade da tarefa. O polegar sentia revolta e ódio pelo avanço da modernidade que anulara os seus préstimos. O polegar sentia-se inútil. Não podia abandonar os irmãos mas sentia raiva por eles serem felizes, enquanto ele fora posto de fora como parasita do talento dos outros. Mas um dia houve glória. O polegar, a caneta e o papel, uniram-se fazendo um pacto. Avançaram para o manuscrito em força, com desejo e talento. Assim a obra nasceu! Nesse dia ao deitar o polegar estava feliz!
Bray, 5/6/2012 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Improviso da Noite de Natal 2012

Hoje apetece-me escrever de improviso, ainda não sei do que vou falar ou escrever neste caso, mas alguma coisa vai sair. Começo já por dizer que não gosto do Natal, a hipocrisia é muita e todos, ou quase todos embarcamos na farsa. Digam-me lá! Alguém pode ter a consciência tranquila ao ver a mesa recheada de tudo, para depois deitar para o lixo o que foi desperdiçado  sem contudo haver a percepção que dois terços da população do mundo passa fome, e uma grande parte dessa gente morre por falta de alimento devido a isso?  É justo que crianças tenham brinquedos às pazadas e depois a maior parte nem a prenda mais insignificante tenha? Afinal onde está o menino Jesus, ou outro Jesus qualquer para permitir tanta desigualdade? O Pai Natal sai da Lapónia com brinquedos para as crianças do mundo, mas afinal só alguns têm o brinquedo pedido.
Já sei, vão-me dizer! Mas isso é uma fantasia para alimentar o imaginário dos meninos. Todos sabemos que o Pai Natal não existe e o menino Jesus tem mais em que pensar. Então pergunto eu, é com essas fantasias que vão enraizar nas crianças valores? Onde esta a fraternidade? Onde está a igualdade? Onde está a justiça? Onde está o direito a SER! Onde está a Carta das Nações dos direitos das crianças?
Na verdade, somos todos controlados como  carneiros, para este jogo infernal do "mundo ao contrário" que os poderosos foram criando a partir da revolução industrial. Mas as crianças senhor (Deus) porque não são protegidas?
Hoje é noite de Natal, nem sei porquê? Jesus nem nasceu nesta data como todos sabem, era preciso ocupar o espaço devido ao marketing dos interesses. Hoje nesta noite de Natal tenho recordado os amigos, em especial os que partiram. A amizade quando verdadeira é algo sublime, não falo de amor homem mulher, falo da amizade entre seres humanos. No xadrez tenho tido através da vida muitas dezenas de amigos, talvez mesmo centenas. Como é característica da modalidade, passámos muitas horas frente a esses amigos no tabuleiro do xadrez e também no tabuleiro da vida. Já partiram muitos, quase todos deixaram gratas lembranças que vão perdurar em quanto formos habitante desta bola de todos nós, mas que alguns pensam que é só deles. Dos mais representativos o primeiro a partir foi o Victor Cardoso o jogador número um de Monte Real, depois seguiram-se o Mário Silla o meu querido amigo de Angola, oficialmente o primeiro campeão daquele país após independência, seguiu-se o Valter Tarira filósofo do xadrez e da vida, uma mistura de tudo que fosse lusitanidade. António Mamede Diogo partiu em Setembro de 2009, após luta heróica contra a doença que o acabou por vencer, entretanto partiu o senhor Loureiro grande desportista que também travou luta tenaz com o terrível mal. Em 2010 partiu o nosso inigualável Carlos Quaresma companheiro de trinta anos de xadrez e de amizade. O último amigo a partir foi o Álvaro Gonçalves o campeão de Figueiró dos Vinhos, os seus amigos vão-lhe perpetuar uma homenagem ao irem fundar o Museu do Xadrez na sua terra e com o seu nome. Muitos outros partiram, mas estes vieram hoje falar comigo e dei-lhes toda a atenção. Vi nítido os seus rostos, ouvi as suas vozes, até o cheiro deles eu senti!...
Acabei por beber por todos eles! Discutindo os pontos de vista sobre o xadrez, lá partiram com saudade  do amigo que com eles tinha confraternizado na noite de Natal.
Como vêm, alguma coisa saiu, mesmo de improviso!
Bray, 24/12/2012

domingo, 23 de dezembro de 2012

O Rabisco - (para sorrir)

