terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Shane vai ao mercado!

Shane vai ao mercado! Shane saiu naquela manhã da sua casota com destino pensado. Estava bastante frio, mas o belo macho deu uma corrida para aquecer. Distraído, por pouco não foi atropelado por um automóvel de luxo que passava a cem à hora. O bruto Tedy encostado a um largo portão riu-se do amigo e disse na galhofa. --Então amigão queres ser passado a ferro logo pela manhã? Se calhar vais a fugir da bófia. --Da polícia foges tu que andas sempre na roubalheira. Vou correr para aquecer e também para chegar depressa ao meu destino. Tenho uma missão a cumprir e se chegar tarde, tarde será para a fazer como deve ser. --Continuas um filósofo Shane, mas a filosofia não enche a barriga. Eu quero é boa vida com muita carne. Daqui a pouco vou tentar roubar um bom naco ali no talho do homem gordo, ou então tirar do saco de alguma cliente. --Realmente continuas o mesmo ladrão de sempre, o teu fim não vai ser bom. --Olha parvalhão, pode não ser bom o meu fim, mas ao menos vou de barriga cheia. --Adeus e tem juízo Tedy, vou à vida que já me atrasei. Shane rápido em nova correria foi para a sua programada missão. Dez minutos depois estava no local aonde queria estar presente. Mesmo a tempo. O enorme camião estava nesse momento a chegar. Por pouco não perdia a chegada das novidades, Quem chegava cedo podia escolher as melhores mercadorias. Os mandriões tinham de se sujeitar aos restos. Os homens do camião que eram dois, disseram um para o outro. --Olha o cliente do costume, nunca falha. --É verdade, é sempre o primeiro a chegar, os outros vêm mais à tarde. Fazendo um grande estardalhaço a longa viatura descarregou a sua carga, depois os homens entraram no camião que lentamente arrancou. --Boa sorte Shane até manhã. Shane então rápido mas com muita concentração escolheu os artigos que lhe mais agradaram. Teve muita sorte, alimento bom e um peluche bonito cor-de-rosa foram as mercadorias escolhidas. Agora o tempo já aquecera bastante e o Shane belo exemplar canino regressou feliz à sua casota, com um belo naco de carne e um boneco para o filho ainda cachorro brincar. Tudo adquirido, sem roubar, na estrumeira da cidade. Yarb, 6/12/2012

Pai Natal oportunista!

