Um filósofo meu amigo disse um dia, os seres humanos dividem-se em duas classes, os que gostam de cães e os que não gostam de cães. Quis a natureza que eu pertencesse à primeira categoria. Gosto de cães, toda a minha família gosta também e os meus amigos quase sem excepção não fogem a esta regra. Quando era menino pobre e triste o meu maior amigo foi o Tejo, um animal grande e pachorrento, castanho para o amarelo com convém a um bom rafeiro, também conhecido nas cidades por vira latas. Passei muitas manhãs e iguais tardes a brincar com ele, sempre paciente para as minhas pequenas maldades. Um dia foi ele que me encontrou numa noite de inverno em que estava desaparecido. Antes de fazer a tropa levei para casa da mãe Alice um aristocrata que se havia de tornar num pequeno tirano, quando regressei de África mal cheguei a quinhentos metros de casa o cão começou aos saltos porque o seu olfacto me detectou. Em Luanda tínhamos um simpático rafeiro chamado Shane, que nos foi roubado, a minha companheira procurou, procurou e descobriu o animal preso e sem condições num quintal de labregos, veio para casa doente e morreu jovem, ficou a saudade. Em mil novecentos e oitenta e três entrou na nossa vida o mais belo cão a que pusemos o nome de Yarb, este era nobre em todos os sentidos, nervoso, leal, punha os miúdos em respeito mas nunca fez qualquer mal aos mesmos. Gostava imenso de andar de carro, quando passeava com ele era fácil meter conversa com toda a gente! Catorze anos depois, o nosso amigo já velho e doente obrigou-nos a ajudá-lo a partir, foi muito difícil, está a descansar no Pinhal do Rei em local que só eu sei! Em mil novecentos e noventa e oito chegou a Morgana, uma boxer castanha, feitio calmo, grande companheira, nem se dava por ela, devido a problemas de saúde gastou-se uma fortuna com a Morgana, mas nunca nos arrependemos de o fazer. Minha companheira de passeios no pinhal, passava os dias sentada onde eu estivesse sempre olhando com uns lindos olhos castanhos. Hoje, vinte e sete de Dezembro de dois mil e dez, às 15h e 15m o coração da Morgana deixou de bater, partira para o céu dos cães, dorme no nosso quintal junto ao damasqueiro, sobre a campa plantei quatro pés de roseira branca em homenagem à pureza do seu carácter. Adeus minha amiga!
Bray – 27/12/2010
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
A menina da cheia
A cheia chegou e tudo cobriu, tudo não, as copas das árvores de maior porte ficaram à vista. As aldeias da região ribeirinha ficaram quase todas debaixo de água, os telhados não. Era sempre assim quando o rio transbordava devido ao excesso de água enviada pelo Deus lá de cima.
Nunca ninguém descobriu se a chuva era programada ou era obra do acaso. Um ano havia cheia, depois um, dois, três, quatro não havia água em abastança. Também acontecia haver cheia anos seguidos e por vezes duas enchentes no mesmo ano. O manda chuva lá do alto tinha tudo mal programado, devia usar fraco computador.
Ao contrário do que pensavam as pessoas do resto do país, na região das cheias todos gostavam delas. Os campos adubavam dando origem a boas colheitas. Por sua vez as reservas do precioso líquida eram repostas garantindo água para os anos de seca.
Os homens descansavam, bebiam uns copos e jogavam sueca ou dominó. Por sua vez as mulheres, não indo para os campos tinham mais tempo para as tarefas domésticas e assim como para tagarelar e regatear na vida dos outros.
A vasta miudagem das aldeias era quem mais adorava a vinda da cheia. Todo o dia mediam a evolução na subida ou descida da água, fazendo pequenas marcas. Estas eram feitas com pedras ou paus espetados. A sua atracção pela cheia preocupava os adultos, obrigando a uma alerta constante.
As estórias através dos tempos relacionadas com a cheia são muitas. Aqui vou relatar as peripécias de uma menina que podia já não existir. A água parecia ter íman para ela. Começo por dizer que ela nasceu no auge de uma enorme cheia, daquelas que entram em algumas casas até ao telhado.