Era a época do rabisco da azeitona. Na minha aldeia, as pessoas válidas sem trabalho, iam quase todas para essa tarefa. Idosos, desempregados e sobretudo crianças. Cada um com o seu cesto, lá iam os miúdos a partir dos cinco e seis anos, rabiscar. Estava nessa altura em casa do Zé Mosca, irmão da minha avó materna. Período marcante da minha vida de criança. As memórias dessa época são já em razoável quantidade. Recordo-me dessa tarefa feita todos os anos. Também havia o rabisco da uva, mas a sua importância era insignificante e na verdade confundia-se com as vindimas. Essas sim cheias de carisma. Mas voltemos às azeitonas. O rabisco era importante para a economia das famílias pobres. Após o rabisco as azeitonas eram levadas ao lagar, depois recebíamos azeite em contrapartida ao produto entregue. Um dia com o cesto na mão, desci a ladeira da igreja até à estrada principal. Depois segui no sentido da Abrunheira até à ponte romana. Os quatro plátanos, dois de cada lado da estrada, lá estavam imponentes e lindos como sempre. Virei à direita e acompanhei o rio da Várzea durante duas centenas de metros, no sentido da nascente. Depois atravessei as vinhas até ao olival. Caminhei até lá, brincando com tudo que aparecia. O dia estava lindo, frio, mas o sol a partir de certa hora aquecia tudo um pouco, sabia mesmo bem. Curiosamente ia sozinho, não devia ter mais de sete anos feitos há pouco. Mas na aldeia era assim, os garotos começavam muito cedo naquelas lidas. O primo António Luís, costumava andar comigo, mas naquele dia não ia, devia ter outra tarefa. Junto às oliveiras comecei a minha missão. As azeitonas já escasseavam, o trabalho ia durar muito. Enfim lá fui fazendo o que podia, de vez em quando olhava para a Ermegeira, lá estava a casa do tio Zé, sede da música, a capela, o monte com o moinho, através do arvoredo via-se o telhado da quinta. A minha aldeia era uma terra maravilhosa, própria de um conto de fadas. De repente parei. Na base de uma imponente oliveira, vi um enorme avental preto, estava gordo com o seu conteúdo. Aproximei-me e espreitei, gloriosa visão, estava cheio de azeitonas. Olhei em volta, não vi ninguém, pumba, despejei até encher o meu cesto. A seguir desandei rápido, não chegando a ver a dona do avental. Com passo apressado avancei rápido para casa do tio Zé. Sem parar, mudando o cesto de mão,por diversas vezes devido ao peso, lá cheguei ao pobre casebre, em menos de dez minutos. A minha tia ao ver-me chegar ficou admirada, por ter conseguido tanto rabisco em tão pouco tempo. Sorriu, fez qualquer breve elogio e lá continuou no seu lidar. Nesse dia subi uns pontos na sua consideração. À tarde fui brincar com a rapaziada para o centro da aldeia, defronte da casa do tio Mário. Quando não é o meu espanto, uma velha bem conhecida estava a falar com outras mulheres. Toda enervada, contando que lhe tinham roubado as azeitonas. Fazia insinuações e ameaças, rogando pragas a torto e a direito e eu a ver e a ouvir calado, e amedrontado, mas nunca me desmanchei. A velha era só, vejam lá, a bruxa oficial da Ermegeira. Fraca bruxa porque não adivinhou quem a tinha roubado. José d' Barcellos, 25 de Janeiro de 1999

Natal - O milagre do menino Jesus!




Noite de Natal – O Milagre!
As fábricas da Lapónia que fabricam brinquedos trabalharam em três turnos ou seja 24 horas sobre 24 horas, ao longo destes doze meses. Era preciso fabricar todo o tipo de brinquedo para oferecer como prenda de Natal, aos meninos e as meninas de todo o mundo. Mas este ano havia uma novidade, decretada pelo pai Natal principal, todos a partir dos sessenta, homens e mulheres (sim Mães Natal) eram convocados para a tarefa do Natal. Sim porque da Lapónia não pode vir só um trenó, era demasiado trabalho para um velhote e suas renas. Podemos mesmo dizer que os cinquenta mil idosos daquela região fazem a entrega das prendas e mesmo assim ficam de fora a maior parte dos meninos e meninas, curiosamente os mais pobres. Porque será? Porque razão tanta azáfama na Lapónia este ano? Vou contar porque aconteceu essa mudança!
Um dia o menino Jesus, agora já adolescente ouviu uma criança a cantarolar os seguintes versos:

Natal
Vem aí o Natal
Tempo de fartura
Mas muito animal
Racional ou não
Tem falta de ternura
E falta de pão.
É só simpatia
É só bondade
É só hipocrisia
É só falsidade.
Cuidado com as feras
Elas tudo comem
Elas são beras
Elas são o homem!
O ser humano
É o pior bicho
Após o fim do ano
A comida vai para o lixo.
Quando o pobre se unir
E exigir o que é seu
Quem se vai rir?
Vão ser eles vou ser eu!
Quem muito tem
A alguém o roubou
Porque nunca alguém
Tanto ouro amealhou.
Haverá um dia
Que o vosso Deus
Com muita alegria
Se juntará aos ateus.
Deitam comida fora
E também muita roupa
E sem mais demora
Tudo gasta nada poupa.
Vem aí o Natal
Com ele muito frio
Os pobres passam mal
Mas não podem dar pio.
Jesus da Nazaré
Com sacrifício e humilhação
Deu exemplos ao Zé
Mas este quer ostentação.
Vem aí o Natal
E a tosca humanidade
Que faz muito mal
É toda caridade
Falsa humildade
Para aliviar consciências
Falsa castidade
Das super potências
Jesus dos despojados
Fica envergonhado
Porque, mal amados
Estão desalojados
E ele já cansado.
Vem aí o Natal
Coitados dos sem abrigo
Têm fome, frio e passam mal
Excluídos vivem no perigo
O Natal é tempo de dor
Para quem tem coração
É tudo um horror
Que nos leva à emoção.
Que esperanças, que alegrias,
Tem o pobre?
Tem sonhos!
Tem fantasias!
Ser nobre
Ter filhos risonhos.

O menino Jesus após dois mil anos de história aprendeu muita coisa, ao ouvir este poema ficou muito abalado e decidiu abordar o seu pai espiritual o Deus. Este na sua natural prepotência disse ao filho para não se meter onde não era chamado. – Mete-te nas coisas das crianças e deixa os assuntos sérios para o pai, as coisas são mais complexas do que tu pensas. E assim despachou o adolescente que não ficou convencido.
Mais tarde Jesus ouviu outro menino, por sinal uma menina troteando o seguinte poema:

Natal traidor
Está aí o Natal!
Menino pobre olha,
Procura ansioso lá longe
Procura olhando o céu
O carro do pai Noel.
Sonha no real, sonha acordado.
É noite escura, noite límpida.
Menino pobre tem frio,
Menino pobre tem fome,
Fome de comida e amor,
Frio no corpo e na alma.
Olha, lá vem o pai Natal,
Olha, lá vem o carrossel.
Está negra a noite!
 Brilham as estrelas
No coração do menino.
Vem aí o pai Noel,
Lá vem o seu presente!
Mas… mas… desilusão!
Com mil luzes
O trenó passa… sem parar,
Vai para o palacete.
No quarto do menino rico
Mais uma prenda vai entregar
Às mil existentes!
Menino pobre chora!
Pai Natal seu sacana!
Traíste o menino pobre
Traíste o menino Jesus.

O menino Jesus que já não era menino há muitos séculos mas sim adolescente, ficou outra vez angustiado e decidiu desta vez tomar uma atitude, seu pai tinha dito para ele se meter em assuntos de criança, então ele ia mesmo meter-se em assuntos dos mais novos. Se assim pensou mais depressa o executou. Pediu ao seu anjo escudeiro para chamar o São Nicolau padroeiro do Natal. Este, gordo, afogueado e cambaleando no seu fato verde apareceu pouco depois. – Que deseja menino Jesus? O menino que já era adolescente, pensou um pouco e depois determinou. – São Nicolau, quero que todos os meninos pobres do mundo tenham este ano o seu brinquedo! Parou para apreciar a reacção do velhote, tomou ar, depois continuou. -- De futuro será sempre como desta vez. O Santo ainda argumentou. -- Mas assim é capaz de não chegar as prendas para os meninos ricos! -- Não faz mal, a esses mandas um postal a explicar a razão, vais ver que eles aceitam e ainda ficam felizes!
Foi assim que aconteceu o milagre! Jesus estava feliz!
David – 24/12/2010

sábado, 22 de dezembro de 2012

Por favor critiquem

Meus amigos, como no xadrez vão aparecer de vez enquanto no meu blogue duas versões do mesmo tema, peço aos meus amigos que façam uma análise e digam qual preferem! Nos textos, muitas vezes basta um sinonimo diferente para alterar o sentimento do mesmo! Não o sentido claro está! Podemos dizer o mesmo por palavras diferente. Por exemplo, não é o mesmo dizer rapariga, miúda ou menina. Há palavras que são autentico arame farpado, por exemplo gaja, ou doces como por exemplo amor! Ajudem-me a melhorar o que escrevo! Façam todas as criticas que desejarem! Muito obrigado a todos! Bom Natal 2012 Bray

