sexta-feira, 22 de julho de 2011

XADREZ NAS ESCOLAS

Transcrevo este documento de superior importância do responsável do Xadrez Escolar do Brasil! Os nossos senhores do PODER, deviam lê-lo e parar para pensar! José Bray


Xadrez EscolarUm Instrumento Multidisciplinar numa Escola de Qualidade.
Pelo GM Jaime Sunye - Coordenador do Projeto Nacional de Xadrez Escolar Neste início de século a sociedade, em seus setores sociais, econômicos e políticos, vêem apresentando múltiplas demandas ao sistema educacional. Isto, aliado à renovada confiança no poder da educação, na sua importância para o desenvolvimento do país, à extensão da oferta, o aumento do percentual de engajamento na escola da população em idade escolar, e as incertezas futuras que marcam esta época vêm pressionando o conjunto do sistema educacional a rever objetivos e prioridades, bem como à busca da melhoria da qualidade de ensino.
O tema “qualidade de ensino” encontra ampla discussão, com múltiplas aproximações que refletem ideologias, concepções e expectativas distintas. Uma forma de clarear um pouco mais esse tema é considerar os objetivos que se coloca à educação.
Uma formulação para a qualidade de ensino seria que “Uma escola de qualidade é aquela que estimula o desenvolvimento das capacidades cognitivas, sociais, afetivas e morais dos alunos, contribui para a participação e a satisfação da comunidade educativa, promove o desenvolvimento profissional dos docentes e influi com sua oferta educativa em seu ambiente social. Uma escola de qualidade leva em conta as características de seus alunos e de seu meio social. Um sistema educacional de qualidade favorece o funcionamento desse tipo de escolas e apóia particularmente aquelas que escolarizam alunos com necessidades educativas especiais ou que estão situados em zonas socialmente ou culturalmente desfavorecidas. “(Alvaro Marchesi & Elena Martín, Qualidade de Ensino em Tempos de Mudança, Artmed, Porto Alegre: 2003, p. 22).
Desta formulação depreende-se que a qualidade de ensino decorre de um conjunto de fatores, com dimensões múltiplas, que compreendem as pessoas e suas ações (estudantes, professores, administradores, etc.), o ambiente, incluindo a infra-estrutura física (interno e externo à escola) e o sistema (educacional, social, político) a que pertence a escola.
Assim, a melhoria da qualidade de ensino deve entendida como a atuação no conjunto, maior ou menor, desses fatores, buscando-se alcançar os objetivos educacionais. Deve-se ressaltar que as escolas, ou os sistemas escolares podem ser mais eficientes em uns e menos em outros desses fatores, distintamente umas das outras, refletindo características locais ou regionais.
No tocante ao xadrez estão explicitamente envolvidas os seguintes aspectos:• desenvolvimento de capacidades cognitivas, sociais, afetivas e morais dos estudantes;• desenvolvimento profissional dos professores e envolvimento no trabalho;• inclusão social.
O jogo de xadrez tem sido muito utilizado em estudos sobre os processos de cognição humana, desde os clássicos estudos de Binet (Alfred Binet, Psychologie des Grands Calculateurs et Joueurs d’Echecs, Hachette, Paris: 1894 e Alfred Binet,. Mnemonic Virtuosity: - A Study of Chess Players, Genetic Psychology Monographs, 74,127–162, 1996 traduzido de Revue des Deux Mondes, 117, 826–859, 1893) que deram subsídios à elaboração dos conhecidos testes de QI no início do século XX, até as teorias mais modernas sobre a memória, no campo da psicologia cognitiva, (Fernand Gobet, Expert Memory – A Comparation of Four Theories em Cognition 66, p. 115–152, Elsevier, Amsterdam:1998), a aprendizagem (National Research Council, How People Learn – Brain, Mind, Experience and School, National Academy Press, Washington: 2000, p. 31-36, 43) e processos neurocognitivos (Michael Atherton , Jiancheng Zhuang , William M. Bart , Xiaoping Hu , Sheng He, A functional MRI study of high-level cognition. I. The game of chess em Cognitive Brain Research 16, 26-31, Elsevier, Amsterdan: 2003).
Muitos professores utilizam o xadrez como instrumento para trabalhar as capacidades relacionadas ao pensamento crítico, como auxiliar ao “aprender a pensar” que é mais importante do que aprender soluções de problemas específicos (Robert Ferguson,Teaching the Fourth "R" – Reasoning -Through Chess, sumário, United States Chess Federation, New Windsor: 1995). Para muitos jovens, o xadrez apresenta um potencial de auto-motivação bastante grande o que, nestes casos, favorece a utilização de processos mentais de alta abstração, que são próprios da prática desse esporte.Durante uma partida, o jogador deve estabelecer um plano estratégico e operações táticas ao longo da mesma. Isto requer do mesmo não apenas a verificação de conhecimento anterior (recuperação de informações da memória) como a realização de uma verificação sistemática de possíveis combinações de lances, com o julgamento contínuo de cada situação resultante, em termos dos vários elementos do jogo (material e posicional). Deve, então tomar decisões, escolhendo alternativas que levem ao sucesso, dentro das finalidades do jogo.
A atividade enxadrística realizada no contexto educacional permite trabalhar a melhoria da auto-estima dos estudantes, visto que a sua iniciação não requer pré-requisitos (características físicas, sociais, etc.) e é acessível aos estudantes situados em qualquer altura da grade escolar. No ambiente escolar as atividades são planejadas por séries, permitindo igual envolvimento dos estudantes, mesmo que apresentem dificuldades ou defasagem de aprendizagem em disciplinas curriculares, podendo servir como elemento motivador para a superação das mesmas.
