Os meninos e as meninas conhecem a lenda das palmeiras? Era uma vez uma Sanzala muito pequena rodeada por um bosque de palmeiras e governada por um Soba sábio, a muita idade tinha-lhe dado bué de experiência e bué de saber! Era um homem bondoso, muito preocupado com o futuro do seu séquito, pequeno por sinal. A Sanzala ficava longe, muito longe mesmo, lá para as bandas do leste, no coração de África. Para complicar, a povoação estava afastada de outras iguais, muitas dezenas de quilómetros. O povo governado pelo seu líder sobrevivia com todo o tipo de dificuldades, mas com a imaginação e prudência do Soba lá se iam aguentando. As palmeiras faziam parte da vida daquele povo, óleo para a alimentação e outros fins, a seiva para fazer a bebida que eles tanto gostavam. Plantavam mandioca e no rio havia bastante peixe! O sabedor Soba controlava a exploração do palmeiral, de modo a não criar os desequilíbrios. O chefe no momento próprio indicava as palmeiras a sangrar, a sua seiva servia para fazer a desejada bebida alcoólica, não deixando haver exageros, porque para a sobrevivência do povo o óleo era mais importante, mas eles gostavam mais da bebida que lhes dava um estado de embriagues feliz. O trabalho do Soba ano após ano era não deixar a vício avançar, coisa que conseguiu, assim a vida decorreu com alguma tranquilidade!
Um dia o velho Soba Republicano, assim era o seu nome em honra da oposição à monarquia, morreu! Uma grande tristeza abateu-se em todas as cubatas!
Para suceder ao falecido foi escolhido não um sábio mas um jovem bêbedo, vaidoso convencido na sua ousadia da ignorância. Começou por alterar os procedimentos do velho Soba, especialmente no que respeita à colheita do óleo e do marufo. De imediato começou a sagrar as palmeiras para fazer muita bebida e andarem todos felizes. Aquele povo passou a andar sempre drogado e em grande euforia, cada dia que passava mais alcoolizados estavam, era uma tristeza ver aquela gente deitada nas cubatas e à beira do rio, sem capacidade para pescar nem plantar a mandioca.
A produção do óleo diminuiu rapidamente, também ninguém se lembrava disso, estavam sempre noutro mundo, o fim lentamente começou para aquela gente…ninguém já trabalhava a não ser na sangria, pesca nada, mandioca nada. As crianças começaram a ficar doentes e a morrer por falta de substância, e os adultos também.
Por fim devido às sangrias as árvores morreram e acabou a bebida, a euforia foi-se, chegou a depressão e a ressaca, agora o povo já não tinha forças para sobreviver. Continuaram a morrer os mais fracos, os restantes meteram as pernas ao caminho, tentando atingir o nada…
A Sanzala ficou em silêncio morrendo também, perto, debaixo de um enorme embondeiro o espírito do velho Soba encarnado num jovem leão chorava a sorte do seu povo!
José Bray – 31/05/2000
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
A Lenda dos Plátanos e a Princesa Moura
Tinha pouco mais de seis anos, o Inverno aproximava-se, estava um dia lindo, límpido. O azul do céu, o verde dos prados, faziam contraste com as árvores que não tinham folhas.
Andava ao rabisco lá para os lados da Várzea. Durante a tarde o calor do Sol disfarçava o frio da época, o corpo sentia algum conforto. Decidi afastar-me do rio indo para as bandas da floresta que ficava para poente. Sabia que havia lá umas oliveiras e assim encheria mais facilmente o meu cabaz.
Rabisco misturado com muita brincadeira, o tempo foi passando, sem pensar que os dias são curtos na época, fui-me afastando mais. Por fim o cesto ficou cheio e pesado. Regressei!
Rapidamente, o Sol desapareceu lá para os lados do oceano, a noite chegou e o frio também cada vez mais intenso, a roupa era quase nenhuma e os pés a gelar nos sapatos de pele natural. O medo apoderou-se do meu pequeno corpo, olhei, a aldeia estava longe, já tinha vontade de chorar.
Era noite de Lua Nova, cada vez estava mais escura e fria. O Céu era um manto negro enfeitado por uma imensidão de estrelas, brilhando como nunca tinha visto ou reparado. A povoação ainda sem luz eléctrica, já não se vislumbrava.