Numa outra cheia não muito grande a menina brincava perto da sua porta. Aí a água teria dez a vinte centímetros, nada de muito perigoso. Para ela, sonhadora, tudo que passava na corrente era barquinhos que conduzia com uma varinha feita de cana fina. No entusiasmo da brincadeira a menina escorregou e caiu na água, ficando um pingo tão molhada estava. A mãe viu, pegou na cachopa deu-lhe um ralhete e mudou-lhe a vestimenta. A menina logo que a mãe entrou em casa voltou aos seus barquinhos. Pumba! Outra vez no charco. Foi a correr para casa chorando. Levou uma palmada da mãe e nova roupa lhe foi vestida.
--Não voltas para a cheia, senão levas a sério.
Embora a tentação fosse muita a miuda que não devia ter mais que três anos, lá resistiu com medo da tareia. Entretanto pediu à mãe para ir ter com outra menina que vivia numa zona sem cheia. Mas ao sair de casa tropeçou e caiu numa poça e toda molhada ficou. Aquilo parecia um íman para a menina. Mas desta vez estava inocente, não tinha ido brincar para a cheia. Sua mãe ficou mesmo muito irritada, não lhe bateu, não era pessoa disso. Vestiu-lhe desta vez a roupa de dormir e meteu a menina na cama e de lá não saiu mais nesse dia.
Como se comprova há grande atracção das crianças pela cheia.
Agora a estória que se segue é mais séria. Numa cheia muito maior, três anos depois esta mesma menina foi salva por milagre, vamos contar…
A garota estava ao postigo da porta de entrada de sua casa, em pé em cima de uma cadeira. A cheia desse ano era das maiores que há memória. A água dava pelo meio da porta, impedindo a sua abertura, contando com o poial a profundidade devia ser de quase dois metros. A rua principal era um largo rio com correntes perigosas.
A menina cantarolando, brincava com a sua varinha tentando tocar tudo o que passava na corrente junto ao postigo. Na cozinha a sua mãe ia tratando da vida. Numa tentativa de tocar um objecto que passava mais distante a miúda caiu na cheia. Ninguém viu por que a rua/rio estava deserta. Tudo estava preparado para uma morte certa.
Por milagre a mãe não ouviu o cantarolar e veio a correr. Por milagre ainda conseguiu agarrar a vestido da filha. Mas a correnteza e a posição não permitia que conseguisse puxar a menina para cima e para dentro de casa. Gritou a mãe em pânico mas nenhum vizinho podia ajudar, todos encarcerados em casa. Deu-se terceiro milagre. Uma lancha apareceu ao longe, coisa rara de acontecer, era um homem que ia levar medicamentos a um doente. Rápido virou o barco e remando bravamente conseguiu chegar e ajudar a mãe desesperada.
Por sorte ou milagre um rapaz vizinho que estudava medicina, encontrava-se em casa, veio a correr ou a nadar, prestou os primeiros socorros à menina. Esta recuperou os sentidos e voltou à vida.
--Mãezinha, era tão bonito, descer e subir. Só pensava que à quarta vez já não subia mais conforme a avó disse há tempos.
Yarb, 7/12/2012
O conflito!
A noite passada estava sem sono, às escuras dirigi-me pelo tacto até à sala grande, sentei-me no sofá que fica de costas para a lareira. Aí fiquei no negro da noite pensando nos enredos das minhas fantasias para o livro “Inertes com vida! Nada me vinha à mente, por isso concentrei-me no barulho do silêncio e nas memórias do nada. Comecei a viajar no passado, como observador somente. Subitamente comecei a ouvir vozes que iam pouco a pouco subindo de tom. Era uma algaraviada difícil de entender, pareciam canas rachadas com som metálico. Apurei o ouvido, para entender as falas o que consegui com esforço. Dizia um:
--Vocês são todos uns pantomineiros! O mais importante, sou eu! Sou o mais velho e o primeiro de uma longa saga.
Sem nada dizer, pensei. Quem será o pateta que assim fala? Depois outra voz se ouviu acima da confusão.
--Não digas disparates, já viste o teu tamanho? Se não te puserem um pedestal ninguém te vê. Raio de anão que não se reduz à sua insignificância. Sou maior que tu e represento uma cidade e tu uma vilazita.
No meio do meu silêncio falei para dentro de mim. Isto está bonito, vamos ver o que vai dar. Entretanto uma terceira fala entrou na conversa.
--Vocês estão cegos pela vaidade, nada valem. Um é pequeno e torto, o outro é grande mas marreco. Além disso representam um país em decadência. Igual a mim, só o meu irmão mais novo um ano, nós representamos um país imenso e belo.