Já as características de socialização, advindas da prática do xadrez, são comuns ao conjunto de atividades lúdicas e das práticas esportivas educacionais, já de muito conhecidas pelos educadores e se expandem por não conhecer as limitações físicas destes. Elas se encontram dentro de um conjunto maior de atividades que favorecem o desenvolvimento social (artes em geral, festividades, serviços da comunidade local, etc.).
Quanto aos professores brasileiros do ensino básico, observa-se uma forte tendência de engajamento nos programas de capacitação e aperfeiçoamento profissional e iniciativas, com ou sem apoio do poder público, inovadoras do ensino, procurando a superação das condições adversas e a diversidade sócio-cultural da população atendida pela escola.(INEP-MEC, Estatísticas dos Professores no Brasil, Brasília: 2003, p. 38-41)
Como apontado, a motivação dos professores com respeito ao seu trabalho e a expectativa de novos rumos e do sucesso dos alunos sob sua responsabilidade são componentes importantes da qualidade do ensino.
A iniciativa inovadora nas práticas pedagógicas tem se apresentado de várias formas; a abordagem criativa de temas tradicionais, projetos interdisciplinares, temas transdisciplinares, a incorporação de tecnologias como ferramentas auxiliares ao ensino, etc.Experiências foram observada no desenvolvimento do Projeto de Xadrez Escolar realizado pela Secretaria de Educação do Paraná desde 1980, que demonstram o potencial do xadrez como ferramenta pedagógica de apoio ao ensino das diversas disciplinas curriculares abordadas.
A questão da ação em direção à maior inclusão social de alunos em regiões desfavorecidas social e culturalmente pretende ser atingida pela vertente da manutenção, nos espaços de tempo ociosos da escola, das atividades de xadrez. O fato de possibilitar a permanência do estudante na escola, no contra-turno, envolvido com uma atividade extra-curricular é um ganho certo em seu desenvolvimento escolar, contribuindo diretamente para a diminuição significativa da exposição a situações de risco do meio urbano em que vive.
A ampliação da permanência dos estudantes no espaço escolar vem de encontro ao preceituado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação no que diz respeito ao ensino fundamental. Este aumento da permanência, que visa melhorar a qualidade de ensino, tem sido implementado justamente pela incorporação de atividades extra-curriculares, como a prática esportiva, artes em geral bem como ações da comunidade, todas elas, conforme já mencionado, com papel relevante no processo educacional.
No Paraná começamos o Ensino do Xadrez nas Escolas Públicas em 1980 e hoje contamos com mais de mil escolas estaduais com a oferta do ensino, tanto em aulas especificas como através de conteúdos transversais. Neste processo desenvolvemos recursos e metodologias que nos permitem atender, com qualidade, a mais de 300 mil escolares com custo inferior a um real por aluno.
O objetivo dos Ministérios da Educação e do Esporte de levar o xadrez a 20 mil escolas e 3 milhões de escolares nos próximos anos só pode ser realizado agregando parceiros de peso tanto no setor público como no privado. Os poderes públicos locais da área da educação e do esporte, municipal ou estadual, são parceiros obrigatórios enquanto o setor privado entrará sempre como facilitador e potencializador do processo.
Os primeiros passos já estão sendo dados através do Projeto Piloto, que está implantado em 5 estados: PE, PI, AC, MS e MG. São 250 escolas atendendo a quase 30 mil escolares e sua avaliação, prevista para terminar no próximo mês de julho, dará a forma definitiva deste projeto, mas já estão claros alguns aspectos importantes que integrarão sua expansão futura.
O primeiro é a relevância que necessita ser dada as características educacionais da região atendida e à capacitação dos docentes do ensino básico. Esta capacitação, por questões econômicas e de sustentabilidade, deve ser a mais descentralizada possível, seu aperfeiçoamento e acompanhamento serão à distância. Neste aspecto é fundamental o trabalho da Universidade Federal do Paraná, através do Centro de Capacitação Científica e Software Livre, no desenvolvimento mundial dos Servidores de Xadrez e na manutenção de um específico para o projeto.
A segunda é desenvolver, produzir e distribuir material instrucional de apoio de qualidade, tanto para docentes como para os alunos. Neste aspecto a importância da colaboração da comunidade enxadrística e pedagógica na elaboração do material e do serviço público na produção e distribuição é muito grande já que este material não está disponível no mercado.
Por último deve-se manter atividades motivadoras que realcem os aspectos lúdicos, criativos e éticos evitando excessos competitivos.
As dificuldades encontradas são importantes, mas não determinantes e o sucesso do Projeto Nacional depende mais da compreensão dos pedagogos de suas possibilidades que de limites econômicos ou políticos. Como este esclarecimento vem ocorrendo de maneira positiva, como demonstra o número de estados e municípios interessados em participar da próxima fase, acredito que em menos de uma década a prática do xadrez escolar nas escolas públicas brasileiras será corriqueira.
GM Jaime Sunye NetoCoordenador do Projeto Nacional de Xadrez Escolar