Com o coração apertadinho, lá fui indo. Atravessei as vinhas, estas despidas de folhas pareciam um exército de aranhas gigantes. Segui depois junto ao rio, uma árvore era o retrato da morte com a sua gadanha. Finalmente cheguei à ponte romana.
De repente, vi! Lá estava ela a Moura Encantada, abraçada a um dos plátanos. Fiquei parado sem conseguir dar um passo, fascinado mas sem medo. Ela sorriu, fez um gesto para me aproximar, cheguei a um metro e a jovem estendeu-me a mão. Uma luz vinda de cima iluminava-lhe o rosto, era linda, feições muito correctas, olhos pretos, cabelo da mesma cor e pele muito branca.
Deu-me um beijo e falou para os plátanos.
«Já viram um menino tão bonito e bonzinho?»
As grandes árvores, parecendo tocadas pelo vento, ondulavam em sinal de confirmação.
Após fazer mais uma carícia, com um lindo sorriso mandou-me para casa, mas antes com voz muito doce sussurrou.
«Se tiveres saudades minhas vem até aqui nas noites de Lua Nova, cá estarei à tua espera.»
Cheguei são e salvo ao casebre, mas não contei a ninguém o que tinha visto.
Nas noites de Lua Nova lá ia ver a minha amiga. Um dia levei comigo o meu primo António Luís, ela estava lá mas o meu parente não a conseguiu ver, olhou para mim com uma expressão de tristeza e reprovação, desapareceu como uma bolha de sabão que rebenta. Voltei lá sozinho, mas a Moura Encantada nunca mais apareceu.
A partir daí, sempre que podia ia para o junto dos quatro gigantes, sentava-me na ponte e eles contavam-me histórias de encantar. Falavam de coisas passadas nas suas longas existência.
Um dia, parti para África, criei família e os anos passaram. Regressei à pátria dois anos após a entrega da última colónia portuguesa do continente negro.
Logo que me foi possível passei na aldeia e fui visitar os meus amigos plátanos que tão bons foram para mim quando era um menino e um pobre menino, tinham-se passado trinta anos.
Fiquei abismado quando cheguei ao rio! A velha ponte romana já não existia e dois dos plátanos tinham sido assassinados. Abracei os sobreviventes, sentei-me na nova construção, eficiente mas sem vida.
Pouco depois, uma brisa começou a fazer as folhas sussurrar, hipnotizado comecei a sentir e ouvir através de todos os poros do meu corpo e alma. Os dois gigantes transmitiam a história que vou resumir e contar à minha maneira.
Há muito tempo, ainda Jesus da Nazaré não filosofava nas pedras da Palestina, havia um vale maravilhoso no oeste da Ibéria.
Um pequeno rio de águas límpidas, cheio de peixe, fazia companhia ao vale da serra ao oceano. O Sol nascia nos montes e tinha o seu ocaso na floresta junto ao mar, banhando com o seu calor as boas terras do vale que tudo davam.
Nesse paraíso terrestre os homens viviam desde os confins do tempo. Estavam sempre a chegar novos povos, uns morenos e outros louros, uns bárbaros, outros cultos. Iam-se misturando com os naturais e todos se adoptavam à vida do vale.
Um dia o invasor romano chegou, o maior império da altura, metade do mundo conhecido estava sob a sua alçada. Bons militares, excelentes políticos e engenheiros eficientes. Construíram cidades, estradas e pontes. No vale construíram uma estrada e para atravessar o rio uma ponte, a ponte romana da nossa história.
Depois vieram os bárbaros, a pouco e pouco expulsaram os romanos, embora muitos tenham ficado e assimilado no contexto local. Um dia os árabes atravessaram o estreito e invadiram a Ibéria, conquistando quase tudo em 711, menos as Astúrias.
Era um povo muito culto, com uma arte bastante desenvolvida, gente asseada e profundamente tolerante relativamente aos povos conquistados. Alem disso, grandes amantes da natureza.
Nessa época uma menina de seis anos, uma bela princesa moura, plantou quatro plátanos, junto à ponte romana, um em cada canto. Cresceram com alguma dificuldade. Durante vinte anos, a princesa protegeu os irmãos que pouco a pouco se transformaram em gigantes.
Antes de morrer, a princesa exigiu que queria ser enterrada em campa simples, junto dos seus meninos. Consta que a linda moura aparecia nas noites de lua nova, para os agasalhar com o seu carinho.
