terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O Casal do lobo!

Era natal, um rapaz da cidade passeando a cavalo parou numa pequena aldeia para a montada descansar. Como era muito tarde decidiu pernoitar na pequena povoação. Curioso reparou numa casa em ruínas no cimo de um monte. A velha casa ficava isolada da pequena aldeia cerca de quinhentos metros, ou seja dez minutos a andar bem. Ficava num pequeno cabeço, donde se avistava uma multifacetada paisagem incluindo a pequena povoação. Fora nova a habitação há mais de duzentos anos, agora não mais era que uma casa em ruínas, sem qualquer tipo de vida. Era excepção a presença de um visitante que lá pernoitava de tempos a tempos mas que ninguém via. O povo da aldeia chamava ao casebre “O Casal”. Sim, era “O Casal do lobo”, assim chamado pelo tio António, devido à estória contada há muito pelas pessoas mais idosas do lugar. As gentes da região nunca subiam ao cabeço. Diziam que estava embruxado! Vou tentar contar a estória conforme relato do tio António velhinho com mais de cem anos, questionado pelo rapaz da cidade que entrara na taberna. --Tio António conte lá a sua versão da lenda do Casal do Lobo”. --Rapaz, a minha não é versão, é a estória verdadeira. O que dizem para aí esses papalvos do bruxedo, é uma treta. Têm medo de lá ir, mas eu não! Não vou lá porque não tenho pernas para subir o monte, mas até há dez anos ia lá com regularidade. Ainda conheci uma das crianças da lenda, já com quase oitenta anos, tinha eu uns oito ou nove anos na altura. --Ainda bem tio, já vi que vim ter com a pessoa certa. Conte, conte tio António. O elegante velho de farta cabeleira branca, barba e bigode desgrenhados mas mais escuro que o cabelo, sorriu maliciosamente fazendo o jovem esperar. Enquanto fazia o seu cigarro de onça beberricou a sua aguardente lentamente. Estava o gozar o momento… --Então foi assim. Há muito tempo, talvez para lá de cento e cinquenta anos vivia na casa do cabeço uma família feliz. Pai, mãe e seis filhos, o mais velho com dez anos o mais novo bebé. Um dia a desgraça bateu à porta daquela família, o pai foi à caça e não mais voltou. Dizem que foi morto pelos lobos, mas ninguém tem a certeza. A partir desse momento a vida complicou-se muito naquele lar e a miséria bateu forte naquela casa. A pobre mãe tudo fazia para sobreviver mas a luta era inglória. Faltava tudo, menos a lenha para pôr na lareira e se aquecerem. Mas lá foram sobrevivendo, muitas vezes à custa de alguma alma bondosa. Naquela noite de Natal de há muitos anos, todos estavam à volta da fogueira comendo pão de milho e um pouco de galinha oferecida por alguém de bom coração, o lume forte dava luminosidade à divisão comum, as crianças olhavam fascinadas as labaredas e sonhavam com coisas boas, primeiro pensavam em comida, depois roupa e por fim a alegria de brinquedos. A mãe ainda jovem, e mulher que fora bonita, tinha agora as marcas do sofrimento patentes no seu rosto. Chorava em silêncio. --Em dado momento devia ser meia-noite, sentiram arranhar na porta. Ficaram em pânico. A mãe levantou-se pronta para defender as suas crias, pegou numa tranca e foi à porta. --Quem está aí? --Nada, a não ser um novo arranhar na madeira carunchosa da porta de entrada. A medo entreabriu uma greta, com a moca pronta para a luta. Mas que viu defronte dela? Neste ponto da narração o tio António calou-se, olhando para o rapaz tentando perceber as suas reacções. Encheu mais um copo de aguardente e fez outro cigarro. Ficou em silêncio como a pensar como continuar. O rapaz impaciente não se conteve. --E depois tio António? --Calma rapaz, és novo ainda podes esperar, eu é que já não estarei cá muito tempo, mas ainda é o suficiente para acabar esta estória. Entretanto meia aldeia rodeava o ancião e o jovem curioso. O velho de repente recomeçou a sua narrativa. --Defronte da jovem mãe, um enorme animal arrastava-se e olhava com uma expressão de súplica, via-se que estava muito doente. Lá fora era só gelo e o pobre lobo branco estava moribundo. Condoída a mulher deixou a fera entrar. Esta arrastando-se foi para o pé da lareira. As crianças não tiveram medo e num acto de grande fraternidade deram um pouco da sua pouca ração, diga-se de passagem mais osso do que carne. --A mãe dos miúdos fez então um chá de ervas que ela conhecia bem, todos beberam e foram para as suas enxergas. A mulher ficou junto ao lume, vigiando tudo e todos, ao mesmo tempo que recordava o seu grande amor, o pai dos seus filhos. Por fim de cansaço adormeceu! Neste ponto o nosso tio António voltou a fazer uma pausa. Estava feliz por ter tanta gente a escutar a sua narração. Costumavam chamar-lhe louco varrido e outras coisas piores. Talvez porque o rapaz da cidade ouvia com toda a atenção, os outros levavam a estória mais a sério. Alguns velhos reclamaram. --Oh António conta lá o resto! Ele suspirou, um golo de aguardente e uma fumaça e continuou. --De manhã, todos acordaram cedo para verem como estava o lobo branco, contudo o animal não estava lá mais. Ninguém entendeu como saíra a fera. Estava tão doente, e como abrira a porta? Esquisito… Depois olharam melhor para a sala comum e ficaram abestalhados! Em cima da velha mesa via-se comida e da melhor. Aos pés das enxergas roupa para todos e junto à lareira seis brinquedos sobressaíam. Mas do lobo branco nem sinal! Novamente o velho se calou! E não parecia querer continuar! Mas depois de muita insistência ele declarou --Na terra ninguém acreditou e declaravam que o casal estava embruxado! Mas não era bruxedo eu sei! Segundo me disse o tal velho, ainda eu era um miúdo. Em todos os anos que se seguiram e até eles serem todos adultos, aconteceu o mesmo. --Oh tio António, isso são lérias! Aquilo não passou de bruxedo! Assim falou o tio Rezinga sempre no contra. Depois todos partiram para casa menos o rapaz da cidade. --Tio António, está tudo dito? --És esperto jovem, não contei tudo a estes paspalhões. Se me levares a cavalo anda comigo ao Casal do lobo. E foram, perto das ruínas esconderam-se atrás de um penedo. Por volta da meia-noite começaram a ver a claridade da lareira e a ouvir uma algazarra de crianças. Para o espanto do rapaz da cidade, um grande lobo branco arrastou-se até á porta da casa arranhando a madeira. A porta abriu-se e o lobo entrou! Yarb, 7/12/2012