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Daniel Bray - Campeão Absoluto de Leiria

































Nas excelentes instalações da Casa da Cultura de S. Martinho do Porto, disputou-se a prova rainha do Distrito de Leiria. Foram três dias de sã camaradagem, naquela maravilhosa povoação!



O jovem Daniel Bray (Sport Operário Marinhense) está de parabéns pois é (pela segunda vez) Campeão Distrital Absoluto de Leiria da presente época 2010/11, vencendo todas as partidas. Tinha sido Campeão pela primeira vez na época 2008/9 apenas com quinze anos.
Assim a classificação dos doze primeiros ficou assim ordenada:1º - Daniel Bray (Sport Operário Marinhense) - 6 pontos em 6 possíveis, 2º - José Bray (Sport Operário Marinhense) - 4,5 pontos, 3º - José Lopes (Xeque Mate S. Martinho Porto/CC SM Porto) - 3,5 pontos, 4º - José Cavadas (Academia Xadrez Benedita) -3,5 pontos, 5º - Rui Rogado (Academia Xadrez Bombarral/CCMB) - 3,5 pontos, 6º - Ricardo Oliveira (Sport Operário Marinhense) - 3 pontos, 7º - João Silva (Xeque Mate S. Martinho Porto/CC SM Porto) - 3 pontos, 8º - Mário Dores (Academia Xadrez Benedita) - 3 pontos, 9º - Tomás Gomes (Xeque Mate S. Martinho Porto) - 2 pontos, 10º - Eustácio Justiniano ( Xeque Mate S. Martinho Porto) - 2 pontos, 11º - Tomás Oliveira (Academia Xadrez Benedita) - 2 pontos, 12º - Rodolfo Silva (Xeque Mate S. Martinho Porto) - 2 pontos
Curiosamente em segundo lugar ficou o treinador do campeão.