Havia esta lenda nas redondezas, mas nunca ninguém falou que tinha visto a princesa, mas eu sei que é verdade.
Século a pós século, os irmãos foram acompanhando a vida do vale. Em especial sentiam a alma das duas aldeias, uma a leste outra a oeste. As pessoas ao passar sentavam-se na ponte, para descansar, fugir ao calor e à chuva ou simplesmente por gostarem de estar ao pé das árvores. Aí, os aldeões, ficavam com os seus pensamentos e os irmãos captavam esses fluidos e tudo sabiam da vida deles e dos outros.
Os animais, em especial as aves, vinham acolher-se na imensidão da sua protecção, para fugir ao calor, frio, ou qualquer predador, muitos faziam aqui o seu ninho.
Ali havia um equilíbrio profundo, a deusa da natureza e a princesa moura, faziam a protecção do vale, do rio, da ponte e de tudo o que tivesse vida.
Através dos tempos, continuaram as invasões, as guerras e as revoluções!
Ainda no tempo dos árabes, regressaram pouco a pouco os bárbaros, mas agora convertidos a Cristo. Aconteceram inúmeras guerras com o vizinho espanhol, guerras civis pais contra filhos e irmãos contra irmãos. Vieram as invasões francesas, queda da monarquia e implantação da república. Por fim o estado novo. Gerações e gerações nasceram e morreram.
Sobre a ponte passaram multidões através dos tempos, os quatro irmãos tudo viram, tudo ouviram, tudo sentiram…
Um dia chegou o chamado dia da liberdade. Os quatro irmãos, disseram uns para os outros. Agora é que este povo vai ser feliz, vai haver mais justiça social, todos vão ter possibilidade de estudar. Não vai haver, extremos, nem excesso de riqueza nem pessoas a passar fome. O meio ambiente vai estar protegido e os monumentos recuperados, vai ser um povo com H grande.
Mas!
O rio começou a ficar poluído, os peixes a boiar. Os campos abandonados. Os jovens a passar dizendo só asneiras faziam os plátanos corar de vergonha. Os estudantes começaram a ser doutores e engenheiros sem saberem escrever um texto ou saberem a tabuada.
Os quatro irmãos, a caminho dos dois mil anos, começaram a ficar tristes e desiludidos com os humanos, mal sabiam eles que o pior estava para vir.
Um dia chegaram uns senhores bem vestidos, vieram tirar medidas e mais medidas. Eram engenheiros mas as conversas acabavam todas com C. e no meio além do C. também entrava o F., a palavra Pá aparecia sempre em todas as frases. Eram os filhos da revolução.
Tempos depois apareceram as máquinas…
Dois dos irmãos, os do sul, foram assassinados, séculos de presença e de solidariedade destruídos numa manhã de grande calor. Depois foi a velha ponte romana, com quase dois mil anos de serviços ao povo. Pum!.. Pum!.. Pum!.. Por fim, toda a engenharia utilizada há tanto século ruiu sobre a batuta dos libertadores assassinos!
O vale ficou mutilado e muito mais pobre.
Levantaram-se algumas vozes, mas foram logo apelidados de reaccionários e fascistas.
No lugar da antiga ponte outra foi colocada, ferro e betão, feia, burra e sem vida.
Os dois irmãos, lá continuaram a cumprir a sua missão de tantas centenas de anos. Em baixo o rio corre poluído, passando sob a ponte que cumpre a sua missão mas sem alma e sem classe.
Quanto à princesa, devido ao desgosto, nunca mais apareceu junto aos plátanos, excepto quando lá vou em sonho nas noites de Lua Nova.
Regularmente, vou visitar os meus velhos amigos. Após um longo abraço, ouço os seus lamentos, chorando os irmãos assassinados. Tudo isto transmitido pelo sussurrar das folhas dirigidas pelo sábio maestro que é o vento.
Marinha Grande, 06 de Maio de 2003
José M. Bray
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Shane vai ao mercado!
Shane vai ao mercado!
Shane saiu naquela manhã da sua casota com destino pensado. Estava bastante frio, mas o belo macho deu uma corrida para aquecer. Distraído, por pouco não foi atropelado por um automóvel de luxo que passava a cem à hora. O bruto Tedy encostado a um largo portão riu-se do amigo e disse na galhofa.
--Então amigão queres ser passado a ferro logo pela manhã? Se calhar vais a fugir da bófia.