Sempre calado para não dar nas vistas queria ouvir para saber aonde chegaria aquela conversa da treta. Mais um entrou na liça.
--Porque razão são todos uns pedantes? Para já representam uma modalidade em vias de desaparecer. Eu sim sou o maior, o meu país é pequeno mas a modalidade é universal. Alem disso sou mais bonito que vocês. Um é minúsculo e sem graça, outro grande e ferrugento, outro tem uma mão de cada cor e o outro, uma esfera armilar empenada.
Aquilo estava a ficar uma tremenda confusão, começava a ficar com medo da tragédia que se sentia na noite. Então uma voz grossa se sobrepôs a todos.
--Que são vocês comparados comigo? Atingi o topo da carreira e fui senhor da nação!
Houve um breve silêncio. Depois começaram todos a falar ao mesmo tempo e cada vez com mais agressividade. Aos berros, aos guinchos, parecia uma batalha campal.
Não aguentei mais. Precisava de entrevir antes da desgraça. Bruscamente levantei-me, acendi as luzes e dando um violento murro na mesa, decretei.
--Tudo calado, seus filhos de uma oficina, o vosso mérito não é nenhum! O vosso valor é zero! Tudo o que vocês dizem ser, foi à minha custa e do meu neto.
Então, num instante, todos ficaram quietos, num total silêncio, as taças, os troféus e as medalhas!
Bray 8/6/2012
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Folha de papel
Esta folha de papel quadriculado, a4 de tamanho, até há pouco solitária e vazia começa agora a ganhar vida, através da seiva preta da minha caneta. A vida dela própria, vida sem rumo, nem desejo, vida da vida que há-de vir. O espaço em branco vai diminuindo ao ritmo da entrada das palavras. O papel treme de emoção e desejo, quer mais, mais e mais. Quer conhecer o prazer através das palavras que deslizam na quadrícula da folha. Folha e papel têm o destino traçado, para eles isso não tem significado. Muitas palavras, algumas de uma só letra, outras chegam á dezena. Por vezes uma só letra significa mais que extensas palavras. A folha de papel já sorri, agora já está mais composta. Sente que está cumprindo a sua função. Parir letras e construir palavras é a sua ambição, coisa que não pode fazer sem colaboração, desejos que não podem ser cumpridos, sem a tinta da caneta e a mão que a desliza. O fim da folha de papel em branco, não está longe, ela sente nostalgia nesse tão provável fim. Sente que cumpriu a missão para que foi criada, usada e abusada, ela sente o parto sem dor e fica ansiosa para conhecer o recém-parido, para testar se mereceu ter vindo à vida e esperar que alguém escreva na folha de papel solitária, que alguém seja digno da humilde folha de papel, que não mais quer do que honra na escrita feita no seu corpo.
Bray, 1/6/2012
Uma folha em branco não representa nada, só tem valor após receber palavras.
A lenda das palmeiras (versão b)
Era uma vez uma Sanzala, rodeada por um bosque de palmeiras. Povoação feliz, povo saudável, mulheres graciosas plantando mandioca, homens vigorosos caçando e pescando, crianças chilreando no meio das galinhas e dos porcos. A chefia pertencia ao Soba Republicano, velho sábio que servira em jovem num batalhão Republicano quando da queda da Monarquia, razão do nome adorado por si. Homem bom que governava com mestria de Salomão. O povo respeitava-o e tinha grande adoração por ele.
Todos sem excepção gostavam de vinho de palmeira o marufo, tirado por sangria que podia levar à morte da árvore. O óleo dela era fundamental para a vida da Sanzala, como tal o velho geria os processos e os tempos de cada exploração, para manter o desejado equilíbrio.
Um dia uma grande tristeza se abateu sobre a Sanzala, entrando em todas as cubatas. O velho Soba já muito idoso entregou a alma à natureza deixando o mundo dos vivos.
A vida continuou na pequena povoação e foi preciso nomear um novo Soba, após alguma discussão foi escolhido um jovem para o lugar vago. Devia ter sido um velho sábio. Mas o espertalhão lá conseguiu manobrar e subverter a tradição. Negro malandro, tipo convencido da sua ousadia da ignorância, alterou a rotina há muito estabelecida e deu prioridade ao fabrico da bebida que entorpece o povo.