domingo, 5 de junho de 2011

Xadrez - Abaixo os truques e a malandrice

Sempre imaginei o Xadrez, como ciência, arte e desporto, para muitos (onde me incluo), uma filosofia e para alguns, uma (quase) religião. Sempre considerei o Xadrez uma escola de valores, formador de homens, portanto muito útil aos jovens no seu crescimento como seres humanos úteis à sociedade.
Aprendi a jogar já adulto em ambiente de elevada educação e são desportivismo. Ensinaram-me a aceitar a derrota, mas também a saber vencer, como faces da mesma moeda. Ambas supérfluas e passageiras, ambas mentirosas.
O Xadrez é um jogo democrático, em que ninguém tira a vez a ninguém. No Xadrez todos têm oportunidades iguais, no Xadrez não há batota.
Mas! Há sempre um mas, razão deste meu texto.
Como todos podem comprovar, actualmente as coisas não são bem como pensava e sonhava. Há cerca de dez/quinze anos, uma parte dos treinadores, monitores e seccionistas deste país, começou a implementar uma filosofia muito própria. Desenrascar por qualquer maneira, mesmo ilícita ou por truque legal extra jogo.
Esses responsáveis, que felizmente não são todos como é óbvio, estão a prejudicar o desenvolvimento dos jovens. Antes de aprender a jogar, a miudagem aprende todas as malandrices possíveis. Não vou enumerar todos os truques, a lista é longa e todos nós sabemos quais são e muitos já foram vítimas dos mesmos.
Todos têm de saber defender-se, claro que sim! O que peço é que os miúdos aprendam primeiro a jogar. Compreendam que perder e ganhar faz parte do jogo e respeitar o adversário é regra importante.
Responsáveis tenham calma com os vossos jovens, as partidas ganham-se, empatam-se ou perdem-se no tabuleiro e só aí! Não façam do Xadrez uma selva!

O meu Clube vai a votos!

O meu amado Clube vai a votos! Amanhã há eleições, eu sou o senhor Habitual, porque sou o homem da mesa de assembleia-geral por sistema, tantas vezes que já nem sei contar.
O meu amado Clube sofre uma crise sem precedentes, por essa razão a Direcção eleita democraticamente demitiu-se por não encontrar consenso para ultrapassar as dificuldades. O presidente cessante, senhor Esperto sentiu-se impotente para governar o meu amado Clube.
O meu amado Clube não tem dinheiro, desceu de divisão por não cumprir os regulamentos, não ganha nada nem a feijões! Mas curiosamente apareceram diversas candidaturas a um osso que já não tem carne. Entre eles o senhor Esperto, o tal que não tinha condições para governar. Temos outro candidato forte, o senhor Vivaço, que reconhecendo a falência do meu e seu amado Clube, está disposto a tomar conta do barco. Depois temos mais dois candidatos, o senhor Miúdo e o senhor Velho, um atrasado, outro ultrapassado.
Vai ser uma luta muito interessante, devido há falta de argumentos de todos os candidatos. Segundo sei o senhor Esperto e o senhor Vivaço, vão apresentar o mesmo projecto, só mudando a cor do papel. Os outros dois como é para perder, não querem gastar papel nem tinta, um vai rir o outro vai chorar.
Por sua vez os sócios estão tão optimistas que já decidiram não aparecer para votar, eles sabem que mesmo que as moscas mudem a trampa é a mesma.
Já viram a minha situação? O meu amado Clube vai a votos e todos sabemos que não há votos para contar. Espero pelo menos a presença do secretário da mesa, para podermos cavaquear e dizer mal dos candidatos que segundo parece vão para a praia.

sábado, 4 de junho de 2011

Xadrez - VI Festival da Lourinhã

Carlos Baptista (o Indomável) é o responsável por algo muito bem organizado! Isto num país com pouca sensibilidade para a arte de Caissa é de louvar e aplaudir. Os Encontros de Xadrez da Lourinhã, seis foram realizados, são do melhor que se faz em Portugal na área do xadrez, modalidade tão esquecida pelo Poder Central.

Sempre tive uma atracção pela Lourinhã, a povoação caiu-me no goto há muito tempo. Vou ao Festival há quatro anos e lamento não ter ido a todas as edições, no futuro enquanto puder não vou faltar.