--Da polícia foges tu que andas sempre na roubalheira. Vou correr para aquecer e também para chegar depressa ao meu destino. Tenho uma missão a cumprir e se chegar tarde, tarde será para a fazer como deve ser.
--Continuas um filósofo Shane, mas a filosofia não enche a barriga. Eu quero é boa vida com muita carne. Daqui a pouco vou tentar roubar um bom naco ali no talho do homem gordo, ou então tirar do saco de alguma cliente.
--Realmente continuas o mesmo ladrão de sempre, o teu fim não vai ser bom.
--Olha parvalhão, pode não ser bom o meu fim, mas ao menos vou de barriga cheia.
--Adeus e tem juízo Tedy, vou à vida que já me atrasei.
Shane rápido em nova correria foi para a sua programada missão.
Dez minutos depois estava no local aonde queria estar presente.
Mesmo a tempo. O enorme camião estava nesse momento a chegar. Por pouco não perdia a chegada das novidades, Quem chegava cedo podia escolher as melhores mercadorias. Os mandriões tinham de se sujeitar aos restos.
Os homens do camião que eram dois, disseram um para o outro.
--Olha o cliente do costume, nunca falha.
--É verdade, é sempre o primeiro a chegar, os outros vêm mais à tarde.
Fazendo um grande estardalhaço a longa viatura descarregou a sua carga, depois os homens entraram no camião que lentamente arrancou.
--Boa sorte Shane até manhã.
Shane então rápido mas com muita concentração escolheu os artigos que lhe mais agradaram. Teve muita sorte, alimento bom e um peluche bonito cor-de-rosa foram as mercadorias escolhidas.
Agora o tempo já aquecera bastante e o Shane belo exemplar canino regressou feliz à sua casota, com um belo naco de carne e um boneco para o filho ainda cachorro brincar. Tudo adquirido, sem roubar, na estrumeira da cidade.
Yarb, 6/12/2012
Pai Natal oportunista!
A menina estava à janela do seu pequeno quarto, seu e do irmão João menino de cinco anos. A casa era da sua avó Gertrudes, uma velhinha com quase oitenta anos.
Era noite de natal, enquanto a avó fazia as filhoses e o João brincava com as molas da roupa seu brinquedo favorito, Ana foi para a janela sonhar com uma possível prenda dada pelo Pai Natal. A menina de oito anos ainda acreditava.
A noite embora muito fria estava límpida, as estrelas cintilavam na abobada celestial e a lua ria-se para Ana fazendo caretas ao mesmo tempo.
Os pais das crianças há muito que tinham partido para uma longa viagem. Isto era o que a avó dizia, mas a Ana sabia que eles não voltariam nunca, tinham falecido devido a uma epidemia que assolara a região. De toda a família só sobreviveram os dois irmãos e a avó materna. Ana nunca disse ao irmão o que sabia. Para quê fazer sofrer o rapazinho que só tinha cinco anos.
--Ana, anda para a cozinha que aqui está quentinho. Sai da janela rapariga, ainda te constipas.
--Avó, o céu está lindo, a lua está a meter-se comigo. Já vou!
--Avó, posso comer um frito?
--Ainda não João, estão muito quentes. Vem para o pé da avó.
Felizmente, aquela família embora pobre, não passava necessidades básicas. A velhota tinha alguns meios que geria com parcimónia para garantir a sobrevivência dos seus amados netos até eles poderem voar por si. Gertrudes pedia todos os dias a Deus que lhe desse anos de vida para cumprir a sua tarefa.
Alimentação e roupa as crianças tinham, mas brinquedos não, era um luxo no pensar da avó. Uns livros para eles aprenderem e pouco mais. As crianças com a sua imaginação inventavam os seus brinquedos.
Ana sonhava com uma grande boneca e o João com um trem de ferro. Brinquedos que eles viram há dias numa loja da vila quando a avó os levou ao médico para tomarem as vacinas contra a gripe.
Algum tempo após a o chamamento da velhota, Ana decidiu-se a sair da janela, mas antes deu mais uma olhadela ao céu lá para os lados do pólo norte. Subitamente reparou numa estrela cadente que atravessava o espaço na sua direcção, num passeio nunca terminado. As estrelas cadentes não funcionam assim, pensou a miúda habituada a assistir ao fenómeno.
