Meus amigos, como no xadrez vão aparecer de vez enquanto no meu blogue duas versões do mesmo tema, peço aos meus amigos que façam uma análise e digam qual preferem!
Nos textos, muitas vezes basta um sinonimo diferente para alterar o sentimento do mesmo! Não o sentido claro está! Podemos dizer o mesmo por palavras diferente. Por exemplo, não é o mesmo dizer rapariga, miúda ou menina. Há palavras que são autentico arame farpado, por exemplo gaja, ou doces como por exemplo amor!
Ajudem-me a melhorar o que escrevo! Façam todas as criticas que desejarem!
Muito obrigado a todos!
Bom Natal 2012
Bray
sábado, 22 de dezembro de 2012
Milagre de Natal! (versão nova)
O jardim estava quase vazio, uma velhinha sentada no banco, mais central, junto ao denso arvoredo e cheia de frio recordava o passado longínquo em que,sentada naquele mesmo banco via as crianças, filhos de gente abastada brincar com lindos brinquedos e vestidas a rigor com roupas bonitas e quentes. Ela, ainda menina, tiritava de frio no seu roto vestido de chita e os seus pequeninos pés enregelados não encontravam qualquer conforto nos chinelos já coçados pelo tempo.
Hoje, depois de tantos anos passados, via que à sua volta brincavam os netos das crianças de outrora, e que era mantido o mesmo rigor das boas roupas e dos mágicos brinquedos.
Pouco tempo lhe restava de vida, ela sabia isso. Continuava pobre, como pobre sempre fora desde menina. Agora, triste e saudosa recordava o filho que partira há muito para o fim do mundo. Poucas notícias recebera e dinheiro ainda menos.
O dinheiro tinha dado jeito, mas as notícias eram bem mais importantes. Coitada! Não sabia ler nem escrever, precisava sempre de alguém para a ajudar, mas as pessoas e olhando o seu estado de pobreza pouco lhe ligavam, e ela tinha vergonha de pedir auxilio. Um dia teve a notícia que o filho morrera.
Reviu todo o seu passado e recordou o amor da sua vida, falecido prematuramente devido às vicissitudes da vida.
Então a velhinha chorou, chorou, chorou…e adormeceu enregelada no banco do jardim. Sua alma preparava-se para partir… foi então que suaves toques na sua enrugada mão impediu o abalar da alma. Recobrou os sentidos, abrindo aos poucos os seus olhos já cansados.
À sua frente uma linda menina igual à outra de há setenta anos, sorrindo, estendia-lhe uma rosa branca.
--Sou eu avó! Vim de muito longe para a beijar.
A menina abraçou e beijou a velhinha que feliz partiu para a eternidade.
Yarb, 6/12/2012
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Os meus cães - 2
Um filósofo meu amigo disse um dia, os seres humanos dividem-se em duas classes, os que gostam de cães e os que não gostam de cães. Quis a natureza que eu pertencesse à primeira categoria. Gosto de cães, toda a minha família gosta também e os meus amigos quase sem excepção não fogem a esta regra. Quando era menino pobre e triste o meu maior amigo foi o Tejo, um animal grande e pachorrento, castanho para o amarelo com convém a um bom rafeiro, também conhecido nas cidades por vira latas. Passei muitas manhãs e iguais tardes a brincar com ele, sempre paciente para as minhas pequenas maldades. Um dia foi ele que me encontrou numa noite de inverno em que estava desaparecido. Antes de fazer a tropa levei para casa da mãe Alice um aristocrata que se havia de tornar num pequeno tirano, quando regressei de África mal cheguei a quinhentos metros de casa o cão começou aos saltos porque o seu olfacto me detectou. Em Luanda tínhamos um simpático rafeiro chamado Shane, que nos foi roubado, a minha companheira procurou, procurou e descobriu o animal preso e sem condições num quintal de labregos, veio para casa doente e morreu jovem, ficou a saudade. Em mil novecentos e oitenta e três entrou na nossa vida o mais belo cão a que pusemos o nome de Yarb, este era nobre em todos os sentidos, nervoso, leal, punha os miúdos em respeito mas nunca fez qualquer mal aos mesmos. Gostava imenso de andar de carro, quando passeava com ele era fácil meter conversa com toda a gente! Catorze anos depois, o nosso amigo já velho e doente obrigou-nos a ajudá-lo a partir, foi muito difícil, está a descansar no Pinhal do Rei em local que só eu sei! Em mil novecentos e noventa e oito chegou a Morgana, uma boxer castanha, feitio calmo, grande companheira, nem se dava por ela, devido a problemas de saúde gastou-se uma fortuna com a Morgana, mas nunca nos arrependemos de o fazer. Minha companheira de passeios no pinhal, passava os dias sentada onde eu estivesse sempre olhando com uns lindos olhos castanhos. Hoje, vinte e sete de Dezembro de dois mil e dez, às 15h e 15m o coração da Morgana deixou de bater, partira para o céu dos cães, dorme no nosso quintal junto ao damasqueiro, sobre a campa plantei quatro pés de roseira branca em homenagem à pureza do seu carácter. Adeus minha amiga!