Devido à sangria descontrolada, a pouco e pouco as palmeiras foram morrendo, uma após outra. Passando algum tempo já não havia produção de óleo, a bebida por fim também se foi ao morrer a última palmeira. A euforia evaporou-se como fumo, o povo voltou a si acordando mas já não tinha força para sobreviver. Foram morrendo a começar por aqueles que eram mais fracos, acabando nos mais resistentes, algumas mulheres e crianças ainda conseguiram partir, metendo os pés no mundo caminhando na picada vermelha na procura do nada, tentando atingir o nada…
A Sanzala ficou em silêncio morrendo também. À sombra de um embondeiro, o espírito do velho Soba encarnado num jovem leão chorava a sorte do seu povo…
José Bray – 03/06/2000
A lenda das palmeiras (versão a)
Os meninos e as meninas conhecem a lenda das palmeiras? Era uma vez uma Sanzala muito pequena rodeada por um bosque de palmeiras e governada por um Soba sábio, a muita idade tinha-lhe dado bué de experiência e bué de saber! Era um homem bondoso, muito preocupado com o futuro do seu séquito, pequeno por sinal. A Sanzala ficava longe, muito longe mesmo, lá para as bandas do leste, no coração de África. Para complicar, a povoação estava afastada de outras iguais, muitas dezenas de quilómetros. O povo governado pelo seu líder sobrevivia com todo o tipo de dificuldades, mas com a imaginação e prudência do Soba lá se iam aguentando. As palmeiras faziam parte da vida daquele povo, óleo para a alimentação e outros fins, a seiva para fazer a bebida que eles tanto gostavam. Plantavam mandioca e no rio havia bastante peixe! O sabedor Soba controlava a exploração do palmeiral, de modo a não criar os desequilíbrios. O chefe no momento próprio indicava as palmeiras a sangrar, a sua seiva servia para fazer a desejada bebida alcoólica, não deixando haver exageros, porque para a sobrevivência do povo o óleo era mais importante, mas eles gostavam mais da bebida que lhes dava um estado de embriagues feliz. O trabalho do Soba ano após ano era não deixar a vício avançar, coisa que conseguiu, assim a vida decorreu com alguma tranquilidade!
Um dia o velho Soba Republicano, assim era o seu nome em honra da oposição à monarquia, morreu! Uma grande tristeza abateu-se em todas as cubatas!
Para suceder ao falecido foi escolhido não um sábio mas um jovem bêbedo, vaidoso convencido na sua ousadia da ignorância. Começou por alterar os procedimentos do velho Soba, especialmente no que respeita à colheita do óleo e do marufo. De imediato começou a sagrar as palmeiras para fazer muita bebida e andarem todos felizes. Aquele povo passou a andar sempre drogado e em grande euforia, cada dia que passava mais alcoolizados estavam, era uma tristeza ver aquela gente deitada nas cubatas e à beira do rio, sem capacidade para pescar nem plantar a mandioca.
A produção do óleo diminuiu rapidamente, também ninguém se lembrava disso, estavam sempre noutro mundo, o fim lentamente começou para aquela gente…ninguém já trabalhava a não ser na sangria, pesca nada, mandioca nada. As crianças começaram a ficar doentes e a morrer por falta de substância, e os adultos também.
Por fim devido às sangrias as árvores morreram e acabou a bebida, a euforia foi-se, chegou a depressão e a ressaca, agora o povo já não tinha forças para sobreviver. Continuaram a morrer os mais fracos, os restantes meteram as pernas ao caminho, tentando atingir o nada…
A Sanzala ficou em silêncio morrendo também, perto, debaixo de um enorme embondeiro o espírito do velho Soba encarnado num jovem leão chorava a sorte do seu povo!
José Bray – 31/05/2000
A Lenda dos Plátanos e a Princesa Moura
Tinha pouco mais de seis anos, o Inverno aproximava-se, estava um dia lindo, límpido. O azul do céu, o verde dos prados, faziam contraste com as árvores que não tinham folhas.
Andava ao rabisco lá para os lados da Várzea. Durante a tarde o calor do Sol disfarçava o frio da época, o corpo sentia algum conforto. Decidi afastar-me do rio indo para as bandas da floresta que ficava para poente. Sabia que havia lá umas oliveiras e assim encheria mais facilmente o meu cabaz.
Rabisco misturado com muita brincadeira, o tempo foi passando, sem pensar que os dias são curtos na época, fui-me afastando mais. Por fim o cesto ficou cheio e pesado. Regressei!