Milagre de Natal! (versão nova)

O jardim estava quase vazio, uma velhinha sentada no banco, mais central, junto ao denso arvoredo e cheia de frio recordava o passado longínquo em que,sentada naquele mesmo banco via as crianças, filhos de gente abastada brincar com lindos brinquedos e vestidas a rigor com roupas bonitas e quentes. Ela, ainda menina, tiritava de frio no seu roto vestido de chita e os seus pequeninos pés enregelados não encontravam qualquer conforto nos chinelos já coçados pelo tempo. Hoje, depois de tantos anos passados, via que à sua volta brincavam os netos das crianças de outrora, e que era mantido o mesmo rigor das boas roupas e dos mágicos brinquedos. Pouco tempo lhe restava de vida, ela sabia isso. Continuava pobre, como pobre sempre fora desde menina. Agora, triste e saudosa recordava o filho que partira há muito para o fim do mundo. Poucas notícias recebera e dinheiro ainda menos. O dinheiro tinha dado jeito, mas as notícias eram bem mais importantes. Coitada! Não sabia ler nem escrever, precisava sempre de alguém para a ajudar, mas as pessoas e olhando o seu estado de pobreza pouco lhe ligavam, e ela tinha vergonha de pedir auxilio. Um dia teve a notícia que o filho morrera. Reviu todo o seu passado e recordou o amor da sua vida, falecido prematuramente devido às vicissitudes da vida. Então a velhinha chorou, chorou, chorou…e adormeceu enregelada no banco do jardim. Sua alma preparava-se para partir… foi então que suaves toques na sua enrugada mão impediu o abalar da alma. Recobrou os sentidos, abrindo aos poucos os seus olhos já cansados. À sua frente uma linda menina igual à outra de há setenta anos, sorrindo, estendia-lhe uma rosa branca. --Sou eu avó! Vim de muito longe para a beijar. A menina abraçou e beijou a velhinha que feliz partiu para a eternidade. Yarb, 6/12/2012

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Os meus cães - 2

Um filósofo meu amigo disse um dia, os seres humanos dividem-se em duas classes, os que gostam de cães e os que não gostam de cães. Quis a natureza que eu pertencesse à primeira categoria. Gosto de cães, toda a minha família gosta também e os meus amigos quase sem excepção não fogem a esta regra. Quando era menino pobre e triste o meu maior amigo foi o Tejo, um animal grande e pachorrento, castanho para o amarelo com convém a um bom rafeiro, também conhecido nas cidades por vira latas. Passei muitas manhãs e iguais tardes a brincar com ele, sempre paciente para as minhas pequenas maldades. Um dia foi ele que me encontrou numa noite de inverno em que estava desaparecido. Antes de fazer a tropa levei para casa da mãe Alice um aristocrata que se havia de tornar num pequeno tirano, quando regressei de África mal cheguei a quinhentos metros de casa o cão começou aos saltos porque o seu olfacto me detectou. Em Luanda tínhamos um simpático rafeiro chamado Shane, que nos foi roubado, a minha companheira procurou, procurou e descobriu o animal preso e sem condições num quintal de labregos, veio para casa doente e morreu jovem, ficou a saudade. Em mil novecentos e oitenta e três entrou na nossa vida o mais belo cão a que pusemos o nome de Yarb, este era nobre em todos os sentidos, nervoso, leal, punha os miúdos em respeito mas nunca fez qualquer mal aos mesmos. Gostava imenso de andar de carro, quando passeava com ele era fácil meter conversa com toda a gente! Catorze anos depois, o nosso amigo já velho e doente obrigou-nos a ajudá-lo a partir, foi muito difícil, está a descansar no Pinhal do Rei em local que só eu sei! Em mil novecentos e noventa e oito chegou a Morgana, uma boxer castanha, feitio calmo, grande companheira, nem se dava por ela, devido a problemas de saúde gastou-se uma fortuna com a Morgana, mas nunca nos arrependemos de o fazer. Minha companheira de passeios no pinhal, passava os dias sentada onde eu estivesse sempre olhando com uns lindos olhos castanhos. Hoje, vinte e sete de Dezembro de dois mil e dez, às 15h e 15m o coração da Morgana deixou de bater, partira para o céu dos cães, dorme no nosso quintal junto ao damasqueiro, sobre a campa plantei quatro pés de roseira branca em homenagem à pureza do seu carácter. Adeus minha amiga! Bray – 27/12/2010