Bray – 27/12/2010
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
A menina da cheia
A cheia chegou e tudo cobriu, tudo não, as copas das árvores de maior porte ficaram à vista. As aldeias da região ribeirinha ficaram quase todas debaixo de água, os telhados não. Era sempre assim quando o rio transbordava devido ao excesso de água enviada pelo Deus lá de cima.
Nunca ninguém descobriu se a chuva era programada ou era obra do acaso. Um ano havia cheia, depois um, dois, três, quatro não havia água em abastança. Também acontecia haver cheia anos seguidos e por vezes duas enchentes no mesmo ano. O manda chuva lá do alto tinha tudo mal programado, devia usar fraco computador.
Ao contrário do que pensavam as pessoas do resto do país, na região das cheias todos gostavam delas. Os campos adubavam dando origem a boas colheitas. Por sua vez as reservas do precioso líquida eram repostas garantindo água para os anos de seca.
Os homens descansavam, bebiam uns copos e jogavam sueca ou dominó. Por sua vez as mulheres, não indo para os campos tinham mais tempo para as tarefas domésticas e assim como para tagarelar e regatear na vida dos outros.
A vasta miudagem das aldeias era quem mais adorava a vinda da cheia. Todo o dia mediam a evolução na subida ou descida da água, fazendo pequenas marcas. Estas eram feitas com pedras ou paus espetados. A sua atracção pela cheia preocupava os adultos, obrigando a uma alerta constante.
As estórias através dos tempos relacionadas com a cheia são muitas. Aqui vou relatar as peripécias de uma menina que podia já não existir. A água parecia ter íman para ela. Começo por dizer que ela nasceu no auge de uma enorme cheia, daquelas que entram em algumas casas até ao telhado.
Numa outra cheia não muito grande a menina brincava perto da sua porta. Aí a água teria dez a vinte centímetros, nada de muito perigoso. Para ela, sonhadora, tudo que passava na corrente era barquinhos que conduzia com uma varinha feita de cana fina. No entusiasmo da brincadeira a menina escorregou e caiu na água, ficando um pingo tão molhada estava. A mãe viu, pegou na cachopa deu-lhe um ralhete e mudou-lhe a vestimenta. A menina logo que a mãe entrou em casa voltou aos seus barquinhos. Pumba! Outra vez no charco. Foi a correr para casa chorando. Levou uma palmada da mãe e nova roupa lhe foi vestida.
--Não voltas para a cheia, senão levas a sério.
Embora a tentação fosse muita a miuda que não devia ter mais que três anos, lá resistiu com medo da tareia. Entretanto pediu à mãe para ir ter com outra menina que vivia numa zona sem cheia. Mas ao sair de casa tropeçou e caiu numa poça e toda molhada ficou. Aquilo parecia um íman para a menina. Mas desta vez estava inocente, não tinha ido brincar para a cheia. Sua mãe ficou mesmo muito irritada, não lhe bateu, não era pessoa disso. Vestiu-lhe desta vez a roupa de dormir e meteu a menina na cama e de lá não saiu mais nesse dia.
Como se comprova há grande atracção das crianças pela cheia.