Cada vez estava mais perto as luzes e agora já ouvia o som de muitos guizos. Confirmou que não era nenhuma estrela, mas sim um trenó todo iluminado puxado por seis grandes renas. O trenó cheio de grandes sacos era conduzido por um velhote gordo de longas barbas e vestido de verde azeitona. Ana bateu as palmas de contentamento a que se juntou o mano João. Afinal o Pai Natal sempre veio!
Ana já se via abraçada à sua boneca.
--Boa noite meninos! Que fazem ao frio?
--Estávamos à sua espera Pai Natal, mas pensávamos que chegava mais tarde.
Entretanto a avó Gertrudes juntou-se ao grupo, incrédula pelo que estava a ver.
--Trás os nossos brinquedos?
-- Não meu menino, não venho a contar convosco. Não estão na lista dos brinquedos.
A resposta do velho caiu como uma bomba, as crianças perderam a alegria e pouco faltou para começarem a chorar.
--Desci e parei na vossa casa para pedir ajuda, tenho uma rena doente, muito constipada. Precisava de um chá de limão muito quente e um comprimido forte. Minha senhora por acaso pode ajudar-me a tratar o meu animal?
--Sim Pai Natal, terei o maior prazer. Entre que vou já ferver a água. Aproveite para tomar um leite quentinho e comer umas filhoses.
O ancião aproveitou a oferta, bebeu leite de cabra e deglutiu seis filhoses, a rena com o chá de limão com mel mais um comprimido forte, recuperou da constipação. O velho preparou tudo para partir e recomeçar sua imensa tarefa.
--Obrigado minha senhora, vamos embora porque a minha rena já está boa. As filhoses estão uma maravilha. Deus há-de de lhe dar a paga. As crianças que me desculpem, mas não trago brinquedos a mais. Adeus e bom natal.
Aparelhada a rena recuperada, luzes acesas e os guizos tocando o trenó elevou-se aos poucos e desapareceu no horizonte a caminho da cidade dos ricos.
A boa anciã ficou perplexa com a atitude do Pai Natal. Ana e João chorando perderam a fé que tinham no velho das barbas brancas e cara bonacheirona.
Gertrudes abraçou e beijou os netos tentando animá-los pela decepção apanhada. Sempre sorrindo foi cantando uma canção de amor e fazendo sem parar festas às suas crianças.
--Meus queridos vamos à ceia, chamem o cão e o gato para nos fazerem companhia. Depois vamos comer filhoses e beber leitinho. A avó também tem chocolates para comermos. Ana e João lá animaram e foram para a cozinha.
Duas horas depois com a barriguinha cheia, foram todos com uma botija de água quente para cama. Mas antes a Ana perguntou à velhota.
--Avó, pomos na mesma as meias na lareira? Acha que merece a pena?
--Ponham sim queridos, pode ser que aconteça um milagre. Pode ser que o Pai Natal tenha um rebate de consciência.
Finalmente a casa ficou em silêncio, só se ouvindo o crepitar do lume na vasta lareira da cozinha.
De manhã, após o galo cantar e várias vezes tornar a cantar, Ana e João levantaram-se e ainda estremunhados foram até à cozinha. Dona Gertrudes já lá se encontrava preparando o pequeno-almoço para os netos.
Foi então que as crianças repararam nos embrulhos que estavam na lareira, dentro das meias penduradas na noite anterior numa réstia de esperança.
Uma expressão de felicidade estampou-se no rosto dos manos. Ao abrir o embrulho Ana deu pulos de alegria ao abraçar a sua boneca. Por sua vez João bateu as palmas de contente antes de pôr a funcionar o seu trem feito em ferro com todos os pormenores de uma máquina a sério.
Afinal o Pai Natal sempre se lembrara deles, assim pensou feliz a menina.
A um canto da cozinha na leve escuridão com o cão e o gato ao lado, dona Gertrudes sorria. Nunca diria a verdade aos netos, era bom manterem o mais possível a fé no Pai Natal, mesmo sendo este um oportunista.
Yarb, 11/12/2012
Dedicado ao menino Alexandre nascido em 2012!
Dedicado ao menino Alexandre nascido em 2012!
Natal, a vitória do príncipe M!
O príncipe M tinha má fama, as multidões não gostavam dele. Líder charmoso, risonho e irónico, era mesmo uma simpatia, mas não dava nada a ninguém a não ser castigos. Tinha no seu reino muitos condenados, mas a culpa não era dele, mas sim dos prevaricadores. Por sua vez o príncipe B era a antítese do outro, tinha boa fama, não dava maus tratos, embora não fosse amistoso e pouco desse aos outros.