Rapidamente, o Sol desapareceu lá para os lados do oceano, a noite chegou e o frio também cada vez mais intenso, a roupa era quase nenhuma e os pés a gelar nos sapatos de pele natural. O medo apoderou-se do meu pequeno corpo, olhei, a aldeia estava longe, já tinha vontade de chorar.
Era noite de Lua Nova, cada vez estava mais escura e fria. O Céu era um manto negro enfeitado por uma imensidão de estrelas, brilhando como nunca tinha visto ou reparado. A povoação ainda sem luz eléctrica, já não se vislumbrava.
Com o coração apertadinho, lá fui indo. Atravessei as vinhas, estas despidas de folhas pareciam um exército de aranhas gigantes. Segui depois junto ao rio, uma árvore era o retrato da morte com a sua gadanha. Finalmente cheguei à ponte romana.
De repente, vi! Lá estava ela a Moura Encantada, abraçada a um dos plátanos. Fiquei parado sem conseguir dar um passo, fascinado mas sem medo. Ela sorriu, fez um gesto para me aproximar, cheguei a um metro e a jovem estendeu-me a mão. Uma luz vinda de cima iluminava-lhe o rosto, era linda, feições muito correctas, olhos pretos, cabelo da mesma cor e pele muito branca.
Deu-me um beijo e falou para os plátanos.
«Já viram um menino tão bonito e bonzinho?»
As grandes árvores, parecendo tocadas pelo vento, ondulavam em sinal de confirmação.
Após fazer mais uma carícia, com um lindo sorriso mandou-me para casa, mas antes com voz muito doce sussurrou.
«Se tiveres saudades minhas vem até aqui nas noites de Lua Nova, cá estarei à tua espera.»
Cheguei são e salvo ao casebre, mas não contei a ninguém o que tinha visto.
Nas noites de Lua Nova lá ia ver a minha amiga. Um dia levei comigo o meu primo António Luís, ela estava lá mas o meu parente não a conseguiu ver, olhou para mim com uma expressão de tristeza e reprovação, desapareceu como uma bolha de sabão que rebenta. Voltei lá sozinho, mas a Moura Encantada nunca mais apareceu.
A partir daí, sempre que podia ia para o junto dos quatro gigantes, sentava-me na ponte e eles contavam-me histórias de encantar. Falavam de coisas passadas nas suas longas existência.
Um dia, parti para África, criei família e os anos passaram. Regressei à pátria dois anos após a entrega da última colónia portuguesa do continente negro.
Logo que me foi possível passei na aldeia e fui visitar os meus amigos plátanos que tão bons foram para mim quando era um menino e um pobre menino, tinham-se passado trinta anos.
Fiquei abismado quando cheguei ao rio! A velha ponte romana já não existia e dois dos plátanos tinham sido assassinados. Abracei os sobreviventes, sentei-me na nova construção, eficiente mas sem vida.
Pouco depois, uma brisa começou a fazer as folhas sussurrar, hipnotizado comecei a sentir e ouvir através de todos os poros do meu corpo e alma. Os dois gigantes transmitiam a história que vou resumir e contar à minha maneira.
Há muito tempo, ainda Jesus da Nazaré não filosofava nas pedras da Palestina, havia um vale maravilhoso no oeste da Ibéria.
Um pequeno rio de águas límpidas, cheio de peixe, fazia companhia ao vale da serra ao oceano. O Sol nascia nos montes e tinha o seu ocaso na floresta junto ao mar, banhando com o seu calor as boas terras do vale que tudo davam.
Nesse paraíso terrestre os homens viviam desde os confins do tempo. Estavam sempre a chegar novos povos, uns morenos e outros louros, uns bárbaros, outros cultos. Iam-se misturando com os naturais e todos se adoptavam à vida do vale.
Um dia o invasor romano chegou, o maior império da altura, metade do mundo conhecido estava sob a sua alçada. Bons militares, excelentes políticos e engenheiros eficientes. Construíram cidades, estradas e pontes. No vale construíram uma estrada e para atravessar o rio uma ponte, a ponte romana da nossa história.
Depois vieram os bárbaros, a pouco e pouco expulsaram os romanos, embora muitos tenham ficado e assimilado no contexto local. Um dia os árabes atravessaram o estreito e invadiram a Ibéria, conquistando quase tudo em 711, menos as Astúrias.
Era um povo muito culto, com uma arte bastante desenvolvida, gente asseada e profundamente tolerante relativamente aos povos conquistados. Alem disso, grandes amantes da natureza.