Nestes Encontros de dois dias há de tudo, dois torneios sendo um para jovens, simultâneas, conferências, exposições. Muito convívio e espírito desportivo de realçar! Todos os anos há um mestre convidado que prestigia o xadrez e a organização, eles aqui estão por ordem de presença; Igor Glek, Luis Galego, António Fróis, Joaquim Durão, Luís Santos e Sérgio Rocha.

Este ano, foi o máximo com o lançamento de um livro de xadrez do mestre Luís Santos, a partir da página que o mestre publicava na Capital. Um excelente trabalho da organização!

A Câmara Municipal da Lourinhã como patrocinadora destes Encontros está de parabéns e o xadrez agradecido pelos eventos! Cada vez gosto mais da Lourinhã!A organização é de alto nível, até para quem entra na povoação tem indicações do local. As inscrições são simbólicas e a comida excelente! A filosofia de prémios deslumbra o mais exigente, é em géneros, livros e material de xadrez. Muito bem pensado!

Todos sabem que sou muito exigente! Estou encantado! Amantes do xadrez venham à Lourinhã no próximo ano!

Mas o grande homem destes encontros é sem dúvida o Carlos Manuel Maximiano Baptista (o Indomável), que me perdoe alguém para quem esteja a ser injusto. Dá muito trabalho e dor de cabeça, criar uma obra destas, só ele! Obrigado amigo e não desistas!

José Bray


sábado, 30 de abril de 2011

Júlio Freire - 90 dias de Aljube!

O meu sogro foi uma personagem fascinante, não resisto ao desejo de falar da sua pessoa. Mais vezes o irei fazer! Será uma forma de homenagear a sua memória! Bray


Júlio Freire – O Aljube
Maio de mil novecentos e cinquenta e oito, eleições para a Presidência da República, Américo Tomas candidato do regime, Humberto Delgado candidato da oposição.
Era sábado, vésperas de eleições. Eleições? Não me façam rir, era tudo uma fantochada naquele tempo não havia essa coisa na política nacional, talvez houvesse em alguns clubes mas não no governo. Era Salazar, outra vez Salazar, sempre Salazar e quem ele lá metia para servirem de lacaios e de capacho. Na porta da padaria do Júlio Freire, o próprio mais alguns homens de meia-idade trocavam opiniões, falando um pouco de tudo, mas no acto do dia seguinte nem pensar, era preciso cuidado com os bufos. Um dos temas de conversa era a ida às sortes de alguns filhos dos presentes e de alguns ausentes, eles até estavam à espera da camioneta que havia de trazer os mancebos de volta.
Em dada altura, passou no sentido do cemitério o jipe da Guarda Nacional Republicana, que de republicana nada tinha, uns infelizes que para fugirem ao trabalho do campo tinham vendido a alma ao diabo, ganhando uma miséria, deslocados para longe de casa alimentando-se de pão e enchidos, desenvolvendo cancro no estômago devido a esse disparate alimentício. O Joaquim, um dos presente, disse entre dentes, filhos da puta!
Passados que foram quinze minutos o jipe voltou, parou junto do pequeno ajuntamento, os militares saltaram para fora com as ultrapassadas espingardas, sim, iguais às que assassinaram Catarina Eufémia que tinha um filho ao colo e outro no ventre. O mais graduado fazendo cara de mau e voz grossa, disse. Júlio Freire e Joaquim Mendrico, estão presos, entrem no jipe. E lá foram conforme estavam, o padeiro embora estando à sua porta não pôde mudar de roupa, foi obrigado a levar o casaco roto que usava na pesca. Ficaram os familiares em grande sofrimento e cheios de pânico.
Que se passava? Salazar, quis tirar de circulação todos os democráticos deste país, por isso a cena repetiu-se por todo o Portugal. Com esta prepotência atingiu dois objectivos, menos votos para a oposição e amedrontar os restantes. As prisões foram tantas que os PIDES e os bufos não chegaram para as encomendas, foi preciso a Guarda Nacional República e a Legião Portuguesa actuarem em força também!
Os dois companheiros de infortúnio foram levados para o posto da GNR na capital do distrito e sem quaisquer condições lá permaneceram até segunda-feira. Má cama, má comida, mau trato, a sorte (ironia) foi ser Maio, o tempo estava quente! Nesse dia um PIDE veio levantar os homens e de comboio seguiram para Lisboa, destino o Aljube. Alguém da terra os viu na estação e pensou que o destino era a aldeia de ambos, a notícia correu célere, as famílias ficaram ricas de esperança, mas era boato, o regresso aconteceu só passados noventa dias.
Júlio Freire e Joaquim de alcunha Canca, eram na verdade dois democratas de esquerda, um mais radical que o outro, mas homens honrados. O primeiro era mais pacífico no trato, mais tímido, o segundo não, era um revolucionário ardente sempre reagindo, por isso iria levar umas porradas enquanto esteve na prisão. Os dois homens sempre pensaram que após as eleições seriam soltos mas não, a viagem para a capital foi um choque para eles.
Nesta saga aconteceram algumas histórias dramáticas, mas também aconteceram algumas com graça no meio da desgraça! Vou contar uma que tem espírito.
Ao chegar ao Aljube, separaram o Freire do companheiro, começando a dança do terror. Edifício de pedra muito velho, portas de ferro pesadonas e rangedoras, lembravam os sons das prisões da Inquisição, escuridão e humidade. Tudo para atrofiar o mais valente. Por fim, lá instalaram o pobre padeiro na cela com pouca luz e com dois catres. Nessa altura, o Júlio Freire já perdera a força anímica entrando em depressão, perdeu a resistência e a esperança, sentado na enxerga começou a chorar convulsivamente! Com o sofrimento não reparou que ao fundo já lá estava outro preso. Foi então que ouviu uma voz triste com acentuado sotaque alentejano. Olhou, na outra cama um homem lia um papel.
-- Senhor Júlio não desanime porque hão-de vir melhores dias, pense na sua família, pense na sua filha que ainda precisa de si!
--Homem, você é bruxo ou foi posto aqui para me espiar? -- Assim inquiriu o Freire.
--O senhor não se aborreça porque isto foi a uma carta que eu escrevi a mim mesmo.
--Então como é que o senhor sabe que me chamo Júlio, e tenho uma filha? -- Voltou o padeiro a argumentar.
--Mas meu senhor, chamo-me Júlio e tenho uma filha! Fui eu que escrevi esta carta que estou a ler para me animar!
Os dois homens, olharam um para o outro, primeiro com desconfiança, depois riram com satisfação aliviando por algum tempo a pressão da cadeia.
José Bray -22/10/2010