Aproximava-se o Natal, faltava pouco mais de um mês. As crianças de todo o planeta já sonhavam com o pai natal. Os ricos tinham a certeza de terem prendas, os pobres só a esperança.
Naquele ano o príncipe M decidiu dar uma volta no mercado dos seguidores e dar uma bofetada de pelica ao príncipe B. M elaborou um plano para fazer a conquista de clientes ou seja ampliar a sua influência. Mobilizou os condenados do seu reino e deu-lhes instruções muito concretas. A tarefa era fazer milhões de brinquedos. As condenadas fêmeas ficaram com o trabalho de costurarem imensa roupa.
O mês foi muito bem aproveitado, os vastos armazéns do príncipe M ficaram a abarrotar de tudo. Eram, bonecas, soldadinhos de chumbo, carruagens, barcos e muitos outros brinquedos. Roupas eram também milhões de peças, vestidos, calças, camisolas, era um não acabar. Claro que não faltava o calçado variado.
A grande tarefa no reino de M durou um mês, terminando a dois dias do Natal. Durante a produção os condenados tiveram direito a melhor rancho e foram aliviados das torturas.
O príncipe B também deu ordens para os seus artesãos fazerem brinquedos e as costureiras roupas. Tudo em quantidade reduzida. Pensava o B ter o mercado controlado, então fez só o suficiente para manter a posição. Pensava que não teria concorrência. Sabia que o príncipe M não era dado aquelas beneficências. Mas B estava completamente enganado nesse ano. Os seus espiões não estiveram à altura e desatentos não deram por nada. Estavam todos confiantes na sua superioridade.
Na noite de Natal o príncipe B deu as ordens do costume. Levar as prendas a todas as crianças abastadas do reino, era preciso engraxar as famílias poderosas. As crianças pobres não levavam nada porque já estavam habituados.
O príncipe M deu as instruções finais aos seus condenados. Estes vestidos a rigor, montados em bichos alados partiram com grandes sacos por todo o planeta a distribuir brinquedos e roupas pelas crianças pobres.
Com esta estratégia o príncipe M derrotou em todas as frentes o príncipe B. A sua fama e prestigio subiu em flecha. Nesse ano foi o melhor Natal de sempre para os desfavorecidos.
No seu trono o príncipe M, o Diabo, sorria de prazer ao ver no outro trono o príncipe B, Deus, com umas grandes trombas pela derrota sofrida.
Yarb, 9/12/2012
Milagre de Natal!
Milagre de Natal
O jardim estava quase vazio, uma velhinha estava sentada no banco mais central junto ao denso arvoredo. Cheia de frio recordava o passado longínquo em que sentada naquele mesmo banco via os meninos e as meninas filhos de gente abastada brincarem com lindos brinquedos e vestidos a rigor, bonitas roupas e quentes. Enquanto ela, menina, tiritava de frio no seu roto vestido de chita e chinelas de pobre nos seus pequeninos pés enregelados. Era nesse distante dia, Natal, como Natal era neste dia em que ela via os meninos e meninas netos dos outros meninos e meninas de outrora, brincando com belos presentes e ainda mais vestidos a rigor. Pouco tempo lhe restava de vida, ela sabia isso. Continuava pobre como pobre sempre fora desde menina. Agora triste e saudosa recordava o filho que partira há muito para o fim do mundo. Poucas notícias recebera e dinheiro ainda menos. O dinheiro tinha dado jeito, mas as notícias eram mais importantes. Coitada não sabia ler nem escrever, precisava sempre de alguém para a ajudar, mas as pessoas são muito egoístas e ela tinha vergonha de pedir. Soube um dia que o filho morrera. Recordou o amor da sua vida, falecido prematuramente devido às agruras da vida. Então a velhinha chorou, chorou, chorou…entretanto adormeceu enregelada no banco do jardim. Sua alma preparava-se para partir… foi então que suaves toques na sua enrugada mão impediu o abalar da alma. Recobrou os sentidos, abrindo aos poucos os olhos já cansados. À sua frente uma linda menina igual à outra de há setenta anos, sorrindo, estendia-lhe uma rosa branca. --Sou eu avó! Vim de muito longe para a beijar. A menina abraçou e beijou a velhinha que feliz partiu para a eternidade. Yarb, 6/12/2012
Dedicado à menina Ana Maria, minha irmã, 1951/1953!