A menina estava à janela do seu pequeno quarto, seu e do irmão João menino de cinco anos. A casa era da sua avó Gertrudes, uma velhinha com quase oitenta anos. Era noite de natal, enquanto a avó fazia as filhoses e o João brincava com as molas da roupa seu brinquedo favorito, Ana foi para a janela sonhar com uma possível prenda dada pelo Pai Natal. A menina de oito anos ainda acreditava. A noite embora muito fria estava límpida, as estrelas cintilavam na abobada celestial e a lua ria-se para Ana fazendo caretas ao mesmo tempo. Os pais das crianças há muito que tinham partido para uma longa viagem. Isto era o que a avó dizia, mas a Ana sabia que eles não voltariam nunca, tinham falecido devido a uma epidemia que assolara a região. De toda a família só sobreviveram os dois irmãos e a avó materna. Ana nunca disse ao irmão o que sabia. Para quê fazer sofrer o rapazinho que só tinha cinco anos. --Ana, anda para a cozinha que aqui está quentinho. Sai da janela rapariga, ainda te constipas. --Avó, o céu está lindo, a lua está a meter-se comigo. Já vou! --Avó, posso comer um frito? --Ainda não João, estão muito quentes. Vem para o pé da avó. Felizmente, aquela família embora pobre, não passava necessidades básicas. A velhota tinha alguns meios que geria com parcimónia para garantir a sobrevivência dos seus amados netos até eles poderem voar por si. Gertrudes pedia todos os dias a Deus que lhe desse anos de vida para cumprir a sua tarefa. Alimentação e roupa as crianças tinham, mas brinquedos não, era um luxo no pensar da avó. Uns livros para eles aprenderem e pouco mais. As crianças com a sua imaginação inventavam os seus brinquedos. Ana sonhava com uma grande boneca e o João com um trem de ferro. Brinquedos que eles viram há dias numa loja da vila quando a avó os levou ao médico para tomarem as vacinas contra a gripe. Algum tempo após a o chamamento da velhota, Ana decidiu-se a sair da janela, mas antes deu mais uma olhadela ao céu lá para os lados do pólo norte. Subitamente reparou numa estrela cadente que atravessava o espaço na sua direcção, num passeio nunca terminado. As estrelas cadentes não funcionam assim, pensou a miúda habituada a assistir ao fenómeno. Cada vez estava mais perto as luzes e agora já ouvia o som de muitos guizos. Confirmou que não era nenhuma estrela, mas sim um trenó todo iluminado puxado por seis grandes renas. O trenó cheio de grandes sacos era conduzido por um velhote gordo de longas barbas e vestido de verde azeitona. Ana bateu as palmas de contentamento a que se juntou o mano João. Afinal o Pai Natal sempre veio! Ana já se via abraçada à sua boneca. --Boa noite meninos! Que fazem ao frio? --Estávamos à sua espera Pai Natal, mas pensávamos que chegava mais tarde. Entretanto a avó Gertrudes juntou-se ao grupo, incrédula pelo que estava a ver. --Trás os nossos brinquedos? -- Não meu menino, não venho a contar convosco. Não estão na lista dos brinquedos. A resposta do velho caiu como uma bomba, as crianças perderam a alegria e pouco faltou para começarem a chorar. --Desci e parei na vossa casa para pedir ajuda, tenho uma rena doente, muito constipada. Precisava de um chá de limão muito quente e um comprimido forte. Minha senhora por acaso pode ajudar-me a tratar o meu animal? --Sim Pai Natal, terei o maior prazer. Entre que vou já ferver a água. Aproveite para tomar um leite quentinho e comer umas filhoses. O ancião aproveitou a oferta, bebeu leite de cabra e deglutiu seis filhoses, a rena com o chá de limão com mel mais um comprimido forte, recuperou da constipação. O velho preparou tudo para partir e recomeçar sua imensa tarefa. --Obrigado minha senhora, vamos embora porque a minha rena já está boa. As filhoses estão uma maravilha. Deus há-de de lhe dar a paga. As crianças que me desculpem, mas não trago brinquedos a mais. Adeus e bom natal. Aparelhada a rena recuperada, luzes acesas e os guizos tocando o trenó elevou-se aos poucos e desapareceu no horizonte a caminho da cidade dos ricos. A boa anciã ficou perplexa com a atitude do Pai Natal. Ana e João chorando perderam a fé que tinham no velho das barbas brancas e cara bonacheirona. Gertrudes abraçou e beijou os netos tentando animá-los pela decepção apanhada. Sempre sorrindo foi cantando uma canção de amor e fazendo sem parar festas às suas crianças. --Meus queridos vamos à ceia, chamem o cão e o gato para nos fazerem companhia. Depois vamos comer filhoses e beber leitinho. A avó também tem chocolates para comermos. Ana e João lá animaram e foram para a cozinha. Duas horas depois com a barriguinha cheia, foram todos com uma botija de água quente para cama. Mas antes a Ana perguntou à velhota. --Avó, pomos na mesma as meias na lareira? Acha que merece a pena? --Ponham sim queridos, pode ser que aconteça um milagre. Pode ser que o Pai Natal tenha um rebate de consciência. Finalmente a casa ficou em silêncio, só se ouvindo o crepitar do lume na vasta lareira da cozinha. De manhã, após o galo cantar e várias vezes tornar a cantar, Ana e João levantaram-se e ainda estremunhados foram até à cozinha. Dona Gertrudes já lá se encontrava preparando o pequeno-almoço para os netos. Foi então que as crianças repararam nos embrulhos que estavam na lareira, dentro das meias penduradas na noite anterior numa réstia de esperança. Uma expressão de felicidade estampou-se no rosto dos manos. Ao abrir o embrulho Ana deu pulos de alegria ao abraçar a sua boneca. Por sua vez João bateu as palmas de contente antes de pôr a funcionar o seu trem feito em ferro com todos os pormenores de uma máquina a sério. Afinal o Pai Natal sempre se lembrara deles, assim pensou feliz a menina. A um canto da cozinha na leve escuridão com o cão e o gato ao lado, dona Gertrudes sorria. Nunca diria a verdade aos netos, era bom manterem o mais possível a fé no Pai Natal, mesmo sendo este um oportunista. Yarb, 11/12/2012
Dedicado ao menino Alexandre nascido em 2012!

Natal, a vitória do príncipe M!