O rio da minha aldeia!

O rio da minha aldeia não é rio é ribeira, lá mais acima não é ribeira é riacho, um pouco antes só fio de água cristalina onde só navegam barcos de papel, mas o rio da minha aldeia que nem rio chega a ser tem nome de rio, ao fugir da minha aldeia passa a rio mas deixa de ter nome de rio passa a ter nome importante, vaidoso vai para o mar mas nunca lá chegará, o rio da minha aldeia que ao lá passar não é rio mas ribeira com nome de rio, morre na areia e deixa de ser rio o rio da minha aldeia. Bray, 21/10/2011

Vento do Oeste!

Vento do Oeste!

Vento do Oeste; acaricia meu rosto, aquece meu coração, purifica minha alma. Vento do Oeste; leva-me flutuando entre a terra e a lua aos plátanos da minha infância. Vento do Oeste; sopra com ternura e leva-me a ver as coisas belas da tua zona minha pátria. Vento do Oeste; leva-me ao carvalhal, ao bombarral, ao vimeiro, ao montejunto, corujeira, vilar, vilanova, cadaval, tojeira e mais lugares sagrados. Vento do Oeste; leva-me nas tuas asas, por serras, vales e rios à minha aldeia, local do meu nascimento. Vento do Oeste; leva-me a ver o moinho, a ponte, a fonte, a capela, o rio, e tudo o que a minha memória arrecadou. Vento do Oeste; leva-me a ver quem amei e não esqueci. Vento do Oeste; leva-me a ver as vinhas, pereiras, macieiras e figueiras que mataram a minha fome quando menino. Vento do Oeste; leva-me a ver os entes queridos que já partiram desta vida, mãe, irmã, primos, tios, padrinho e avós. Vento do Oeste; leva-me a ver os animais que amei, em especial o Tejo, cão grande, amarelo e pachorrento. Vento do Oeste; leva-me a ver as minhas memórias de menino pobre e abandonado. Vento do Oeste; suaviza minha alma e leva-me a ver a minha campa no cemitério!

ZM 9/4/2012






A morte da caneta!