O jardim estava quase vazio, uma velhinha estava sentada no banco mais central junto ao denso arvoredo. Cheia de frio recordava o passado longínquo em que sentada naquele mesmo banco via os meninos e as meninas filhos de gente abastada brincarem com lindos brinquedos e vestidos a rigor, bonitas roupas e quentes. Enquanto ela, menina, tiritava de frio no seu roto vestido de chita e chinelas de pobre nos seus pequeninos pés enregelados. Era nesse distante dia, Natal, como Natal era neste dia em que ela via os meninos e meninas netos dos outros meninos e meninas de outrora, brincando com belos presentes e ainda mais vestidos a rigor. Pouco tempo lhe restava de vida, ela sabia isso. Continuava pobre como pobre sempre fora desde menina. Agora triste e saudosa recordava o filho que partira há muito para o fim do mundo. Poucas notícias recebera e dinheiro ainda menos. O dinheiro tinha dado jeito, mas as notícias eram mais importantes. Coitada não sabia ler nem escrever, precisava sempre de alguém para a ajudar, mas as pessoas são muito egoístas e ela tinha vergonha de pedir. Soube um dia que o filho morrera. Recordou o amor da sua vida, falecido prematuramente devido às agruras da vida. Então a velhinha chorou, chorou, chorou…entretanto adormeceu enregelada no banco do jardim. Sua alma preparava-se para partir… foi então que suaves toques na sua enrugada mão impediu o abalar da alma. Recobrou os sentidos, abrindo aos poucos os olhos já cansados. À sua frente uma linda menina igual à outra de há setenta anos, sorrindo, estendia-lhe uma rosa branca. --Sou eu avó! Vim de muito longe para a beijar. A menina abraçou e beijou a velhinha que feliz partiu para a eternidade. Yarb, 6/12/2012
Dedicado à menina Ana Maria, minha irmã, 1951/1953!
O Casal do lobo!
Era natal, um rapaz da cidade passeando a cavalo parou numa pequena aldeia para a montada descansar. Como era muito tarde decidiu pernoitar na pequena povoação. Curioso reparou numa casa em ruínas no cimo de um monte.
A velha casa ficava isolada da pequena aldeia cerca de quinhentos metros, ou seja dez minutos a andar bem. Ficava num pequeno cabeço, donde se avistava uma multifacetada paisagem incluindo a pequena povoação. Fora nova a habitação há mais de duzentos anos, agora não mais era que uma casa em ruínas, sem qualquer tipo de vida. Era excepção a presença de um visitante que lá pernoitava de tempos a tempos mas que ninguém via. O povo da aldeia chamava ao casebre “O Casal”.
Sim, era “O Casal do lobo”, assim chamado pelo tio António, devido à estória contada há muito pelas pessoas mais idosas do lugar. As gentes da região nunca subiam ao cabeço. Diziam que estava embruxado!
Vou tentar contar a estória conforme relato do tio António velhinho com mais de cem anos, questionado pelo rapaz da cidade que entrara na taberna.
--Tio António conte lá a sua versão da lenda do Casal do Lobo”.
--Rapaz, a minha não é versão, é a estória verdadeira. O que dizem para aí esses papalvos do bruxedo, é uma treta. Têm medo de lá ir, mas eu não! Não vou lá porque não tenho pernas para subir o monte, mas até há dez anos ia lá com regularidade. Ainda conheci uma das crianças da lenda, já com quase oitenta anos, tinha eu uns oito ou nove anos na altura.
--Ainda bem tio, já vi que vim ter com a pessoa certa. Conte, conte tio António.
O elegante velho de farta cabeleira branca, barba e bigode desgrenhados mas mais escuro que o cabelo, sorriu maliciosamente fazendo o jovem esperar. Enquanto fazia o seu cigarro de onça beberricou a sua aguardente lentamente. Estava o gozar o momento…
--Então foi assim. Há muito tempo, talvez para lá de cento e cinquenta anos vivia na casa do cabeço uma família feliz. Pai, mãe e seis filhos, o mais velho com dez anos o mais novo bebé. Um dia a desgraça bateu à porta daquela família, o pai foi à caça e não mais voltou. Dizem que foi morto pelos lobos, mas ninguém tem a certeza. A partir desse momento a vida complicou-se muito naquele lar e a miséria bateu forte naquela casa. A pobre mãe tudo fazia para sobreviver mas a luta era inglória. Faltava tudo, menos a lenha para pôr na lareira e se aquecerem. Mas lá foram sobrevivendo, muitas vezes à custa de alguma alma bondosa.