segunda-feira, 28 de março de 2011

Filarmónica da Ermegeira - Parabéns!






A Banda da Ermegeira fez anos, cento e vinte nove a tocar! Já vem do tempo de D. Luís, rei culto que fomentou o nascimento de filarmónicas por todo o país! Meus amigos, tentem situarem-se nessa época e pensem na importância dessas medidas do rei, comparem os tempos e as tecnologias. Os nossos actuais governantes deviam colocar os olhos no exemplo de D. Luís. Mas mudemos a bússola...

Como não não podia deixar de ser fui ao concerto comemorativo, gostei do que ouvi e vi! Cerca de quarenta músicos, sendo um terço raparigas. Tudo muito afinado e superiormente dirigido pelo Maestro Álvaro Reis. Este responsável tem dedicado a sua vida à Banda e inclusive tem excelentes composições, por exemplo, "O Parque da Várzea". Logo que posso colocarei essa marcha neste Blog.

Após o concerto foi servido um farto beberete, gratuito, serviu para conversar com familiares e amigos, seguiu-se uma a sessão de fotografias, projectadas em ecrã e recordou-se, tios e primos já desaparecidos.

O meu avoengo Silvério Pedro da Roza Bray (junto foto) foi um dos fundadores, outro Silvério (junto foto) seu neto e meu padrinho, foi o músico com mais tempo de banda, mais de setenta anos. Conta-se que em França a banda só pôde contar com um trombone, o padrinho sozinho fez o trabalho todo e foi um show. Houve uma altura em que os Bray enchiam a banda! Hoje não!

Contaram-me uma terceira versão sobre o nascimento da Banda, mas fica para outra altura. Entretanto juntos três fotos da Filarmónica de épocas diferentes, fundação, anos cinquenta e actual.

Povo da Ermegeira, ajudem e acarinhem a vossa Banda, se ela acabar a alma da aldeia também morrerá!

Gostei muito e na próxima lá estarei!