Nessa época uma menina de seis anos, uma bela princesa moura, plantou quatro plátanos, junto à ponte romana, um em cada canto. Cresceram com alguma dificuldade. Durante vinte anos, a princesa protegeu os irmãos que pouco a pouco se transformaram em gigantes.
Antes de morrer, a princesa exigiu que queria ser enterrada em campa simples, junto dos seus meninos. Consta que a linda moura aparecia nas noites de lua nova, para os agasalhar com o seu carinho.
Havia esta lenda nas redondezas, mas nunca ninguém falou que tinha visto a princesa, mas eu sei que é verdade.
Século a pós século, os irmãos foram acompanhando a vida do vale. Em especial sentiam a alma das duas aldeias, uma a leste outra a oeste. As pessoas ao passar sentavam-se na ponte, para descansar, fugir ao calor e à chuva ou simplesmente por gostarem de estar ao pé das árvores. Aí, os aldeões, ficavam com os seus pensamentos e os irmãos captavam esses fluidos e tudo sabiam da vida deles e dos outros.
Os animais, em especial as aves, vinham acolher-se na imensidão da sua protecção, para fugir ao calor, frio, ou qualquer predador, muitos faziam aqui o seu ninho.
Ali havia um equilíbrio profundo, a deusa da natureza e a princesa moura, faziam a protecção do vale, do rio, da ponte e de tudo o que tivesse vida.
Através dos tempos, continuaram as invasões, as guerras e as revoluções!
Ainda no tempo dos árabes, regressaram pouco a pouco os bárbaros, mas agora convertidos a Cristo. Aconteceram inúmeras guerras com o vizinho espanhol, guerras civis pais contra filhos e irmãos contra irmãos. Vieram as invasões francesas, queda da monarquia e implantação da república. Por fim o estado novo. Gerações e gerações nasceram e morreram.
Sobre a ponte passaram multidões através dos tempos, os quatro irmãos tudo viram, tudo ouviram, tudo sentiram…
Um dia chegou o chamado dia da liberdade. Os quatro irmãos, disseram uns para os outros. Agora é que este povo vai ser feliz, vai haver mais justiça social, todos vão ter possibilidade de estudar. Não vai haver, extremos, nem excesso de riqueza nem pessoas a passar fome. O meio ambiente vai estar protegido e os monumentos recuperados, vai ser um povo com H grande.
Mas!
O rio começou a ficar poluído, os peixes a boiar. Os campos abandonados. Os jovens a passar dizendo só asneiras faziam os plátanos corar de vergonha. Os estudantes começaram a ser doutores e engenheiros sem saberem escrever um texto ou saberem a tabuada.
Os quatro irmãos, a caminho dos dois mil anos, começaram a ficar tristes e desiludidos com os humanos, mal sabiam eles que o pior estava para vir.
Um dia chegaram uns senhores bem vestidos, vieram tirar medidas e mais medidas. Eram engenheiros mas as conversas acabavam todas com C. e no meio além do C. também entrava o F., a palavra Pá aparecia sempre em todas as frases. Eram os filhos da revolução.
Tempos depois apareceram as máquinas…
Dois dos irmãos, os do sul, foram assassinados, séculos de presença e de solidariedade destruídos numa manhã de grande calor. Depois foi a velha ponte romana, com quase dois mil anos de serviços ao povo. Pum!.. Pum!.. Pum!.. Por fim, toda a engenharia utilizada há tanto século ruiu sobre a batuta dos libertadores assassinos!
O vale ficou mutilado e muito mais pobre.
Levantaram-se algumas vozes, mas foram logo apelidados de reaccionários e fascistas.
No lugar da antiga ponte outra foi colocada, ferro e betão, feia, burra e sem vida.
Os dois irmãos, lá continuaram a cumprir a sua missão de tantas centenas de anos. Em baixo o rio corre poluído, passando sob a ponte que cumpre a sua missão mas sem alma e sem classe.
Quanto à princesa, devido ao desgosto, nunca mais apareceu junto aos plátanos, excepto quando lá vou em sonho nas noites de Lua Nova.
Regularmente, vou visitar os meus velhos amigos. Após um longo abraço, ouço os seus lamentos, chorando os irmãos assassinados. Tudo isto transmitido pelo sussurrar das folhas dirigidas pelo sábio maestro que é o vento.
Marinha Grande, 06 de Maio de 2003
José M. Bray
´
Subscrever:
Mensagens (Atom)