O príncipe M tinha má fama, as multidões não gostavam dele. Líder charmoso, risonho e irónico, era mesmo uma simpatia, mas não dava nada a ninguém a não ser castigos. Tinha no seu reino muitos condenados, mas a culpa não era dele, mas sim dos prevaricadores. Por sua vez o príncipe B era a antítese do outro, tinha boa fama, não dava maus tratos, embora não fosse amistoso e pouco desse aos outros. Aproximava-se o Natal, faltava pouco mais de um mês. As crianças de todo o planeta já sonhavam com o pai natal. Os ricos tinham a certeza de terem prendas, os pobres só a esperança. Naquele ano o príncipe M decidiu dar uma volta no mercado dos seguidores e dar uma bofetada de pelica ao príncipe B. M elaborou um plano para fazer a conquista de clientes ou seja ampliar a sua influência. Mobilizou os condenados do seu reino e deu-lhes instruções muito concretas. A tarefa era fazer milhões de brinquedos. As condenadas fêmeas ficaram com o trabalho de costurarem imensa roupa. O mês foi muito bem aproveitado, os vastos armazéns do príncipe M ficaram a abarrotar de tudo. Eram, bonecas, soldadinhos de chumbo, carruagens, barcos e muitos outros brinquedos. Roupas eram também milhões de peças, vestidos, calças, camisolas, era um não acabar. Claro que não faltava o calçado variado. A grande tarefa no reino de M durou um mês, terminando a dois dias do Natal. Durante a produção os condenados tiveram direito a melhor rancho e foram aliviados das torturas. O príncipe B também deu ordens para os seus artesãos fazerem brinquedos e as costureiras roupas. Tudo em quantidade reduzida. Pensava o B ter o mercado controlado, então fez só o suficiente para manter a posição. Pensava que não teria concorrência. Sabia que o príncipe M não era dado aquelas beneficências. Mas B estava completamente enganado nesse ano. Os seus espiões não estiveram à altura e desatentos não deram por nada. Estavam todos confiantes na sua superioridade. Na noite de Natal o príncipe B deu as ordens do costume. Levar as prendas a todas as crianças abastadas do reino, era preciso engraxar as famílias poderosas. As crianças pobres não levavam nada porque já estavam habituados. O príncipe M deu as instruções finais aos seus condenados. Estes vestidos a rigor, montados em bichos alados partiram com grandes sacos por todo o planeta a distribuir brinquedos e roupas pelas crianças pobres. Com esta estratégia o príncipe M derrotou em todas as frentes o príncipe B. A sua fama e prestigio subiu em flecha. Nesse ano foi o melhor Natal de sempre para os desfavorecidos. No seu trono o príncipe M, o Diabo, sorria de prazer ao ver no outro trono o príncipe B, Deus, com umas grandes trombas pela derrota sofrida. Yarb, 9/12/2012

Milagre de Natal!

Milagre de Natal
O jardim estava quase vazio, uma velhinha estava sentada no banco mais central junto ao denso arvoredo. Cheia de frio recordava o passado longínquo em que sentada naquele mesmo banco via os meninos e as meninas filhos de gente abastada brincarem com lindos brinquedos e vestidos a rigor, bonitas roupas e quentes. Enquanto ela, menina, tiritava de frio no seu roto vestido de chita e chinelas de pobre nos seus pequeninos pés enregelados. Era nesse distante dia, Natal, como Natal era neste dia em que ela via os meninos e meninas netos dos outros meninos e meninas de outrora, brincando com belos presentes e ainda mais vestidos a rigor. Pouco tempo lhe restava de vida, ela sabia isso. Continuava pobre como pobre sempre fora desde menina. Agora triste e saudosa recordava o filho que partira há muito para o fim do mundo. Poucas notícias recebera e dinheiro ainda menos. O dinheiro tinha dado jeito, mas as notícias eram mais importantes. Coitada não sabia ler nem escrever, precisava sempre de alguém para a ajudar, mas as pessoas são muito egoístas e ela tinha vergonha de pedir. Soube um dia que o filho morrera. Recordou o amor da sua vida, falecido prematuramente devido às agruras da vida. Então a velhinha chorou, chorou, chorou…entretanto adormeceu enregelada no banco do jardim. Sua alma preparava-se para partir… foi então que suaves toques na sua enrugada mão impediu o abalar da alma. Recobrou os sentidos, abrindo aos poucos os olhos já cansados. À sua frente uma linda menina igual à outra de há setenta anos, sorrindo, estendia-lhe uma rosa branca. --Sou eu avó! Vim de muito longe para a beijar. A menina abraçou e beijou a velhinha que feliz partiu para a eternidade. Yarb, 6/12/2012
Dedicado à menina Ana Maria, minha irmã, 1951/1953!