Agora a estória que se segue é mais séria. Numa cheia muito maior, três anos depois esta mesma menina foi salva por milagre, vamos contar…
A garota estava ao postigo da porta de entrada de sua casa, em pé em cima de uma cadeira. A cheia desse ano era das maiores que há memória. A água dava pelo meio da porta, impedindo a sua abertura, contando com o poial a profundidade devia ser de quase dois metros. A rua principal era um largo rio com correntes perigosas.
A menina cantarolando, brincava com a sua varinha tentando tocar tudo o que passava na corrente junto ao postigo. Na cozinha a sua mãe ia tratando da vida. Numa tentativa de tocar um objecto que passava mais distante a miúda caiu na cheia. Ninguém viu por que a rua/rio estava deserta. Tudo estava preparado para uma morte certa.
Por milagre a mãe não ouviu o cantarolar e veio a correr. Por milagre ainda conseguiu agarrar a vestido da filha. Mas a correnteza e a posição não permitia que conseguisse puxar a menina para cima e para dentro de casa. Gritou a mãe em pânico mas nenhum vizinho podia ajudar, todos encarcerados em casa. Deu-se terceiro milagre. Uma lancha apareceu ao longe, coisa rara de acontecer, era um homem que ia levar medicamentos a um doente. Rápido virou o barco e remando bravamente conseguiu chegar e ajudar a mãe desesperada.
Por sorte ou milagre um rapaz vizinho que estudava medicina, encontrava-se em casa, veio a correr ou a nadar, prestou os primeiros socorros à menina. Esta recuperou os sentidos e voltou à vida.
--Mãezinha, era tão bonito, descer e subir. Só pensava que à quarta vez já não subia mais conforme a avó disse há tempos.
Yarb, 7/12/2012
O conflito!
A noite passada estava sem sono, às escuras dirigi-me pelo tacto até à sala grande, sentei-me no sofá que fica de costas para a lareira. Aí fiquei no negro da noite pensando nos enredos das minhas fantasias para o livro “Inertes com vida! Nada me vinha à mente, por isso concentrei-me no barulho do silêncio e nas memórias do nada. Comecei a viajar no passado, como observador somente. Subitamente comecei a ouvir vozes que iam pouco a pouco subindo de tom. Era uma algaraviada difícil de entender, pareciam canas rachadas com som metálico. Apurei o ouvido, para entender as falas o que consegui com esforço. Dizia um:
--Vocês são todos uns pantomineiros! O mais importante, sou eu! Sou o mais velho e o primeiro de uma longa saga.
Sem nada dizer, pensei. Quem será o pateta que assim fala? Depois outra voz se ouviu acima da confusão.
--Não digas disparates, já viste o teu tamanho? Se não te puserem um pedestal ninguém te vê. Raio de anão que não se reduz à sua insignificância. Sou maior que tu e represento uma cidade e tu uma vilazita.
No meio do meu silêncio falei para dentro de mim. Isto está bonito, vamos ver o que vai dar. Entretanto uma terceira fala entrou na conversa.
--Vocês estão cegos pela vaidade, nada valem. Um é pequeno e torto, o outro é grande mas marreco. Além disso representam um país em decadência. Igual a mim, só o meu irmão mais novo um ano, nós representamos um país imenso e belo.
Sempre calado para não dar nas vistas queria ouvir para saber aonde chegaria aquela conversa da treta. Mais um entrou na liça.
--Porque razão são todos uns pedantes? Para já representam uma modalidade em vias de desaparecer. Eu sim sou o maior, o meu país é pequeno mas a modalidade é universal. Alem disso sou mais bonito que vocês. Um é minúsculo e sem graça, outro grande e ferrugento, outro tem uma mão de cada cor e o outro, uma esfera armilar empenada.
Aquilo estava a ficar uma tremenda confusão, começava a ficar com medo da tragédia que se sentia na noite. Então uma voz grossa se sobrepôs a todos.
--Que são vocês comparados comigo? Atingi o topo da carreira e fui senhor da nação!
Houve um breve silêncio. Depois começaram todos a falar ao mesmo tempo e cada vez com mais agressividade. Aos berros, aos guinchos, parecia uma batalha campal.