Esta elegante caneta está a chegar ao seu destino final, mais palavra menos palavra e a razão da sua existência terminará, ou seja morrerá a sua alma. Mas enquanto tiver tinta ela cumprirá a sua missão. O Deus que é o ser que a manobra tem de estar à altura da alma desta moribunda esferográfica de seu nome BIC. Vai partir sem fama nem glória, mas mesmo que a escrita seja sublime, ninguém irá dar elogios à nobre caneta que tal tinta tem, melhor tinha. Mas ela vai resistindo como se o fim não estivesse perto. Não chora, não geme, nem reza ao seu Deus para que a não deixe partir. Ela vai-se findar, mas vai fazê-lo com toda a dignidade, mostrando ao mundo das canetas quanto gloriosa foi a sua existência e como cumpriu a sua missão de caneta. Enquanto outras, muitas outras, uma quantidade sem fim ficam eternamente infecundas, ao ponto da sua alma secar sem dar nada ao mundo. A agonia continua e ela não se queixa, o esvaziar não pára e ela continua na sua viagem até ao fim como se o seu destino fosse algo sagrado para o seu corpo, no futuro inútil e sem ideias. Caneta que tem direito a um poema final de consagração devido à sua partida para o mundo do nada, mas que a sua alma negra neste caso deixou no quadriculado deste caderno, que a aceitou e acariciou com a delicadeza do seu epiderme de papel reciclado a caneta que foi amada. Também amou com o negro da sua tinta, da sua alma e da ponta do seu corpo, estas folhas com imenso carinho, fazendo amor puro e sem complexos nem ciúmes.

Caneta que vais morrer
Negra é tua alma
Negra de pureza
Em corpo transparente
Inútil no partir, útil no parir
De pura alma negra
Palavras são teu valor
Palavras teu testamento
Céu, purgatório ou inferno?
Nada, nada e nada!
No seu adeus,
Esta caneta moribunda,
Está acima de Deus!

Caneta não está feliz, porque o poema não reproduz o seu viver. Caneta não está feliz, ansiava por igualdade para todas as outras canetas, que nada têm mas nada fazem para ter. No aproximar do seu fim está feliz porque ao morrer sente no corpo a mão do seu Deus que afinal foi o seu mentor e o seu amante que a entregou ao papel num acto de sacrifício mas de muito prazer e desprendimento intelectual. Caneta, sua alma, papel e mão de Deus, amaram através de muitas páginas de aventuras sem fim em verso e prosa. Prazer infinito dos filhos paridos pela alma negra desta caneta que parte para a eternidade com a certeza do dever cumprido.
Bray 4/5/2012
Ao verificar que a minha caneta estava a chegar ao fim apeteceu-me escrever-lhe este requiem de despedida.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Xadrez - Nacionais de Jovens e Veteranos

Ao analisar o calendário para a época 2012/13, algo me chamou a atenção. Vou falar de duas situações, os nacionais de jovens e do nacional de veteranos. Porque razão os jovens vão jogar os seus nacionais em fins de Julho princípios de Agosto? Deve haver uma razão válida senão é uma tolice! No passado fez-se essa tentativa e verificou-se ser um erro. Dificuldade nos alojamentos, custos mais elevados e famílias em férias, eram os maiores óbice. No período da Páscoa a rapaziada está disponível, sem preocupações ainda de exames. Os custos de alojamento são mais baixos e a oferta é maior! Então porque mudar? Há uma razão válida? Ou será mais uma ideia brilhante de um esperto? Segundo me disseram, os veteranos não querem jogar ao mesmo tempo e no mesmo local que os jovens. Os argumentos dos velhinhos, são no mínimo ridículos. Mas será que todos pensam assim? Eu não, sinto-me muito feliz em estar perto de tanta alegria, tanto desejo de viver. Queixam-se os idosos do descanso e da comida. Tretas! Só tretas! Vejamos os últimos nacionais, disputados no Praia Golfe. Nunca as condições foram tão boas, seja nas instalações, seja na comida. Quanto à sala de competição, essa sim como convinha longe da confusão, com todas as condições. Esta sem dúvida uma excelente sala certificada para a competição. A alimentação era bufete variado e de qualidade, ainda para mais, para quem não deve exagerar na pançada. Faço a pergunta final. Será que os veteranos não são um grupo etário? Então porque jogar noutras datas e separados dos outros grupos etários? Ainda tenho de lembrar a vantagem para certos clubes ou associações, nas diversas sinergias. Não digo quais, deixam ao vosso raciocínio! José Bray, 1/11/2012