Naquela noite de Natal de há muitos anos, todos estavam à volta da fogueira comendo pão de milho e um pouco de galinha oferecida por alguém de bom coração, o lume forte dava luminosidade à divisão comum, as crianças olhavam fascinadas as labaredas e sonhavam com coisas boas, primeiro pensavam em comida, depois roupa e por fim a alegria de brinquedos. A mãe ainda jovem, e mulher que fora bonita, tinha agora as marcas do sofrimento patentes no seu rosto. Chorava em silêncio.
--Em dado momento devia ser meia-noite, sentiram arranhar na porta. Ficaram em pânico. A mãe levantou-se pronta para defender as suas crias, pegou numa tranca e foi à porta. --Quem está aí?
--Nada, a não ser um novo arranhar na madeira carunchosa da porta de entrada. A medo entreabriu uma greta, com a moca pronta para a luta. Mas que viu defronte dela?
Neste ponto da narração o tio António calou-se, olhando para o rapaz tentando perceber as suas reacções. Encheu mais um copo de aguardente e fez outro cigarro. Ficou em silêncio como a pensar como continuar. O rapaz impaciente não se conteve.
--E depois tio António?
--Calma rapaz, és novo ainda podes esperar, eu é que já não estarei cá muito tempo, mas ainda é o suficiente para acabar esta estória.
Entretanto meia aldeia rodeava o ancião e o jovem curioso. O velho de repente recomeçou a sua narrativa.
--Defronte da jovem mãe, um enorme animal arrastava-se e olhava com uma expressão de súplica, via-se que estava muito doente. Lá fora era só gelo e o pobre lobo branco estava moribundo. Condoída a mulher deixou a fera entrar. Esta arrastando-se foi para o pé da lareira. As crianças não tiveram medo e num acto de grande fraternidade deram um pouco da sua pouca ração, diga-se de passagem mais osso do que carne.
--A mãe dos miúdos fez então um chá de ervas que ela conhecia bem, todos beberam e foram para as suas enxergas. A mulher ficou junto ao lume, vigiando tudo e todos, ao mesmo tempo que recordava o seu grande amor, o pai dos seus filhos. Por fim de cansaço adormeceu!
Neste ponto o nosso tio António voltou a fazer uma pausa. Estava feliz por ter tanta gente a escutar a sua narração. Costumavam chamar-lhe louco varrido e outras coisas piores. Talvez porque o rapaz da cidade ouvia com toda a atenção, os outros levavam a estória mais a sério. Alguns velhos reclamaram.
--Oh António conta lá o resto!
Ele suspirou, um golo de aguardente e uma fumaça e continuou.
--De manhã, todos acordaram cedo para verem como estava o lobo branco, contudo o animal não estava lá mais. Ninguém entendeu como saíra a fera. Estava tão doente, e como abrira a porta? Esquisito… Depois olharam melhor para a sala comum e ficaram abestalhados! Em cima da velha mesa via-se comida e da melhor. Aos pés das enxergas roupa para todos e junto à lareira seis brinquedos sobressaíam. Mas do lobo branco nem sinal!
Novamente o velho se calou! E não parecia querer continuar! Mas depois de muita insistência ele declarou
--Na terra ninguém acreditou e declaravam que o casal estava embruxado! Mas não era bruxedo eu sei! Segundo me disse o tal velho, ainda eu era um miúdo. Em todos os anos que se seguiram e até eles serem todos adultos, aconteceu o mesmo.
--Oh tio António, isso são lérias! Aquilo não passou de bruxedo!
Assim falou o tio Rezinga sempre no contra. Depois todos partiram para casa menos o rapaz da cidade.
--Tio António, está tudo dito?
--És esperto jovem, não contei tudo a estes paspalhões. Se me levares a cavalo anda comigo ao Casal do lobo.
E foram, perto das ruínas esconderam-se atrás de um penedo. Por volta da meia-noite começaram a ver a claridade da lareira e a ouvir uma algazarra de crianças. Para o espanto do rapaz da cidade, um grande lobo branco arrastou-se até á porta da casa arranhando a madeira. A porta abriu-se e o lobo entrou!
Yarb, 7/12/2012
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