Não aguentei mais. Precisava de entrevir antes da desgraça. Bruscamente levantei-me, acendi as luzes e dando um violento murro na mesa, decretei.
--Tudo calado, seus filhos de uma oficina, o vosso mérito não é nenhum! O vosso valor é zero! Tudo o que vocês dizem ser, foi à minha custa e do meu neto.
Então, num instante, todos ficaram quietos, num total silêncio, as taças, os troféus e as medalhas!
Bray 8/6/2012
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Folha de papel
Esta folha de papel quadriculado, a4 de tamanho, até há pouco solitária e vazia começa agora a ganhar vida, através da seiva preta da minha caneta. A vida dela própria, vida sem rumo, nem desejo, vida da vida que há-de vir. O espaço em branco vai diminuindo ao ritmo da entrada das palavras. O papel treme de emoção e desejo, quer mais, mais e mais. Quer conhecer o prazer através das palavras que deslizam na quadrícula da folha. Folha e papel têm o destino traçado, para eles isso não tem significado. Muitas palavras, algumas de uma só letra, outras chegam á dezena. Por vezes uma só letra significa mais que extensas palavras. A folha de papel já sorri, agora já está mais composta. Sente que está cumprindo a sua função. Parir letras e construir palavras é a sua ambição, coisa que não pode fazer sem colaboração, desejos que não podem ser cumpridos, sem a tinta da caneta e a mão que a desliza. O fim da folha de papel em branco, não está longe, ela sente nostalgia nesse tão provável fim. Sente que cumpriu a missão para que foi criada, usada e abusada, ela sente o parto sem dor e fica ansiosa para conhecer o recém-parido, para testar se mereceu ter vindo à vida e esperar que alguém escreva na folha de papel solitária, que alguém seja digno da humilde folha de papel, que não mais quer do que honra na escrita feita no seu corpo.
Bray, 1/6/2012
Uma folha em branco não representa nada, só tem valor após receber palavras.
A lenda das palmeiras (versão b)
Era uma vez uma Sanzala, rodeada por um bosque de palmeiras. Povoação feliz, povo saudável, mulheres graciosas plantando mandioca, homens vigorosos caçando e pescando, crianças chilreando no meio das galinhas e dos porcos. A chefia pertencia ao Soba Republicano, velho sábio que servira em jovem num batalhão Republicano quando da queda da Monarquia, razão do nome adorado por si. Homem bom que governava com mestria de Salomão. O povo respeitava-o e tinha grande adoração por ele.
Todos sem excepção gostavam de vinho de palmeira o marufo, tirado por sangria que podia levar à morte da árvore. O óleo dela era fundamental para a vida da Sanzala, como tal o velho geria os processos e os tempos de cada exploração, para manter o desejado equilíbrio.
Um dia uma grande tristeza se abateu sobre a Sanzala, entrando em todas as cubatas. O velho Soba já muito idoso entregou a alma à natureza deixando o mundo dos vivos.
A vida continuou na pequena povoação e foi preciso nomear um novo Soba, após alguma discussão foi escolhido um jovem para o lugar vago. Devia ter sido um velho sábio. Mas o espertalhão lá conseguiu manobrar e subverter a tradição. Negro malandro, tipo convencido da sua ousadia da ignorância, alterou a rotina há muito estabelecida e deu prioridade ao fabrico da bebida que entorpece o povo.
Devido à sangria descontrolada, a pouco e pouco as palmeiras foram morrendo, uma após outra. Passando algum tempo já não havia produção de óleo, a bebida por fim também se foi ao morrer a última palmeira. A euforia evaporou-se como fumo, o povo voltou a si acordando mas já não tinha força para sobreviver. Foram morrendo a começar por aqueles que eram mais fracos, acabando nos mais resistentes, algumas mulheres e crianças ainda conseguiram partir, metendo os pés no mundo caminhando na picada vermelha na procura do nada, tentando atingir o nada…
A Sanzala ficou em silêncio morrendo também. À sombra de um embondeiro, o espírito do velho Soba encarnado num jovem leão chorava a sorte do seu povo…
José Bray – 03/06/2000
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