O Casal do lobo!

Era natal, um rapaz da cidade passeando a cavalo parou numa pequena aldeia para a montada descansar. Como era muito tarde decidiu pernoitar na pequena povoação. Curioso reparou numa casa em ruínas no cimo de um monte. A velha casa ficava isolada da pequena aldeia cerca de quinhentos metros, ou seja dez minutos a andar bem. Ficava num pequeno cabeço, donde se avistava uma multifacetada paisagem incluindo a pequena povoação. Fora nova a habitação há mais de duzentos anos, agora não mais era que uma casa em ruínas, sem qualquer tipo de vida. Era excepção a presença de um visitante que lá pernoitava de tempos a tempos mas que ninguém via. O povo da aldeia chamava ao casebre “O Casal”. Sim, era “O Casal do lobo”, assim chamado pelo tio António, devido à estória contada há muito pelas pessoas mais idosas do lugar. As gentes da região nunca subiam ao cabeço. Diziam que estava embruxado! Vou tentar contar a estória conforme relato do tio António velhinho com mais de cem anos, questionado pelo rapaz da cidade que entrara na taberna. --Tio António conte lá a sua versão da lenda do Casal do Lobo”. --Rapaz, a minha não é versão, é a estória verdadeira. O que dizem para aí esses papalvos do bruxedo, é uma treta. Têm medo de lá ir, mas eu não! Não vou lá porque não tenho pernas para subir o monte, mas até há dez anos ia lá com regularidade. Ainda conheci uma das crianças da lenda, já com quase oitenta anos, tinha eu uns oito ou nove anos na altura. --Ainda bem tio, já vi que vim ter com a pessoa certa. Conte, conte tio António. O elegante velho de farta cabeleira branca, barba e bigode desgrenhados mas mais escuro que o cabelo, sorriu maliciosamente fazendo o jovem esperar. Enquanto fazia o seu cigarro de onça beberricou a sua aguardente lentamente. Estava o gozar o momento… --Então foi assim. Há muito tempo, talvez para lá de cento e cinquenta anos vivia na casa do cabeço uma família feliz. Pai, mãe e seis filhos, o mais velho com dez anos o mais novo bebé. Um dia a desgraça bateu à porta daquela família, o pai foi à caça e não mais voltou. Dizem que foi morto pelos lobos, mas ninguém tem a certeza. A partir desse momento a vida complicou-se muito naquele lar e a miséria bateu forte naquela casa. A pobre mãe tudo fazia para sobreviver mas a luta era inglória. Faltava tudo, menos a lenha para pôr na lareira e se aquecerem. Mas lá foram sobrevivendo, muitas vezes à custa de alguma alma bondosa. Naquela noite de Natal de há muitos anos, todos estavam à volta da fogueira comendo pão de milho e um pouco de galinha oferecida por alguém de bom coração, o lume forte dava luminosidade à divisão comum, as crianças olhavam fascinadas as labaredas e sonhavam com coisas boas, primeiro pensavam em comida, depois roupa e por fim a alegria de brinquedos. A mãe ainda jovem, e mulher que fora bonita, tinha agora as marcas do sofrimento patentes no seu rosto. Chorava em silêncio. --Em dado momento devia ser meia-noite, sentiram arranhar na porta. Ficaram em pânico. A mãe levantou-se pronta para defender as suas crias, pegou numa tranca e foi à porta. --Quem está aí? --Nada, a não ser um novo arranhar na madeira carunchosa da porta de entrada. A medo entreabriu uma greta, com a moca pronta para a luta. Mas que viu defronte dela? Neste ponto da narração o tio António calou-se, olhando para o rapaz tentando perceber as suas reacções. Encheu mais um copo de aguardente e fez outro cigarro. Ficou em silêncio como a pensar como continuar. O rapaz impaciente não se conteve. --E depois tio António? --Calma rapaz, és novo ainda podes esperar, eu é que já não estarei cá muito tempo, mas ainda é o suficiente para acabar esta estória. Entretanto meia aldeia rodeava o ancião e o jovem curioso. O velho de repente recomeçou a sua narrativa. --Defronte da jovem mãe, um enorme animal arrastava-se e olhava com uma expressão de súplica, via-se que estava muito doente. Lá fora era só gelo e o pobre lobo branco estava moribundo. Condoída a mulher deixou a fera entrar. Esta arrastando-se foi para o pé da lareira. As crianças não tiveram medo e num acto de grande fraternidade deram um pouco da sua pouca ração, diga-se de passagem mais osso do que carne. --A mãe dos miúdos fez então um chá de ervas que ela conhecia bem, todos beberam e foram para as suas enxergas. A mulher ficou junto ao lume, vigiando tudo e todos, ao mesmo tempo que recordava o seu grande amor, o pai dos seus filhos. Por fim de cansaço adormeceu! Neste ponto o nosso tio António voltou a fazer uma pausa. Estava feliz por ter tanta gente a escutar a sua narração. Costumavam chamar-lhe louco varrido e outras coisas piores. Talvez porque o rapaz da cidade ouvia com toda a atenção, os outros levavam a estória mais a sério. Alguns velhos reclamaram. --Oh António conta lá o resto! Ele suspirou, um golo de aguardente e uma fumaça e continuou. --De manhã, todos acordaram cedo para verem como estava o lobo branco, contudo o animal não estava lá mais. Ninguém entendeu como saíra a fera. Estava tão doente, e como abrira a porta? Esquisito… Depois olharam melhor para a sala comum e ficaram abestalhados! Em cima da velha mesa via-se comida e da melhor. Aos pés das enxergas roupa para todos e junto à lareira seis brinquedos sobressaíam. Mas do lobo branco nem sinal! Novamente o velho se calou! E não parecia querer continuar! Mas depois de muita insistência ele declarou --Na terra ninguém acreditou e declaravam que o casal estava embruxado! Mas não era bruxedo eu sei! Segundo me disse o tal velho, ainda eu era um miúdo. Em todos os anos que se seguiram e até eles serem todos adultos, aconteceu o mesmo. --Oh tio António, isso são lérias! Aquilo não passou de bruxedo! Assim falou o tio Rezinga sempre no contra. Depois todos partiram para casa menos o rapaz da cidade. --Tio António, está tudo dito? --És esperto jovem, não contei tudo a estes paspalhões. Se me levares a cavalo anda comigo ao Casal do lobo. E foram, perto das ruínas esconderam-se atrás de um penedo. Por volta da meia-noite começaram a ver a claridade da lareira e a ouvir uma algazarra de crianças. Para o espanto do rapaz da cidade, um grande lobo branco arrastou-se até á porta da casa arranhando a madeira. A porta abriu-se e o lobo entrou! Yarb, 7/12/2012