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Xadrez - Algumas Considerações

Vou fazer algumas considerações sem intenção de deitar abaixo ou magoar quem quer que seja. Contudo penso serem oportunas. A primeira prende-se com as condições nas salas onde se realizam as provas. Há muito que insisto e chamo a atenção para esta problemática. Uma sala de competição no xadrez tem de ter boa luz (não pode estar na penumbra), o silêncio tem de ser total (como numa Biblioteca). A sala tem de ter a dimensão em função do número de tabuleiros em competição, espaço para as mesas, cadeiras e corredores de acesso e espaço para público. As mesas têm de ter as dimensões com parâmetros correctos, comprimento, largura e altura. As cadeiras devem ser confortáveis e obedecer à altura das mesas. Tem de haver casas de banho perto das salas. Meus senhores não sejam permissivos, sejam exigentes. As salas devem ser certificadas para a competição! Segunda consideração nada tem a ver com a primeira. Na minha opinião um evento de xadrez repetido em clube ou terra, não tem razão de ser se em simultâneo não houver um clube com xadrez organizado. Não faz sentido haver uma ou duas provas anuais em dado local e não existir lá uma secção de xadrez. Temos o exemplo da Lourinhã, excelente Festival de xadrez, nasceu e morreu sem o prometido Clube aparecer. Ouvi da boca do presidente da Câmara local que o Clube e o ensino iam ser uma realidade. Mas não foram! Temos também o exemplo da Cela Nova com torneios há muitos anos. E o Clube de xadrez onde está? Agora temos a Charneca - Pombal, iniciativas constantes. E Clube? Muitos outros casos haverá por este país fora. Meus amigos, um torneio que se repita em clube ou terra, dois ou três anos deve a partir daí ter um Clube ou secção de xadrez. Claro que não me refiro a eventos especiais com patrocinadores especiais, daqueles a armar ao prestigio de quem paga. Eu posso pagar para fazer um torneio no cimo do Montejunto e lá como é óbvio não irá nascer um Clube de xadrez. A terceira consideração que se prende com a segunda é o caso do xadrez nas Escolas. Se há xadrez na Escola, deve haver Clube, seja na Escola ou na comunidade civil. Isto parece-me da mais elementar lógica! A quarta consideração parece-me pertinente. Não quero ferir ninguém, nem se ofendam com o que vou escrever. A maior parte dos dirigentes da nossa modalidade não está preparada para a tarefa. Muita gente pensa que o facto de saberem mudar as peças isso lhe dá o mérito para certas tarefas. Isso é tremenda falácia. A verdade é que a incompetência grassa em quantidade. Razão principal do atraso no xadrez nacional. Os exemplos estão à vista de todos. José Bray, 28/10/2012

O Mendigo do Átrium

É verdade, morreu o mendigo do Átrium. Paz à sua alma, isto se a alma existir e o além também. Com cinismo digo o que qualquer mortal dirá. Foi o melhor que lhe pode ter acontecido, assim já não sofre mais! Mas estaremos certos? Penso que não. O ser humano só tem a vida para viver, esse é o seu património. Morreu, já não vive mais! Verdade de ”la Palice”. Não era um homem idoso na idade, era sim velho na vida. Não era difícil prever o seu fim, era coisa de mais semana menos semana. Mesmo assim chocou-me a sua morte, morte há muito anunciada. De certeza que não queria partir, mas este mundo cruel está-se nas tintas para quem está no fundo. O homem precisava de assistência, comida, roupa, medicamentos e algum carinho. Pergunto. Será que ELE se preocupa com estes casos? Deve estar muito distraído, ou então bandeou-se para o lado dos desnecessitados. Devo ao mendigo um enorme favor, coisa do seu total desconhecimento enquanto ser vivente. Se existir algo para além da morte, agora já deve saber o quê. Foi devido à sua frase. – Bom tarde, sou o mendigo do Átrium, preciso da sua ajuda. Que me levou a meter ombros à tarefa de escrever o “Vagabundo Filosofo e Utópico”.O meu trabalho de Julho deste ano. Na brincadeira dizia aos amigos e amigas. Se o trabalho vier a público, os direitos de autor serão para o mendigo Átrium. Afinal, vai ter direitos de autor! Como irá receber o prometido? José Bray, 28/10/2012 Nota: O Átrium é um pequeno centro comercial na terra onde vivo.