O rio da minha aldeia!

O rio da minha aldeia não é rio é ribeira, lá mais acima não é ribeira é riacho, um pouco antes só fio de água cristalina onde só navegam barcos de papel, mas o rio da minha aldeia que nem rio chega a ser tem nome de rio, ao fugir da minha aldeia passa a rio mas deixa de ter nome de rio passa a ter nome importante, vaidoso vai para o mar mas nunca lá chegará, o rio da minha aldeia que ao lá passar não é rio mas ribeira com nome de rio, morre na areia e deixa de ser rio o rio da minha aldeia. Bray, 21/10/2011

Vento do Oeste!

Vento do Oeste!

Vento do Oeste; acaricia meu rosto, aquece meu coração, purifica minha alma. Vento do Oeste; leva-me flutuando entre a terra e a lua aos plátanos da minha infância. Vento do Oeste; sopra com ternura e leva-me a ver as coisas belas da tua zona minha pátria. Vento do Oeste; leva-me ao carvalhal, ao bombarral, ao vimeiro, ao montejunto, corujeira, vilar, vilanova, cadaval, tojeira e mais lugares sagrados. Vento do Oeste; leva-me nas tuas asas, por serras, vales e rios à minha aldeia, local do meu nascimento. Vento do Oeste; leva-me a ver o moinho, a ponte, a fonte, a capela, o rio, e tudo o que a minha memória arrecadou. Vento do Oeste; leva-me a ver quem amei e não esqueci. Vento do Oeste; leva-me a ver as vinhas, pereiras, macieiras e figueiras que mataram a minha fome quando menino. Vento do Oeste; leva-me a ver os entes queridos que já partiram desta vida, mãe, irmã, primos, tios, padrinho e avós. Vento do Oeste; leva-me a ver os animais que amei, em especial o Tejo, cão grande, amarelo e pachorrento. Vento do Oeste; leva-me a ver as minhas memórias de menino pobre e abandonado. Vento do Oeste; suaviza minha alma e leva-me a ver a minha campa no cemitério!

ZM 9/4/2012